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Assim como na época retratada pelo livro de Hebreus, o sistema político e econômico vigente, determina muitos dos rumos tomados pela religião. Nos dias de hoje, o sistema denominado Neoliberal, mantém uma influência muito grande no estilo e na estrutura do culto cristão. Ainda que algumas denominações mantenham o discurso “politicamente correto” e de forma agressiva contra o mercado, não é esta a representação discursiva de uma grande parte do cristianismo, especialmente da ramificação conhecida como Neopentecostal.

O sistema de mercado coopera para uma forma de domínio e de divulgação do sagrado em determinados campos e grupos de pessoas que, certamente estariam áridos, não fosse o cultivo e divulgação evangelística por intermédio do mercado.

Magali do Nascimento Cunha, em um texto que discute sobre o assunto, dialoga com a cultura religiosa de hoje, a qual se caracteriza por ser uma “cultura religiosa errante”, e que se mostra em um território sem uma demarcação cultural rígida258. Segundo a autora, esta desterritorialização vem a ser um dos fenômenos da globalização, o qual promove um diálogo de tal forma entre as culturas, ao ponto de desvincular as identidades das culturas de suas histórias, tradições e memórias.

A religião de mercado e o mercado da religião (trocadilho usado por Cunha), proporciona uma livre concorrência entre as igrejas e denominações. Havendo uma disputa pelos fiéis, numa liberdade de mercado onde o

258 CUNHA, Magali do Nascimento. Consumo: novo apelo evangélico em tempos de cultura gospel. In.

conhecimento teológico259 não dita mais as regras da religião mais verdadeira e

mais bíblica.

Esta livre disputa, característica do mercado neo-liberal, se desenvolve em função do crescimento corporativo, a rigor, da mesma forma das grandes corporações, onde, as igrejas mais poderosas acabam monopolizando o estilo de culto, as composições usadas nas liturgias, a liberdade de expressão corporal e o discurso falado entre outros fatores.

Leonildo Silveira Campos, no texto denominado Protestantismo histórico e

pentecostalismo no Brasil: aproximações e conflitos, diz que todo fenômeno

religioso “tem seu crescimento atrelado a um conjunto de causas de caráter histórico, sócio-econômico, religioso e cultural, que independem da boa vontade ou do grau de consciência de seus integrantes260”.

Enquanto as entidades religiosas mais tradicionais se defendem contra o discurso do mercado, Cunha observa que todo este relacionamento entre o mercado e a religião oferece uma afirmação na auto-estima dos membros das igrejas protestantes históricas de missão, que estavam sendo “inferiorizadas pelas políticas neoliberais excludentes implantadas no país261”.

Ainda outra alteração é apontada por Cunha, quando vê que o investimento social veio a fazer parte do modo de ser das igrejas evangélicas.

259Para ver mais sobre o aspecto teológico e sua perda de autoridade frente as interpretações alegóricas e

experiências pessoais, temos o texto de MARIANO, Ricardo. Neopentecostais. Sociologia do novo

pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999.

260 CAMPOS, Leonildo Silveira. Na Força do Espírito. São Paulo: AIPRAL - Pendão Real, 1996, p. 93. 261 CUNHA, Magali do Nascimento. Op. Cit. p. 64.

Também o marketing religioso, e o crescimento das consultorias especializadas neste campo, segundo a autora, corroboram para estabelecer estratégias a fim de alcançar resultados previstos.

Parcerias como a ocorrida entre a editora Siciliano e a Editora Gráfica da Igreja Universal do Reino de Deus, com o objetivo de aumentarem a comercialização de literatura evangélica são outros exemplos oferecidos por Cunha, apontando para uma ligação muito grande entre o sagrado moderno e o mercado262.

Dildo Pereira Brasil, em uma pesquisa que considerou a renovação carismática na Igreja Católica e suas relações com o sistema de Mercado”, faz um balanço negativo do fenômeno, afirmando que, na sociedade contemporânea, os movimentos espiritualistas estão correspondendo aos ideais neoliberais.263

Por outro lado, Magali do Nascimento Cunha entende mais positivamente o fato de os cristãos terem se tornado um segmento de mercado, uma vez que já pode ser identificada uma programação da mídia religiosa eletrônica; segundo a autora haveria também, no caso dos evangélicos, uma mudança quanto à evangelização clássica.

Para ela, este consumo ‘consagrado’ possibilita uma realização ecumênica marcante e de valor, inclusive com a quebra de barreiras confessionais e

262 Cf. Serviço de Notícias ALC (Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação), 9 Jul. 2003.

http:// www alcnotícias.org. apud. CUNHA, Op. Cit. p. 70.

263 BRASIL, Dildo Pereira. A Renovação Carismática Católica e suas Relações com o Sistema de Mercado.

“aproximações até há pouco impossíveis entre evangélicos e católicos romanos por exemplo264”.

CONCLUSÃO

Uma vez analisados os paralelos existentes entre a comunidade dos hebreus e a sociedade atual, é possível estabelecer alguns pontos de cruzamento, os quais acabaram sendo determinantes para que esta pesquisa obtivesse alguns resultados.

Talvez o mais significante tenha sido as dialéticas internas (necessárias) que a história aponta que sempre existiram na religião: (memória/tradição versus flexibilidade/novidade) e (razão versus emoção).

Quando por ocasião da transposição da liturgia judaica para a liturgia cristã265, observamos um certo abandono do rito sacrificial e uma dedicação à palavra (o código) escrita. A perda temporária do Templo de Jerusalém durante o exílio proporcionou um crescente estudo e observância da Lei. Ainda o advento das sinagogas, local onde o culto ficou estabelecido muito mais pela pregação e estudo da palavra do que pelo ritual do sacrifício, levou a religião a se engajar em um momento mais racional do que sentimental.

A dialética sofrida pela igreja primitiva, entre o culto sentimental (expresso por intermédio do sacrifício ritual) e um culto racional (expresso por interpretações codificadas e textuais) é vista também nos dias de hoje, em uma religião que oscila entre um culto simbólico e outro racional.

Contudo, isto não quer dizer que a religião esteja padecendo de uma identidade desencontrada, antes, tal ocorrência deve ser entendida apenas como subterfúgio moderador da religião; pois, não fosse por este fator a religião jamais

teria como ultrapassar as barreiras culturais, e conseqüentemente, uma mesma religião de forma alguma teria condições de se estabelecer em épocas tão exacerbadamente sentimental (como foi o caso da época barroca) e em épocas tão extremamente racional (como no caso da iluminista). Também não fosse por esta balança entre o sentimento e o raciocínio (símbolos e Escrituras) em que vive a religião, jamais o cristianismo teria conseguido se estabelecer em fronteiras tão distintas, como no caso de países que dão extrema vazão à emoção (como no caso de países africanos e latinos), e em países que se apegam demasiadamente à razão (como alguns europeus) e ainda países que enobrecem o controle das emoções em detrimento da expressividade delas (como no caso de alguns países da Ásia).

Esta dialética entre razão e emoção também ocorreu na comunidade dos hebreus. Apesar de que a Igreja Primitiva tenha dado uma nova interpretação a cada símbolo ocupado no ritual judaico266, eles não abriram mão de se

estabelecerem como uma religião codificada, com um Escrito Sagrado manufaturado pelos punhos de vários de seus próprios líderes.

Se as questões político-econômicas englobam também as mudanças internas ocorridas na religião, o fato de que a Nação de Israel do período interbíblico e dos primeiros séculos do cristianismo tenha sido tomada de assalto por diversos atritos sociais, políticos, culturais e financeiros; certamente todos estes fatores teriam uma influência considerável na questão.

Os rumos tomados por uma sociedade, sejam conscientes ou inconscientes, determinam sempre um movimento em direção ao processo civilizatório267: mito>rito>símbolo>palavra escrita.

Desse modo, temos que a Lei judaica jamais poderia ter sido desconsiderada pelo cristianismo latente, entretanto, os novos métodos interpretativos usados como subterfúgio pelo cristianismo, promoveram o nascimento de uma religião complexa: almejando separar-se do judaísmo, mas paradoxalmente, guardando seus valores e sua descendência.

Também o fato de a liturgia cristã ter se formado em meio a uma sociedade de elevado nível intelectual tal qual era a greco-romana, fez com que o cristianismo se distinguisse do judaísmo no sentido de se ver obrigado a produzir um discurso litúrgico inclinado a dar respostas às questões levantadas pela sociedade vigente268. Por outro lado o judaísmo, com seus rituais bem definidos, não se via em tal obrigação, fato que certamente explica a categórica expansão do Cristianismo frente ao Judaísmo. Disto conclui-se que, é impossível à religião que se identifica demasiadamente com seus costumes, ritos e sistemas litúrgicos (todos eles fatores sujeitos à renovação), um crescimento fora de suas próprias raízes culturais. Com isto, a religião judaica teve um crescimento por rebento familiar (ad tempora) mensuravelmente bem maior que o crescimento por prosélitos simpatizantes de seus cultos.

267 Cf. Capítulo 2, p. 70.

É possível, com base na proposta de Chupungco, dizer que houve uma aculturação por parte do cristianismo, enquanto que houve uma estagnação institucional por parte do judaísmo.269

Outro ponto de cruzamento existente entre as épocas da formação litúrgica na comunidade em mudança dos hebreus e na comunidade em mudança de hoje, é o fato de que a tradição, em ambas as épocas, se torna uma espécie de ameaça.

Assim como a comunidade dos hebreus enfrentou a tradição de forma acirrada, também a diversidade religiosa, proveniente da modernidade e promovida por ela, depara-se com este impasse nos dias atuais, e este choque vem a ser condição ‘sine qua nom’ para que uma nova estilística litúrgica possa firmar sua existência.

Se por um lado a comunidade dos hebreus se posicionava contra toda a interpretação ritualística dos judeus de então, foi possível ver que nesta dialética existente entre a tradição e a modernidade, não basta apenas descartar todos os símbolos memoriais legados pela tradição. Foi necessário que a comunidade cristã refizesse todo o sistema de leitura simbólica, dando novos significados aos rituais judaicos de então.

Também o código escrito foi anexado à liturgia cristã, e, mesmo que até aos dias de hoje o AT é preterível ao NT, sendo este bem mais usado em função até mesmo de sua capacidade de se adequar aos novos parâmetros religiosos modernos, ainda assim, o AT foi considerado como solo sobre o qual uma nova liturgia se firmou.

Isto nos leva a considerar de maneira substancial o seguinte: Que é impossível estabelecer um sistema de culto completamente novo, sem considerar muitos pontos da forma litúrgica anterior. Dessa maneira, o ‘novo’ sistema litúrgico, a rigor do que expôs Mircea Eliade no ‘Mito do Eterno Retorno’270, não é novo, mas é sim, o velho revestido de novo. Uma mesma essência com outra forma.

Entretanto, os processos regidos pela tradição não aceitariam nem mesmo este revestimento, e, portanto, assim como foi necessário ao cristianismo aceitar o choque com o judaísmo do período271, de igual forma os novos modelos da liturgia pós-moderna terá que enfrentar os choques e atritos no decorrer desta dinâmica entre o Velho e o Novo, a tradição e a modernidade, o futuro e o passado.

Para alguns, estes novos rumos litúrgicos não serão a representação de outra coisa senão o fim de um projeto histórico-religioso, que coincidiu com a tarefa ingrata de destruição e desconstrução da racionalidade totalizante e moderna – a tarefa negativa da pós-modernidade.

Para alguns idosos soará como aberração o fato de que, dentro de uma comunidade eclesiástica, haja um show de rock evangélico, com jogos de luzes, antes característicos dos lugares profanos (tais como clubes de danças, cinemas e casas de orgias). Para a tradição representada (nem sempre apenas pelos mais idosos, uma vez que se trata de um discurso, e, portanto, um poder político- social), soará como uma agressão os acordes eletrônicos do ‘hip-hop’ e do ‘tecno’, ou ainda, far-se-á como verdadeira blasfêmia as danças coreográficas com

270 ELIADE, Mircea. Op. Cit.p. 56-62. 271 Cf. Cap. 1, p. 8.

músicas em tonalidades altas e timbres chorados e expressivos como fundo. As orações via e-mail, ou ainda a nova simbologia vendida pela mídia evangélica (que designa uma determinada “tribo” da qual o jovem/adolescente faz parte: a saber a comunidade ‘Gospel’). Tudo isso faz parte dos novos rumos que a religião está tomando.

Se a modernidade está realmente em crise, com seu projeto (dar respostas ao ser humano por intermédio da razão) destruído e liquidado como propõe Lyotard272, a religião vai se tornando uma resposta cada vez mais poderosa para

esta crise.

Por outro lado, se esta quebra de elos com a tradição, com o passado e com sua própria razão de ser (a memória), não for apenas uma representação superficial; se não for apenas uma mudança da forma, mantendo a mesma essência memorial e portanto, verdade histórica; então a religião estará fadada a viver sem memória. Isso quer dizer que, a cada culto, a novidade seria uma exigência tal que, as celebrações religiosas não suportariam o fardo da repetitividade.

Isso leva a um outro extremo, a exigência do fiel pelo novo (uma vez que não interessa a memória, não interessa a repetição) vai levar a liturgia a um sem fim de invenções pirotécnicas, a fim de satisfazer e manter o adorador por intermédio do ‘novo’.

272 LYOTARD, J.F. apud CASTIÑEIRA, Angel. A Experiência de Deus na Pós-Modernidade. Petrópolis,

Vozes, 1997. A palavra pós-modernidade é em si mesma, equivoca porque, não pode significar “aquilo que vem depois da modernidade, uma vez que a palavra “moderno” significa ‘agora’. Segundo Lyotard, sempre será “agora’, e nunca ‘depois de agora’. p. 128.

Cabe questionar se a comunidade eclesiástica, geralmente formada por voluntários, terá fôlego para disputar terreno com o ‘show business’, formado por profissionais.

Finalmente, mesmo sabendo que somente o tempo poderá responder a questão, é possível prever uma ameaça resultante em duas vertentes: para os mais racionalistas, uma vez a religião tendo perdido o terreno memorial do sagrado, estaria entrando no mesmo campo do entretenimento estético, logo, ir a um teatro, visitar uma galeria, torcer em um estádio de futebol, assistir a um musical ou celebrar na igreja estariam todos no mesmo patamar estético. Para os mais espiritualistas, a religião ficaria presa apenas no campo das manifestações mágicas.

Por outras vezes na história, houve os que atestaram o fim da religião e a morte de Deus273, mas a religião não acabou, e Deus está aí, “mais vivo do que nunca”. Com esse novo rumo litúrgico, talvez há quem ateste a célebre frase: “ é o fim do mundo”, mas enquanto ele não chega, a liturgia está sofrendo mudanças.

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