Dalton Trevisan: um escritor moderno. Observemos bem: “moderno”, não “modernista”. Trevisan quis deixar isso bem claro em nota publicada na revista Joaquim quando Érico Veríssimo concedeu aos jornais de Curitiba uma entrevista em que o repórter fez uma referência ao “movimento modernista que se desenvolve no Paraná”:
Queremos esclarecer desde logo que rejeitamos essa classificação na qual o nome e o espírito de JOAQUIM se viram envolvidos.
Falar ainda hoje em movimentos “modernistas” dentro da gloriosa concepção que a seu tempo teve a Semana de Arte Moderna, de 1922, demonstra tal alheiamento do sentido de nossa evolução literária (nossa: da literatura brasileira) que torna impossível qualquer discussão sensata a respeito. Porque teríamos de começar explicando coisas elementares e felizmente não há tempo para isso.
O movimento de renovação intentado por JOAQUIM não tem ambições modernistas: tem ambições modernas. Os que puderem fazer essa distinção entre as duas palavras saberão o que isso quer dizer. (Joaquim, 1947, nº 11, p. 3)
O próprio nome da revista, Joaquim, já mostra a proposta estética de Dalton Trevisan aliada aos “novos”. Em todos os números, aparece a frase lema da revista: “Em homenagem a todos os joaquins do Brasil”. Neste sentido, o nome “Joaquim” passa a ser uma espécie de metonímia, podendo representar qualquer pessoa da nação (e percebemos que também fora dela), que esteja comprometida com o ideal dos “novos”. Uma segunda razão para o nome da revista é que volta à cena o tratamento dos problemas pessoais; os problemas gerais são vistos à luz das idiossincrasias do escritor, e os nomes das publicações acompanham a onda.
O ideal de Trevisan junto aos “novos” foi divulgado com base em três manifestos9: Manifesto para não ser lido (nº 1, p. 3), Manifiesto invencionista (nº 9, p.12) e Manifesto dos Novíssimos (nº 18, p. 4), este último do qual já
9 Os três manifestos na íntegra (Manifesto para não ser lido, Manifiesto invencionista e
falamos anteriormente, que estando publicado na Joaquim, mostra a adesão de Trevisan ao movimento.
O primeiro consiste em uma variedade de empreendimentos em que todos participem, sem separação da classe privilegiada e da menos favorecida, independente de serem senhores ou escravos, para que a arte não se reduza a luxo, não se esterilize, e seus atos não se tornem mais artificiais que humanos, enfatiza o artista marginal, a dialética (com a máxima de Ernest Cysarz: “História é um ato prático”) e o subconsciente.
O título, Manifesto para não ser lido, é curioso, pois é o primeiro texto com o qual nos deparamos quando abrimos a revista e, pensando que ele acaba assumindo a função de editorial, é impossível não ser lido. Todo manifesto costuma trazer no seu título a indicação do seu conteúdo, sendo assim, estaria nos propondo que não lêssemos não só o conteúdo do manifesto, mas o conteúdo da revista? Que não lêssemos o que lá estava sendo publicado? O que acaba acontecendo é que o manifesto em questão acaba por delinear, e muito bem, o pensamento dos “novos”, supracitado. Vale ressaltar que havia a defesa do artista marginal e pode ser esse o motivo para não ser lido. É composto por frases ou trechos dos escritores Rainer Maria Rilke, John Dewey, André Gide, Maiakovski, Sérgio Milliet, Otto Maria Carpeaux e Paul Verlaine.
O segundo, Manifiesto invencionista, foi mantido na revista em língua espanhola e publicado na primeira exposição invencionista, realizada no Salón Peuser, em março de 1946. Contra a natureza do belo, defendia a física da beleza. Afirmava que não há nada exotérico na arte e os que se dizem iniciados, são uns falsos. Contra a arte de elite, por uma arte coletiva. Contrapõe os surrealistas: ao tempo que diziam “matar a ótica”, dizem “exaltar a ótica”. Contra a abstração, defendem a arte concreta, uma estética precisa, uma técnica precisa, a função estética contra o “bom gosto”, a função branca: “Nem buscar nem encontrar: inventar”. Assinado por Edgar Bayley, Antonio Caraduje, Simón Contreras, Manuel O. Espinosa, Alfreto Hlito, Enio Iommi, Obdulio Landi, Raúl Lozza, R. V. D. Lozza, Tomás Maldonado, Alberto Molenberg, Primaldo Monaco, Oscar Núñez, Lidy Prati, Jorge Souza e Matilde Werbin.
Na tentativa de valorizar a província, no sentido de trazer uma consciência mais exata da verdadeira grandeza do Basil e das fontes dessa riqueza, Dalton pintou um grande painel de Curitiba e, conseqüentemente, do Brasil. A cidade que Trevisan pinta é bem diferente, segundo ele mesmo, em artigo chamado Minha cidade10, da Curitiba “para turista ver”:
Curitiba, a das ruas transversais, onde virgens patéticas se estiolam à janela na espera de seu príncipe encantado, que passou agora mesmo de bonde, - da humilde zona da Estação, em que à noite humanidade desconhecida nasce das sombras afim de beber cachaça, se amar nas casas de tolerância e morrer de faca, veneno e fogo, - das campanhas eleitorais dos estudantes, onde se borram de cal e folhetos todas as lojas da rua 15 e para mostrar que não é Brasil, ganha sempre o partido da oposição, - das crônicas sociais do Eolo, que as mocinhas lêm com a mão posta sobre o coração, - a Curitiba dos cafajestes, cafetinas e fanchones, esta Curitiba eu canto.
[...]
Curitiba, sem pinheiros ou céu azul, pelo que tu és – província, cárcere, lar – esta Curitiba, e não a outra para o turista ver, com amor eu canto. (Dalton Trevisan, Joaquim, 1946, nº 6, p. 18)
As personagens escolhidas por Dalton Trevisan, normalmente são aquelas oprimidas, do mundo marginal. São elas ”a representação de um mundo que é o nosso, mas que o nosso desejo rejeita”. Segundo Berta Waldman (1982, p. 3), “o autor opta por oferecer uma visão negativa de nossa história, aquilo que ela tem de falho, sofrido, desastroso, segmentado e seriado, pondo em cena a própria dissolução do mundo”. Só trabalha com o “osso da linguagem”: é sincopada, elíptica. Suas narrativas são cheias de clichês, que, se por um lado é “fala falida”, pois trata-se de um discurso elaborado por outrem, por outro é na exploração deles que Dalton faz sua crítica e sua literatura, o que Bakhtin chamou, como vimos, de discurso paródico-estilizante.
Escreve uma narrativa “cuja meta é o silêncio, espaço onde as pessoas se destroem, onde os vampiros vivem”. Trata-se do “discurso-vampiro”, em que “a imagem conta, ela mesma, a história que pretende se apagar, desaparecer,
para deixar em seu lugar simplesmente o que designa e, desse modo, quem sabe, relevar com maior ênfase, sem a mediação da palavra, a realidade vampirizada” (WALDMAN, 1982, p.13). Nelsinho pode ser qualquer um, pois, segundo Trevisan: “- Só invento um vampiro que existe”. E ainda mais: “- Vampiro, sim, de almas. Espião dos corações solitários. Escorpião de bote- armado, eis o contista”.
Percebemos, portanto, que há uma semelhança entre o pensamento dos “novos” e a paródia: ambos se valem de obras do passado, não para repeti-las, mas para recriá-las, sem que isso tenha, necessariamente, um caráter depreciativo da obra parodiada.