Como referimos anteriormente, a produção textual de Sam Shepard em diversos meios e gêneros se distingue pelo tratamento substancial de temas ligados ao contexto
21 conventional methods of narration — sequential events, continuity of time and space, clear-cut distinctions between realism and fantasy [...] formulas in which experience is usually packaged.
sociocultural do oeste americano em especial, mas ao invés de focalizar os ideais tanto de nobreza — encarnados pela Família Americana tradicional — como de heroísmo (vinculados à figura mítica do caubói), seus textos concentram-se no momento da obsolescência desses estilos de vida, que coincide com o advento da modernidade e consolida-se com o fenômeno da pós-modernidade (DeROSE, 1992, p.3).
Em vez das visões baseadas em utopias econômicas e religiosas do velho oeste como a última fronteira da terra prometida em que as férteis propriedades rurais figurariam como novos jardins do Éden, Shepard nos fornece perspectivas desses territórios como locais de perdas e tragédias. Na peça Buried Child (1978), por exemplo, a improdutividade do solo e a decadência do casarão patriarcal compõem o espaço emocional habitado por uma família devastada supostamente por um antigo caso de incesto e infanticídio (2005, p.61-132). Os seres ficcionais que habitam esse território — antes dominado, no imaginário nacional, pela figura mítica do caubói — são sujeitos problemáticos, ora em busca de suas raízes e novos “mitos”, que podem ser figuras emblemáticas como o soldado americano ou os astros do cinema e do rock, ora em rota de fuga desses mesmos vínculos, cuja materialização é o repúdio à fama (Angel City; Cowboy Mouth), ou o rompimento com os vínculos sociais (“Coalinga ½ Way”, Paris, Texas; True West).
Essa substituição ocasiona o aparecimento de sujeitos desajustados e violentos, frutos de um legado familiar de fracassos e decepções. Em True West (1980), por exemplo, uma discórdia entre um roteirista de Hollywood e seu irmão marginal revela os laços hereditários de ambos com um pai ausente, alcoólatra, que é incapaz de se adequar aos papéis sociais de pai e marido (2005, p.1-59). Na peça A Lie of the Mind (1985), por exemplo, Shepard oferece uma visão bastante disfórica do soldado americano, epítome do herói nacional, em uma cena em que a mãe conta à filha que seu pai militar não morreu em combate: “ele não era nenhum herói. Foi atropelado por um caminhão. Bêbado como uma cobra no meio da rodovia” (1986, p.34).22
As inedaquações entre casais é, de maneira geral, um tema comum em incontáveis textos dramáticos do teatro americano, como parte da visão tradicional da separação dos papéis socieconômicos entre os gêneros. Coltrane (1996) refere-se a esse fator como a chamada visão das “esferas separadas”, sendo que o campo de ação do homem reside nos
papéis de provedor e protetor, enquanto a tarefa da mulher é a de ser “boa” esposa e mãe (p.25). Mas, no caso específico de Shepard, essas dissonâncias são mais irreconciliáveis, pois o autor mostra que a fusão, mesmo que momentânea, entre os elementos masculino e feminino é marcada por extrema instabilidade (MURPHY, 2002, p.136). Em A Lie of the Mind, por exemplo, o casal Baylor e Meg quase nunca consegue reconciliar suas diferenças. A certa altura da peça, Meg desabafa com o marido: “Talvez seja mesmo verdade que nós somos tão diferentes que nunca seremos capazes de comunicar certas coisas um para o outro” (1986, p.76)23
A peça Curse of the Starving Class (1978), nessa mesma linha de raciocínio, encena a disputa entre o casal Weston e Ella Tate pelo direito de se desfazer da arruinada propriedade rural da família. Contudo, as cenas de brigas e discussões entre marido e mulher, recorrentes no universo de Shepard, quase não são vistas nesta peça, pois o autor optou por sugerir as dificuldades de relacionamento dos dois por meio de desencontros: quando um chega, o outro já saiu, isto é, as duas personagens raramente dividem o espaço ficcional do palco. Quando afinal se encontram, o confronto dos Tate é violento, conforme sugere um episódio rememorado por Ella ao final da peça: uma águia sobrevoa o telhado do celeiro da família e apanha um gato em suas garras. Os dois animais iniciam uma luta feroz em pleno ar. Vencidos pelo cansaço e pelos ferimentos, os dois precipitam-se sobre a terra, completamente destruídos (2005, p.199-200).
O violento antagonismo contido nessa imagem sugere, de maneira aguda, a impossibilidade de compreensão mútua e coexistência pacífica entre o feminino e o masculino nos dramas familiares e em alguns contos recentes de Shepard, como “A Frightening Seizure”, “The Door to Women” e “All the Trees Are Naked”, do volume Great Dream of Heaven, em que “a impossível lacuna entre homens e mulheres” nunca se fecha (2002a, p.141).24
Desse modo, o autor tende a desestabilizar os ideais da família nuclear americana, cristalizados pela cultura popular, sobretudo no que se refere ao papel dos pais de famílias (family men) americanos, que segundo Coltrane, eram idealizados durante grande parte da história americana como dotados “de razão e autoridade moral superior”, faculdades que os
23 Maybe it really is true that we’re so different that we’ll never be able to get certain things across to each other.
habilitavam a atuar como “supervisores ideais do desenvolvimento espiritual de seus filhos” (1996, p.29).25 Na ficção de Shepard, que, em geral, desenrola-se na atualidade, em que as tradições rurais já estão mais que obsoletas, esses ideais vinculados à superioridade da figura paterna são eclipsados por meio da inscrição de homens agressivos, quase sempre trabalhadores rurais brancos (rednecks) desiludidos com as promessas do sonho americano e incapazes de orientar ou servir de modelo de conduta para seus filhos.
Essas personagens masculinas sofrem do que McDonough classificou como “patologia patriarcal”, isto é, uma tendência hereditária a recorrer ao consumo de bebida alcoólica ou ao refúgio no deserto26 como forma de esconder ou negar as próprias vulnerabilidades e de transformar o corpo feminino em um campo de forças simbólico para o extravasamento, em geral, de maneira abusiva, dessas frustrações e inseguranças (2002, p.154-164). Por essa razão, muitas das peças familiares do autor focalizam desuniões e reencontros violentos entre casais, irmãos, pais e filhos, cujos resultados destrutivos evocam aspectos das tragédias gregas (CLUM, 2002, p.174; ADLER, 2002, p.115).
Como já mencionado, as peças e contos de Shepard ficcionalizam a passagem desse legado de brutalidade masculina através das gerações mais jovens, que reproduzem os mesmos comportamentos abusivos. Mas essas visões problemáticas da herança patriarcal ecoam as complexas relações do próprio autor com sua figura paterna (BIGSBY, 2002, p.24) e as marcas deixadas pelos abusos físicos e psicológicos sofridos por Shepard durante a infância. Esse histórico de agressões, revelados pelo artista em diversos textos (SHEPARD, 1982, p.31,55-56), em entrevistas (SHEWEY, 1997, p.18; ROUDANÉ, 2002, p.71) e em especial no documentário This So-called Disaster (EUA, 2004), tornam difícil não identificar, na fase madura de seu teatro e em alguns de seus contos, componentes de um mecanismo de reparação,27 por meio de processos criativos, dos traumas vivenciados.
25 reason and moral authority [...] ideal overseers of their children’s spiritual development.
26 A figura recorrente, em Shepard, do pai alcoólatra exilado no deserto é inspirada em dados biográficos do autor. Segundo ele, seu pai também “gastava com Bourbon todo o dinheiro que [o artista] lhe dava para comprar comida. Enchia a geladeira de garrafas”. Shepard acrescenta que seu pai morava sozinho no deserto, pois não “se dava bem com as pessoas” (1982, p.56-57).
27 O termo “reparação” é usado aqui no sentido a ele atribuído por Melanie Klein. Conforme sintetiza Olsen (2004), “Klein utilizou o termo reparação para indicar o empenho da criança em reparar a imagem parental, cuja representação interna o indivíduo sente que foi prejudicada em virtude de demonstrações de agressividade. A psicanalista introduziu o termo em 1929, tendo utilizado restituição e restauração em sentido similar, embora menos preciso. Ademais, Klein associou a reparação à criatividade de maneira geral, proporcionando, por meio disso, um novo ângulo para a compreensão da estética, sobretudo no que se refere ao processo criativo” (p.34). De acordo com Klein (1975), em todo ser humano há uma constante interação entre o amor e o ódio, de modo
Embora sejam pouco recorrentes, é possível encontrar na produção artística de Shepard algumas raras alternativas mais positivas para as subjetividades masculinas. A peça The Late Henry Moss (2000), por exemplo, trata do vínculo hereditário de violência e culpa entre os irmãos Earl e Ray em relação ao patriarca da família. Há, no entanto, uma personagem que se destaca nesse contexto trágico: o fiel mexicano Esteban. Ele foi capaz de superar seus próprios problemas com o alcoolismo e acabou se tornando o único amigo e cuidador do ingrato Henry Moss. Esteban também consegue articular seus sentimentos de uma maneira mais produtiva do que as demais personagens, que interpretam suas lágrimas e cuidados como sinais de fraqueza, e apenas se comportam de modo destrutivo. Essa alternativa, digamos, mais “benéfica” para a subjetividade masculina proposta por Shepard acaba passando, no entanto, por traços convencionalmente associados ao universo feminino: além de externalizar as emoções, Esteban em geral aguarda de modo paciente o retorno do Sr. Moss dos bares e, para curar-lhe a ressaca, prepara-lhe uma tijela de sopa quente quase todas as noites (2002b, p.29,85). O comportamento de Esteban contraria os estereótipos da identidade masculina, que, segundo Coltrane, “tendem a suprimir e desvalorizar os componentes gentis e vulneráveis de suas psiques em um esforço inconsciente de manter uma percepção firme de masculinidade” (1996, p.6).28 Dessa forma, conforme argumenta Clum (2002), o “remédio” para essa patologia patriarcal em Shepard envolveria a constituição de um homem mais civilizado, ou “feminizado”, em oposição ao espírito anárquico do macho dominante (p.175).
Shepard não se atém, no entanto, a essa lógica binária entre o homem viril e o homem feminizado — ou woman-man, como propõe a personagem Beth da peça A Lie of the Mind (1986, p.58) — e sugere, no conto “Remedy Man”, do livro Great Dream of Heaven, uma alternativa produtiva de subjetividade masculina, ao mesmo tempo capaz de articular sentimentos de afeição e de atuar em um campo de ação tradicionalmente másculo. O texto codifica duas histórias em uma única narrativa: a luta de um domador de cavalos chamado E.V. para amansar um animal bravo, que evoca, em um plano mais abstrato, os conflitos do protagonista infantil com Mason, seu pai autoritário e brutal. Ao longo do texto, o garoto manifesta predileção pela figura gentil do domador E.V., pois a presença desse remedy man é que o trabalho de reparação é “um elemento fundamental no amor e em todos os relacionamentos humanos” (p.97). A agressividade e o ódio podem, nesse sentido, ser utilizados em formas construtivas (“sublimadas”) como reparação de relações afetivas internamente representadas.
28 tend to suppress and devalue the soft and vulnerable parts of their psyches in an unconscious effort to maintain a firm sense of masculinity.
como “uma mão cálida pousada suavemente sobre o [seu] peito” (2002a, p.5), ao contrário de seu pai, que é um “inútil”, incapaz de consertar o caos (MALIN, 2003, p.145). Desse modo, o narrador conclui que “deve haver homens crescidos [como E.V.] neste mundo que realmente tiram uma centelha da vida e que, de alguma forma, conseguem se esquivar do buraco negro no qual [s]eu pai caiu” (Ibid., p.4-5).29 Embora o texto não associe qualquer elemento em particular a essa imagem do buraco negro, que em The Late Henry Moss assume a forma de um “túnel negro” (2002b, p.63), parece óbvio que gravitam em torno de seu vórtice traços como alcoolismo, negligência e abusos, isto é, aspectos que ameaçam desintegrar a instituição da Família Americana, e que, como vimos, compõem a chamada patologia patriarcal recorrente nos textos de Shepard.
Essa recorrência de personagens masculinas abusivas em textos do autor, no entanto, tem despertado algumas críticas (cf. AUERBACH, 1988) quanto a uma preocupação exclusiva de Shepard com o universo masculino em detrimento da abordagem de traços da psique feminina (SHEWEY, 1997, p.90,99-100). Na seção seguinte, apresentamos contraexemplos dessa visão no âmbito da produção do autor e discutimos passagens de peças e contos que viabilizam o aprimoramento do papel social das mulheres.