Como pode-se perceber a participação comunitária é uma das marcas das escolas Xacriabá, evidenciada em diferentes práticas, até aqui apresentadas e muito presente na fala das pessoas entrevistadas. Eles revelam que a comunidade participa na escolha do professor, na escolha do diretor, na escolha da serviçal, na construção do currículo escolar.
O que eu observo que é marca é a participação efetiva da comunidade, na escolha do professor, na escolha do serviçal. A escola indígena tem uma relação direta com a comunidade. Eu observo isto fora em outras escolas e vejo que é totalmente diferente. Agora muita coisa é padronizada, o jeito de ensinar, os livros que são usados aqui fora são os mesmos que são usados lá dentro. Agora eu vejo que já estão começando a fazer um pouco diferente. Porque os professores estão fazendo pesquisa, mas é uma pesquisa muito distante ainda do que é objetivo principal da escola indígena que é ser uma escola diferenciada. Traz os mais velhos para dentro da sala de aula, traz o artesanato, que eu acho que é uma coisa que a escola tem que encarar com mais vontade, como um meio de subsistência das próprias famílias, que a escola pega aluno de todo jeito: aluno que é filho de funcionário, aluno que tem condição de vida melhor, aluno que não tem condição. E eu acho que a escola tem que pensar numa alternativa de vida desde as séries iniciais. A perspectiva de vida dos alunos é entrar na escola e quando formar e ser um professor ou ser um agente indígena de saúde que são os empregos mais, mais ...
Rentáveis?
É , que tem na comunidade. Então eu vejo assim que tem muitas alternativas que tem como a escola implementar na vida da comunidade e isto não se cumpre como para marcar a diferença da escola. (Marcelo)
Ao analisar esta questão, Alvarez Leite chama a atenção para sua dimensão política. Para esta autora,
Los Xacriabá pasan a ver esta institución como espacio publico, em el que todos puedem y deben participar. En este sentido, por lo que que he investigado, no hay uma contradicción entre escuela pública y escuela indígena. En ningún momento, he percebido algun tipo de reivindicación en que esta escuela deje de ser pública. Primero, porque todos son bastante conscientes de los benefícios sociales
añadidos a la presencia de una institución publica en la reserva. Segundo, porque en su lucha por tener derecho, depositam en el Estado la responsabilidad de garantizar estos derechos. También se puede notar, en este proceso, el valor que dan al conocimiento académico y la importancia de dominarlo, para utilizarlo en sus interesses. (2000, p.459)
Contudo, há que se perguntar, quais as demandas que esta intensa presença da comunidade traz para as direções das escolas?
Observa-se que, do ponto de vista interno, faz-se necessário uma grande capacidade de mediação, de forma a garantir disposições que contemplem a maior diversidade possível de grupos familiares. Nesse caso, a direção é chamada a atuar em defesa das disposições comunitárias e, muitas vezes, a atuar em situação de disputas, não como um árbitro que dispõe na ausência de regras, mas como negociador que abre canais de participação para que as posições sejam explicitadas e resolvidas.
Neste sentido, a epígrafe adotada para este capítulo refere-se a um episódio que ilustra bem esta disposição. “O povo sabe dos seus direitos e não vai deixar que dois ou quatro resolvam o que tem que ser resolvido com a comunidade.”
Com esta afirmação, uma das pessoas entrevistadas concluiu sua entrevista. Neste dia, ela estava acompanhada de uma nova aluna do curso de formação de professores indígenas, que tinha se iniciado em novembro do ano anterior. Em nossa conversa, pergunto sobre a escola da sua aldeia. Ela me conta que a antiga professora tinha deixado a escola e que estava lecionando em outra aldeia. Tinha criado uma escola para ela em outra aldeia. Desde então, na Barra do Sumaré tem duas escolas.
Diante desta informação, pergunto por que uma professora tão antiga daquela aldeia, que lá estava antes mesmo da implantação das escolas indígenas tinha deixado a escola. A nova professora e seu irmão tentaram me explicar os conflitos que tinham permeado o processo de escolha dos professores estudantes da terceira turma do curso de formação de professores indígenas e o conseqüente esvaziamento da escola do Sapé, particularmente da turma da professora estudante selecionada.
De acordo com estas pessoas, todos estes problemas estavam ligados ao terceiro processo de escolha dos professores que, na aldeia do Sapé, havia gerado muita controvérsia e que, portanto, ainda estava sendo negociado.
Este mesmo episódio foi narrado por José Reis ao descrever sua rotina, nada rotineira, de trabalho ao longo de uma semana, para acompanhar a escola.
Segunda-feira, eu estava em reunião em uma aldeia, na aldeia Sapé. Eu estava lá em reunião. Por que lá tem um professor novo que entrou agora nesta terceira turma e a gente foi lá conversar com a comunidade. Tem uns alunos dessa aldeia Sapé que estão estudando na Barra do Sumaré II e a comunidade está querendo que este professor que entrou agora já pegue estes alunos pra trazer para a comunidade. Porque está tendo um probleminha com a primeira professora que foi escolhida lá, também desta terceira turma, e aí tem uns pais que não estão concordando que estes alunos estudem com esta professora. A gente já fez uma reunião lá, conversou com os pais e não teve solução para eles trazerem os alunos para cá.
Mas não foi a comunidade que escolheu?
Foi. No dia que a gente fez a escolha lá, teve uns problemas e começou a ter até uma briguinha na comunidade. Estavam Augusta e Verônica também e acabou a gente não decidiu bem com a comunidade. Então, aí, trouxe cá pra sede, e vieram algumas pessoas da comunidade45, aonde ela (Regina) ficou escolhida, esta
menina. Então muitos dos pais desta comunidade não concordaram com esta escolha que foi feita e acabou tirando os meninos da escola e levando para outra escola. Aí neste outro módulo do curso, foi um dos meninos (candidatos) destes que a comunidade estava apoiando. Aí como tinha uma outra aluna do curso, a Natália, que já estava dobrando por causa destes outros alunos (do Sapé) que foram pra lá (Barra do Sumaré II), e como ela tinha que fazer estágio também com os outros professores, e estava dobrando (trabalhando com duas turmas), a gente achou por bem, contratar outro professor para trazer estes alunos para cá (Sapé) (José Reis, agosto de 2005).
Como conseqüência da não aceitação da professora escolhida, as famílias não permitiram a freqüência das crianças. Em outras situações, pude observar este mesmo movimento. Quando as famílias não aceitam o(a) professor(a)
45
De acordo com José Reis nesta reunião na sede participaram: todos os candidatos à vaga de professor estudante; a família da candidata; a professora do Sapé que era também mãe de uma das candidatas; A liderança que responde pela aldeia Sapé; O vice-diretor e o próprio José Reis que é o diretor da escola.
ou há sérios questionamentos quanto à sua prática, esvaziam as salas de aula. Neste caso, não está colocada nenhuma suposição de divergência frente ao modelo da escola indígena. O que se tem é uma discussão das famílias sobre quem educa quem. Estes episódios, se inicialmente causam desconfortos às direções escolares e não raramente a algumas lideranças e representantes, parecem não desmobilizar estes atores, que se implicam nos diferentes níveis em infindáveis reuniões - para quem as observa - até que uma nova alternativa seja encontrada. Entendo ser esta questão tão importante, que mereceria por si só um estudo especial. Dentro do universo observado, não pareceu haver nenhum sentido privatista nesta ação, ao contrário, pode-se captar uma prática de gestão das famílias, por meio de um ato político para dar visibilidade às suas posições. Neste caso, não é mais uma gestão das direções, mas uma prática de gestão das famílias, exercida, muito mais do que partilhada.
Na escola pública brasileira, de modo geral, perspectivas como estas ainda não se tem colocado em questão. Quais sejam, que vínculos deve ter o(a) professor(a) com as comunidades e famílias onde estão inseridas as escolas? Quem tem o direito de dispor sobre a contratação e demissão de professores e em quais momentos. A idéia de escola pública, tal como se tem, guarda no mais das vezes, tais prerrogativas para os órgãos centrais de gestão do sistema, sob a prerrogativa de tratamento da coisa pública sob o importante princípio da impessoalidade e igualdade de oportunidades. Neste caso, todas as pessoas tem as mesmas condições de concorrer a uma vaga no serviço público. Todavia, parece que pouco ainda se tem a dizer sobre o direito das famílias de interferir nos processos educativos de seus filhos (as), quando as instituições escolares e ou alguns de seus profissionais não correspondem aos interesses comunitários.
Nesse contexto, os Xacriabá parecem estar cada dia mais conscientes da eficiência de algumas ações para demarcar suas posições políticas, nas relações internas e externas ao território. Neste sentido, o esvaziamento das salas de aula tem se caracterizado como uma ação organizada das famílias para garantir o direito de escolher e definir por quanto tempo tal professor ou professora pode continuar a educar seus filhos.
Outro exemplo, que cabe aqui discutir, diz respeito à denúncia feita por um professor indígena contra um dos (as) diretores (as) das escolas, por não
concordar com o corte de ponto que lhe foi imputado, por não ter participado de uma reunião na comunidade, tendo em vista que os professores (as) foram liberados para tal. Anteriormente, questões desta natureza eram resolvidas em fórum interno de discussão, com participação de professores, comunidade e lideranças. Neste caso, pela primeira vez, ao que parece, a opção foi recorrer à estrutura administrativa estatal. Daí a pergunta, por que os mecanismos locais de resolução de conflitos foram relegados ao segundo plano? Será um caso isolado, sem maiores repercussões?
Do ponto de vista externo, um outro conjunto de dados significativos diz respeito à diversidade de papéis e funções, em particular quanto às diferentes modalidades de atuação das direções das escolas ao buscar responder às demandas colocadas pelos órgãos de gestão do sistema, passando por questões mais simples a outras de maior complexidade, como já demonstrado na questão do Censo Escolar. Um bom exemplo relatado por José Nunes é a impossibilidade de liberação do professor para receber pagamento.
O próprio sistema de educação tem critérios que o estado aplica até para penalização das pessoas que trabalham ali é difícil implantar ali, para uma comunidade indígena, com jeito e hábitos diferentes. Os critérios do estado são muito generalizados, nunca pensou num critério que atendesse a realidade para cada povo, para cada segmento. Às vezes chega alguma coisa que te deixa em uma situação delicada.
Você consegue dar um exemplo?
Por exemplo, o professor não pode faltar um dia de aula. Você acha que ali dentro do território, por exemplo, tem a escola e a cidade que está há mais de 20, 40 km. Como é que o professor vai receber pagamento, em Itacarambi ou Manga que é onde tem banco, como ele vai fazer a feira dele sem faltar um dia. Isso demanda um dia, não tem jeito. Então por exemplo como é que você vai pensar em botar falta para esse professor nesse dia, não tem jeito. Esse é um dos exemplos (José Nunes)
Deixando por um momento de lado a questão das condições de trabalho destes profissionais já tratadas anteriormente, pode-se destacar do depoimento acima, as contradições vividas pelas direções das escolas ao buscar formas alternativas de administrar a escola, num contexto sócio-cultural diferenciado e contra um pano de fundo de um Estado normalizador da ordem e do poder de alguns poucos.