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Karmaşık Sistemler

tú-Branco)

A morte de Joca Ramiro é o ponto de partida para Riobaldo firmar-se como jagunço, reconhecido pelo codinome Tatarana, e líder, reconhecido pelo codinome Urutú-Branco. Outro objetivo é traçado a partir da morte de Joca Ramiro, a saber, a vingança. Este objetivo será alcançado, fundamental e episodicamente, com a morte de três personagens: Ricardão; Hermógenes e Diadorim.

A narrativa da morte de Joca Ramiro apresenta um tom fantástico. Joca Ramiro é o grande líder, o jagunço exemplar, a própria encarnação do herói guerreiro (em termos míti- cos) ou do justo sofredor (em termos bíblico-teológicos). Personagem de tamanha importân-

650 Idem. Aqui se destaca o significado da palavra somítico como avaro, espécie de alteração de semítico. MAR-

TINS, Nilce Sant’Anna. O Léxico de Guimarães Rosa, p. 465.

651 Id. Grande Sertão: Veredas, p. 127.

cia ao protagonista-narrador que assumia status de semi-deus, uma espécie de divindade responsável até mesmo pelo sentido de existência dos outros jagunços do bando. Vejamos o que diz Riobaldo sobre seu líder máximo:

“Joca Ramiro era um imperador em três alturas! Joca Ramiro sabia o se ser, governava; nem o nome dele não podia atôa se babujar. E aqueles outros: o Hermógenes, Ricardão? Sem Joca Ramiro, eles num átimo se desapruma- vam, deste mundo desapareciam – valiam o que pulga pula”.653

Tudo o que este personagem representa e todas as virtudes atribuídas a ele revelam- no, sem exageros, como um ser divinizado ou humano-divino, com correspondências possí- veis em diferentes textos religiosos ou, segundo Rosenfield, com as personagens míticas das narrativas medievais – Rei Arthur ou o Rei Marcos – que figuravam ao povo como legais representantes de Deus na terra654. No episódio da morte deste fica nítido a representativi- dade de tal líder no imaginário de Riobaldo:

“– ‘Mataram Joca Ramiro!...’ (...) Que no céu, só vi tudo quieto, só um moí- do de nuvens (...) Arre, eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços. Se- cou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Até atravessado, na barri- ga, me doeu. (...) Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter matado?“655

Deste episódio em diante a vida do jagunço Riobaldo direciona-se para um novo hori- zonte. Este momento novo configura-se, na verdade, numa saga. A saga do jagunço Riobal- do, o líder que “nascerá e morrerá” com a morte. A partir deste marco – a morte de Joca Ramiro – tem-se um novo começo, um nascimento que, pela boca de Riobaldo, apresenta-se claramente:

“Mas, agora, tudo principiava terminado, só restava a guerra. Mão do ho- mem e suas armas. A gente ia com elas buscar doçura de vingança, (...) Joca Ramiro morreu como o decreto de uma lei nova.”656

De conseguinte tem-se a primeira declaração de um dos principais do bando, Alaripe, que reconhece a liderança de Riobaldo: “Mano velho Tatarana, você sabe. Você tem sustân- cia para ser um chefe, tem a bizarria657(...).”658

653 Id. Ibidem, p. 195.

654 ROSENFIELD, Kathrin H. Grande Sertão: Veredas: Roteiro de leitura. p. 44.

655 ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas, pp. 311 e 312. É possível fazer uma ponte com a morte de

Jesus, uma vez que esta, no evangelho de Marcos, é narrada em tom fantástico e envolve elementos da natu- reza: “Ao meio-dia houve trevas em toda terra até as três horas.” Mc. 15, 33 e Mt. 27, 45 versão Bíblia TEB.

656 Id. Grande Sertão: Veredas, p. 314.

657 Bizarria significa bravura, valentia; ação nobre e generosa; brio e galhardia. Nilce Sant’Anna MARTINS, O

Léxico de Guimarães Rosas, p. 74.

Outro fato perpassado pelo evento morte, se dá por conta da morte de dois jagunços, causadas por Tatarana, no tempo que se dá entre a pergunta: “Quem qu’é o Chefe?”659. Nesse momento novo, o analfabeto e letrado Riobaldo e o jagunço e atirador Tatarana ce- dem lugar para o nascimento do “líder e dono dos jagunços”660, Urutú-Branco, que diz a respeito deste novo nome-identidade:

“O nome que ele me dava, era um nome, rebatismo desse nome, meu. (...) Até porque mais não seria que, eu chefe, agora ainda me viessem e disses- sem Riobaldo somente, ou aquele apelido apodo conome, que era de Tatara- na.”661

Mais um novo começo, um novo nascimento na “estória” do protagonista-narrador, ra- tificado pela presença do termo rebatismo e pela declaração de recomeço: “Agora, o tempo de todas as doideras estava bicho livre para principiar.“662

Aqui, na observação de Antonio Candido, há uma aproximação enfática com os ritos memorados nos romances de cavalaria. Além disso, o crítico pontua este momento como “a mudança do ser”, lembrando de tantas sociedades que têm, na iniciação de seus membros, a simulação da morte e da ressurreição como ponto alto da celebração iniciatória. Tal celebra- ção nos é interessante tanto por indicar que há um movimento entre morte e vida, ou me- lhor, morte e nova-vida que:

1. preserva a ambigüidade da morte como possibilitadora da recriação da vida; 2. preserva a ambigüidade da vida como possibilitadora de ressignificação da mor-

te663;

No intuito de apoiar essa perspectiva necessariamente ambígua em relação a morte e a vida, ouçamos o que diz Paz:

“Mas a morte é inseparável de nós. Não está fora: a morte é nós. Viver é morrer. E precisamente porque não é algo exterior, ao contrário, está inclu- ída na vida, de modo que todo viver é também morrer, a morte não é algo negativo. A morte não é uma falta da vida humana; ao contrário, ela a completa. (...) Vida e morte, ser ou nada, não constituem substâncias ou coisas separadas. Negação e afirmação, falta e plenitude coexistem em

659 Id. Ibidem, p. 452.

660 “(...) eles (os jagunços) não careciam nem de ter nomes – por um querer meu, para viver e para morrer, era

que valiam”. Id. Ibidem, p. 456. O que está entre parênteses é grifo meu.

661 Id. Ibidem, p. 454.

662 ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas, p. 455. 663 JÜNGEL, Eberhad. Morte, pp. 5 e 6.

nós.” 664

Com isso, morte e vida se movem correspondentemente sob a égide do duplo, que i- dentifico nesta pesquisa como cultura da ambigüidade. Riobaldo: o iniciado sai trans- formado. Agora seu nome é Tatarana. Nome que, teopoeticamente, pode ser lido como nova vida, novo modus vivendi e, mais adequadamente, como experiência de outridade. Riobal- do-Tatarana, novo ser, está apto para o desafio que há de cumprir, a saber: o da vingança, o “tempo de guerrear”.665

Benzer Belgeler