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KARABAHTLI KARDEŞLERİN BİTMEYEN ŞEN GÖSTERİSİ

TÜRK TİYATRO YAZININDA ANLAT

TÜRK TİYATRO YAZININDA ANLATIYA YÖNELEN ÖRNEKLER

3.1. KARABAHTLI KARDEŞLERİN BİTMEYEN ŞEN GÖSTERİSİ

No enfrentamento desse amplo conjunto de questões, vistas como ver- dadeiramente estruturais, a burocracia do Estado Novo contou com a parti- cipação efetiva de setores empresariais, entre os quais os de São Paulo, reu- nidos no Instituto de Organização Racional do Trabalho (Idort). Desde os anos 30, quando foi organizado, o Idort patrocinava pesquisas realizadas pela Escola Livre de Sociologia e Política, ela mesma uma instituição criada sob os auspícios de políticos e empresários paulistas, após a derrota da Revolução Constitucionalista de 1932. Realizadas em 1934, 1936 e 1942 — esta última também custeada pela Fundação Rockefeller — tais pesquisas vinham de- monstrando, cientificamente, as precárias condições de vida dos trabalhado- res brasileiros e seus desdobramentos para uma melhor produtividade do tra- balho, ou seja, para o desenvolvimento industrial do país.

Especialmente no caso da pesquisa de 1942, cujos resultados foram amplamente divulgados no mês de abril, as conclusões eram que o trabalha- dor morava mal, mas que o item que mais consumia seu salário era o da ali- mentação.18 É interessante observar a verdadeira cascata de medidas então implementadas, só compreensíveis, inclusive, pela conjuntura política de en- trada do Brasil na II Guerra e de seu alinhamento com os EUA, o que produ- ziu uma inflexão no discurso estado-novista, voltado para o que se chamou de “convocação para a batalha da produção”.

A título de demonstração e também de ilustração do alcance desta in- vestida na área da política social, vale a pena acompanhar de perto alguns acontecimentos. Ainda em fevereiro de 1942, o Idort abriu uma “campanha em prol da construção de casas econômicas”, em São Paulo, iniciativa que ti- nha precedentes na “liga nacional contra o mocambo”, de 1939, bandeira das preocupações do interventor Agamenon Magalhães com as condições de mo- radia da população da cidade do Recife.

17 Métall, 1943.

18 No Boletim do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, BMTIC (103), mar. 1943 — por-

tanto, um ano após a divulgação da pesquisa — há dados que avaliam que 52% do salário médio de um trabalhador brasileiro era gasto com alimentação.

Em maio do mesmo ano, o Idort, associado ao governo de São Paulo, promoveu a “jornada científica do trabalho na administração municipal”, tendo como seu público privilegiado os prefeitos do estado. Em setembro, or- ganizou a “jornada de alimentação” e, um mês depois, o Instituto de Aposen- tadorias e Pensões dos Industriários (Iapi) anunciou a entrega do primeiro restaurante popular por ele construído ao Serviço de Alimentação da Previ- dência Social (Saps). Na ocasião, o presidente do Iapi elogiou não só o de- creto-lei que instituía o Saps, como aquele que tornava obrigatória a constru- ção de refeitórios em estabelecimentos com mais de 500 empregados.19

Ainda antes do término do ano de 1942, em dezembro, o governo fe- deral noticiou a criação do Serviço de Subsistência, cujo objetivo era oferecer mercadorias abaixo do preço de mercado às famílias trabalhadoras, ultrapas- sando as fronteiras da fábrica como espaço de ação educativa, na medida em que chegava à casa e família operárias. Assim, segundo os termos da propa- ganda estado-novista, Vargas estaria fazendo do Brasil “um lar imenso”, e do Estado, um “Estado-Previdência”.20 Não foi casual, portanto, que o próprio Vargas, em julho de 1943, inaugurasse o restaurante popular destinado aos es- tivadores e que ele estivesse instalado na sede do sindicato, mas fosse aberto a todos os trabalhadores, sindicalizados ou não. Ou seja, que freqüentando o restaurante o trabalhador conhecesse o sindicato e a ele viesse se filiar.

Nesse sentido, se o ano de 1942 fora o da “batalha da produção”, tendo como objetivo a mobilização dos trabalhadores sob o lema “trabalho e vigilância — uma hora roubada ao trabalho é uma hora roubada à pátria”, o ano de 1943 seria o do “trabalho e sindicalização”. Tratava-se, explicita- mente, de tornar o sindicato “a casa do trabalhador”, e a criação do imposto sindical é, sem dúvida, a iniciativa-chave para tornar realidade esse objetivo governamental.21 No caso, ele devia se traduzir tanto pelo aumento do nú- mero de trabalhadores sindicalizados, quanto pelo aumento da freqüência às sedes dos sindicados. A questão do associativismo do trabalhador brasileiro estava, portanto, sendo pensada em conjunto com outras questões de ime- diato impacto material, como as da moradia e alimentação, reconhecidas como fundamentais e responsáveis pelas altas taxas de mortalidade e pela baixa produtividade da população brasileira.

Com essas constatações, o regime assumia que muitas doenças em nos- sas cidades se propagavam pelas más condições de higiene das moradias popu- lares, o que tornava o trabalhador revoltado e “preguiçoso”. Assumia também que a casa própria e a alimentação adequada eram aspirações legítimas do tra- balhador, que só tinha em vista o bem-estar e a segurança de sua família.

19 Conferência de Plínio Reis Catanhede de Almeida, presidente do Iapi (BMTIC (98), out. 1942). 20 “Depois de proteger o operário em seu trabalho, o governo entrega à sua família alimento

sadio e barato” (A Manhã, 4-12-1942. p. 9).

Implementar tais políticas era uma questão relevante para o Estado porque implicava a promoção da tranqüilidade coletiva e do amparo à famí- lia. Essa era a base econômica e moral do homem, seu meio específico de vida. Se o Estado voltava-se para o homem, era pela família que ele o atingia mais profunda e rapidamente. Dessa forma, era pela família que o Estado chegava ao homem e este chegava ao Estado. Ela era a “célula política pri- mária”, o leitmotiv do esforço produtivo dos indivíduos. Casa e família eram praticamente uma mesma coisa, donde os esforços das instituições de previ- dência social no setor habitacional. A preocupação com a família era, por- tanto, uma questão central à proteção do homem brasileiro e ao próprio pro- gresso material e moral do país.22

Por fim, uma política de proteção à família e ao trabalho — ao homem do presente e do futuro — tinha que dar ênfase especial à educação.23 Só pelo ensino se poderia construir um povo integral, adaptado à realidade so- cial de seu país e preparado para servi-lo. A intervenção do Estado Novo, fi- xando os postulados pedagógicos fundamentais à educação dos brasileiros, ti- nha em vista uma série de valores dentre os quais o culto à nacionalidade, à disciplina, à moral e também ao trabalho.

“A Escola Brasileira Nacionalizadora, adaptando-se às necessidades de- correntes da época e respeitando os princípios fundamentais do Estado Nacio- nal, tornou-se a Escola do Trabalho, da iniciativa e da fortaleza moral. Ela não só adestra a mão do futuro operário, como lhe educa o cérebro e forta- lece o corpo (...). O trabalho na escola brasileira constitui um verdadeiro sis- tema pedagógico (...).24

Constituindo um sistema pedagógico completo, o “trabalho” como ideal educativo podia ser sintetizado na fórmula “aprender fazendo”, sendo implan- tado por medidas como a adição dos trabalhos manuais nas escolas e a difusão e valorização do ensino profissionalizante. O ano de 1942 é crucial nessa área de intervenção estatal. Ele assinala tanto a grande reforma do ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, pela qual o ensino secundário torna-se uma realidade no país, quanto a criação do Serviço Nacional de Ensino Indus- trial (Senai), sob a égide do ministro do Trabalho, Indústria e Comércio, Ale- xandre Marcondes Filho, e com total envolvimento empresarial. Ensino secun-

22 Sobre a questão da habitação, ver Alencar (1943) e Cultura Política (33), out. 1943 (O Estado

Nacional e o problema das casas operárias). Sobre a política do Estado Novo em relação à famí- lia, ver Schwartzman, Bomeny & Costa, 1984.

23 Foram contundentes as conclusões da pesquisa realizada em São Paulo em 1942 e já mencio-

nada. Por ela, verificou-se que os operários industriais desse estado tinham um rendimento sala- rial maior que os de outros trabalhadores do país mas, que a despeito disto, possuíam os mesmos “hábitos de vida impróprios”. O problema não era, portanto, meramente econômico, sendo a educação apontada como o único e verdadeiro instrumento para uma profunda transformação na classe trabalhadora e no país.

dário e ensino profissionalizante, não equiparáveis — contrariando os desejos de educadores do grupo da Escola Nova —, traduziam uma negociação difícil entre projetos educacionais, entre setores empresariais e entre esferas de po- der da burocracia do Estado.25

Mas o esforço educativo do Estado Nacional ultrapassava as fronteiras do ensino formal, engajando-se numa ampla dimensão cultural de valoriza- ção e de preocupação com a ciência e a arte nacionais.26 Neste último as- pecto, é particularmente interessante a atenção que vai ser dada às manifes- tações identificadas como “populares”, tivessem elas a classificação de “fol- clóricas” ou não.

A atuação do Estado para com a arte popular destacava-se, por exem- plo, pelo reconhecimento do valor e do “poder de sugestão” da música, sendo os efeitos da nova política social sentidos em um grande número de composi- ções. Até então, como se observava, os sambas tinham como temática recor- rente o elogio à malandragem, caracterizando o trabalho como um longo e pe- noso sofrimento. O malandro do morro — “o enquistamento urbano do êxodo das senzalas” — que repudiava o trabalho era o herói do cancioneiro popular. Mas tal panorama vinha-se modificando pela presença das leis que re- conheciam os direitos dos trabalhadores e pela política de derrubada das fave- las e dos mocambos. Surgiam dessa nova perspectiva personagens que se em- pregavam em fábricas e outros afazeres. Assim, o primado do trabalho, reco- nhecido pelo Estado, chegava também à voz dos compositores populares sob o estímulo e censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).27 O contato entre o DIP e os compositores era realizado por Heitor Villa-Lobos, e o próprio Getúlio instituíra a prática de convidar cantores e músicos para as re- cepções que oferecia no Palácio do Catete. O rádio e a música popular eram, dessa forma, instrumentos valiosos na estratégia política estado-novista.

No caso do rádio, uma iniciativa merece atenção especial. Desde 1934, Vargas criara um programa oficial — inicialmente a “Voz do Brasil” e, em se- guida, “Hora do Brasil” —, no qual se transmitia uma programação centrada nas “realizações políticas” de seu governo. Porém, a partir da posse do minis- tro do Trabalho, Indústria e Comércio, Alexandre Marcondes Filho, em ja- neiro de 1942, esse programa passou a irradiar, semanalmente, uma palestra do próprio ministro, na qual ele se dirigia coloquialmente aos trabalhadores. “Falando aos trabalhadores brasileiros” tinha como objetivo básico divulgar a

25 Sobre essa complexa negociação há razoável literatura. Como fontes, são valiosos os números

do BMTIC: nº 93, maio 1942; e nº 97, set. 1942, onde há ilustrativo discurso do empresário Euvaldo Lodi, quando da inauguração do Senai.

26 “O Estado Nacional, que visa construir o povo brasileiro, tendo um sentido integral, tem, neste

incluído, um sentido estético. Quer pois, não só o justo, o bom, o verdadeiro, mas ainda o belo.” (Figueiredo, 1943:56-7.)

27 Sérgio Cabral (1975) dá alguns exemplos de samba que exaltam o trabalho. Ver também Vas-

grande obra trabalhista do presidente, explicando aos diretamente interessa- dos seus novos direitos. Devia ser um canal de comunicação privilegiado, rá- pido e sem intermediários, entre o povo e o presidente/Estado.

Sistematicamente iniciadas em 16 de outubro de 1942 — pois precedi- das de uma série de 10 discursos —, tais palestras se prolongaram até 29 de ju- lho de 1945, quando o clima político nacional estava inteiramente tomado pela sucessão de Vargas e pela realização de eleições, ou seja, pelo término da ex- periência estado-novista. Totalizando dois anos e oito meses de duração contí- nua, o programa abarcou um conjunto de 119 falas ministeriais voltadas para um elenco de temas sugestivo, como se pode ver no quadro que se segue.

Além de veiculadas pelo rádio, tais falas eram publicadas no jornal ofi- cial do Estado Novo, A Manhã, e no BMTIC. O lugar estratégico que essa ini- ciativa assumiu pode ser avaliado pelo enorme investimento que significava o

“Falando aos trabalhadores brasileiros”

Tema predominante da palestra Nº de palestras

Sindicalização Vargas e sua obra A legislação do trabalho O cidadão-trabalhador O momento internacional A Constituição de 1937 O novo Estado Nacional O novo direito social

As relações empregadores/empregados A questão do emprego e do desemprego A indústria e comércio no Brasil O MTIC e suas realizações A alimentação do trabalhador Concursos e outras iniciativas do MTIC A legislação previdenciária

A Justiça do Trabalho

A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) O salário mínimo A sucessão de Vargas 13 11 10 10 10 9 7 7 5 5 5 5 4 4 4 3 3 2 2 Total de palestras 119

comparecimento semanal de um ministro a um programa radiofônico e o en- volvimento de seu staff na preparação dos textos e em sua divulgação. Con- tudo, o aspecto central a ser registrado aqui, é o do enredo contido em todas as transmissões, não importando qual o tema mais específico que envolviam. Tratava-se de estabelecer um vínculo político profundo entre o presidente Vargas — responsável pessoalmente pela grande obra antecipatória do direito social brasileiro — e o povo/trabalhador que, tornado são e bem-educado, era o principal responsável pela riqueza e grandeza do país. Ou seja, em to- dos os discursos ressaltavam-se as virtudes excepcionais do presidente — guia e “pai dos pobres” — e as qualidades do cidadão brasileiro, elogiado por sua operosidade e dedicação ao trabalho. A uni-los, através do tempo, estava a “doação” da legislação social, que instaurava a obrigação do reconhecimento do povo ante “seu” presidente, conformando tal contrato político como uma legítima adesão e não como uma mera submissão à força do Estado.

O poder mobilizador presente nessa longa e praticamente única fala pode ainda ser ilustrado e reforçado por um conjunto de comemorações fes- tivas e de concursos patrocinados pelo MTIC nesse período. No primeiro caso, vale destacar o dia do aniversário de Vargas (19 de abril); o dia do aniversário do Estado Novo (10 de novembro); e o dia da Independência do Brasil (7 de setembro). Com muito mais destaque, porém, estava a comemoração do Dia do Trabalho (1º de maio), quando Vargas, ritualmente, encontrava-se com o povo para anunciar mais uma espetacular medida no campo do direito social: o presente da festa. No segundo caso, é interessante registrar o “Concurso de literatura proletária” (1942) e os concursos para a escolha da “Canção do Tra- balhador” e da “Cartilha de alfabetização do operário adulto” (1944).

Todos esses exemplos demonstravam o esforço conjunto desenvolvido pelos trabalhadores e pelo presidente, traduzindo a harmonia social alcan- çada, bem conforme, aliás, à índole cordial do homem brasileiro. Era essa perfeita sintonia — entre a clarividência de Vargas e as qualidades reconhe- cidas do povo — que o Estado Novo objetivava e considerava estar reali- zando.