Há uma outra dimensão do poder judiciário que se inte-relacionava com a sociedade civil: a dos mecanismos de controle social. No Brasil, e particularmente na província de Minas Gerais esta dimensão social foi posta em pratica tanto em nível institucional como em nível social, no nível da práxis. Em três agudos momentos da dinâmica da vida podemos observar esses mecanismos institucionais e sociais sendo praticados: no campo eleitoral, no campo político-partidário e no da distribuição de funções e cargos administrativos das instituições. Todos esses campos guardam entre si relações de conexão e independência, isto é, são interdependentes. Fazer justiça com as próprias mãos a partir do século XIX passou a ser condenado pelo Estado, pela sociedade civil e pelas instituições componentes do Estado; assistimos a partir desse momento a uma mudança e transformação social nos costumes e hábitos das populações nacionais: a passagem da vingança privada para o controle público dos conflitos sociais. Alçamos da esfera privada para a esfera pública de ofertas e demandas dos recursos socioeconômicos, sócio-culturais e sócio-políticos. Norbert Elias define esse de monopolização de ofertas e demandas de recursos sócio-históricos como “processo civilizador”72
Os Relatórios de Presidentes de Província de Minas Gerais insistiam veementemente em ressaltar os baixos índices de violência e criminalidade na província, nos anos finais do período
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ELIAS, Norbert. O processo civilizador: formação do Estado e Civilização. v. 2. trad., Ruy Jungmann. Revisão, apresentação e notas Renato Janine Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
regencial. Pode-se constatar essa argumentação no relatório, ou melhor, na “Fala Dirigida à Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais, na Sessão Ordinária do ano de 1837”, do Presidente da Província Antonio da Costa Pinto, que no item “Tranqüilidade Pública” afirmava:
Em todo o decurso do ano proximamente findo, e até o presente não tem sido alterada a tranqüilidade geral da Província; é tal a índole do povo mineiro, advertido, além disso, pela experiência do que se tem passado em outras partes do Império, que à este respeito nada há a temer. Posso mesmo asseverar, que os crimes de todas as classes tem diminuído; e com quanto não me considere habilitado para fazer notar a verdadeira causa deste resultado agradável, presumo com tudo, não sem motivo, que, em grande parte, ele é
devido ao recrutamento, que fazendo desaparecer das Povoações alguns ociosos, que, com
seus vícios, e imoralidade as inquietavam, os tem compelido a ocultarem-se, havendo-se conseguido a prisão de outros, que conduzidos à Corte, podem ser ainda úteis à Nação, corrigidos pela severidade da disciplina militar.73
Era uma dupla estratégia colada em ação pelo governante para não alarmar os habitantes da província. Por um lado, era uma estratégia de autodefesa dos representantes públicos da província que visava não atrair sobre si a responsabilidade da inoperância das forças policiais públicas, e de um modo geral, das limitações do poder judiciário em reprimir e controlar parcela da população considerada ociosa, viciada e imoral. Por outro lado, manifestava-se como uma atitude administrativa de prudência em não assumir as limitações e deficiências dos aparelhos de repressão e controle da criminalidade e da violência na província. Era uma atitude, essencialmente, contraditória e ambígua, mas um ato de responsabilidade do poder.
A responsabilidade e a prudência eram duas atitudes que ajudavam a preservar a autoridade dos poderes públicos perante a sociedade civil mineira. As atitudes são confirmadas pelo próprio relatório em que Antonio da Costa Pinto confessava as limitações do poder judiciário: a morosidade dos juizes de paz, a necessidade de construir e conservar as cadeias, a importância de fornecer informações exatas acerca do número de praças, da situação de municiamento, fardamento, equipamentos e armamentos, a necessidade de uma maior observância das leis e dos rituais do código de processo criminal, enfim, o presidente da província mineira exortava aos senhores deputados provinciais especial atenção a estes problemas enfrentados pela administração. Por exemplo, quando Antonio da Costa Pinto reclamava uma observância estrita dos juízes de paz das leis e dos rituais do Código de Processo Criminal tornava-se evidente a intenção de demonstrar uma postura de responsabilidade dos poderes públicos, mas também deixava transparecer as deficiências e limitações do poder público em cumprir suas responsabilidades, dizia o presidente:
Os Juizes de Paz, como tereis observado, mal se dão ao cumprimento de seus deveres, ou eles tenham por objeto a prevenção dos delito, ou o descobrimento dos criminosos. Sem
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Falla dirigida à Assembléa Legislativa Provincial de Minas Geraes na Sessão Ordinária do Anno de 1837 pelo Presidente da Província Antonio da Costa Pinto. Ouro Preto: Typographia do Universal, 1837. p. 3.
pretender, que sejão as melhores, e as mais adaptadas às circunstancias do Paiz as nossas Leis Policiaes, parece-me com tudo indubitável, que muitos crimes se terião evitado, se os Juizes de Paz, por meio dos Inspectores de Quarteirão, e de seus Officiaes de Justiça, se informassem à respeito das pessoas, que vem de novo estabelecer-se em seus Districtos, e se não consentissem, que por eles vagassem indivíduos, sem uma ocupação, honesta, e útil. Não menos negligentes muitos delles se tem mostrado nos processos de formação de
culpas, que aparecem tão cheios de irregularidades, que os juizes de Direito se tem visto
obrigados à mandá-los reformar, ou quando submetidos ao júri de acusação, estes os declara improcedentes, ficando desta sorte impunidos não poucos criminosos.74
O presidente chamava atenção para diversos aspectos das competências e atribuições que os juizes de paz deveriam ter para o adequado funcionamento da justiça, e reclamava melhoria em nossas “Leis Policiaes”. Primeiro adverte que os juizes de paz “mal se dão ao cumprimento de seus
deveres” negligenciando “a prevenção dos delitos, ou o descobrimento dos criminosos”. Além de não
realizarem a prevenção e a busca e apreensão dos criminosos, quando eles eram capturados os juizes agiam de modo “não menos” negligente “nos processos de formação de culpas”, isto é, o presidente revela a precária formação técnica dos juizes de paz, o que muitas vezes resultava em processos “tão
cheios de irregularidades, que os juizes de Direito se tem visto obrigados à mandá-los reformar, ou quando submetidos ao júri de acusação, estes os declara improcedentes, ficando desta sorte impunidos não poucos criminosos”. Tudo isso revela, neste como em outros casos, três elementos
importantes para compreender o funcionamento da justiça no século XIX: carência de recursos, negligência técnica e funcional.
O presidente Costa Pinto não foi o único a exigir uma atuação mais pronta e eficaz dos agentes da justiça. Durante todo o século XIX foram aprovados inúmeros dispositivos legais que visavam normalizar, moralizar e regulamentar a atuação dos agentes do poder judiciário, como de resto, toda a administração pública, como estamos demonstrando neste capítulo. Houve uma tentativa de consolidar uma administração racional, impessoal, universal, eficiente e eqüitativa da justiça. Este projeto modernizador do direito esbarrou em limitações internas do aparato judicial e externas de escolha e recrutamento dos servidores da justiça. Estamos demonstrando que os homens públicos do século dezenove almejavam consolidar alguns princípios de governabilidade que necessariamente passavam pela racionalização e burocratização do poder judiciário, particularmente no tocante ao controle dos impulsos e paixões das “classes perigosas”.
Contudo, no Relatório do Ministério da Justiça apresentado pelo ministro Diogo Antonio Feijó, no início da década de 1830, a situação era completamente diversa. A criminalidade e a violência teriam realmente diminuído entre a instalação das Regências e seus anos finais? Os processos criminais parecem contrariar esse prognóstico:
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Falla dirigida à Assembléa Legislativa Provincial de Minas Geraes na Sessão Ordinária do Anno de 1837 pelo Presidente da Província Antonio da Costa Pinto. Ouro Preto: Typographia do Universal, 1837. p. 47.
Sim, Senhores, vós tendes destruído o poder absoluto: dele já não restam vestígios; resta- vos agora, para consumardes a vossa obra, reconstruir o poder constitucional, armando-o de Leis e Instituições, que lhe dêem força capaz de defender a liberdade, a integridade do Império, e a Monarquia Constitucional, se ela se puser em perigo.75
As palavras do Ministro da Justiça Honório Hermeto Carneiro Leão, futuro Marques de Paraná, expressavam, em 1833, um prognóstico da árdua tarefa que aguardava a toda a elite política do Império: a de organização do ordenamento jurídico e a estruturação da burocracia do Estado brasileiro. Os termos, as variáveis desta equação política “reconstruir o poder constitucional” somente se resolveriam no inicio dos anos 40 do século XIX, momento em que o “monarquista” Honório Hermeto havia se tornado um “liberal conservador”, porém hábil e equilibrado condutor dos rumos políticos do Estado. Mas para compreender essa metamorfose do ministro e indiretamente a do próprio Estado brasileiro é necessário acompanhar mesmo que em linhas gerais a implantação do Estado nacional brasileiro no período. Há uma literatura, relativamente extensa sobre o assunto. Procuramos aqui observar os principais pressupostos desta historiografia que entende o Estado brasileiro como um fenômeno híbrido, que conjugou aspectos autoritários escravistas com práticas liberalizantes.
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Relatório da Repartição dos Negócios da Justiça do Ano de 1832 Apresentado à Assembléa Geral Legislativa na Sessão Ordinária de 1833, Pelo Respectivo Ministro e Secretário de Estado Ministro Honório Hermeto Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1833, p. 19.