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Os princípios alimentares de cunho religioso fazem com que o indivíduo, pela sua crença aprenda a domesticar seus instintos alimentares. Vimos no capítulo I, a fome figura entre um dos instintos mais difíceis de controlar, pois trata-se do mais importante programa biológico pró sobrevivência. O homem programado para comer de tudo e em profusão, criou e aprendeu a ter

146 regras para se alimentar. Ele continua a ser provocado pelo programa do acúmulo, mas pode escolher a quantidade, ou os alimentos que não necessariamente impliquem em prazer e plenitude, mas que acredite trazer-lhe outros benefícios mais fundamentais ou mais desejados. Os limites no consumo podem ser convertidos em autocontrole. Conforme sugere o Rabino H. H. Donin:

Quem foi treinado para resistir desejos por alimentos proibidos, pode ter fortalecido a sua capacidade para resistir desejos por envolvimentos sexuais proibidos. Pode tê-lo fortalecido para resistir a tentação de agir não eticamente no intuito de conseguir vantagens financeiras ou privilégios de status.455

A capacidade de alterar ou suprimir certos programas biológicos é chamada, segundo Lorenz, de descondicionamento. “Ordens monásticas usavam jejuns para diminuir o desejo sexual, promover o celibato, elevar a austeridade em oposição à indulgência e mortificar a própria carne.”456O descondicionamento refere-se à flexibilidade do mecanismo recompensa/castigo e

visa evitar danos ou prejuízos; ou obter melhores ganhos:

Os princípios opostos da recompensa e do castigo existem para manter o equilíbrio entre preço a pagar e o lucro em perspectiva. Isso é demonstrado pelo fato de sua intensidade variar de acordo com a economia do organismo. Se a alimentação é abundante, sua força de atração diminui a tal ponto que o animal dá apenas alguns passos para alcança-la, e nesse caso qualquer estímulo negativo é suficiente para acabar com o apetite. No caso inverso, a capacidade de adaptação do mecanismo prazer-desagrado permite ao organismo, em período de necessidade, pagar um preço exorbitante para alcançar uma meta vital.457

“Os seres humanos buscam o que percebem ser recompensas e evitam o que percebem ser custos.”458 Apesar do imperativo instinto da fome, um indivíduo pode enxergar nas práticas do

jejum e na renúncia a certos alimentos, encontradas nas interdições alimentares ou dietas

regulares, recompensas ou eliminação de custos que compensem tal restrição. Citamos também

455 DONIN, H. H. op. cit., pp. 116-117.

456 GOLDBERG, R. The Adaptiveness of Fasting and Feasting Rituals: Costly adaptive Signals? In: FEIRMAN, J.

R. (Org.) The Biology of religious behavior: the evolutionary origins of faith and religion. California: ABC-CLIO LLC, 2009, p. 193. Tradução do autor.

457 Ibid, p. 55.

147 aqui a categoria dietética associada à religião, que faz com que o indivíduo faça uma escolha racional sobre os alimentos.

Conforme vimos no item 2.5 A função domesticadora dos sistemas simbólicos religiosos, por implicar a fé, a religião pode convencer o indivíduo a adotar muitas posturas, inclusive deixar de comer temporariamente ou a deixar de comer certos alimentos por oferecer recompensas ou compensadores concretos ou simbólicos que valham a restrição alimentar para o indivíduo. “Apesar do rigor dos primeiros muçulmanos, ou talvez por causa disso, o Alcorão e o Hadith estão repletos de referencias sobre as comidas e bebidas que aguardam os fiéis no Paraíso.”459

Não entraremos no mérito de estabelecer quais as recompensas e custos implicados em cada prática, pois eles variam segundo cada pessoa, podendo num mesmo grupo religioso serem muito diferentes.

As recompensas variam de acordo com o tipo, o valor e a generalidade [...] Sabemos que desejamos algumas coisas mais do que outras. Alguns desejos são biologicamente condicionados, alguns pelo meio ambiente, outros pela cultura, e alguns, inclusive, dependem da historia particular de uma pessoa. Esta variação não é pertinente aqui. Tudo o que se afirma é que para todo individuo existem coisas que ele quer menos e outras que ele quer mais.460

Um hinduísta poderia submeter-se a jejuns regulares para obter autocontrole. Um judeu pode não misturar carne e leite por acreditar que sofrerá algum tipo de punição por tornar-se, de acordo com os princípios judaicos, impuro quando mistura as duas coisas. Um seguidor da Igreja Adventista do Sétimo Dia pode submeter-se ao rigor da dieta adventista para obter em ultima instância saúde física e longevidade, caso que se aplica à categoria dietética associada à religião, por exemplo.

Houve na Europa cristã medieval uma verdadeira “epidemia” de mulheres que praticavam jejuns auto-impostos em nome de sua fé. Muitas delas ficaram conhecidas como as Santas Jejuadoras (Lidwina de Schiedam, Santa Catarina de Siena, Santa Vilgefortis, Santa Clara de Assis, entre outras). A maioria delas morreu por volta dos 30 anos de idade devido a doenças associadas à desnutrição. Havia boatos de que muitas se alimentavam apenas da hóstia e do vinho da

459 MILLER, H. D. Os Prazeres do consumo. O nascimento da culinária islâmica medieval. In: FREEDMAN, P. op.

cit., p. 137.

148 Eucaristia. Jejuar até quase a morte (muitas vezes até a morte) era a única forma de contrariarem o contexto social machista da época. O ascetismo feminino afirmado através da castidade e do jejum outorgava-lhes algum poder.461 De acordo com Caroline Bynum, em seu artigo Fast, Feast and Flash sobre a associação comida/religião na Idade Média, declara que o ascetismo feminino, praticado especialmente através do jejum era uma das formas de elevação espiritual da mulher:

Assim como o comportamento de Lidwina de Schiedam ou os insights teológicos de Catarina de Siena sugeriram, jejum, comer e alimentar significavam sofrimento e sofrimento significava redenção. [...] A mulher está para o homem assim como a matéria estás para o espírito. A mulher ou o feminino eram vistos como símbolo como a parte física da natureza humana, enquanto o homem simbolizava o espiritual ou o racional.462

Muitas destas mulheres conseguiram ocupar posições de certo destaque na sociedade devido ao seu ascetismo. Embora o jejum lhes custasse a saúde, recompensava-lhes através da sensação de redenção e de um tratamento diferente em relação às outras mulheres de sua época.

A função descondicionamento faz com que um indivíduo, pertinente a uma religião, suprima alguns instintos mais básicos quando percebe vantagens em pertencer ao grupo. Neste caso, podemos inferir que o descondicionamento, enquanto função das práticas alimentares, desempenha também um importante papel social:

No jejum religioso, a autonegação de alimentos desejáveis permite a um indivíduo se elevar no ranking social através da demonstração de disciplina no comer, de uma maneira que é socialmente admirada. Quando as pessoas jejuam simultaneamente, a experiência de comunhão pela privação pode melhorar a coesão do grupo, assim, populações altamente motivadas e disciplinadas ganham vantagens competitivas em relação aos menos coesos.463

Tal é o poder de coesão de tais práticas que houve quem tentasse induzir à prática inversa para enfraquecer o grupo: “a única época em os nazistas serviam comida descente nos campos de

461 WEINBERG, C. e CORDÁS T. A. Do altar às passarelas: da anorexia santa à anorexia nervosa. São Paulo:

Annablume, 2006.

462 BYNUM, C. W. Fast, Feast and Flesh. In: COUNIHAN, C. e ESTERIK, P. op.cit., p. 132. 463 GOLDBERG, R. In: FEIRMAN, J. R. (org.) op. cit., p. 191.

149 concentração era nos dias de jejuns dos judeus, com intenção de zombar do Judaísmo e quebrar a solidariedade entre os judeus.”464

O Exemplo das Santas Jejuadoras evidencia especialmente esta propriedade. Seja num jejum individual como no caso das santas ou coletivo como no mês de Ramadã, ou mesmo nas dietas

regulares, ou na comunhão das interdições alimentares descritos no capítulo III, conseguimos detectar nestas práticas uma função social e domesticadora (no sentido descrito no item 2.5) Na categoria dietética associada à religião não há uma função social, mas cultural, onde “medicina” e religião fundem-se. Ressaltamos especialmente o aspecto das religiões que se utilizam da alimentação como forma de cura, segundo esta visão “médico/religiosa”. Este caso fica evidente na IASD e na medicina ayurveda.

Benzer Belgeler