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O Semiárido, como bem atesta o prefixo semi, não é árido. O discurso e as imagens da terra esturricada e repleta de carcaças de bovinos ao ar livre reforçam, intencionalmente ou não, interesses econômicos por parte de um grupo político/empresarial defensor de um modelo agropastoril ou de grandes obras para a região.128 Como já visto anteriormente, este pequeno grupo detentor de poder econômico e político se utiliza daquelas imagens para sensibilizar a população e ultrapassar obstáculos e críticas que procurem impedir que altíssimas verbas sejam destinadas a estes políticos e empresários.

Note-se que praticamente todos os órgãos criados para ajudar o Nordeste trazem a palavra desenvolvimento em sua nomenclatura. Há quase cem anos o Semiárido vem sendo palco para projetos que supostamente existem para desenvolvê-lo. Tal proposta de desenvolvimento teve início com a construção de estradas de ferro para escoar as colheitas do açúcar e do algodão; passou pela açudagem, para atender a dessedentação animal das grandes

127Ouvimos a expressão “Indústria Seca” pela primeira vez em uma palestra do Prof. Paulo Rosa, do Departamento de Geografia da UFPB. No evento promovido pelos grupos contrários ao PTARSF, em João Pessoa-PB, ele fez referência ao fato de que, enquanto o Semiárido desperdiça água com as indústrias têxtil e avícola, Manaus produz eletroeletrônicos, bem menos dispendiosos no quesito água, por causa das vantagens fiscais com a Zona Franca de Manaus. Nesse sentido, corre no Congresso Nacional uma Proposta de Emenda à Constituição - PEC - do Deputado Federal Wilson Filho (PTB-PB) para a criação da Zona Franca do Semiárido. Esta teria o seu epicentro no município de Cajazeiras-PB e abrangeria um raio 250 km em sua circunferência. Tememos que esta proposta possa estar vinculada a oferta de água para a indústria com o PTARSF e a busca por ganhos fiscais por parte de empresas que terão incentivos para a sua instalação naquela área. Uma história já bem conhecida com a SUDENE. A justificativa, como sempre, tem como mote o desenvolvimento para o Semiárido.

Confira em

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=865691&filename=PEC+19/2011. 128Outros projetos para “salvar” o Nordeste e trazer o “desenvolvimento” para a região foram o incentivo a prática da caprinocultura, da piscicultura, da carcinicultura no litoral, da arborização com supostas plantas “adequadas” ao clima semiárido como a algaroba (que viria a transformar-se em um problema para a região) e o já mencionado incentivo ao turismo.

propriedades; e prosseguiu com as criações da CHESF, do BNB e da CODEVASF, chegando à subvenção dada pela SUDENE para a instalação de indústrias, o que beneficiou grandemente o empresariado.

Figura 13 – Área geográfica de atuação da SUDENE

Fontes: PAN-Brasil (MMA/SRH, 2004) e Lei Complementar n. 127 de 03/01/2007.

Figura 14 – Vulnerabilidade climática e núcleos de desertificação na Região Nordeste

Figura 15 – Municípios de clima semiárido que declararam ter problemas agrícolas e/ou pastoris causados por desertificação e/ou ter programas e ações de combate à desertificação – 2002

Fonte: Indicadores de desenvolvimento sustentável – Brasil, 2008. IBGE, 2008, p. 96.

Há ainda os megaprojetos que continuam com a implantação dos campos de irrigação, a construção da Rodovia Transamazônica e chega até o momento atual, no governo da Presidenta Dilma Rousseff, com a construção da Ferrovia Transnordestina e o PTARSF. Esta

narrativa poderia ainda adicionar alguns outros itens que não tiveram tanta importância e/ou impacto. Quanto custou aos cofres públicos toda esta gama de projetos é impossível calcular. Sabe-se que não resolveram o problema da má distribuição de renda na região. Sabe-se também que causou muitos estragos socioambientais. Assim, somente pelo viés do interesse político e econômico de alguns grupos (não apenas do Nordeste) é possível justificar os megaprojetos como “alternativas inadiáveis” para solucionar os seus problemas.

A disseminação de modos de produção agropastoris imposta pelos primeiros invasores e a realização de vários projetos de grande envergadura ao longo do último século, sem uma investigação séria sobre a viabilidade do ponto de vista socioambiental e econômico destes, não poderia deixar de causar impactos negativos no Semiárido. A começar pelo próprio modo como o sertão foi povoado depois do século XVII, com a bovinocultura a espalhar-se por aquelas terras, até chegar aos dias atuais com o desmatamento para abrir caminho para o agronegócio e a poluição dos rios causada pelo aumento da população urbana, que vive em cidades sem saneamento básico, ou ainda pelos agrotóxicos pulverizados nos campos de irrigação, mazelas sociais continuam a encontrar espaço generoso entre seus habitantes na espiral de desigualdade que continua a expandir o seu fio.

A insistência em produzir o que não é adequado para o clima da região e em promover práticas inadequadas tem causado grandes problemas ao solo do sertão. O processo de desertificação vem se tornando um grande problema devido ao empobrecimento do solo129 em uma vasta área. As culturas de subsistências como feijão e milho, por exemplo, trazidas com os europeus e cultivadas pelos vaqueiros que povoaram as regiões de vazantes dos rios e que se espalharam como prática cotidiana pelo serão, foram o início do processo de ações antrópicas negativas daquela área. Esta realidade alastra-se por todo o território fazendo com que apenas 32% da vegetação nativa da caatinga ainda sobreviva (PÁDUA, 2009). Outro agravante é o uso de máquinas agrícolas a partir dos anos 1970, imposição feita pelos bancos para a concessão de empréstimos aos agricultores da região. O solo raso da região semiárida não é apropriado para a utilização de certas máquinas e, portanto, o seu uso pode comprometê-lo.

129“A desertificação é um processo fundamentalmente originado nas ações antrópicas que alteram a estrutura do meio físico, destruindo a vegetação, empobrecendo o solo, modificando os cursos das águas, dizimando a fauna, trazendo consequências irreparáveis para toda a ambiência de uma região que, antes, vivia na sua própria biocenose. As causas são as mais diversas: queimadas, mineração, pecuária extensiva, indústria extrativa, irrigação sem drenagem e uso intensivo do solo.” (RIBEIRO, 2007, p. 141).

As causas da desertificação não estão apenas nas estiagens, mas também nas práticas inadequadas de cultivo e no desmatamento da caatinga. Ao discorrer sobre o solo do NE, Freyre (1967, p. 22) afirmou, já em 1937, que “O empobrecimento do solo, em tantos trechos do Nordeste, por efeito da erosão, não se pode atribuir aos rios, à sua ânsia de correr para o mar levando a gordura das terras, mas principalmente à monocultura.” Embora ele estivesse fazendo uma referência à zona canavieira, certamente esta afirmação vale para todas as áreas nordestinas tomadas pela perda da biodiversidade e implementação das práticas inadequadas de cultivo ali realizadas. Práticas estas disseminadas em nome de um pretenso desenvolvimento do NE, e que trouxeram em sua mochila ecológica a degradação ambiental.