D. FERAĠZ
7. Miras Taksimi Konusundaki GörüĢleri
7.5. KardeĢlerle Beraber Annenin Hissesi
Skinner dirigiu diversas críticas às explicações neurocientíficas do comportamento. Grande parte dessas críticas está associada ao posicionamento behaviorista radical acerca das teorias fundadas no método hipotético-dedutivo e constituídas por construtos hipotéticos (Skinner, 1950). Skinner (1988), em trecho retrospectivo, descreve essa prática teórica:
In 1950 I asked the question, Are theories of learning necessary?, and suggested that the answer was no. I soon found myself representing a position which has been described as a Grand Anti-Theory […]. Fortunately, I had defined my terms. The word theory was to mean “any, explanation of an observed fact which appeals to events taking place somewhere else, at some other level of observation, described in different terms, and measured, if at all, in different dimensions” – events, for example, in the real nervous system, the conceptual [nervous] system, or the mind. I argued that theories of this sort had not stimulated good research on learning and that they misrepresented the facts to be accounted for, gave false assurances about
81 the state of our knowledge, and led to the continued use of methods which should be abandoned (pp. 101-102, itálico adicionado).
Foi justamente a crítica a esse tipo de teoria que rendeu a alcunha de anti-teórico à Skinner (1969b, 1988). Ademais, é a esse tipo de teoria que o autor associa as neurociências. Mas antes de tratar desse assunto é preciso esclarecer algumas questões. Primeiramente, precisamos entender a definição de Skinner da “má teoria”. Em segundo lugar, é necessário explicar por que, afinal, esse tipo de teoria seria ruim no contexto da ciência do comportamento.
Para tanto, é interessante retomar a definição que Skinner nos fornece. O autor (1950) afirma que a má teoria consiste em “…any explanation of an observed fact which appeals to events taking place somewhere else, at some other level of observation, described in different terms, and measured, if at all, in different dimensions” (p. 193). Essa definição só faz sentido à luz do fenômeno que se pretende estudar. No caso do comportamento, a má teoria seria aquela que tenta explicá-lo a partir de eventos que ocorrem em outro lugar que não na relação comportamental (tais como eventos neurofisiológicos e eventos mentais). O mesmo vale para o nível de observação: dizemos que cientistas observam níveis distintos quando as variáveis que controlam o seu comportamento são distintas (seção 1.3). Seria problemático, portanto, explicar o comportamento a partir de eventos que não fazem parte da relação comportamental, ou seja, que não constituam eventos ambientais e eventos-ação do organismo (seção 1.3).
Conforme exposto na seção 1.3, os conceitos das ciências são abstrações estabelecidas a partir das relações funcionais entre as respostas verbais do cientista (os “termos” que ele usa) e as condições que estabelecem a ocasião em que elas ocorrem. Os conceitos da ciência do comportamento, portanto, dizem respeito às relações entre eventos ambientais e eventos- ação. Explicar o comportamento a partir de uma teoria que contém conceitos referentes a
82 outros tipos de eventos seria fornecer uma má teoria do comportamento pelo seguinte motivo: as boas teorias seriam descrições abstratas construídas a partir da constatação de relações ordenadas entre eventos. Trata-se da quinta definição de teoria sobre a qual discutimos anteriormente. Teorias cujos conceitos não possuam essa gênese no dado a ser explicado – isto é, nas relações comportamentais observadas – não são propriamente teorias sobre o dado a ser explicado, já que as condições que estabelecem o controle sobre o comportamento verbal de “teorizar” não estão no fenômeno a ser explicado, mas em outro lugar.
Não está claro o que Skinner quer dizer com teorias que utilizam “medidas em diferentes dimensões” (cf. Killen, 1987; Kitchener, 1996). Entretanto, uma resposta possível talvez possa ser encontrada no primeiro passo da construção da boa teoria: a seleção do objeto de estudo. Conforme visto, Skinner selecionou como dado básico de sua ciência a frequência de respostas, por conta de sua função direta na previsão e controle do comportamento. Em adição, Skinner (1986a, 1989a), a partir da ideia da cadeia causal de três elos, também deixou claro quais seriam os eventos estudados pela análise do comportamento: eventos ambientais, antecedentes e consequentes, e as ações do organismo. Assim, qualquer evento que não esteja dentro dessa dimensão comportamental não poderia ser utilizado para “medir” ou, melhor dizendo, analisar o comportamento. Eventos neurofisiológicos, por exemplo, estão em outra dimensão e, por conta disso, demandam técnicas e procedimentos distintos dos utilizados na análise do comportamento, assim como relações comportamentais demandam técnicas e procedimentos distintos dos utilizados pelas neurociências (seção 1.1).
Além dessas considerações, outro ponto essencial que justifica a crítica a esse tipo de teoria estaria em sua íntima relação com o método hipotético-dedutivo. Não é à toa que ela é associada à criação de construtos hipotéticos. Sobre o método hipotético-dedutivo escreveu Skinner (1988):
83 A reputation as an antitheorist is easily acquired by anyone who neglects hypothetico-deductive methods. When a subject matter is very large (for example, the universe as a whole) or very small (for example, subatomic particles) or for any reason inaccessible, we cannot manipulate variables or observe effects as we should like to do. We therefore make tentative or hypothetical statements about them, deduce theorems, which refer to accessible states of affairs, and by checking the theorems confirm or refute our hypotheses. The achievements of the hypothetico-deductive method, where appropriate, have been brilliant. Newton set the pattern in his Principia, and the great deductive theorists who followed him have been given a prominent place in the history of science. […] but the resulting prestige is real enough, and it has had unfortunate consequences. […] For one thing, the method tends to be used when it is not needed, when direct observation is not only possible but more effective. […] Behavior is one of those subject matters which do not call for hypothetico-deductive methods. Both behavior itself and most of the variables of which it is a function are usually conspicuous (Responses which are of very small magnitude or difficult to reach are notable exceptions, but the problems they pose are technical rather than methodological.) If hypotheses commonly appear in the study of behavior, it is only because the investigator has turned his attention to inaccessible events - some of them fictitious, others, irrelevant (pp. 102-103, itálico adicionado).
Há informações relevantes nessa passagem. Em primeiro lugar, Skinner não é contra o método hipotético-dedutivo quando esse é necessário – quando é a única maneira disponível para o desenvolvimento de teorias. Zuriff (1985) afirma que as críticas ao método são, acima de tudo, estratégicas. A utilização de construtos hipotéticos é justificável quando os fenômenos aos quais eles se referem são inobserváveis e impossíveis de se manipular, o que não é o caso do comportamento. As variáveis estudadas na ciência do comportamento – os eventos ambientais e as ações do organismo – quase sempre estão disponíveis para manipulação e observação. Mas é justamente por conta desse “quase” que a crítica skinneriana não deve recorrer, em sua justificativa, à distinção entre eventos observáveis e inobserváveis (cf. Burgos, 2007). Os eventos comportamentais privados, por exemplo, seriam, em princípio, inobserváveis: “Each of us possesses a small part of the universe within his own skin. It is not for that reason different from the rest of the universe, but it is a private possession: We have ways of knowing about it that are denied to others” (Skinner, 1972, p. 18). Não se trata de um limite tecnológico. Por mais que se desenvolvam as técnicas comportamentais e neurofisiológicas, nós nunca teremos acesso, por exemplo, à sensação de dor de dente de um sujeito (Zilio, 2010). A sensação é uma relação comportamental privada
84 que envolve o estímulo privado e a resposta de senti-lo (Skinner, 1969b). Através de avanços tecnológicos poderemos um dia vir a conhecer os tipos de estímulos que constituem sensações comumente qualificadas como “dolorosas”, mas nunca teremos acesso às próprias sensações (Zilio, 2010). Skinner (1963a) defende sua posição acerca dos eventos privados afirmando que a “...science often talks about things it cannot see or measure” (p. 953). Ora, se as ciências, incluindo-se entre elas a análise do comportamento, tratam de coisas que não podem ser observadas e medidas, então esse não pode ser o critério que justifica a crítica de Skinner ao método hipotético-dedutivo, pois, dessa forma, o autor estaria entrando em contradição.
A crítica ao método hipotético-dedutivo deve focar as condições de controle do comportamento verbal de “teorizar” do cientista (Moore, 1998, 2010). Nesse contexto, Moore (2008), baseando-se em Schnaitter (1986), apresenta dois problemas em potencial do método hipotético-dedutivo. O primeiro deles é o problema da distância intraverbal: “as the amount of verbal behavior intermediating between the world and a conclusion about the world increases, the opportunity for a faulty inference increases” (p. 305). O segundo é definido como problema da contaminação metafórica: “metaphoric extension invariably leads to misdirection and conceptual error in science” (p. 305). Ambos os problemas possuem como premissa as condições de controle sobre o comportamento verbal dos cientistas. A boa teoria, na perspectiva de Skinner (1947/1961a, 1950), consiste na descrição abstrata de leis decorrentes da observação e manipulação direta dos eventos comportamentais. Quando passamos a lidar com construtos hipotéticos, a ligação entre tais eventos e as teorias torna-se frágil. As teorias podem, por exemplo, acabar sendo constituídas por extensões metafóricas cuja origem nem mesmo estaria nos eventos que pretendem explicar. A título de exemplo, Skinner (1966c) discorre sobre o pouco uso de metáforas na análise experimental do comportamento:
85 In representing the relationships discovered by an experimental analysis of behavior, little use is made of metaphors or analogies drawn from other sciences. Reports seldom contain expressions like encode, read out from storage, reverberating circuits, overloaded channels, gating, pressure, flow, drainage, networks, centers, or cell assemblies (p. 217).
Zuriff (1985), por sua vez, apresenta outros argumentos behavioristas críticos ao método hipotético-dedutivo. Um deles seria que a aceitação dessa estratégia poderia encorajar especulações indesejadas acerca do fenômeno estudado. Nesse caso, o controle do comportamento verbal de “teorizar” poderia ir além das condições experimentais, gerando hipóteses que não possuiriam necessariamente contato direto com o fenômeno a ser explicado, fornecendo, assim, ficções explanatórias. É nesse sentido também que Skinner (1988) afirma que “…unlike direct observation and description, the construction of a hypothesis suggests mysterious intellectual activities. […] the hypothesis makers seem to display knowledge which they cannot have acquired through ordinary channels” (p. 102, itálico adicionado).
Associado tanto aos problemas da distância intraverbal e da extensão metafórica quanto à crítica do encorajamento das especulações indesejadas, há o problema do “significado excedente”, apontado por Kitchener (1996). Conforme visto anteriormente, os significados dos conceitos teóricos devem ser encontrados nas condições experimentais que estabelecem a ocasião para a emissão dos tactos verbais (seção 1.3). Os construtos hipotéticos possuem significado excedente porque as condições de controle que estabelecem a ocasião para a sua emissão vão além ou, até mesmo, estão ausentes dos eventos que pretendem explicar. Esses conceitos, mesmo sendo utilizados para se referir ao comportamento, normalmente insinuam que há algo a mais. Descrever uma relação operante discriminada dizendo, por exemplo, que um estímulo discriminativo relacionado a um esquema de reforçamento positivo transmite informação para o sujeito de que é essa a contingência em
86 vigor, implica ir além dos eventos observados. Para além da relação contingencial entre eventos, há a “informação” transmitida, e tentar explicar a transmissão de informação pode distanciar os cientistas do comportamento do que precisa ser explicado (Skinner, 1966c, 1969b, 1969c, 1975b, 1977, 1985).
Outra crítica contra o método hipotético-dedutivo, apresentada tanto por Kitchener (1996) quanto por Zuriff (1985), está na ideia de que os construtos hipotéticos seriam dispensáveis na explicação do comportamento. A origem dessa crítica pode estar na aplicação da regra lógica da transitividade quando Skinner trata da independência das explicações comportamentais perante as explicações neurofisiológicas (seção 1.2). Se um evento A causa um evento B, e o evento B causa C, então A causa C. Agora, se temos acesso apenas ao evento A e ao evento C, sendo apenas possível inferir B, então, nas explicações, B sempre figuraria como construto hipotético. Assim, por ser dispensável via regra da transitividade, B e o método hipotético-dedutivo que o acompanha poderiam ser eliminados da explicação do comportamento. E mais, se não o forem, poderíamos acusar os partidários do método de ferir o princípio da parcimônia na explicação científica, por complicá-la para além do requerido através da adição de eventos hipotéticos e teorias desnecessárias (Zuriff, 1985).
No entanto, talvez a crítica mais séria contra os construtos hipotéticos esteja na ideia de que estes não fornecem explicação alguma do comportamento: são ficções explanatórias (Donahoe & Palmer, 1994; Kitchener, 1996; Skinner, 1938/1966b, 1944, 1953/1965, 1954, 1969c, 1972, 1980, 1983a; Zuriff, 1985). O problema aqui é a circularidade presente nessas explicações. A partir de dados comportamentais e de outras condições de controle do comportamento verbal do cientista, é desenvolvida uma explicação baseada num construto hipotético cuja função é justamente explicar os dados comportamentais. Perguntamos por que a relação comportamental “R” ocorreu e respondemos que é por conta do mecanismo hipotético “M”. Perguntamos, então, como sabemos que é o processo “M” que está em
87 funcionamento e respondemos que é por conta de seus efeitos comportamentais observados na relação “R”.
De acordo com Donahoe e Palmer (1994), os adeptos dessa abordagem tentam evitar a circularidade generalizando a função explicativa do mecanismo hipotético para diversas situações experimentais. Assim, o mecanismo hipotético “M” serve de explicação para diversas relações observadas, “R”, “X”, “Z”, “W”, etc. Essa estratégia, para Donahoe e Palmer (1994), tem como resultado um ciclo bastante previsível nas pesquisas pautadas no método hipotético-dedutivo. Primeiramente, há a observação de alguma relação comportamental. Em segundo lugar, um mecanismo hipotético é sugerido como explicação da relação observada. Em seguida, experimentos são feitos com o intuito de generalizar a função explicativa do mecanismo hipotético. Geralmente, se os experimentos seguirem os mesmos parâmetros, consegue-se alto grau de consistência entre mecanismo hipotético e relações observadas, fato que supostamente fortaleceria a pertinência da explicação. Entretanto, esse fortalecimento é aparente. O alto grau de consistência seria produto da similaridade entre os experimentos. Variáveis são manipuladas e controladas a ponto de possibilitarem a replicação de experimentos, mas esse fato indica apenas que, se estabelecermos as contingências adequadas, há como resultado a incidência significativa de relações funcionalmente semelhantes entre eventos ambientais e as ações do organismo. Nada nesse processo contribui diretamente para a validade do mecanismo hipotético: a relação “R” serviu como base primeira para a criação do mecanismo hipotético “M” e, se tratarmos de relações semelhantes a “R”, é possível que o mesmo modelo “M” possa atuar como suposta explicação. Porém, se utilizarmos o mecanismo “M” para explicar relações substancialmente diferentes de “R”, possivelmente nos depararemos com resultados inadequados.
Donahoe e Palmer (1994) afirmam que, quando há resultados inadequados, o mecanismo hipotético “M” é totalmente abandonado ou é modificado por meio da adição de
88 novas características, para que, assim, possa dar conta dos dados inconsistentes. É justamente essa segunda estratégia o foco de outra crítica ao método hipotético-dedutivo: os construtos hipotéticos não seriam sensíveis ao teste experimental. Isso porque poderiam ser atribuídas características ad hoc para adequá-los aos dados experimentais (Donahoe & Palmer, 1994; Zuriff, 1985).
Para finalizar, a última crítica ao método hipotético-dedutivo a ser aqui apresentada trata da prática científica do analista do comportamento. Os experimentos não são necessariamente designados para testar teorias e validar a pertinência de construtos hipotéticos (Chiesa, 1994; Johnston & Pennypacker, 1993; Sidman, 1960; Skinner, 1956, 1958). De fato, é incorreto supor que experimentalistas não tenham suposições acerca dos resultados que por ventura seus experimentos possam produzir. Esse tipo de suposição se enquadra no segundo tipo de teoria aqui apresentado: as teorias enquanto proposições a serem verificadas. No entanto, há diferenças entre tecer suposições e delinear experimentos com o intuito de provar a validade de um construto hipotético (Sidman, 1960). No segundo caso, os dados são analisados à luz da hipótese testada e, se não forem compatíveis, são taxados de “negativos”. Por outro lado, não há resultados negativos na análise do comportamento. Todo e qualquer resultado fruto do delineamento experimental nos traz informação positiva relevante acerca da dinâmica das relações comportamentais (Sidman, 1960). A seguinte afirmação de Skinner (1958) endossa esse fato:
The research is not theoretical in the sense that experiments are designed to test theories. As I have pointed out elsewhere [Are theories of learning necessary?], when lawful changes in behavior take place before our very eyes—or, at most, only one step removed in a cumulative curve—we lose the taste, as we lose the need, for imagined changes in some fanciful world of neurones, ideas, or intervening variables (p. 99).
Até o momento apresentamos seis definições de teoria presentes na obra de Skinner: (1) teoria enquanto conjunto de pressupostos metacientíficos; (2) teoria enquanto proposições
89 a serem verificadas; (3) teoria enquanto análise conceitual; (4) teoria enquanto interpretação; (5) teoria enquanto sumarização abstrata das leis do comportamento; e (6) teoria enquanto construtos hipotéticos. A partir dessa classificação, é possível apresentar de maneira mais clara as críticas de Skinner às teorias que se referem a eventos neurais. A única teoria criticada pelo behaviorismo radical é a que envolve o desenvolvimento de construtos hipotéticos por meio do método hipotético-dedutivo. É justamente nesse âmbito que se encontram as críticas de Skinner às explicações neurofisiológicas do comportamento (e.g., 1958, p. 99; 1966c, p. 216; 1969b, p. vii, xi-xii; 1988, pp. 102-103).
Ao discorrer sobre a má teoria – aquela que apela para eventos que ocorrem em qualquer outro lugar, em outro nível de observação, descritos em termos diferentes, e medidos em diferentes dimensões – Skinner (1946, p. 169; 1947/1961a, pp. 232-233, 237; 1950, p. 193, 210; 1958, p. 99; 1969b, p. vii, xi-xii; 1975b, p. 45; 1988, pp. 101-102; 1990a, p. 1206; 1990b, p. 104) consistentemente mencionou as teorias neurofisiológicas do comportamento. Por exemplo:
We are all familiar with the changes which are supposed to take place in the nervous system when an organism learns. Synaptic connections are made or broken, electrical fields are disrupted or reorganized, concentrations of ions are built up or allowed to diffuse away, and so on. In the science of neurophysiology statements of this sort are not necessarily theories in the present sense. But in a science of behavior, where we are concerned with whether or not an organism secretes saliva when a bell rings, or jumps toward a gray triangle, or says bik when a card reads tuz, or loves someone who resembles his mother, all statements about the nervous system are theories in the sense that they are not expressed in the same terms and could not be confirmed with the same methods of observation as the facts for which they are said to account” (1950, p. 193, itálico adicionado).
Conforme exposto anteriormente, a definição de má teoria apresentada por Skinner (1950) só faz sentido à luz do fenômeno que se pretende estudar. A má teoria é aquela que apela para eventos que ocorrem em qualquer outro lugar que não na relação comportamental; para eventos em outro nível de observação que não o relativo às variáveis comportamentais; para eventos descritos em termos diferentes dos utilizados na descrição do comportamento; e
90 para eventos medidos em dimensões diferentes das que compõem as relações comportamentais. A teoria, portanto, só se torna “má” quando pretende ser uma teoria do
comportamento. Na passagem citada, Skinner expõe claramente essa distinção: as teorias neurofisiológicas só são más teorias na medida em que almejam serem teorias do comportamento, ao invés de teorias sobre o funcionamento do sistema nervoso. Mas o que justifica tal posicionamento? A resposta está em duas ideias expostas no capítulo anterior: a análise do comportamento e as neurociências possuem objetos de estudo distintos e, por conta desse fato, os conceitos que constituem seus respectivos corpos teóricos referem-se a eventos distintos.
Lembremo-nos novamente da cadeia causal que Skinner (1986a, 1989a) descreve para distinguir o objeto de estudo da análise do comportamento e o objeto de estudo das neurociências. A análise do comportamento estaria interessada nas variáveis 1 (eventos ambientais antecedentes), 3 (ações do organismo) e 4 (eventos ambientais consequentes), enquanto as neurociências tratariam da variável 2 (processos neurofisiológicos). Visto que a análise do comportamento e as neurociências focam seus estudos em variáveis distintas, os eventos que estabelecem a ocasião para a emissão de tactos e, por conseguinte, para a criação das teorias, são distintos. As teorias comportamentais, então, se referem apenas a eventos comportamentais e as teorias neurofisiológicas se referem apenas a eventos neurofisiológicos. Sendo assim, por definição, uma teoria neurofisiológica não é uma teoria do comportamento e