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5. Takva Filmindeki Savunma Mekanizmaları

5.1. Kararsızlık

Arco-Íris

O interessante na relação que pode ser estabelecida entre Guimarães Rosa e Eulício Farias na elaboração dos textos é o tratamento dado às personagens, especialmente nas relações do “menino”, das estórias cheias de significação de As Filhas do Arco-Íris e dos contos, da linguagem e do imaginário fantástico em Primeiras Estórias. Os textos dos dois autores instituem uma relação com a história, contextualizada pelas situações sociais, inter- relações das personagens, o que faz com que os escritores se lancem para olhar o passado relacionando-o com o presente pensando no futuro.

Percebe-se que o viés infantil ligado com a voz doo narrador serve para reproduzir seu ideário, aderindo isso ao discurso das personagens. Assim, a linguagem nas narrativas mostra personagens infantis que buscam uma passagem do mundo da imaginação para a realidade. Desse modo, os recursos linguísticos simulam o pensamento infantil. O intercâmbio entre o infantil e o adulto coexistem harmonicamente nas narrativas de Guimarães Rosa e de Eulício Farias pela voz do narrador, na estrutura narrativa e na linguagem das personagens.

As características do menino retratado por Guimarães Rosa são: curioso, inteligente, como o desejo de ver, conhecer, experimentar, aprender, que também necessita de atenção e convive em espaço em transformação a ser descoberto. O menino dos contos de Primeiras Estórias é uma representação que não precisa de um nome próprio para participar da comunidade, ele é socialmente aceito pelos seus familiares e por membros sociais. Na reconstrução da cena da experiência na edificação da grande cidade e do contato com o peru e/ou com o tucano, o narrador traz imagens adormecidas, tentando reconstituir a identificação social do momento revivido. Em As Filhas do Arco-Íris, as personagens também são tratadas como membros familiares, alguns possuem parentesco com o menino: tia Jana, tio Liopordo, tia Inês, Sobrinho, etc. Outro, apenas como importante membro da comunidade, no caso, Pai Estêvão. Nesse sentido, as representações da infância em As Filhas do Arco-Íris e em Primeiras Estórias trazem lembranças que sofreram um processo de reconstrução por parte do

narrador e qualquer alteração processada no ambiente atinge a memória no que se propõe o passado recordado no presente.

O menino que brinca com o cego, o bêbado e o doido, não revela, até certo ponto da narrativa, o seu nome. É conhecido na comunidade como menino da doida, quando se referem a sua tia maluca. Mas às vezes em que convive com seus tios num sítio próximo da vila Gurinhatá é chamado de Sobrinho e é muito bem tratado. Quando esteve no sítio, passou a conviver com uma realidade absurda, percebeu a morte de sua prima por causa de um cavalo, que para os moradores da vila tinha cara de gente. Devido às observações em relação ao animal com características humanas, morre a prima e meses depois morre a mãe dela. Tio Liopordo, o dono do sítio, fica desesperado com a morte dos entes queridos e enlouquece:

O casal só tinha uma filha, a Isaura, mais velha do que eu e que morreu três meses antes de tia Iná, o ano passado. A morte da filha e da esposa e as coisas estranhas que aconteceram ali deixaram meu tio Liopordo arrasado.

[...]

Aquele poldrinho pampo que nasceu no sítio de tio Liopordo deixou todo mundo de orelha em pé. O bicho tinha a cara de cavalo, mas os olhos eram de gente e as orelhas não se sabe de quê. Tia Iná, quando o viu, foi logo se benzendo e falando pra tio Liopordo: Dá fim a isso, Liopordo, que só pode ser a figura do Cão. (p. 32).

Sobre o romance As Filhas do Arco-Íris, o debate é quanto à infância e à questão da personagem órfã como representação social. A temática da orfandade interessa a psicólogos, sociólogos, antropólogos, filósofos, historiadores e estudiosos da literatura, dada a sua diversidade ante as realidades sociais, econômicas, políticas e culturais do mundo contemporâneo. No que concerne à literatura, é possível perceber que a trajetória de personagens órfãos figura em diferentes narrativas, crônicas, contos populares, poesias, etc.

A personagem órfã, enquanto sujeito literário, frequentemente convive com um ambiente de abandono ou solidão, principalmente por saber que perdeu alguém que lhe era muito querido ou que o amparava, o protegia, nela há uma constante busca de realização pessoal, do autoconhecimento, da conquista de melhor situação financeira ou de uma família. E quando sabe que perdeu pai, mãe e irmãos, é comum que procure encontrar alguém que possa auxiliá-lo na busca de sua própria identidade para fugir do desconforto que é o abandono. Muitas vezes, as crianças, órfãs de pai ou mãe, têm que enfrentar uma madrasta ou um padrasto ou têm que assumir a posição de um adulto para poder superar os problemas familiares. Aos poucos, o indivíduo se sente na liberdade de fazer tudo que está a seu alcance para concretizar seus objetivos. Às vezes não consegue, pois o mundo lhe vence, as pessoas não o aceitam, daí pode ocorrer o isolamento. Tal situação encontra um correlato no mundo

da ficção, se atentarmos para a concepção de Adorno (2003, p. 62): “O sujeito literário, quando se declara livre das convenções da representação do objeto, reconhece ao mesmo tempo a própria impotência, a supremacia do mundo das coisas [...]”

A orfandade, embora não seja característica das narrativas em que participam personagens infantis, às vezes se torna necessária para impulsionar o enredo. A jornada de personagens órfãs é de muitas aventuras, brincadeiras, perigos para conseguir realizar seus desejos. Esses desejos podem ser o de encontrar uma família, um lar, a aceitação pela sociedade em que vive, o desenvolvimento moral, a auto realização, etc. Na obra Personagem de Ficção, esta característica é ampliada de modo exemplar:

Como sêres humanos encontram-se integrados num denso tecido de valores de ordem cognoscitiva, religiosa, moral, político-social e tomam determinadas atitudes em face dêsses valores. Muitas vêzes debatem-se com a necessidade de decidir-se em face da colisão de valores, passam por terríveis conflitos e enfrentam situações- limite em que se revelam aspectos essenciais da vida humana: aspectos trágicos, sublimes, demoníacos, grotescos ou luminosos. (CANDIDO, 2007, p. 45).

Em As Filhas do Arco-Íris, é narrada a infância sofrida e alegre do menino da doida no meio da comunidade de Gurinhatá. Ao mesmo tempo em que o narrador conta a história da vila, mostra a convivência com outras representações sociais, sem contar que o mesmo aprende a narrar ao ouvir o velho Pai Estevão. Isso demonstra que apesar de ser órfã, a falta de seus pais não o torna uma criança com traumas, e mesmo convivendo com uma tia com distúrbios mentais, ele se sente bastante maduro para encarar os problemas da vida. O narrador provoca o olhar para a realidade que castiga as personagens excluídas, destacando-as dentro do processo de interação na articulação para se ter consciência de suas necessidades e projetar meios de satisfazê-las.

O romance de Eulício Farias demonstra de maneira lúdica e divertida o imaginário infantil, afastando-se do jeito sério que acompanha o adulto para se divertir: “O tempo é um menino que brinca, jogando bola. É só olhar a neblina que corta o vermelho das nuvens no desvão desse entardecer. O que eu gosto mesmo é dos outroras. A cantiga do bêbado Damião...” (p. 10).

A personagem órfã faz parte de um paradigma necessário para desencadear o enredo em várias narrativas populares, segundo Ricardo Azevedo (1997, p. 103):

[...] os heróis de narrativas populares em geral: 1) são paradigmáticos por princípio; 2) vivem em lugares genéricos, longe daqui, há muito tempo atrás; 3) muitas vezes são identificados apenas como o príncipe, o rei, a princesa, a bruxa, etc. Mesmo quando nomeados, apresentam nomes comuns, João, Maria ou Pedro, nomes que qualquer um poderia ter; 4) nem sempre apresentam aspectos físicos determinados e

substantivos, mas sim genéricos e adjetivos: são bonitos ou feios, fortes ou fracos, espertos ou tolos, bons ou maus, sortudos ou azarados; 5) estão envolvidos em aventuras que remetem a questões humanas bastante amplas: a busca do autoconhecimento (quantos heróis pedem a benção do pai e, em seguida, partem para “conhecer o mundo”? Ou então, perseguidos, fogem de casa e vêem-se obrigados a enfrentar riscos e desafios? Ou ainda sozinhos no mundo, após a morte do pai, partem em busca da sorte?

Em As Filhas do Arco-Íris e em Primeiras Estórias, a personagem “menino” possui um nome comum, um nome que não o identifica, mas se refere à infância. Sua busca por aventuras o caracteriza como outras personagens de narrativas populares, sua imaginação o envereda por caminhos fantásticos e as relações sociais fazem vencer os desafios do mundo. Assim, a imaginação infantil costuma criar e articular histórias através de imagens perdidas, lugares estranhos, brincadeiras e pela convivência com as pessoas, contando aventuras que brotam no imaginário e permitem desenvolver uma postura inventiva - é isso que ajuda as crianças a superarem dificuldades. O menino sempre aproveita para brincar, brinca com as pessoas, brinca com as palavras e conta aventuras e mistérios, entrando em contato com a alegria.

Em As Filhas do Arco-Íris, o menino conta as andanças de Pedro Gago pela vila, a vida e os desafios do cego Formião pelas calçadas assim como as peripécias do bêbado Damião para se dirigir ao bar da vila:

Eram os cavalos com que Pedro Gago e cabo Faria iam roubar Ana Amália, uma de suas muitas amadas e de seus muitos mistérios. Num, o mais arisco, montou Pedro Gago e, no outro, o seu companheiro e testemunha de aventura. Partiram, em disparada, e Pedro Gago sentia a estrada fugir sob os cascos dos cavalos. Longe era o sítio onde estava sua princesa. (p. 23).

Os da venda de João Dadau faziam a maior algazarra com o bêbado Damião, no meio, com suas indiretas e alusões, às vezes, até ferinas. [...] (p. 26).

Tanto faz o bêbado jogado na sarjeta como o homem de bem. O escândalo é o pão da maldade. (p. 37).

Nosso Senhor também não lhe havia dado dois olhos de conta que caíram quando tinha ele nove anos? Dias, que ele tem até inveja daquele calunguinha. Anh. Pensamento besta de cego. Anh, lá vem (pelas pisadas) Pai Estêvão. Arrimado no bastão, mal anda. Diz que tem um século de ano na cacunda. Deus o livrasse de viver tanto assim. Vão ver o sofrimento de um cego velho da idade de Pai Estêvão, arrastando os pés, sem poder andar. Aonde vai assim, meu Pai Estêvão? Hum. É o ceguinho Zé? Em João Dadau comprar um pedaço de fumo. Hum. Hum. (p. 56).

O menino da doida narra as armações de Pedro Gago para conseguir se apoderar de Ana Amália. Então, ele se associa a cabo Faria para roubar o que ele acha ser a moça mais bonita da vila. Na percepção do menino, Ana Amália é uma das mulheres desejadas por Pedro Gago e essa relação guarda muitos mistérios. Pedro Gago monta em seu cavalo e sai em

disparada como um príncipe de contos de fadas, mas o que se dispõe é sentir sua imaginação se esvair pela estrada longa e distante. No caso do bêbado Damião, a comunidade não gosta muito de suas afirmações, muitas delas são ferinas, tendo que o bêbado servir de palhaço para os outros. O cego muito cedo perdeu a visão, mas seus sentidos são aguçados, sente pelos passos a aproximação de Pai Estêvão, parece zombar da idade do velho, por imaginar que em suas condições deve ser um sofrimento viver tanto quanto ele.

Em Gurinhatá, enquanto o menino mantém uma relação de proximidade com o bêbado, o cego e o doido, a comunidade procura estabelecer certo distanciamento e mesmo que conviva com eles não há uma aproximação para descobrir o que gerou os problemas de cada um. É comum na sociedade haver certa rejeição às condições de vida de pessoas com esse perfil, talvez pela falta de valores econômicos, culturais e sociais. Porém o desejo das personagens excluídas é desempenhar um papel na sociedade, daí torna-se imprescindível atuar na luta para interagir uns com os outros. Por isso, o autor de As Filhas do Arco-Íris procura situá-los na narrativa para possibilitar essa interação com a realidade social. Logo, essas representações problematizam o desconhecido, o desejo pela vida e pela participação social, tentando compreendê-la e influenciar na trajetória de seus destinos

O menino consegue mostrar através da convivência com o velho Pai Estevão que desenvolveu conhecimento, que aprendeu a elaborar estórias, então os acontecimentos da comunidade serão articulados pela astúcia daí decorrente. É assim que a atitude narrativa visa reproduzir o modo e as formas de agir de uma criança que vive a realidade caótica do sertão nordestino para apresentar no mesmo ambiente a existência de um mundo de sonho e fantasia alimentado pelas estórias que circulam no imaginário do sertanejo, podendo construir fatos e acontecimentos com base em brincadeiras e divertimentos. Jacqueline Held (1980, p. 39) salienta: “[...] a criança até certa idade, difícil de determinar, dá vida ao que toca: animais, plantas, pedras, objetos técnicos do mundo moderno.”

Um dos momentos marcantes na imaginação do menino da doida é quando sai com o negro Guabiraba pela mata e eis que Guabiraba conta o causo de assombração, isso lhe causa muito medo. O menino recorda as palavras do negro, teme de voltar e ver a casa, o causo de assombração aumenta o seu medo da mata, a caminhada fica tensa com as lembranças da casa. Eles apressam os passos, mas o medo se torna maior ao ouvir um barulho estranho e um choro triste:

Pegamos a vereda do lajeiro do Estrondo e, um pouco mais adiante, o negro me segura a mão, apertando: A casa velha mal-assombrada, onde tinha uma botija. Ninguém, menino, tinha coragem de passar uma hora dessa, por aqui. A gente fica

logo arrepiado, só em lembrar. Apertei com força a mão do negro. Voou-me o chapéu de palha da cabeça? E Guabiraba: Uma noite, dessas de meter dedo no olho, perdido nestas brenhas, e não tendo onde dormir, um homem avista a casa velha e dá graças a Deus. Chegou, ô de casa! bate na porta e viu logo que ali não existia vivente algum. A porta estava só encostada. Aí o homem vai e tira a caixa de fósforos do bisaco, empurra a porta devagarinho e entra. Vinha com fome. Foi à cozinha e lá encontrou umas trempes velhas e uns gravetos de lenha num canto. Acendeu o fogo para fazer brasa e assar a carne-seca pra comer com farinha. Nisto, ouviu ele uma voz de cima do telhado: Eu caio. Poder cair, respondeu o homem. De súbito, quase aos seus pés, se despencou um tronco humano, isto é, um pedaço de gente da cintura para cima. O homem olha aquilo e, como se nada tivesse acontecido, continua assando a carne. Daí a uns minutos, o homem tornou a escutar a voz de cima do telhado: Eu caio. Pode cair, foi a resposta. De novo outra queda do alto e o resto do tronco da cintura para baixo forma uma pessoa que, de repente, se ergue e traz num espeto um sapo para assar também junto com a carne-seca do homem. Este com a maior calma deste mundo diz pra assombração: Tire a bosta deste cururu de perto de minha carne! Aí foi, a assombração não conseguindo intimidar o homem, pegou este pelo braço e levou-o a uma camarinha da casa velha e lhe mostrou o lugar onde o ouro estava enterrado. Diz que, no dia seguinte, o homem veio, desenterrou a botija e nunca mais pisou os pés por estas bandas. Agora da casa velha, só a distância e o medo. Coragem de olhar para trás. Quem? Guabiraba aumentou o passo como se tivesse vendo também assombração. Não senti mais o chapéu de palha na cabeça. Aproximei-me ainda mais do negro, pisando-lhe quase nos calcanhares. Onde a marrã e o burreguim, uma hora dessa? De um lado para outro, Tubiba correndo e espantando os bichos das moitas. Mata fechada que não deixava a gente ver bem a vereda que ia dar no lajeiro do Estrondo. Cipoal. Tire a bosta deste cururu daí. De repente, como pressentindo o ataque da pintada ou da suçuarana da mão torta, Tubiba se põe a uivar e grunhir. Guabiraba me pega pelo braço: Escutou, menino, esse tropel estranho que parece que vem botando o mundo abaixo? Ouviu também aquele choro triste? . . . (p. 14-15).

A estória de assombração alimenta o imaginário do menino. A casa velha abandonada que costumava assustar todos os visitantes, quase ninguém se aproximava por medo. O menino e Guabiraba comentam sobre a casa, nenhum dos dois quer se voltar na direção do casarão para olhar o lugar em que ele se encontra. O medo vai aumentando à medida que se lembram dos acontecimentos e da estória assombrosa. Uma série de acontecimentos se passa em sua mente, como fantasmas no casarão abandonado, um homem que desenterra a botija e foge, um ataque surpresa da onça pintada, um barulho no meio do mato. Além do negro Guabiraba, o menino tem a companhia do cachorro Tubiba, que desaparece no meio da mata e distante se ouve um grunhido estranho, que assusta o menino. Percebendo a reação dele, Guabiraba segura no seu braço, chama a atenção e os dois correm com medo. A estória contada ao menino tem uma característica peculiar denotada pela forma como Guabiraba começa a relatar, observa-se que o negro foge da responsabilidade de inventar os acontecimentos e cria um cenário de mistério, tensão e medo. Essa é uma técnica comum da narrativa popular, que faz refletir o pensamento de Câmara Cascudo (2006, p. 249-251), quando expõe que existem três procedimentos necessários na caracterização do conto popular. O primeiro seria o ambiente propício, capaz de oferecer atmosfera tranquila para a narração.

O segundo, o uso de fórmulas, iniciações narrativas que ajudam a criar uma expectativa para o que vai ser contado como: “era uma vez”, “diz que aconteceu um dia”, “certo dia”, “uma noite dessas”, etc. E o terceiro, a fala narrativa em si que deve ser viva e apaixonada, misteriosa, com a voz materializando as sucessivas fases da história, contada na ordem linear psicológica21.

Cabe ressaltar que o menino desenvolve sua narração percorrendo diversos pontos de vista por causa de sua convivência com os habitantes de Gurinhatá, desse modo expõe momentos e fatos em que cada capítulo uma situação não sequencia o momento anterior. É por isso que o menino apresenta momentos em que expressa, em suas lembranças, a capacidade de perceber tudo que está acontecendo, pois narra de modo onisciente a vida dos moradores da vila, os mistérios e acontecimentos estranhos, as festas e datas comemorativas do ano, os contos de Pai Estevão e o causo de assombração relatado pelo negro Guarabira e o desenvolvimento da vila até tornar-se cidade. O narrador mostra a necessidade constante de relatar os casos misteriosos, as sensações do fantástico e a convivência cotidiana.

As impressões da infância e as lembranças do tempo vivido no passado apontam para memórias de uma época em que a afetividade aparece fortemente marcada pelas relações sociais e imagens de acontecimentos que envolvem personagens que fazem parte da família, amigos ou pessoas do círculo de convivência, mostrando que muitas situações são encadeadas de sensibilidade, diversão ou dramas. Ao considerar o percurso dessa relação, as experiências do menino da doida assim como as do menino nos contos de Primeiras Estórias revelam o percurso das personagens rememorando sua história de vida e impressões da infância. Para Antonio Candido (2007, p. 54): “O enrêdo existe através das personagens; as personagens vivem no enrêdo. Enrêdo e personagem exprimem, ligados, os intuitos do romance, a visão da vida que decorre dêle, os significados e valores que o animam.”

É por isso que se compreende o menino como uma criança imaginativa que procura entender as coisas que acontecem e nos casos do “Menino” em Primeiras Estórias e do “menino da doida” eles apresentam importantes contribuições para a narrativa. Em As Filhas do Arco-Íris, o menino está sempre se questionando sobre os fatos estranhos que ocorreram nos arredores da vila. Quando Guabiraba conta-lhe uma história de assombração, ele acompanha sempre destacando certo ceticismo, deste modo sua convivência com os mistérios

Benzer Belgeler