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Quando entrevistei os transformistas, uma das questões que procurei compreender prendeu-se com os requisitos necessários para ingressar nesta profissão. Além dos supracitados valores no que respeita aos ideais para a performance do transformismo, percebi que, como já referi, existem duas visões no que se reporta à origem do “talento”

                                                                                                                         

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Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).  

para realizar este trabalho: uma essencialista e outra construtivista. Se por um lado alguns fizeram questão de salientar as dificuldades inerentes a todo o processo de aprendizagem de uma música ou de um show, outros salientaram a importância de uma certa predisposição natural para o transformismo. Marco Ferreira é apologista desta segunda visão:

“Eu acho que tu tens de ter jeito. Tens de ter qualquer coisa contigo. Não é qualquer pessoa que chega ali, que se veste de mulher e faz o nosso trabalho. Olha, o meu pai não fazia, por exemplo. Portanto eu acho que tem de haver um certo “quê” contigo, ou aquele bichinho que te faça mexer. Eu lembro-me que quando comecei a aparecer na noite eu ficava completamente vidrado com aqueles brilhos, com as danças e coreografias, ficava completamente passado com aquilo. Dali é só aprofundar a situação e ver se realmente é possível, se vale a pena. Eu penso que sim, que tem que nascer qualquer coisa contigo, depois tem de ser trabalhado”116.

João Velosa “Nyma Charlles” defende também esta posição ao lembrar que a “arte do transformismo” é algo que não é exclusivamente adquirido pela experiência mas sim o resultado de uma predisposição natural: "Para se ser artista [o talento] tem de nascer um bocado dentro de nós. Eu já vi casos em que as pessoas querem ser artistas à força mas se não está nelas, não vale a pena. No meu ponto de vista, ser artista não implica apenas a performance em palco, mas sim ser-se bom em alguma coisa, seja essa coisa ser um cozinheiro, um carpinteiro ou um transformista”117. Obtive uma resposta semelhante de Vítor Hugo: “Acho que já nasce connosco sim. Vamos aprendendo estilos e as poses para entrar em palco, mas o bichinho da dança, de representar e cantar já estava lá [...] Eu acho que nasce com a pessoa, agora esta pode ignorar ou desenvolver até chegar ao seu objetivo”118. Ricardo Tavares “Norma Swan” reforçou, igualmente, que deveria haver uma predisposição natural para a prática do transformismo, apesar de fazer questão de referir o quão penoso foi o seu processo de aprendizagem, não só de questões relacionadas com o repertório mas principalmente com a apreensão dos movimentos e técnicas de apresentação em palco:

                                                                                                                         

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Entrevista a Marco Ferreira “Samantha Rox”, transformista no Finalmente Club (18 de maio de 2013 no Café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 16:30).

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Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).

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Entrevista a Vítor Hugo Sousa, bailarino no Finalmente Club (21 de maio de 2013 no café Wine & Pisco, Rossio, Lisboa, 17:15).

“O processo de aprendizagem foi muito doloroso. Primeiro comecei pelos sapatos altos. Eu não sabia andar de salto alto. Foi o Fernando quem me ensinou. Depois foi a maquilhagem, aí foi a Samantha que me ensinou a fazer tudo. Estar em cena, as poses, tive de recolher dicas de todos eles… a maneira de por os pés, as pernas cruzadas em palco para não cair e não perder o equilíbrio. Saber usar a cauda no vestido, etc... há toda uma complicação sobre como posicionar os pés e tomar balanço etc. Temos de estar sempre a sorrir também, que é algo que eu detesto”119.

Quando perguntei se era imperativo os transformistas serem homossexuais todos os artistas responderam que não. Alguns justificaram a resposta com a referência a um ou outro transformista estrangeiro que é heterossexual, mas que desconheciam a existência de algum caso em Portugal a não ser os atores do teatro e televisão que interpretem personagens do sexo oposto, como refere Vítor Hugo: “Não interessa se é gay, hetero, seja o que for […] tens o exemplo do programa televisivo “A tua cara não me é estranha” em que alguns cantores como o FF ou o Francisco Meneses interpretam vestidos a rigor canções de mulheres. Podes chamar àquilo transformismo, também. E é

– eles estão a encarnar personagens do sexo oposto”120. Porém, quando perguntei se achavam possível um heterossexual fazer o trabalho deles numa dinâmica diária, a resposta foi inequívoca: “Não, hetero não. Bissexual talvez”, respondeu Nyma Charlles, acrescentando em seguida:

“Eu acho que se um hetero trabalhasse todos os dias naquela situação não aguentaria. Uma coisa é fazer uma personagem na televisão ou no teatro, outra coisa é trabalhar no Finalmente sete dias por semana naquele ambiente. Ou teria de estar muito seguro da sua sexualidade e ser muito liberal ou não funcionava. Além disso um hetero não vai tão a fundo como um homossexual a fazer uma personagem feminina. Porquê? Porque nós tentamos encontrar uma outra leitura da mulher que o homem heterossexual não tem. O heterossexual tenta descobrir a mulher e nós não, nós tentamos entrar no interior da mulher. Muitos atores vão pelo físico mas nós conseguimos ir além, vamos ao fundo do ser... o respirar, o olhar, tudo”121.

Embora os transformistas não recusem a possibilidade de um heterossexual ser

                                                                                                                         

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Entrevista a Ricardo Tavares “Norma Swan”, transformista no Finalmente Club (19 de maio de 2013 nos Armazéns do Chiado, Chiado, Lisboa, 16:40).

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Entrevista a Vítor Hugo Sousa, bailarino no Finalmente Club (21 de maio de 2013 no café Wine & Pisco, Rossio, Lisboa, 17:15).  

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Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).

transformista, para eles é praticamente impossível este fazê-lo com a frequência com que acontece no Finalmente Club. Para se ser transformista numa sala de espetáculos frequentada essencialmente por homossexuais e aguentar este trabalho durante décadas, como é o caso de Fernando Santos que soma quase 30 anos de carreira, é pouco provável não se ser homossexual. Além disso, ser homossexual pode ser um requisito essencial para uma performance bem feita de transformismo, na media em que, como explica Velosa na citação anterior, “estes vão para além do que um heterossexual iria”.

Em geral, o discursos dos cinco transformistas entrevistados evidenciam uma mistura de perspetivas essencialistas e construtivistas no que concerne a origem do talento para o transformismo. Porém esta mistura não é equitativa, na medida em que a visão essencialista parece prevalecer e preceder a visão construtivista. Prevalece a ideia de que o talento é algo inato, algo bruto que nasce com um indivíduo e que pode, posteriormente, ser trabalhado. Ou seja, a visão construtivista pode existir, mas sempre dependente ou resultante de uma condição essencialista.

Quando falamos sobre a questão da origem do talento, estamos a falar do mesmo problema debatido na Etnomusicologia, com especial menção ao clássico How Musical is Man? de John Blacking (1973). À luz da perspetiva de Blacking, não podemos olhar para os dados proferidos pelos transformistas como simples e adquiridos. Ainda assim, a análise destes discursos não pode descartar uma perspetiva de representatividade, na medida em que os transformistas podem usar a abordagem essencialista para legitimar e salientar a importância do seu trabalho, lembrando que “não é qualquer um que se veste de mulher e faz o que fazemos”122, ou seja, que este trabalho é especial porque só alguns podem fazê-lo com qualidade – manifestamente os que nascem com uma predisposição para tal123.

                                                                                                                         

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Ibidem.   123

Este discurso pode ser encontrado em muitas outras práticas musicais por todo o mundo, designadamente nos discursos em torno do Fado. As ideias de que “só o português é que pode cantar o Fado” ou que “o Fado é algo que nasce com a pessoa” levantam um mesmo problema de representatividade. Será pertinente referir que os próprios transformistas do Finalmente Club estão familiarizados com estes discursos em torno do Fado, principalmente Fernando Santos e Vítor Hugo por terem nascido e crescido no bairro da Mouraria, um espaço lisboeta amplamente associado a essa prática. Tendo em conta que Santos é também interprete de Fado, não será de descurar que os transformistas tenham adotado esses mesmos discursos para caracterizar e reforçar a importância do seu trabalho.

Benzer Belgeler