2.2 Karar Ağaçları
2.2.5 Karar Ağaçlarının Budanması
No capítulo 2, identificamos quatro tipos de usos para o verbo FAZER discursivo: FAZER vicário, FAZER com complemento anafórico, FAZER com complemento catafórico e FAZER com complemento exofórico. Resta-nos primeiramente rever esta divisão e depois discutir, ainda que brevemente, a que construções essas manifestações integram e de que maneira isso ocorre.
Vejamos o primeiro subtipo identificado como FAZER vicário. Esse uso se dá quando FAZER substitui um verbo anteriormente expresso. Geralmente vem acompanhado do pronome oblíquo “o” ou do pronome demonstrativo “isso” ou de uma conjunção conformativa, por exemplo, “como”.
Podemos verificar esses casos em:
(156) FSP950414-002: Com a imprensa, em lugar de reproduzir um único exemplar manualmente, se o fazia, primeiro, às dezenas e, hoje, com o avanço das tecnologias, aos milhões. (Dado do corpus Linguateca).
(157) FSP950525-079: Não propus outras emendas porque já fiz isso antes da reedição da MP e elas foram aceitas», disse. (Dado do corpus Linguateca).
(158) FSP951217-053: «Estes gajos só sabem fazer guisados», disse um militar português, que preferiu ração de combate à comida dos uruguaios, como fizeram alguns brasileiros. (Dado do corpus Linguateca).
Nos exemplos, temos a substituição dos verbos “reproduzir”, “preferir” e “propor”. Se observamos a configuração das frases com FAZER, verificamos que elas mantêm o padrão sintático da Construção Transitiva Básica nos dois primeiros exemplos. No caso, do exemplo (158) o lugar do objeto não é preenchido por nenhum pronome. No entanto, o pronome oblíquo pode também ocorrer junto com o termo “como”. Vejamos esta ocorrência:
(159) FSP950728-112: «A Sombra da Dúvida», quarto filme da diretora francesa Aline Isserman, não apenas se arroga esse direito como o faz com convicção. (Dado do corpus Linguateca).
Nesse caso, tem-se novamente o FAZER substituindo um verbo (“arrogar”) mas agora acompanhado do pronome “o”. Isso quer dizer que o padrão sintático transitivo também ocorre com orações introduzidas por “como”.
Em português, o verbo FAZER e o verbo “ser” são os verbos vicários. Essa capacidade de FAZER substituir outros verbos reforça o caráter esquemático do verbo.
O outro subtipo seria o FAZER com complemento anafórico. No capítulo 2, ainda se propôs que esse complemento poderia ser elíptico recuperado pelo contexto ou preenchido por um elemento anafórico. Já questionado no segundo capítulo, este último tipo, na verdade, confunde-se com o tipo FAZER vicário, visto que, como se viu, nas ocorrências com o verbo FAZER vicário também aparecem elementos anafóricos como complementos:
(160) FSP950212-117: Eu pessoalmente, vivi o fenômeno do tédio de maneira patológica talvez, mas fiz isso porque queria me entediar. (Dado do corpus Linguateca).
Aqui temos o pronome “isso”, retomando toda a predicação anterior, mas também o verbo “fiz”, substituindo o verbo “vivi”; ou seja, o verbo FAZER é vicário. Nesses casos parece não haver separação entre FAZER e o elemento anafórico que retomam, juntos, a predicação anterior, por meio de operações de integração conceptual. Esses fatos nos levaram a tratar FAZER com complemento anafórico e o FAZER vicário como um tipo só.
Há, no entanto, os casos em que temos os pronomes relativos como elementos que retomam o sujeito ou o objeto de FAZER. Nesses casos, o verbo FAZER não é vicário, como nos exemplos:
(161) FSP940226-180: O baixista Karl Mueller diz que a banda deve tocar canções de seu próximo disco nos shows que faz no Brasil. (Dado do corpus Linguateca) (162) FSP940919-062: Nesta ocasião, os dois eleitos terão a chance de expor as propostas que fizeram aos eleitores, tentando implementá-las. (Dado do corpus Linguateca).
Nos exemplos (161) e (162), o pronome “que” é relativo, funcionando como sujeito da oração no primeiro exemplo e como objeto no segundo exemplo. Nos dois casos, o verbo FAZER não é vicário e desempenha a sua própria “função semântica” nas orações relativas. Isso quer dizer que ocorrências de FAZER em orações relativas se relacionam com as construções propostas anteriormente neste capítulo e, no que diz respeito ao comportamento de FAZER, podem se integrar a elas.
Um outro subtipo proposto no capítulo 2 foi o FAZER com objeto elíptico recuperável pelo contexto. Nesse caso, mesmo não se tendo o objeto realizado lexicalmente, ele pode ser identificado em orações anteriores. Há de se ressaltar que esse subtipo parece mais propenso a ocorrer na conversação espontânea do que em textos escritos no Português padrão77. Vejamos
um exemplo retirado das transcrições de conversação espontânea do corpus do GREF:
(163) L2: ice TEA... ((barulho de colherinha mexendo na xícara)) L3: esse Toddy é um Toddy especial que eu já te expliquei... num já? L2: “eu tive um coração...” ((cantando))
L3: quer que eu faço o resto... pra beber? L2: ô P.?
L2: por que que seu CD estragou?
L1: eu acho que é o... o... amplificador que estragou (164) L3: amplificador.
L3: escuta... quer que eu acabo de fazer? L1:quero... mas põe só um pouquinho de leite.78.
Nesses dois trechos, temos duas ocorrências de FAZER: na primeira, o verbo tem como complemento “o resto” que, na verdade é, o “resto de Toddy”; já, na segunda, FAZER está sem objeto explícito, mas esse objeto é facilmente recuperável e também se refere ao Toddy. Há vários exemplos desse tipo nas transcrições de conversação que investigamos79.
77 Essa afirmação poderá ser verificada na análise dos dados feita no capítulo a seguir. 78Transcrição do Banco de dados do GREF.
Apesar da semelhança na configuração sintática, esse tipo se difere da construção de objeto elíptico de “paciente privilegiado”, proposta na seção 3.3.3.2, porque o objeto elíptico aqui retoma um elemento mencionado em uma frase anterior. No entanto, mais uma vez, podemos atestar a premissa da Gramática de Construções de que as construções da língua se relacionam em rede.
Ainda como subtipos do FAZER discursivo, listamos, no capítulo 2, o FAZER com complemento catafórico e com complemento exofórico. O primeiro apresenta um complemento pronominal ou um outro elemento (por exemplo, a pontuação ou uma expressão adverbial ou uma pergunta cuja resposta venha em seguida) que estabelece a referência com termos posteriores. Já o subtipo FAZER com elemento exofórico seria aquele cuja expressão que acompanha FAZER tem referência a um “estado de coisas mais ou menos recuperável na situação sociocomunicativa” ou no “conhecimento de mundo” dos participantes do discurso. É muito comum isso acontecer com perguntas diretas ou indiretas com FAZER. Vejamos mais alguns trechos das conversações espontâneas:
(165) L1 éh... então voltando na semana... vamos fazer o seguinte...
eu vou pegar...
cê conhece este texto Sebastião Uchoa? ( )... L2 não... traz uma cópia pra mim
L1 éh... o livro é daqui::...
ta? eu vou trazer... e... vou colocar esses pontos pra você... procê escolher qual filme que vai...
ou qual ponto...80
No trecho acima, o verbo é complementado com o termo: “o seguinte” que se refere a toda a ação descrita posteriormente pelo locutor 1; ou seja, há uma relação catafórica. Já no próximo trecho, a relação parece ser exofórica, pois a referência só se estabelece pela situação comunicativa:
(166) L1 – com a M. só/ pra ajudar (...) só... pra lavar roupa... ficar com ela L2 – com a M. não vai te dar trabalho nenhum...
L1 – não...
L2 – que aí a M. vai fazer....
L1 – depois eu mando ela no final de semana embora... não precisa ficar aqui comigo né?81
80 Transcrição do Banco de dados do GREF. 81 Transcrição do Banco de dados do GREF.
Nesse exemplo, o complemento de FAZER não está explícito e nem é recuperável por algum elemento da conversa. Parece ser uma informação compartilhada pelos dois locutores e, é, desse modo, resgatada.
Tendo em vista as abordagens cognitivas apresentadas neste capítulo e os estudos cognitivos sobre anáforas e pronomes82, não há como negar que todos os tipos de FAZER
discursivo são construções resultantes de operações cognitivas complexas. Infelizmente, abordar tais operações extrapola os limites do nosso objetivo nesta tese e se torna inviável. Contudo, não há como negar também que as construções com FAZER discursivo têm uma configuração sintática relativamente previsível. Nos casos em que o complemento é preenchido com um elemento anafórico, catafórico ou exofórico, a configuração sintática é a da Construção Transitiva Básica. Nos outros tipos, a configuração sintática transitiva se mantém e o lugar- objeto é preenchido por um conteúdo alçado do próprio texto ou da situação de comunicação ou até mesmo do conhecimento de mundo partilhado entre os falantes. Isso quer dizer que a construção a que esses usos podem ser integrados é um tipo de construção ainda mais esquemática do que a Construção Transitiva prototípica, já que a semântica dos argumentos e até mesmo do predicador (no caso do FAZER vicário) só pode ser identificada nas instanciações específicas. Poderíamos nos atrever a propor a seguinte representação para a construção FAZER discursivo, em que o FAZER discursivo elíptico é uma construção herdada por subparte da Construção Transitiva com elemento fórico:
82 Estudos como os de Fauconnier (1985) abordaram a anáfora como consequência dos princípios da construção de um espaço mental no discurso.
Figura 22 – Construção FAZER Discursivo Construção de FAZER Discursivo + Elemento Fórico
Construção Discursiva de Objeto Elíptico
Fonte: Elaborada pela autora
Assim estaríamos reduzindo a nossa tipologia do FAZER discursivo para somente dois tipos de construções: a Construção Transitiva com elemento fórico e as construções de objeto elíptico recuperável.
Por fim, apesar de ter seus conteúdos semânticos serem variados, pois recuperam eventos ou situações que são expressos originalmente por meio de construções variadas, o fato de, em todos esses casos, as construções com FAZER manterem um padrão sintático a partir da Construção Transitiva Básica, é uma forte evidência para corroborar a ideia, já defendida por Machado Vieira (2003b, p. 902), de que esteja ocorrendo um processo de gramaticalização83
em que FAZER “já não pertence à categoria lexical de Verbo predicador, mas a uma categorial funcional com conteúdo discursivo-pragmático”.