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Todos os episódios selecionados foram transcritos e analisados microgeneticamente. A escolha destas ferramentas, descritas a seguir, ocorreu por se adequarem às opções teóricas de leitura dos processos e dos objetivos empíricos.

A transcrição microgenética, segundo Amorim (2002), consiste em construir um roteiro estruturado cronologicamente e com grande detalhamento, destacando o local onde se desenvolve a situação, os bebês e as outras pessoas presentes nas cenas, as atividades realizadas e as interações estabelecidas; ainda, a concomitância com que os diferentes eventos ocorrem, a seqüência de cada um e se e como um afeta o outro. Importante ressaltar que a transcrição não tem como objetivo substituir o vídeo e sim servir de apoio à análise minuciosa do mesmo.

A transcrição destes episódios se coloca como uma importante ferramenta da pesquisa, pois somente por meio da transcrição microgenética é possível acompanhar o desenrolar dos microprocessos interacionais estabelecidas entre os bebês e seus coetâneos, garantindo a seqüência dos acontecimentos, filtrando as ações que estão diretamente relacionadas ao evento investigado. Após a transcrição dos episódios selecionados, um procedimento que se mostrou relevante foi reassistir persistentemente os episódios para gerar uma interpretação dos microprocessos, para depois dar seguimento à análise destes mesmos episódios.

Neste processo de transcrição, foram incluídas as descrições dos movimentos do conjunto dos elementos descritos acima e das comunicações verbais e não verbais, visto que os sujeitos são bebês no primeiro ano de vida e suas habilidades de comunicação verbal ainda estão em início de desenvolvimento. As comunicações e ações não verbais são caracterizadas pelas expressões faciais do bebê, olhares, balbucios, choros, sorrisos, gestos e movimentos corporais; ainda, através das posturas, expressões emocionais em associação à situação como um todo e ao contexto no qual estão inseridos.

A apreensão dos processos interativos, em especial de significações, requereu uma análise que abarcasse este processo, ao longo do tempo – no caso, de três meses, no qual a pesquisa acompanhou os sujeitos desta pesquisa. Isto é, a análise empírica foi centrada no processo psicológico em seu curso de formação, analisando-se as sucessivas emergências de determinados comportamentos e o processo de tornar-se com o tempo; ou seja, processos transformativos que modificam tanto o momento anterior como o próximo. Segundo Valsiner10 (1987, apud AMORIM, 1997, p. 89), “objetivo é revelar as regras e as leis que

estão na base de tais transformações, como um resultado da descrição de processos que mantém o organismo funcionando e produz a própria mudança”.

De acordo com os autores acima, a microgênese se refere a qualquer atividade humana como perceber, pensar, agir, etc., em processo de desdobramento, independente de esta

atividade ocorrer em segundos, horas ou dias. A dimensão temporal deve, então, ser preservada na unidade construída, bem como deverá reter as informações sobre a dinâmica observada neste processo.

Siegler e Crowley (1991) propõem que este tipo de análise atende ao seu princípio básico, o de captar a mudança e assim o percurso desenvolvimental investigado. A análise do processo permite ao pesquisador a apreensão da mudança do evento estudado. Ao invés de determinar a existência de uma mudança num determinado evento, a análise microgenética busca examinar, inferir, apreender o próprio processo de mudança. Isto se dá por meio de um intenso exercício analítico de mergulhar na densidade dos dados, oriundos geralmente da transcrição microgenética, e apreender diretamente a rápida mudança, refinando a própria análise.

Como afirma Góes (2000), o essencial dessa forma de análise é a construção de uma micro-história de processos, interpretável sob a perspectiva semiótica e das condições amplas da cultura e da história. Esta forma de análise é orientada para os detalhes e para o recorte de episódios interativos. Por isso é micro11; e tem, ainda, o exame orientado para os sujeitos focais, as relações intersubjetivas e dialógicas, e as dadas condições sociais, resultando assim, num relato minucioso dos acontecimentos.

Além disso, essa análise é genética por focalizar o movimento durante o processo, depois o relacionando com as condições passadas e presentes, tentando explorar aquilo que, no presente, está impregnado de projeção futura. É entendida como sociogenética por buscar relacionar os eventos singulares com outros planos da cultura. (GÓES, 2000)

Este tipo de análise permite ao pesquisador priorizar significados emergentes das redes de relações estabelecidas entre as pessoas/ contextos, dependendo da(s) pergunta(s) e do momento do processo em análise no qual o pesquisador se encontra. De forma geral, a análise microgenética permite que trechos potencialmente mais ricos em fenômenos observáveis possam ser esmiuçados segundo a segundo, rastreando a complexidade das ações socialmente direcionadas.

Essa forma de análise privilegia transformações relativamente sutis e rápidas nas relações entre pessoas. Meira (1994) aponta Piaget como um precursor no método de análise genético, objetos de seus estudos, mas afirma que Vigostki se apresenta como o consolidador deste método de análise por considerar o domínio sócio-histórico e microgenético. Siegler e Crowley (1991) referem que o método microgenético e seu uso se originam não só de

Vigoski, como também de Heinz Werner. No início de 1920, Werner teria percebido, em um experimento, que esta abordagem poderia se aplicar a outros processos contínuos e de duração variada, não apenas àquele experimento.

Compete ao pesquisador que utiliza à análise microgenética a árdua tarefa de detalhar e enfatizar os processos interacionais sem comprometer a compreensão do evento global estudado. Assim, a unidade de análise tem como atributo conservar as características fundamentais do processo em toda sua complexidade e não apresentar as características dos elementos que compõem o fenômeno investigado (VYGOTSKY, 2005). De forma geral, este tipo de análise busca identificar os significados relacionados ao evento investigado, da estrutura das situações sociais e materiais em que estes acontecimentos estão imersos (MEIRA, 1994).

Finalmente, como já indicado, a presente pesquisa conta com a RedSig (ROSSETTI- FERREIRA; AMORIM; SILVA, 2004, 2000; ROSSETTI-FERREIRA; AMORIM; SOARES-SILVA; OLIVEIRA, 2008) como perspectiva de base. Desta forma, através da análise, buscou-se apreender as mudanças nas relações, permitindo a apreensão dos gestos e olhares que surgem e duram poucos segundos e, em especial, no processo de significações entre os sujeitos-pivôs e seus parceiros, a partir da comparação destas relações ao longo dos três meses de convivência e interação entre as crianças. Buscou-se apreender velhos e novos comportamentos, emoções e concepções, além da coconstrução e das mútuas transformações por que passaram as pessoas, relacionamentos e os contextos.

Discutido e definido os elementos teórico-metodológicos que nortearam a coleta e análise de dados, passemos à apresentação dos resultados.

Benzer Belgeler