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A autobiografia de Weni é a mais extensa do Reino Antigo e nos oferece diversos elementos para pensar a situação dos nomos meridionais no Egito ao final da VIª dinastia428.

Assim como as demais autobiografias analisadas, a de Weni é introduzida pela fórmula htp di nsw e com a apresentação de seus principais títulos. Depois, Weni comenta a respeito do período em que foi educado na Corte, onde exercia a função de “supervisor da despensa”, indicando que já nessa época exercia atividades ligadas ao palácio. Após, Weni é promovido à khenty-she da Grande Casa e seu codinome, o Ancião, advém do fato de ter sido o funcionário mais velho a servir Pepi I, evidenciando o estreitamente dos laços que possuía com a Corte e com o monarca, que o nomeia “companheiro e supervisor dos sacerdotes da cidade !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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JOÃO, op. cit. (2008), p. 62. 426

A própria menção às duas lógicas na autobiografia de Qar, cuja autoridade e capacidade de subordinação deriva tanto da sua condição de funcionário quanto de seu papel enquanto protetor dos necessitados, revelam esses interstícios.

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Fala-se em recrudescimento mas, na realidade, o que se verifica é o aumento das referências a esse tipo de lógica nas fontes do Reino Antigo. Em realidade, o patronato nunca deixou de existir no Egito.

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Texto e tradução em: PIACENTINI, Patricia. L’Autobiografia di Uni, principe e governatore dell’Alto Egito. Pisa : Giardini Editori.

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da pirâmide”. Essa relação próxima com o rei pode ser aferida no trecho em que menciona “dever de guarda, preparando seu caminho e ficando sob vigilância”, no qual é possível deduzir que Weni exercia algum tipo de função relativa à segurança do faraó.

Weni era, certamente, um funcionário influente que possuía acesso a círculos restritos como o Conselho de Hórus, no qual ouviu “casos sozinho, apenas com o vizir, relacionado a todas as questões secretas”. Tendo em vista a sua notória autoridade, Weni tornou-se responsável por questões de justiça como “boca de Nekhen”, título que indica uma função como aquela de juiz. Mais tarde, é promovido a sr.

Conforme mencionado no capítulo anterior, Weni participou de um importante julgamento envolvendo uma das esposas reais, conhecido como Conspiração do Harém, na qual “nem o vizir estava presente” e, mesmo sendo um assunto de extrema relevância, “nunca antes alguém como eu ouviu os segredos do Harém Real, e ainda assim Sua Majestade me deixou ouvi-los”.

O apreço do rei por esse funcionário fica evidente no trecho em que Weni relata ter sido agraciado com um sarcófago de pedra branca de Tura, para onde foi enviada uma expedição. Diversos outros itens da mobília funerária de Weni aparecem como tendo sido providos pelo faraó.

Em um trecho da sua autobiografia, Weni vangloria-se de ter substituído quatro khenty-she. Essa informação nos leva a pensar em uma reforma administrativa em um contexto de transição dinástica turbulenta, na qual a reconfiguração das elites tornava-se um elemento fundamental para garantir uma base de apoio à nova dinastia que se instalava em Mênfis. Abidos parece, portanto, tem sido um importante aliado dessa dinastia. Em outra autobiografia de um funcionário da região, o vizir Djau, menciona-se o casamento entre reis da VIª dinastia e duas de suas irmãs, permitindo-nos supor que sua ascensão ao cargo de vizir possuía relação com suas conexões familiares, indicando que a lógica do parentesco era usada pelo Estado em sua estruturação.

A autobiografia de Djau menciona, ainda, diversos títulos sacerdotais, o que denota a importância de Abidos como centro de culto. No Primeiro Periodo Intermediario e Reino Medio essa região se torna um importante centro de peregrinação e importante centro de culto ao deus Osiris.

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Um dos elementos mais interessantes na autobiografia de Weni é a menção a uma incursão contra os asiáticos “moradores da areia” (provavelmente precursores dos atuais beduínos), para a qual foi mobilizada uma armada de dez mil homens, cobrindo do norte de Elefantina até o Delta, da qual Weni era o chefe. A presença de diversos outros funcionários nessa expedição, com as mais variadas funções, nos permite afirmar que não havia um limite muito claro separando as funções de cada individuo a serviço do Estado. A menção a esses funcionários, todos de status bastante elevado, também serve como estratégia para a autopromoção de Weni, que afirma ter liderado essa expedição mesmo “sendo apenas um khenty-she da Grande Casa”. Além disso, a menção a esses indivíduos, como os Hri-tp oriundos do Delta, ajudam-nos a visualizar a existência de outros grupos sociais a respeito dos quais não possuímos muita informação, tendo em vista que os registros monumentais e epigráficos do Reino Antigo dizem respeito, quase que totalmente, somente ao estrato social ao qual pertenciam os nomarcas.

No que se refere à organização dessa expedição, a autobiografia de Weni nos dá pistas para que possamos concluir a respeito de um recrutamento local das tropas.

Weni comenta ter feito cinco incursões contra esses asiáticos, mencionado diversas rebeliões. Málek comenta sobre um período de cheias insuficientes do Nilo que teriam pressionado as fronteiras do Egito e que, para ele, teriam contribuído para a crise do Reino Antigo:

A situação foi agravada por fatores climáticos, especialmente uma serie de cheias insuficientes do Nilo e um declínio na precipitação que afetou áreas adjacentes ao Vale do Nilo e produziu pressões nas áreas fronteiriças do Egito por povos nômades429.

É provavelmente a esses asiáticos, vistos pelos egípcios como invasores, o texto das Admoestações de Ipu-Ur faz referência:

(...) em seu meio como asiáticos. Não se acha ninguém que possa levantar- se para protege-los? Cada um protege a sua irmã e defende a si mesmo (...) os soldados que recrutamos para nos mesmo tornam-se arqueiros, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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determinados a tudo destruir, e revelaram aos asiáticos a situação do pais. Mas todos os estrangeiros temem. A experiência do povo leva-o a afirmar: “O Egito não será dado à areia!430

Ao que parece, o ponto mais problemático era o Nariz da Gazela – contudo, a localização exata dessa região permanece desconhecida. A política em relação ao vencidos era a de destruir casas, fortalezas, a vegetação, matar a população (Weni comenta não ter retornado até chacinar todos) e trazer cativos para o Egito. Essa última informação é extremamente relevante para que possamos compreender parte da procedência da força de trabalho que vinha no Egito, uma vez que esses cativos eram usados como mão-de-obra escrava.

Durante o governo de Merenra, Weni é promovido a haty-a e a supervisor do Alto Egito, tendo responsabilidades gerais do primeiro ao vigésimo-segundo nomos. Como supervisor, suas atitudes estão voltadas ao agrado da Residência, pois comenta que possuía o “dever de avaliar tudo o que é necessário para a Residência no Alto Egito”, reforçando a coleta de impostos na região. Nao devemos supor que a fiscalidade tenha sido monopólio do rei egípcio, uma vez que isso exigiria um controle intenso sobre todas as relações de produção existentes no território, o que não era o caso. A expansão da centralidade e o reforço da fiscalidade do Estado na região de Abidos deve, contudo, ter impactado de maneira significativa as populações locais.

Enquanto parte da população sofria com o aumento da pressão fiscal, Weni ascende socialmente “executando meus deveres oficiais para fazer a minha reputação no Alto Egito”. Nesse extrato fica claro que sua autoridade e reconhecimento social provinha do fato de ser um funcionário do Estado podendo, dessa forma, afirmar seu domínio sobre outros grupos locais.

As atividades exercida por Weni enquanto supervisor do Alto Egito incluíam, também, expedições às pedreiras de Elefantina, construção de canais e de barcos de madeira de Acácia, conseguida na região de Wawat, na Núbia. A importância da região de Elefantina e o estreitamente das relações com a Núbia podem, portanto, mais uma vez ser atestadas.

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3.4 O PRIMEIRO PERÍODO INTERMEDIÁRIO: TEBANOS E

HERACLEOPOLITANOS.

Uma tese frequente a respeito do declínio do Reino Antigo é a da “burocratização” do Estado egípcio. Essa é uma ideia defendida por Kanawati e sintetizada por Cardoso da seguinte forma:

Como resultado da multiplicação dos burocratas, os rendimentos de cada funcionário, no governo central e nos nomos, declinaram drasticamente, levando a uma queda na qualidade da administração e à insatisfação geral, num regime trabalhado por desequilíbrios internos graves que, por tal razão, não pôde fazer frente aos problemas internos e externos que se multiplicaram e passaram a agir em conjunto a partir do final da VI dinastia431.

A hipótese é de que os recursos destinados aos burocratas, especialmente nas províncias, teriam exaurido as finanças o Estado que, enfraquecido, entrou em colapso. Não nos deteremos aqui, mais uma vez, na discussão a respeito da impropriedade da ideia de “colapso estatal”, mas apontaremos (de forma mais detalhada quando da análise das autobiografias) que, economicamente, o Estado egípcio passava por um momento de prosperidade durante a VIª dinastia. Nesse período aumentam os funcionários com o titulo de hqA Hwt432, o que é indicativo de um aumento das instalações régias no âmbito provincial, mesmo em nomos nos quais anteriormente não existiam, com o intuito de maximizar o aproveitamento dos recursos existentes nesses potentados rurais433. Além disso, as autobiografias de Weni e Qar, da região de Abidos, nos mostram o sucesso desses funcionários em aumentar as receitas locais devidas à Coroa.

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CARDOSO, Ciro Flamarion. Hekanakht: pujança passageira do privado no Egito antigo. Niterói, 1993. Tese (Concurso para Professor Titular) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1993. p. 121.

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MORENO GARCIA, op. cit., 2001, p. 220. 433

Além da exploração dos recursos das províncias, um outro objetivo relacionado à instalação de domínios régios nessas regiões era integrar as elites locais ao aparelho estatal, uma vez que estas alianças eram importantes para reforçar a administração palatina nas províncias.

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Para Jan Assmann, o Primeiro Período Intermediário exemplifica uma espécie de “padrão” recorrente na história egípcia, já que “nas fases em que o governo central afrouxava o controle, valores competitivos ganhavam lugar em detrimento dos valores que favoreciam a integração”434 através do florescimento daquilo que chama de estruturas “policêntricas”. Muito embora a percepção de Assmann sobre a existência de vários centros de poder debaixo de uma superfície monocêntrica seja interessante, a maneira como elas são interpretadas na dinâmica histórica dessa sociedade deixa entrever um certo conservadorismo em sua análise. A existência de forças antagônicas e contraditórias só é percebida por Assmann nos momentos em que a capacidade centralizadora do Estado é retraída, quando na verdade são elementos constituintes das relações entre os diversos grupos sociais não só no Egito, mas em todas as sociedades. Colocar, igualmente, os nomarcas no papel de “rivais” e explicar a importância adquirida pelas elites locais como fruto de um “desejo de competição” não explica a dinâmica mais profunda envolvendo toda a conjuntura relativa ao Primeiro Período Intermediário.

Jaromír Málek encara o Primeiro Período Intermediário como um período de “crise de ideias”. O autor nega que tenham acontecido sublevações sociais ou ameaças de invasões estrangeiras ao longo desse período, e credita a crise econômica e política ao fato de que “a realidade superou a religião e outras crenças nas quais o sistema estava baseado, e nenhum progresso seria possível sem ajustes substanciais”435. Málek continua sua argumentação afirmando que o poder absoluto do rei enfraqueceu a tal ponto que ele não era mais capaz de realizar efetivamente as tarefas delegadas pelos deuses e que seus súditos esperassem que realizasse. O fator determinante para Málek é, portanto, a religião, mas vejo alguns problemas envolvendo explicações como essa. Primeiro, é difícil compreender o que o autor quer dizer quando fala que “a realidade superou a religião”. Que entidade é essa “realidade” à qual se refere? Por quem ela é formada? O que tornou a religião, segundo sua concepção, obsoleta? Ao relegar um papel menor às questões sociais e econômicas verificadas no período, o autor considera a religião (há que se

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ASSMANN, op. cit.,2003, p. 84.! 435

MÁLEK, Jaromír. The Middle Kingdom, Rise and Fall. In.: _______. Egyptian Art (Art and Ideas). Londres: Phaidon Press, 1999. p. 155.

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questionar, também, o que o autor entende pelo termo436) quase que como um epifenômeno, que paira acima da sociedade, mas que ao mesmo tempo tem um poder quase sobrenatural de influenciar o que nela acontece. Persiste, igualmente, a ideia de um poder “absoluto” dos reis e a conquista de “autonomia dos poderes locais” é encarada através de uma lógica mecanicista através do qual ela só é possível nos momentos em que a monarquia se encontra enfraquecida. Esse enfraquecimento, normalmente, é atribuído unicamente à fraqueza pessoal de determinados reis. Por trás da personificação do poder em torno do faraó resta, ainda, a lógica maniqueísta que coloca as elites locais como “más”, de um lado, que ameaçam a estabilidade do reino e por isso merecem ser combatidas, e o faraó/monarquia “bom”, do outro lado, cuja restauração é a única salvação para uma terra acometida pelo caos e pela violência.

Não é difícil perceber a influência da carga ideológica presente nas fontes egípcias em interpretações como essa que, como já dito, acabaram sendo tomadas por muitos egiptólogos como expressão exata da realidade dos habitantes do Nilo. Especialmente em Málek, é nítida a influência do documento egípcio conhecido como “Admoestações de Ipu-Ur”. Esse texto possui datação controversa e há debates envolvendo questionamentos sobre se o seu conteúdo refere-se ou não a eventos reais437. Permeado por um grave tom de queixa, o que o caracteriza dentro do conjunto conhecido como Literatura Pessimista, as Admoestações relatam uma situação caótica no Egito envolvendo subversão de hierarquias, crise política, crise econômica, invasões estrangeiras e, também, o que alguns autores chamam de “secularização da religião”438. Em seu relato, Ipu-Ur lamenta que “as fórmulas mágicas foram divulgadas, tornaram-se ineficazes porque são repetidas por todo mundo”439, o que pode muito bem ser aquilo a que Málek faz referência quando

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Para uma discussão a respeito do emprego do termo religião no contexto egípcio cf. JOÃO, op. cit.,2008, pp. 62-66.

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O documento encontra-se hoje no Museu de Leiden (Papiro Leiden 344) e a cópia encontrada data da XIX dinastia. Concordamos com os autores que defendem um fundo histórico do texto e que afirmam que seu conteúdo faz referência aos eventos ocorridos no Primeiro Período Intermediário. Uma análise mais precisa desse documento pode ser encontrada em: JOÃO, Maria Thereza David. As Admoestações de Ipu-Ur: reflexões sobre a sociedade egípcia do Primeiro Período Intermediário. NEARCO, n.1, 2009.

438

Cf. SORENSEN, Jorgen Podemann. Divine Acess: the so-called democratization of egyptian funerary literature as a social-cultural processo. In.: ENGLUND, Gertie. The religion of the ancient Egyptians. Cognitive Structures and popular expressions. Uppsala: 1989, p. 114.

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comenta a respeito do fato de o rei não mais estar conseguindo desempenhar seu papel como “senhor absoluto” da religião, tendo que delegar funções a terceiros.

Para Ipu-Ur, este fenômeno é visto em termos negativos, consequência da situação de fragilidade em que se encontravam o Egito e a monarquia. A figura do faraó como sacerdote supremo é importante para Ipu-Ur, bem como os encargos religiosos a ele destinados, e essa função se esvazia na medida em que as pessoas “não precisam mais do rei”, ocorrendo uma espécie de “banalização” da religião – uma vez que as fórmulas perdem sua eficácia quando recitadas por todos”440.

Nessa visão, a religião é um elemento determinante da realidade social e, se sua eficácia resta comprometida, é o próprio bem-estar do povo egípcio que fica ameaçado e vulnerável a todo tipo de crise. Além disso, a narrativa de Ipu-Ur é desenvolvida de tal modo que a situação caótica nela representada é associada unicamente à presença de um faraó frágil (“Nessa hora não há piloto. Onde ele está hoje? Dorme? Em verdade sua força não é vista”441), situação que poderia ser revertida imediatamente, portanto, através do retorno de uma mão de comando forte (“podes, contudo, ordenar o contrário, que volte o amor”442).

A ideia de que somente uma monarquia unificada poderia trazer equilíbrio e prosperidade ao Egito presente no discurso ideológico das fontes levou muitos estudiosos a crerem que, fora desse sistema, o Egito estaria condenado ao caos e à desordem. O que boa parte da historiografia sobre o Primeiro Período Intermediário nos mostra é, justamente, o enraizamento dessa visão. Disto advém a imagem do Primeiro Período Intermediário como uma espécie de anomalia e como um desvio no curso “natural” da história, oposto aos períodos denominados “reinos”, os quais comportariam estabilidade 443 . Demonstramos, até agora, como essa visão monolítica a respeito da historia politica do Egito obscurece a real dinâmica das !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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JOÃO, op. cit., 2008, pp. 37-38. 441

ARAÚJO, op. cit. p. 189.

442 ibid, p. 189.!

443

Um exemplo é a definição trazida por Alicia de Rodrigo : « Período de crise e transição entre duas épocas, o Primeiro Período Intermediário se estende entre o Reino Antigo, no qual um regime absolutista e burocrático, baseado na doutrina oficial do governo de um deus rei-deus alcança sua maturidade, e o Reino Médio no qual o sistema político se recompõe apontando a reproduzir o modelo da época de ouro do Reino Antigo » (DE RODRIGO, Alicia Danieri. Las Dinastías VII-VIII y el período heracleopolitano en Egipto. Problemas de reconstruccíon histórica de una época de crises. Anexos de la Revista de Estudios de Egiptologia 3. Buenos Aires, 1992, p. 12).

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relações de poder ocorridas nessa sociedade e, mesmo debaixo de uma monarquia unificada, os conflitos entre classes e frações de classe levavam o Estado a se rearticular constantemente. Os processos e eventos ocorridos durante o Primeiro Período Intermediário são, nesse sentido, mais uma expressão dessa dinâmica e como tal não devem ser tratados como interrupções que obstaculizaram o desenvolvimento egípcio, possível somente através da existência de uma monarquia unificada. Uma tal visão teleológica deve ser abandonada e, a seguir, iremos analisar algumas características acerca desse período com o intuito de reavaliar a imagem construída em seu entorno.

Em primeiro lugar, é incorreto pensar que todo o Egito estivesse atravessando um período de crise e que o caos tomou conta da terra dos faraós. Estudos recentes de Seidlmayer e Janet Richards444 nos auxiliam, através da arqueologia, a repensar o Primeiro Período Intermediário como uma época de penúria ou, em outras palavras, como uma “ idade das trevas”445. Eles demonstram florescimento artístico nas províncias durante esse período e, a julgar pelas tumbas, demonstram também riqueza concentrada nas mãos de alguns indivíduos e a possibilidade de aquisição privada de bens de prestígios, como servos446. Ao contrário do que ocorre no Reino Antigo, no Primeiro Período Intermediário não são os nomarcas, mas outros chefes locais que ganham visibilidade nas fontes, anteriormente ocultos dos registros. Há diversas inscrições do Primeiro Período Intermediário que ilustram a importância desses chefes locais e de outras pessoas advindas de setores intermediários da população. Uma das inscrições mais interessantes é a de Merer, açougueiro no templo de Khuu, o mais importante da região de Edfu. A estela em que se encontra sua autobiografia é bastante reveladora pois, embora Merer tenha sido apenas um açougueiro, as ações descritas em sua autobiografia nos permitem colocá-lo na condição de um chefe local: “eu adquiri gado, adquiri pessoas, adquiri campos,

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Cf. RICHARDS, Janet. Society and Death in Ancient Egypt. Mortuary Landscapes of the Middle Kingdom. Cambridge : Cambridge University Press, 2005.

445

É exatamente como «idade das trevas » que Barbara Bell define o Primeiro Período Intermediário (cf. BELL, Barbara. The Dark Ages in Ancient History. The First Dark Age in Egypt. AJA 75, 1971, pp.

Benzer Belgeler