Vamos concentrar nossos esforços em dois aspectos básicos que envolvem o fenômeno amplo da enunciação. O quadro enunciativo institucional no processo de elaboração do código e as modalidades enunciativas empregadas pelos locutores instalados no código.
Em relação ao quadro enunciativo, assim se expressa Benveniste (1989:87): Como
forma de discurso, a enunciação coloca duas ‘figuras’ igualmente necessárias, uma origem, a outra, fim da enunciação. É a estrutura do diálogo. Duas figuras na posição de parceiros são alternativamente protagonistas da enunciação.
No entanto, nem toda comunicação apresenta a estrutura do diálogo, nem as figuras são parceiras no sentido de trocarem os papéis durante a interação. Existem situações em que um protagonista tem direito à voz e os demais têm a obrigação de aceitar o dito. Podemos cotejar esse tipo de interação com o 5º axioma98 de Watzlawick, Beavin e Jackson (1999:64): Todas as permutas comunicacionais ou são simétricas ou complementares,
segundo se baseiem na igualdade ou na diferença. No caso dos textos escritos institucionais, especificamente dos códigos de ética, que se referem a grupos com direito à voz pela legitimação que lhes é conferida pela sociedade, esse ato é realizado por um indivíduo ou um grupo investidos do poder de comunicar, por meio de uma situação formal, as normas de conduta, os valores e os princípios da instituição que representam.
Em relação ao campo social legitimado, conceito apresentado por Rodrigues99 que
98 Os demais axiomas são os seguintes: 1º não se pode não comunicar; 2º toda comunicação tem um aspecto
de conteúdo e um aspecto de comunicação tais que o segundo classifica o primeiro e é, portanto, uma metacomunicação; 3º a natureza de uma relação está na contingência da pontuação das seqüências comunicacionais entre os comunicantes; 4º os seres humanos comunicam digital e analogicamente.
99 RODRIGUES, A.D. Estratégias da Comunicação: Questão Comunicacional e Formas de Sociabilidade.
já discutimos no Capítulo 2100 da Primeira Parte, representado por instituições que elaboram códigos de ética, o único testemunho objetivo de sua identidade é o que as instituições fornecem sobre si próprias por intermédio de porta-vozes autorizados. Não se pode falar em casos como esses de subjetividade ou intersubjetividade nas dimensões interlocutivas de pessoa para pessoa ou mesmo de pessoa para pessoas. No entanto, o quadro enunciativo de uma comunicação institucional emprega os mesmos mecanismos das demais comunicações. Por meio de estratégias de legitimação, o porta-voz passa a ter o direito de falar em nome da instituição. Para Charaudeau101:
As estratégias de legitimação visam determinar a posição de autoridade que permite ao sujeito tomar a palavra. Essa posição de autoridade pode ser o resultado de um processo que passa por dois tipos de construção: (a) a de autoridade institucional, que é fundada pelo estatuto do sujeito, que lhe confere autoridade de saber (perito, erudito, especialista), ou de poder de decisão (responsável por uma organização); (b) a de autoridade pessoal, que é fundada na atividade de persuasão e de sedução do sujeito que lhe dá uma autoridade de fato, que pode, além disso, sobrepor-se à precedente.
(Charaudeau, 2004:295)
O quadro enunciativo do código de ética de uma instituição é estabelecido num circuito próprio. Primeiramente, a instituição delega a um membro ou a um grupo a incumbência de redigir o código. A seguir, investido da função de porta-voz institucional, o enunciador nomeado – o porta-voz – certifica-se dos valores e princípios que devem ser apresentados e das normas que devem ser divulgadas e da legislação vigente; e apóia-se, ou não, em modelos de códigos e/ou nos códigos de outras instituições da mesma esfera. Existem casos em que um mesmo código serve para um grupo de instituições. Cada uma faz apenas adaptações específicas ao seu campo de atuação. A próxima etapa é a leitura crítica de representantes da instituição para referendar o texto e autorizar sua divulgação. Trata-se, portanto, de uma série de ações enunciativas complexas preparatórias antes que o enunciado geral (o código pronto) seja definitivamente veiculado.
100
Vide p. 56. 101
CHARAUDEAU, P. MAINGUENEAU, D. Dicionário de Análise do Discurso. Coordenação de tradução: Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2004.
Kerbrat-Orecchioni102 (1980:14-26), quando se refere aos tipos de interações complexas, como é o caso vivido pelas instituições, argumenta que se escreve em função das imagens, isto é, das representações criadas pelos porta-vozes autorizados: A cada
“imagem” corresponderá uma série de restrições (obrigações) ou servidões (normas) que orientam o trabalho do porta-voz.
No caso dos códigos, o porta-voz da instituição procura manter a imagem que as instituições têm se esforçado para criar. Se, porventura, arvorar-se na criação de uma imagem diferente ou não for feliz na sua manutenção, sempre existirá a instância reguladora, uma espécie de enunciador revisor (etapa da leitura crítica) que zela pela imagem institucional.
O quadro enunciativo institucional pode ser assim apresentado:
Enunciadores: a instituição (fonte enunciativa), o porta-voz institucional (enunciador- redator, isto é, o locutor ) e o comitê de ética (enunciador-revisor).
Enunciatários: os funcionários (alvo do discurso, isto é, os interlocutores) e os segmentos da sociedade, alvo indireto do discurso que, de alguma forma, participam do campo social legitimado das instituições.
Enunciadores Enunciatários
instituição segmentos da sociedade
envolvidos na esfera institucional
locutor/porta-voz da instituição
comitê de ética
Código de Ética
interlocutores/ funcionários
O locutor apropria-se do aparelho formal da língua e enuncia sua posição por meio de índices e de procedimentos, pois a situação da enunciação manifesta-se por meio de formas lingüísticas específicas que têm a função de colocá-lo em relação constante e
102 KERBRAT-ORECCHIONI, C.I L’Énonciation de la subjectivité dans le langage. Paris: Librairie Armand
necessária com sua própria enunciação, com seus interlocutores e com seu propósito comunicativo. Nesse sentido, o locutor, porta-voz da instituição, enunciador-redator do código de ética institui seu interlocutor direto e escolhe o tipo de interlocução que deseja manter. Ao mesmo tempo, institui o terceiro elemento da interlocução, o propósito comunicativo (veiculação de princípios, valores e normas), a respeito do qual se fala no discurso.