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Kardiyak Sarkoidoz Olduğundan Şüphelenilen Hastalara İlk Görüntüleme Testi olarak Kardiyak MRI, TTE veya PET Uygulanmalı mı?

Há dez versões pré-editoriais do livro, são versões digitadas ou datilografadas, duas delas apresentam correções de terceiros: a primeira corrigida por Regina Fiúza e a segunda, que nos interessa em especial, corrigida por Oswaldo Lamartine. As cronologias em relação às versões do romance foram estabelecidas segundo informações colhidas no estudo de Elisabete Lima (2009).

Todos os textos, inclusive, as cartas de Natércia a Jorge Medauar eram digitadas por Lilá, uma funcionária da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará e colega de trabalho de Natércia111. Depois de digitados, Natércia pedia a amigos que corrigissem, principalmente, a ortografia, a sintaxe e a pontuação.

A primeira versão [Versão 1] que se encontra no Arquivo Pessoal de Natércia corrigida à mão e a lápis preto por Regina Pamplona Fiúza consta na capa: “Revisão

Regina Benevides Fiúza em 20 de novembro de 1998”. A seguir estão outras anotações,

no lado direito as palavras: “escora/amparo”; mais abaixo: “para meu pai”. Este texto está todo corrigido.

Além disso, destacamos o título do texto centralizado, a princípio o romance poderia se chamar “Acauã”. Observamos na [versão 1] que o referido título foi pensado pela escritora, mas riscado em seguida, permanecendo apenas seu nome

“Natércia”.

110 Segundo Biasi (1997), as fases que compõem o processo genético de uma obra são: pré-redacional

(pesquisas, esquemas, esboços, rascunhos); redacional (organização estruturada do texto); pré-editorial (manuscrito em sua forma mais elaborada, quase sem inferências autógrafas) e fase editorial (impressão, provas, publicação).

111 Informação obtida na entrevista de Neide Lopes à Elisabete Samapio Alencar Lima (2009), p. 145,

Vale destacar também que “Acauã” é o nome da fazenda de Oswaldo Lamartine, uma das casas que inspiraram a escritora para elaborar a arquitetura do espaço ficcional do romance.

Versão 1.

As correções que a escritora Natércia Campos fazia em seus textos indicam um perfil crítico e exigente para com o possível texto final e um respeito ao leitor.

Acreditamos que Natércia solicitava a leitura e sugestões de terceiros talvez porque precisasse do julgamento criterioso sobre sua escrita. “Algumas pessoas são escolhidas pelo artista para terem esse tipo de acesso preliminar às obras, recém- terminadas ou ainda em processo. Essa relação entre o artista e o leitor particular, como Cortázar (1991) o denomina, envolve confiança e respeito”112

. Assim, alguns leitores particulares do texto de Natércia foram fundamentais para auxiliar na constituição do romance.

112 SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado: processo de criação artística. 2ª edição. São Paulo:

Na verdade, observamos que a escrita de Natércia se compartilha com terceiros. Assim, além de compartilhar sua escrita com amigos e parentes, a escritora fazia destes seus leitores particulares, haja vista o caráter sigiloso e inédito dos rascunhos de seus textos, dentre outras particularidades. Do mesmo modo, como “rato de arquivos” que somos, percebemos que as versões do texto final do romance estão repletas de correções.

No arquivo pessoal de Natércia Campos há duas versões do romance corrigidas pelo escritor Oswaldo Lamartine. Nestas versões [Versão 2] [Versão 3], o escritor potiguar apresenta sugestões importantes, principalmente, correções de conteúdo, expressões regionais e aspectos da cultura popular:

[Versão 2]

Na margem superior está a seguinte anotação: “Levei p/o Oswaldo ler! meu.

Acrescentei. Ele assinou no final”. Mais abaixo a seguinte expressão: “Revisto e Melhorado!” Em outro trecho desta versão corrigida por Oswaldo Lamartine [página

41] constatamos uma sugestão acolhida por Natércia. No primeiro parágrafo, a escritora cearense troca a seguinte frase “quando os arrebatamentos” pela expressão “a fervença

[Versão 2]

No romance localizamos esta passagem:

Foi de tia Alma que primeiro ouvi sobre as sombras que aqui perpassam desde as trindades ao amanhecer. Durante o dia o rebuliço dos vivos burla o tempo, mas a noite ao chegar, quando a fervença da carne entre os homens e mulheres arrefece, a lida do viver adormece, e o tempo parece longo como uma insônia, é que as sombras se esgueiram pelos cantos dos quartos, na curva do longo corredor ampliadas ou diminutas pela chama oscilante das candeias113 (grifo nosso).

Já na segunda versão corrigida por Oswaldo percebemos que aparecem mais considerações no tocante ao aspecto cultural:

[Versão 3]

Notamos na margem superior direita a seguinte notação escrita a lápis por Natércia: “Corrigido pelo Oswaldo”. Neste texto observaremos mais sugestões de leitura e questionamentos que o escritor faz a Natércia, ou seja, Lamartine se comporta como revisor de conteúdo diante das informações descritas no romance:

[Versão 3]

No trecho a lápis, Lamartine, sugere informações a respeito das codornizes:

“existe; mas é pouco comum em nossa avifauna. Dizem não araponga e graúnas.”

Talvez haja sido uma dúvida de Natércia. Atentemos para o fato de que mais abaixo há

alguns complementos escritos a lápis pela escritora: “não mais se ouviu/ o grito áspero

das cauãs”, logo em seguida, riscada, está aquela que poderia ser a dúvida da escritora: “o grito metálico das arapongas”.

No romance percebemos apenas um acréscimo na última frase desta passagem da versão 2: “Silenciaram as rãs, os tetéus, bacaraus, saracuras, gaviões, curicacas, codornizes. Não mais se ouviu o grito áspero das cauãs, o clamor das seriemas e o suspiro das juritis”114

. Talvez esse acréscimo na informação tenha sido em virtude do comentário de Lamartine que descartou o grito da arapongas.

Além disso, Lamartine complementa o pensamento de Natércia em muitas passagens do texto:

[No verso da página 73], Lamartine escreve com caneta vermelha a seguinte informação: “Ainda novas cuidava para crescerem direito. Tutorava caules como quem

encana osso quebrado. Forquilhas contra o vento que emboboca. Podas de formação. Capinas. Cuidado com as formigas e lagartas. Estrume bem curtido entre uma safra e outra. Regas regradas tudo para elas agradecerem em bons frutos, mesminho como

se faz quando se cria um filho.” Na verdade, esse trecho completa o pensamento de

Natércia na página 74 desta versão do romance.

Como podemos ver, Natércia escrevia à mão, riscava e reescrevia inúmeras vezes um período ou uma frase, recriando ou se apropriando de algumas expressões populares, quase sempre pela tentativa de modificar os textos que pesquisou. A reescrita é uma constante, como se ela precisasse sempre organizar o pensamento e amadurecer suas ideias. “Escrever para a maioria dos grandes escritores, é quase sinônimo de reescrever, pois é praticamente impossível recriar uma obra de arte sem o amadurecimento das idéias e o trabalho da linguagem, o que é documentado pelas rasuras”115

.

Para uma segunda edição da obra, veio a contribuição do escritor, poeta, professor e ensaísta, também amigo de Natércia, Rafael Sânzio de Azevedo, encarregado de revisar a parte gramatical do romance116.

Todavia, não encontramos a versão corrigida pelo Professor Sânzio, apenas algumas anotações atestando que foi ele o revisor para a 2ª edição do livro.

Nos manuscritos a seguir observamos essas informações, quando da entrega do livro à gráfica para a segunda edição.

115

GRANDO, Cristiane. A importância da crítica genética para as aulas de produção de textos. In:

Manuscrítica: revista de crítica genética. São Paulo: 2001, p.203.

M.1

M.2

Destarte observamos que muitas foram às versões e os leitores dos textos de Natércia.

Assim sendo, estabelecidas as relações entre uso, matéria e o projeto de escrita da escritora, podemos observar que, muitas vezes, uma matéria é eleita em meio à

complexidade de uma manifestação artística. De tal modo, elegemos a cultura popular e as pesquisas para compor o romance como ponto-chave para este estudo do romance A Casa. Bakhtin trata, na obra a Estética da Criação Verbal117, como a palavra do escritor pode ser adaptada às finalidades estéticas. Assim, o teórico russo vê a tarefa do artista condicionada pelo projeto artístico, cuja finalidade seria a de superar uma determinada temática. Igualmente, o contato com os limites da pesquisa e estudo realizados pelo escritor faz parte do processo de conhecimento do próprio assunto.

Entrar em contato com a matéria do texto de Natércia Campos seja para apreciação, pesquisa ou estudo, equivale dizer que se vai ao encontro dos elementos simbólicos da cultura do povo sertanejo e nordestino. Assim conforme nos orienta Philippe Willemart:

[...] na sua vida de pulsões e de desejo, o escritor, para não dizer o artista em geral, particularmente sensível à tradição cultural e ao mundo em que vive, retém de forma singular informações e sensações do passado e do presente. Os elementos detidos nesse filtro particular formam um entrelaçamento ou nó, que de certo modo bloqueia o desejo do artista e o incomoda. Desse bloqueio ou dessa barreira nascem o primeiro texto e o autor. Não há portanto um primeiro texto escrito em alguma parte e transmitido por uma musa ao escritor atento, mas uma lenta aglutinação de elementos que, depois de algum tempo, devem ser ditos e escritos.118

O nó da leitura do arquivo consiste na mistura entre língua e discursividade, haja vista o jogo metafórico que pode se materializar na língua, inscrita na história, e ainda, o fato de a discursividade estar formada de efeitos na história.

Portanto, devemos considerar a pluralidade da leitura do arquivo de Natércia Campos, reiterando o nosso propósito em analisar o conjunto de manuscritos relativos ao trabalho de pesquisa e estudo realizado pela escritora para a construção do seu romance A Casa. O arquivo de Natércia Campos pode ser compreendido como uma das metáforas do próprio fazer literário, haja vista que aponta para a incompletude de um trabalho que pode ser julgado pela incompletude de todo saber.