Na primeira vez que assisti ao “Lugar às Novas” um colega de curso perguntou- me com um ar irónico: “então senhor etnomusicólogo, o que me diz sobre isto a que estamos a assistir”? “Não sei”, retorqui imediatamente, “para responder a essa questão teria de falar com aquelas pessoas e perceber o que as faz mover; perceber o que as faz vestirem-se de mulher e fazerem este tipo de performance em público”. A imagem que me transmitiram dos espetáculos de transformismo e, em particular do “Lugar às Novas”, era pouco abonatória; disseram-me, ainda antes de entrar no Finalmente Club, que se tratava de um espetáculo “degradante”, com “péssima qualidade” e cujo único propósito era o de ridicularizar quem ali se apresentava. Seria isto assim tão linear? Em caso afirmativo, teriam os aspirantes a transformistas a noção de que a grande maioria dos clientes estavam lá para os ridicularizar? Estas questões tornaram-se particularmente pertinentes quando presenciei o gozo de grande parte da audiência durante a quase queda de um concorrente em palco, ou quando a gravação parou em plena atuação. Entretanto passaram-se quase dois anos; hoje tenho uma visão muito mais esclarecida sobre esta rúbrica e dos propósitos que movem os seus intervenientes.
mudanças ao longo dos anos: esta acontecia, numa fase inicial, apenas às segundas- feiras, tendo a posteriori mudado para as quartas-feiras após outras casas, designadamente o Bric-à-bar, começarem também a apresentar no mesmo dia um formato semelhante. Após o Bric-à-bar abandonar os shows de transformismo em prol de outros espetáculos menos dispendiosos, o “Lugar às Novas” voltou ao seu dia original (segunda-feira) no Finalmente Club, permanecendo assim até hoje. Até meados da década de 1990 esta rúbrica funcionava como uma espécie de concurso livre onde eram eleitos os melhores transformistas. Perante a ausência de novos concorrentes, a sua configuração mudou: o formato concurso foi abandonado perante o decréscimo de novos participantes. “O Lugar às Novas tornou-se assim numa espécie de Lugar aos mesmos”, na medida em que são sempre as mesmas pessoas que se apresentam todas a semanas. Será interessante referir que os artistas autopropostos recebem “uma pequena compensação monetária pela sua participação”, explica Santos, “se for uma pessoa que já faz aquilo há algum tempo, há um ou dois anos, recebem um pouco mais, mas os que vêm pela primeira vez recebem algo que dá para um pequeno almoço ou para pagar um táxi para casa. Se dessemos mais a casa entraria em prejuízo, principalmente nas noites em que tivemos mais de vinte participantes em palco”124.
A coexistência da rúbrica em pelo menos duas casas no mesmo dia no decorrer da década de 1990 confirma a existência de vários concorrentes autopropostos e de um elevado interesse por parte do público por esta variante performativa. Fernando Santos explica o funcionamento do “Lugar às Novas” nessa época:
“Quando fui para o Finalmente em 1994 o “Lugar às Novas” fazia-se com muita graça, porque o que se pretendia ali era que as pessoas se apresentassem, independentemente de serem avaliadas pelo público, e nós aproveitávamos para brincarmos um pouco com elas. O objetivo era fazer daquilo um espetáculo diferente; as pessoas propunham-se e ganhavam exatamente porque nós brincávamos com elas. Eu fazia a locução. Dizia coisas como “temos aqui a não sei quantas que está vestida por isto, penteada por aquele”... e assim brincava com marcas famosas, isto apesar da pessoa se apresentar muito mal penteada e muito mal vestida. O que fazia daquilo uma graça era o facto de eu ir alimentado as falhas deles e para quem assistia a graça não estava na qualidade do artista mas sim das graças que se iam tirando daquilo. As pessoas iam lá porque mesmo que as transformistas fossem más, a noite ficava ganha pelo que nós, os profissionais, dizíamos daquilo tudo. Isto era a trama do “Lugar às Novas” algures na década de 90”125.
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Entrevista a Fernando Santos “Deborah Krystal”, diretor artístico e transformista no Finalmente Club (08 de março de 2013 no Café Rosa dos Ventos, Praça da Alegria, Lisboa, 17:00).
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Neste excerto está implícito que um dos propósitos centrais do “Lugar às Novas” é fazer do “mau” ou da “má performance” o foco do entretenimento. Por conseguinte, e em total desacordo com os valores explicitados no subcapítulo anterior, esperava-se que os transformistas desta rúbrica se apresentassem em palco com pouca qualidade. Os comentários depreciativos dirigidos pelos transformistas profissionais aos autopropostos não devem ser vistos apenas como um complemento performativo, sendo este também um momento privilegiado para os profissionais demonstrarem ao público que o seu trabalho é muito mais difícil do que à primeira vista poderá parecer, servindo-se assim do “mau exemplo” para salientar a dificuldade inerente a este trabalho. Afinal, não é qualquer homem que se veste de mulher e consegue fazê-lo com sucesso. Segundo os meus informantes, as observações irónicas ou pouco abonatórias dos profissionais eram esperadas por parte do público e pelos próprios concorrentes; numa fase inicial estes não as levavam a mal. Porém, “a certa altura houve uma mudança”, nota Fernando Santos:
“As pessoas começaram a ficar diferentes; começaram a ficar chateadas connosco. Diziam: “vou-me embora porque a Deborah está a gozar com o nosso trabalho”, e eu não quis começar a perder elementos porque o número de pessoas a quererem vir ao palco diminuiu e aquilo perdeu um bocadinho do interesse que tinha. Hoje em dia temos de ter muito cuidado com o “Lugar às Novas” para não ferirmos susceptibilidades; não queremos que as pessoas saiam de cena e estraguem o espetáculo. Por isso também perdemos, lamentavelmente, alguns clientes que iam lá porque achavam graça aos meus comentários”126.
Alguns dos autopropostos começaram a levar a sério o seu trabalho como aspirantes a transformistas e, por conseguinte, os comentários depreciativos de Deborah Krystal e do seu grupo punham em causa a legitimidade e seriedade desses novos artistas. Não obstante os objetivos dos concorrentes, a esmagadora maioria dos clientes continuam atualmente a valorizar o “mau” enquanto dimensão central do “Lugar às Novas”. Isto foi-me dito in loco por vários dos clientes que frequentam o espaço, chegando alguns a sublinhar um maior interesse por esta rúbrica do que pelos outros espetáculos da casa. Estes preferem um espetáculo com propósitos de ridicularização, em vez de uma tentativa de espetáculo sério.
Apesar de, na sua generalidade, a intenção dos transformistas ter mudado, “a
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qualidade continua a ser muito baixa”, refere Nyma Charlles, acrescentando em seguida que “eles não decoram o playback, não têm noção de como se apresentar em palco [...] aliás, acho que nem se olham ao espelho [...] alguns vão lá todas as segundas-feiras para brincar um pouco, outros pensam que podem ter futuro nisto... mas não têm qualquer hipótese porque são mesmo muito maus”127.
Quais são as estéticas predominantes nesta rúbrica? Na segunda-feira, dia 20 de maio de 2013 apresentaram-se em palco quinze artistas no “Lugar às Novas” (vide ANEXO B): doze autopropostos e três como convidados (Shantal de Cuba, Kassandra e Grace Panther). As estéticas das apresentações variaram de artista para artista: um dos participantes não fez transformismo, apresentando-se apenas como bailarino (Joshua), enquanto Shantal de Cuba levantou a casa em aplausos com uma performance que pode ser enquadrada na estética do drag queen ou da “personagem andrógena”, como o transformista prefere caracterizar o seu boneco (no ponto 4.3.3 desenvolveremos este caso). Entre os treze artistas que fizeram papéis femininos encontramos objetivos e valores muito díspares: se a Nikki Fox, Kelly Diamons, Sandy Jones, Sónia Bic, Ashley Gonçalves, Nicole Simons, Katy Paris, Kassandra e Grace Panther procuraram emular um ideal de mulher (seja através do recurso à imagem do artista original ou através da criação de uma imagem pessoal), Luísa Bruni, Ramona Stewart e Lisa Luna apresentaram números mais ligeiros ou cómicos. Luísa Bruni subiu ao palco a cambalear, fazendo-se acompanhar por uma garrafa de cachaça com propósitos de emular o papel da bêbeda “Júlia Galdéria”; Ramona Steward fez um número cómico como telefonista, recorrendo para o efeito a um telefone de modelo antigo como adereço; por sua vez Lisa Luna, um transformista que tem uma imagem pouco convencional (marcada pela obesidade), dança de uma forma sensual enquanto sussurra “Como uma virgem, tocada pela primeira vez”. Lisa Luna interage com o público e os transformistas residentes, munida com uma atitude sexualmente sugestiva, arrancando fortes gargalhadas de grande parte dos presentes.
Perante este contexto, dos treze artistas que fizeram de mulher apenas três o fizeram com propósitos cómicos ou de ridicularização. Os restantes procuraram fazer um trabalho de transformismo “sério”, ao interpretar a mulher convencional. Não obstante a intenção, os resultados são muito díspares, como nota Lázaro Ferro “Shantal
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Entrevista a João Velosa “Nyma Charlles”, transformista no Finalmente Club (27 de julho de 2013 no café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 17:00).
de Cuba”, um dos convidados especiais do “Lugar às Novas”:
“Existem pessoas que vão ao “Lugar às Novas” que não têm qualquer noção do ridículo. Há pessoas que têm capacidades e outras que não. E há pessoas que até acham que o ridículo é bom. Há de tudo. Não digo todos, mas alguns pensam que estão a fazer uma coisa bem feita quando não estão. Muitas vezes cheguei a alertá-los com algum cuidado, do tipo, atenção não devias fazer isto, é ridículo etc. etc., mas muitos não se importam… outros mudam alguma coisa. Mas tem muita gente por lá que não se toca, não se dá de conta de que faz ridículo forte e feio”128.
Ou seja, existe uma discrepância entre os objetivos dos transformistas autopropostos e a imagem que o público recebe do seu trabalho. Os primeiros pensam que estão a fazer um trabalho bem feito, porém, são ridicularizados pelos segundos por uma má apresentação: por terem uma peruca má, por estarem mal pintados, por não saberem andar de sapato de salto, por se enganarem no playback ou, facto ainda mais grave, porque a performance é interrompida devido a problemas técnicos com o CD. Esta última situação aconteceu com Sandy Jones no referido dia. Para a grande maioria do público esta foi uma situação perfeita, na medida em que foi uma excelente hipótese para gozar e ridicularizar os transformistas. Não obstante os propósitos dos mesmos, a estética do “mau” parece prevalecer, sendo esperada e particularmente valorizada nas noites de segunda-feira.
4.3.2. “Uma escola de transformismo”
Existe um conflito de ideias no que respeita ao objetivo performativo do “Lugar às Novas”: será este um espaço para ridicularizar a “má” performance do transformismo ou, pelo contrário, um espaço privilegiado para lançar novos transformistas emergentes?
Como já foi mencionado, os transformistas Samantha Rox, Jenny Larrue, Nyma Charlles, Norma Swan e o bailarino Vítor Hugo passaram pelo “Lugar às Novas” antes de integrarem o elenco fixo do Finalmente Club. Existem muitos outros casos de artistas que se emanciparam no mundo do espetáculo através desta rúbrica, lembrando que não
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Entrevista a Lázaro Ferro “Shantal de Cuba”, transformista (Lugar às Novas) (23 de maio de 2013 na Praça Martim Moniz, Lisboa, 16:20).
serve apenas para apresentar e ridicularizar os “maus”, servindo também para a divulgação de novos artistas, numa espécie de escola informal de transformismo, como assevera Vítor Hugo:
“Eu adoro o “Lugar às Novas” porque foi onde me iniciei... e não tenho qualquer vergonha de o dizer. Acho que é uma oportunidade brutal para as pessoas que gostam da arte do transformismo aprenderem e testar o seu talento. Aquilo é uma autêntica escola. E se apanharem o Fernando como professor, como foi o caso da Norma, é uma maravilha. É uma oportunidade para poderem trabalhar com um dos melhores transformistas deste país, e para conseguirem trabalho para fora: um aniversário, um casamento, uma discoteca, etc. Mas há muitas que não valem a pena, também”129.
Ou seja, o “Lugar às Novas” é um espaço privilegiado para os transformistas amadores se apresentarem perante os profissionais e, em particular, perante o diretor artístico do Finalmente Club, reconhecido no meio como uma das principais autoridades na área. Em algumas situações os transformistas e o público são surpreendidos pela positiva, como explica Samantha Rox:
“No “Lugar às Novas” encontramos de tudo. Normalmente esperamos pelo pior; porém já fui surpreendido algumas vezes… e isso percebe-se ainda antes delas subirem ao palco, na postura e no modo como vêm arranjadas. Mas isso nem sempre é regra; cheguei a ver pessoas que não tinham roupa e que não tinham maquilhagem mas que no fim fizeram um excelente trabalho.Houve um caso em que me pediram para fazer Tina Turner e eu lá tentei fazer, apesar de não ser bem o meu estilo. Por acaso coincidiu com uma noite de “Lugar às Novas” e nessa noite apareceu um miúdo de cor do Algarve que também fez de Tina Turner, mas com outra música. O miúdo ia com um vestidinho preto de malha, sem peruca ou maquilhagem… mas mal começou a atuação levantou a sala. Estava tudo igual: desde os gestos à maneira de andar ou cavalgar, como eu digo que a mulher faz, às bocas, às caras... tudo. O rapaz fez um trabalho impressionante. Mal acabou o numero dele tirei a peruca que tinha na minha cabeça e pus na cabeça dele, porque achei que ele tinha feito um trabalho fabuloso, bem melhor do que o meu”130.
Apesar de alguns dos concorrentes terem boas perspetivas de se tornarem transformistas profissionais, muitos acabam por não seguir essa carreira, “ou porque não
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Entrevista a Vítor Hugo Sousa, bailarino no Finalmente Club (21 de maio de 2013 no café Wine & Pisco, Rossio, Lisboa, 17:15).
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Entrevista a Marco Ferreira “Samantha Rox”, transformista no Finalmente Club (18 de maio de 2013 no Café Baiana, Avenida da Liberdade, Lisboa, 16:30).
têm quem lhes dê a mão, ou porque não é o objetivo deles”131, refere Nyma Charlles. Muitos dos concorrentes com quem falei informalmente referem que não costumam ter quaisquer apoios: ninguém os ajuda a maquilhar-se ou a escolher as músicas. Alguns salientam a existência de uma forte competição, não só entre os que se apresentam no “Lugar às Novas” mas também entre transformistas de outras casas. Esta alegada competição fica mais vincada quando no decorrer de uma determinada atuação os restantes concorrentes observam atentamente, comentando as atuações dos seus colegas. Uma das opiniões mais valorizadas neste contexto é a de Shantal de Cuba, transformista convidado que aufere de uma posição de destaque por usar o Finalmente Club como um espaço central para aprendizagem e auto-divulgação.