A ideia, não de possibilitar, mas de não combater com maior veemência a proibição do efeito confiscatório nos tributos sempre nos causou certa preocupação. Talvez por essa razão tenhamos optado por este tema para o desenvolvimento desta pesquisa.
Não que os estudos tenham sido insuficientes, muito longe disso, nem que estejamos buscando atingir tal missão ingrata, mas apenas que o assunto nos causa bastante inquietação e desconforto. Afinal, não é crível conceber que o Estado possa continuar a elevar a carga tributária, sem que haja pelo menos uma tentativa mais acirrada de se criar uma barreira melhor delineada sobre o efetivo ingresso na seara do confisco da propriedade privada dos contribuintes.
Também nos incomoda a ideia de que a elevação da carga tributária ocorre de forma praticamente equivalente entre todos os locais da federação, com algumas exceções. O mesmo Estado que tributa não consegue satisfatoriamente levar aos locais o desenvolvimento econômico e social garantidos constitucionalmente.
Não estamos afirmando que queremos criar uma barreira objetiva do que seria “confisco”, mas ao menos tentar delineá-lo com mais precisão, na tentativa de chamar a atenção para o fato de que já passamos do ponto no que tange às incansáveis demonstrações de sanha arrecadatória/confiscatória do Estado, sem que com isso tenhamos obtido sucesso no desenvolvimento social e econômico do Estado.
Nessa rota, chamou nossa atenção a curva de Laffer para representar o pensamento aqui desenvolvido. Apresentada pelo economista americano Arthur Laffer (ainda que não seja de sua autoria), ficou assim conhecida, uma vez que por ele foi desenhada ao ex- presidente americano Ronald Regan.
Na curva, conforme apresentada por Fábio Brun Goldschmidt72, Arthur Laffer demonstrou graficamente ao então presidente americano que nem sempre o aumento da tributação corresponderia ao aumento da arrecadação do Estado, em tempo de atividade econômica decrescente. Demonstrou Arthur Laffer que a partir de determinado momento, todo aumento da carga tributária representaria uma diminuição da arrecadação. Esse seria o limite econômico próximo ao que poderíamos entender como confisco.
Não estamos aqui afirmando que seja esse o limite do confisco em si, mas apenas trazendo uma reflexão diferente (econômica) que pode nos auxiliar nessa identificação, ou dar indicativos configuradores de confisco.
A lógica desse pensamento, segundo Ruti Kazumi Nakagaki, não seria meramente psicológica, em termos de quanto os contribuintes conseguem suportar, mas estaria especialmente na ideia de que por meio da tributação são desviados recursos da iniciativa privada para o setor público, nem sempre com a mesma eficiência.
Aliás, podemos dizer no caso particular do Brasil, que essa transferência (dinheiro privado para setor público) nunca se dá com a mesma eficiência. Desnecessário citar os largos exemplos acumulados ao longo da história do país.
Nesse contexto, parece-nos pertinente a astúcia e atenção de Roque Antonio Carrazza73:
Por outro lado, ao utilizar mecanismos da extrafiscalidade para estimular comportamentos (comissivos ou omissivos) dos contribuintes, o Estado quase sempre obtém vantagens maiores do que se arrecadasse os tributos para, depois, aplicá-los aos gastos públicos. Realmente, com a supressão das instâncias burocráticas encarregadas de controlar a destinação do dinheiro obtido mediante o exercício da tributação, a despesa pública tende a diminuir, sem prejuízo do atendimento das exigências de estabilidade social e progressos sociais.
Sob essa linha de raciocínio, corrobora a validade prática da curva de Laffer, o exemplo trazido por Fábio Brun Goldschmidt74, que nos brinda com o exemplo norte-
americano, verificado nos anos de 1990, quando a tributação diminuiu (especialmente no mercado de capitais) diante da crise que atravessava o país e verificou-se, então, um crescimento econômico tão significativo que reverteu o déficit da balança comercial.
Para ilustrar o tema, Henrique Cavalheiro Ricci75 aponta que enquanto os Estados Unidos surfava as benesses desta política de redução de impostos para o crescimento econômico – criando 23 milhões de novos postos de trabalho – a Europa atravessava uma grave crise econômica, eliminando quase 9 milhões de postos de trabalho. Isto demonstra que a redução da carga tributária reverteu-se em benefício da sociedade americana, pelas seguintes razões seguintes, apontadas pelo autor:
A curva de Laffer tem formato parabólico com a concavidade voltada para a esquerda: conforme as alíquotas do tributos se elevam, a arrecadação total vai subindo com elas. Isto acontece até a curva alcançar a sua altura máxima. A partir daí, ela começa a descer. Isto significa que, depois do ponto máximo, quanto mais se aumentam os tributos, menor se revela a arrecadação, visto que, diante de tributos excessivos, empresas e pessoas físicas optam por sonegá-los, não por falhas morais ou institucionais, mas tão somente por uma questão de sobrevivência.
73 CARRAZZA, Roque Antonio. Curso de direito constitucional tributário. 27.ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p.754. 74 GOLDSCHMIDT, Fábio Gold. O princípio do não-confisco no direito tributário. São Paulo: RT, 2004, p.177.
75 RICCI, Henrique Cavalheiro. A tributação extrafiscal ambiental e a limitação imposta pela igualdade tributária. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Paraná, 2014, p.137.
Cobrar desproporcionalmente à capacidade contributiva é, portanto, sinônimo de instituir tributo com efeito de confisco.
Esse tipo de postura desenfreada configura um atentado à livre iniciativa, ao desenvolvimento social e econômico do país, em claro incentivo às posturas de sonegação fiscal por parte dos contribuintes.
Ora, o abuso de tributação, além de não dar azo ao aumento de arrecadação, desestimula completamente o desenvolvimento econômico e social do país.
Percebe-se que nos últimos 12 anos pelo menos a curva de Laffer poderia ser aplicada ao Brasil, que tem sustentado seu crescimento apenas no pilar econômico do superávit fiscal, sem se preocupar com os outros fundamentos econômicos que devem nortear a economia do país.
Observamos o aumento desmedido da carga tributária total e sempre que possível por meios difusos, visando burlar o princípio da legalidade. Não observamos, contudo, a utilização legal da extrafiscalidade para reduzir tributos, com o fito de promover, por exemplo, uma onda mais forte de desenvolvimento econômico e social nas regiões norte e nordeste.
Igualmente, extraímos desse raciocínio que ao não promover esse desenvolvimento nem conseguir aumentar sua arrecadação total, o próprio Estado, por não manipular bem as ferramentas das quais dispõem, tolhe não só o desenvolvimento do seu povo, mas também o seu próprio crescimento.
3 DO DIREITO AO DESENVOLVIMENTO DENTRO DO SISTEMA