Para conseguirmos abordar as temáticas trabalhadas na pesquisa, realizar a investigação e apreender melhor os fatos, utilizamos, como procedimentos da investigação: descrição densa, observação participante, diário de campo, entrevistas, e também fotografias, bem como análises documentais.
A) Observação Participante
A observação, nesta pesquisa, se deu de modo participante, já que o pesquisador, ao mesmo tempo que observou os grupos se observou também, já que este está incluso no contexto da localidade que pesquisa e elegeu, por seu turno, esta forma de captura dos saberes que busca.
Observação participante é um processo pelo qual um pesquisador se coloca como observador de uma situação social, com a finalidade de realizar uma investigação científica. O observador, no caso, fica em relação direta com seus interlocutores no espaço social da pesquisa, na medida do possível, participando da vida social deles, no seu cenário cultural, mas com a finalidade de colher dados e compreender o contexto da pesquisa. Por isso, o observador faz parte do contexto sob sua observação e, sem dúvida, modifica este contexto, pois interfere nele, assim como é modificado pessoalmente (MINAYO, 2007, p.70).
A observação é empregada para que haja uma maior compreensão dos fatores, não se limitando apenas ao ver e ouvir, mas analisa os acontecimentos, objetivando adquirir elementos precisos e utiliza-os para abarcar determinados aspectos da realidade (MARCONI & LAKATOS, 2003; GIL, 1999).
De acordo com Triviños (2008, p. 153) “‘observar’, naturalmente, não é simplesmente olhar. Observar é destacar de um conjunto (objetos, pessoas, animais, etc.) algo especificamente, prestando, por exemplo, em suas características (cor, tamanho e etc.)”.
Para o observador que tem a concepção etnográfica em sua investigação, muitos são os desafios que se enfrenta, dentre eles está o papel que assume o pesquisador e as atividades exercidas por ele; e igualmente a função de escolher e diminuir a realidade sistematicamente (LÜDKE e ANDRÉ, 1988).
No meu caso, o desafio se deu, na comunidade e nos grupos pesquisados na questão de olharem a mim, em muitos momentos como pesquisadora, e não somente como quem faz parte do processo comunitário. Em muitos momentos da pesquisa me deparei com situações novas, situações que antes para mim, pareciam naturais.
Isso me levou a refletir sobre a “maneira de olhar” e no quanto o meu olhar de pesquisadora poderia influenciar as interações em campo e, por consequência, as próprias anotações no diário de campo, pois creio que muita coisa, àquilo que observamos, dependa bastante da posição que estamos, da posição que falamos e interagimos. Neste sentido, nas palavras de Cardoso de Oliveira (2006, p.19):
Talvez a primeira experiência do pesquisador de campo – ou no campo – esteja na domesticação teórica de seu olhar. Isso porque, a partir do momento em que nos sentimos preparados para a investigação empírica, o objeto, sobre o qual dirigimos o nosso olhar, já foi previamente alterado pelo próprio modo de visualizá-lo [...]. B) Diário de Campo
O Diário de Campo é um instrumento importante para que o pesquisador possa registrar suas impressões, realizando, mediante esta ferramenta, reflexões sobre a realidade observada e tudo aquilo que envolve o cotidiano da pesquisa, sendo este material utilizado posteriormente em suas análises.
DaMatta (1987) considera que as impressões, as experiências vividas na pesquisa são transformadas em informações ao serem escritas no “diário de campo”:
[...] o pesquisador deverá anotar tudo o que acontecer no decorrer do dia. Frases soltas, comportamentos curiosos, técnicas de corpo desconhecidas e acontecimentos imprevistos, mesmo sendo ininteligíveis, devem ser criteriosamente escritos no diário. A memória social é uma dessas coisas mais movediças que existem na vida, já que muito interessa e interesseira. Assim, somente nos lembramos das coisas que no motivam, empolgam ou que valorizamos [...] (DAMATTA, 1987, p.188).
O diário do campo serve para o pesquisador como se fosse uma ‘memória’ onde ao anotar suas impressões ele as guardas para mais posteriormente usá-las para releituras, reflexões e compreensões de muitos processos.
C) Das entrevistas e suas respostas como descrições densas
As entrevistas contribuíram diretamente com a investigação, pois através desse instrumento foi possível coletar informações privilegiadas sobre o estudo na medida em que os sujeitos expressavam suas experiências referente a vida e a história da comunidade pesquisada.
Trabalhou-se com descrições densas, que são histórias ou falas abertas, cujo movimento, ao modo de um roteiro ou de um giro norteador, teve por finalidade orientar, o que podemos dizer, com Minayo, a ação de “trabalhar com um esquema de pensamento”:
Pode ser definida como “conversa com finalidade”, em que um roteiro invisível serve de orientação e de baliza para o pesquisador e não de cerceamento da fala dos entrevistados. Na sua realização, o pesquisador trabalha com uma espécie de esquema de pensamento, buscando sempre encontrar os fios relevantes para o aprofundamento da conversa. (MINAYO, 2010, p. 264-265).
Os roteiros nas entrevistas se tornam pertinentes para que o entrevistador não fuja das questões importantes a qual pretende obter as respostas, pois a investigação exige momentos de perguntas individuais, dependendo da experiência e do papel que executa cada sujeito entrevistado, bem como um roteiro geral que abarque a mesmas questões para todos os colaboradores, por tanto, a elaboração do roteiro de entrevistas ligado aos objetivos da pesquisa se torna essencial para a obtenção de êxito nesse processo, Alberti (1990) afirma sobre o roteiro geral:
Assim, em primeiro lugar, o momento de elaboração do roteiro geral encerra a oportunidade reunir e estruturar todos os pontos levantados durante a pesquisa, seguindo os objetivos estabelecidos no projeto. Nesse sentido, trata-se de sistematizar os dados levantados até então e de articulá-los com as questões que impulsionam a pesquisa [...].
Como sugere o nome, trata-se de um roteiro amplo e abrangente, que contém todos os tópicos a serem considerados na tomada de cada depoimento em particular, garantindo a relativa unidade do acervo produzido. É importante que nas entrevistas realizadas os pesquisadores procurem abarcar as questões que foram definidas como gerais a todos os entrevistados [...]. (ALBERTI, 1990, p. 47).
Para a realização da pesquisa foi logo preciso fazer a escolha dos sujeitos que seriam entrevistados, já que isto, de maneira alguma pode acontecer aleatoriamente. Os sujeitos devem ser selecionados de acordo também com os objetivos das pesquisas, tendo em
vista que estes devem ter relação direta ou indireta com a temática investigada. A respeito da seleção dos sujeitos entrevistados, Alberti (1990, p. 52) salienta:
Ela recai sobre figuras de atuação destacadas em relação ao tema, julgadas mais representativas ou significativas no contexto da pesquisa e cujos depoimentos pareçam essenciais para a realização das demais entrevistas. [...] é possível ainda que a escolha dos primeiros entrevistados recaia sobre atores e/ou testemunhas menos estratégicos, à medida que seus depoimentos possam fornecer subsídios para a elaboração dos roteiros das entrevistas de maior peso. Finalmente, pode ser adequado iniciar a pesquisa entrevistando aqueles aos quais se tem alguma facilidade de acesso, e que podem, a partir da relação estabelecida, mediar novos contatos no interior do conjunto listado.
Ao iniciarmos as pesquisas segui as ideias da autora partindo desse pressuposto de logo entrevistar as pessoas de fácil acesso, e no decorrer dessas entrevistas fomos organizando melhor as ideias e buscando atores que correspondiam a certas informações, até mesmo em certos momentos da entrevista, alguns colaboradores diziam não saber no momento responder aquela questão e indicavam alguém que responderia a indagação de forma precisa.
As entrevistas e suas respostas como descrições densas aconteceram com pessoas que tem participação direta e indireta no movimento comunitário, com alguns pescadores e artistas populares da comunidade com objetivo de adquirir informações sobre o assunto investigado. Primeiramente tivemos um primeiro contato com esses entrevistados, conversando sobre a pesquisa e se estes gostariam de colaborar com a mesma. Após, foi marcado data, horário e local com antecedência para que a atividade ocorresse.
É necessário que o pesquisador tenha um cuidado com os horários, as datas e os locais de entrevista, é preciso estar atento ao tempo do entrevistado e sua disposição, para que a entrevista não se torne algo cômodo para o colaborador e o prive de alguma atividade importante, naquele momento, ligada ao seu cotidiano, e até sobrevivência.
Tentamos, durante a entrevista, mesmo com data e horários marcados, deixar as pessoas mais à vontade possível, inclusive para interromper a entrevista, quando algo ocorresse e/ou o colaborador precisasse realizar alguma atividade.
Ao entrevistar os colaboradores relatamos e esclarecemos a necessidade de suas falas serem gravadas para que nós não perdêssemos nenhum detalhe da mesma, e que depois elas seriam ouvidas novamente com muita atenção e transcritas, buscando pegar na fala pontos relevantes para a temática estudada. E todos os colaboradores permitiram-nos gravar suas falas, porém alguns não permitiram identificá-los no trabalho. Sobre a importância da gravação DaMatta (1987, p. 193) ressalta:
Uma outra vantagem do gravador é saber - na fase em que se está estudando mais profundamente o material colhido – que tipo de pergunta foi feita pelo investigador
e a resposta do informante. Saber a pergunta é, muitas vezes, fundamental para se determinar a natureza da resposta, sobretudo quando se estuda opinião, ou fatos verbalizados pelo informante.
Sabe-se que as entrevistas que trazem descrições densas são importantes para captar aquilo que ainda não está registrado de outras maneiras, neste aspecto a oralidade tendo sempre papel fundamental. É que as entrevistas não significam uma conversa despretensiosa e neutra, uma vez que se insere como meio de coleta dos dados – produção de saberes, no caso - relatados pelos atores. Essa postura ativa, da relação entrevistador e entrevistado, caracteriza esta forma de comunicação verbal e possibilita a extração dos significados da fala. Serve, pois, como um meio de coleta de informações sobre um determinado tema científico do ponto de vista de sujeitos nativos - o que, na metodologia etnográfica, é fundamental.
A escuta sensível, de Barbier (2009), tomamos como uma postura que viabilizasse a promoção da consciência sobre as situações de opressão, assim como advoga uma postura consciente do pesquisador na relação com o sujeito da pesquisa, seja para avaliar sua posição diante deste, seja para ouvi-lo com muita atenção. Possibilitando abarcar o conjunto intrincado de intersubjetividades que se entrelaçaram na trama educacional dos fatos, a escuta sensível é postura que cria oportunidades de reflexão, capaz de tornar claros os aspectos distintos da investigação.
[...] à voz do sujeito, sua perspectiva, seu sentido, mas não apenas para registro e posterior interpretação do pesquisador: a voz do sujeito fará parte da tessitura da metodologia da investigação. Nesse caso, a metodologia não se faz por meio das etapas de um método, mas se organiza pelas situações relevantes que emergem do processo (FRANCO, 2005, p. 488).
D) Das fotos históricas e gravações
No caso das imagens, ou seja, das fotografias, estas são linguagens que funcionam como textos históricos, e nos quais também se pode vincar o aspecto de registro artístico. Sendo a imagem parte do todo do ser, é apropriada para capturar múltiplas dimensões das situações focalizadas. Ao empregar a fotografia também como uma ferramenta para a leitura dos fenômenos, o pesquisador vai se utilizar de recursos capazes de transformar um objeto inerte (fotografia) numa linguagem plena de significação (FERNANDES, 2011).
As gravações ou filmagens, que se realizaram a partir da autorização das pessoas, são de imenso valor, tendo em vista que esses “dados, à disposição do pesquisador e dos informantes, são indispensáveis documentos de consulta e de apoio para formulações das descrições e interpretações das informações e dos fatos”. (TRIVIÑOS, 2001, p. 90).
As fotos contribuem diretamente com a escrita e desenvolvimento da dissertação quando as linguagens do texto são refletidas através de imagens. Cada imagem contém um recurso próprio, porém é muito importante ter um cuidado especial na hora de pô-las no meio do texto para não ficar apenas como um elemento ilustrativo.
As filmagens foram realizadas em momentos importantes como roda de conversas entre pescadores, no momento da explicação de algum fenômeno, também quando se entrevistou pessoas mais idosas, alguns eventos comunitários e em atividades vinculadas a rotina da comunidade. Dessa forma, foi possível registrar muitos detalhes de valor para posteriormente ser descrito quando necessário.
E) Análise documental
Alguns documentos nesse processo de compreensão da realidade em que se investiga são indicadores importantes. A utilização de documentos nas pesquisas deve ser instância valorizada. A riqueza de dados que desta fonte podemos tirar e resgatar, possibilita- nos desenvolver um melhor entendimento de objetos cuja compreensão necessita de contextualização histórica e sociocultural. Para Cellard (2008):
[...] o documento escrito constitui uma fonte extremamente preciosa para todo pesquisador nas ciências sociais. Ele é, evidentemente, insubstituível em qualquer reconstituição referente a um passado relativamente distante, pois não é raro que ele represente a quase totalidade dos vestígios da atividade humana em determinadas épocas. Além disso, muito frequentemente, ele permanece como o único testemunho de atividades particulares ocorridas num passado recente. (CELLARD, 2008: 295).
Para uma busca mais efetiva e entendimento de momentos da comunidade recorri a documentos como: dossiês judiciários que contém os processos da luta pelo território, alguns folders explicativos sobre assuntos relacionados ao objeto de pesquisa, dossiês com informações importantes sobre a criação da Resex da Prainha do Canto Verde, atas e estatutos da associação de moradores, entre outros.
Esses documentos foram explorados e analisados com o intuito de buscar neles elementos que contribuíssem com os outros instrumentos e nos auxiliasse na compreensão de dados e momentos históricos da comunidade.
É, pois, deste modo me situando dentro e fora do meu lugar, Canto Verde, que busquei, nesta perspectiva de memorial do lugar, capturar os saberes da luta dos sujeitos nativos, em um movimento em que também eu me redescobri e sigo.