O Código Civil francês veio ao socorro da vítima, estabelecendo um certo número de presunções listadas entre os arts. 1.384 a 1.386. Nos casos em que o dano é causado por fato de um menor ou de um preposto, pelo fato do animal ou da ruína de um edifício, a culpa é presumida porque ela existe sob a forma de uma falta de cuidado (culpa in negligendo) ou de uma falta na escolha (culpa in eligendo).
A conseqüência lógica desta idéia deverá ser que a pessoa contra a qual se opera a presunção poderá fazer prova que não cometeu o ato culposo.
O art. 2.054 do Código Civil italiano – salienta Trabucchi51 – prevê uma forma de responsabilidade particularmente importante e grave na circulação de veículos. O condutor de um automóvel, de uma bicicleta, de um carro, dentre outros que dependem de sua habilidade, portanto excepcionando-se os meios de transporte que correm sobre trilhos, está o obrigado a reparar o dano ocasionado a qualquer pessoa ou coisa, pela circulação do veículo, se não provar haver feito todo o possível para evitar o dano. Como regra geral, prescinde-se da prova da culpa, quedando salva a responsabilidade de uma prova liberatória para o presumido responsável, subordinada a uma difícil demonstração.
50 Martinho Garcez Neto. Responsabilidade. cit., p. 89.
51 Alberto Trabucchi. Instituciones de derecho civil. v. 1 e 2. Tradução de Luis Martinez-Calsserrada.
Obtempera Venosa52 que, nos acidentes de trânsito, as regras do ordenamento baseiam-se no que normalmente ocorre. Assim, caso o motorista se envolva em um acidente pelo fato de não ter respeitado as regras, tão só por isso deveria ser responsabilizado. Todavia assevera que tal regra não tem seduzido os tribunais, os quais continuam preferindo analisar a culpa em concreto. No caso do trânsito pode ter sido irrelevante para a apuração de culpa do outro motorista, por exemplo, estar o agente dirigindo com faróis apagados. Essas situações levam à conclusão de que não chamada culpa contra a legalidade há uma presunção de culpa que, como tal, pode ser elidida. Exemplifica que, em sede de acidentes de trânsito, algumas situações têm sido admitidas como de culpa presumida, como é o caso de considerar-se, até prova em contrário, culpado aquele que, com seu veículo, abalroa outro pela traseira; do que invade a calçada e atropela o pedestre; do que transita na contra-mão; daquele que não atende às placas de “pare” etc.
Conquanto se admite a prova de não-culpa, há determinadas presunções tidas como irrefragáveis. Se a presunção não comporta prova em contrário, será impossível estabelecer esse fato negativo que se funda na ausência de culpa. Por exemplo, uma pessoa é declarada responsável porque o animal de cuja guarda é detentora feriu outrem; seu guardião não pode demonstrar que não cometeu falta de vigilância, já que tal falta de cuidado resulta do dano, por si só, ex re ipsa, que o animal foi insuficientemente vigiado.53
Neste sentido, leciona Alvino Lima que as presunções de culpa legalmente consagradas, invertendo o ônus da prova, vieram colocar a vítima numa posição, de certo modo, privilegiada. Mas, segundo o mestre, não se trata de afastar-se da tradicional concepção de responsabilidade fundada na culpa, mas sim de derrogar-se um princípio dominante em matéria de prova, segundo o qual o ônus da prova incumbe a quem alega. Assim, fixadas por lei as presunções iuris tantum, o fato lesivo, por si só, é considerado um fato culposo, e como tal será capaz de determinar a responsabilidade de seu autor, a menos que este logre comprovar a presença de uma causa estranha ensejadora do dano, como a força maior, o caso fortuito e o fato exclusivo da vítima ou de terceiro.
Esclarecedoras são as lições de Garcez Neto54 com relação a esta questão.
Segundo o ilustre professor,
52 Silvio de Salvo Venosa. Direito civil. cit., p. 39. 53 Marcel Planiol et ali. Traeté elementaire. cit., p. 312. 54 Martinho Garcez Neto. Responsabilidade. cit., p. 108.
nesse caso a pessoa cuja culpa é presumida deverá provar que empregou a devida diligência, ou que o dano é oriundo de causa estranha a ela não imputável, ou ainda, que não existe relação de causalidade entre o fato (ação ou omissão) e o dano. Sem essa prova não poderá ela exonerar-se da responsabilidade.
O atual Código Civil, na esteira do anterior, trouxe, no título dedicado à responsabilidade civil, um sistema de presunções visando facilitar a consecução do direito da vítima à reparação.
Neste sentido pode-se citar a responsabilidade dos pais por atos danosos praticados pelos filhos, nos termos do art. 932, I e art. 933. Trata-se deveras de responsabilidade objetiva que, todavia, há décadas atrás, fora considerada como responsabilidade civil subjetiva com presunção de culpa, exigindo-se que os pais provassem a impossibilidade de impedir aquele ato danoso praticado por seu filho.55
Conforme assevera Cavalieri Filho56, em determinadas hipóteses fixadas em lei, o causador do dano, presume-se culpado, cabendo-lhe elidir essa presunção, vale dizer, provar que não obrara com culpa, o que favorece sobremaneira a posição da vítima.
Na experiência francesa, a regra resulta, em matéria de responsabilidade extracontratual, dos arts. 1.38457 e 1.38558, os quais são interpretados pela jurisprudência no
55 Ao analisar o inc. I do art. 1.521 do Código Civil de 1916, Maria Helena Diniz. Código Civil anotado. 4.
ed. v. 4. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 974, discorre: “Há uma presunção legal de culpa de determinadas pessoas se outras praticam atos danosos. A culpa do autor do dano acarretará a da pessoa sob cuja direção se encontrar, pois ela terá o dever de vigilância.” Mais adiante, p. 975 a 976, analisando o art. 1.523 daquele codex, parece demonstrar a ilustre professora a complexa perplexidade da qual estaria acometido o sistema de presunções. Dispõe o art. 1.523: “Excetuadas as do art. 1.521, V só serão responsáveis as pessoas enumeradas nesse e no art. 1.522, provando-se que elas concorreram para o dano por culpa, ou negligência de sua parte.” Pelo grau de importância de suas palavras, vale transcrever, na íntegra, os comentários da notável professora acerca deste dispositivo. “I - Responsabilidade subjetiva por ato de outrem. O art. 1.523, ora comentado, foi revogado pelo Código de Menores de 1927, que veio a perder sua vigência em razão do Código de Menores de 1979 (atualmente revogado pela Lei n. 8.069/90), mas que nem por isso, no que se refere a menores, restabeleceu o art. 1.523, ante o disposto na Lei de Introdução ao Código Civil, art. 2º, § 3º. Assim a responsabilidade do representante legal por ilícito de menor será objetiva, por não mais existir a presunção de culpa, mas, para evitar injustiças em certos casos, tem-se decidido, com base na Súmula 341 do Supremo Tribunal Federal, que se exonere o representante legal do menor, se for evidente que o dano causado pelo menor se deu, apesar de seu representante ter sido diligente, cumprindo de modo exemplar a obrigação de vigilância. Com isso a responsabilidade será subjetiva. Assim sendo, a responsabilidade das pessoas enumeradas no art. 1.521, I a IV, sem exceção, será subjetiva, por haver presunção de culpa in vigilando, in instruendo e in eligendo, que provoca a reversão do ônus da prova, fazendo com que tais pessoas tenham de comprovar que não tiveram culpa alguma. Todavia, a jurisprudência tem entendido que a presunção não é juris tantum, mas legis et de lege eqizipolente à responsabilidade objetiva.”
56 Sergio Cavalieri Filho. Programa. cit., p. 155.
57 “Art. 1.384. Le propriétaire d'un animal, ou celui qui s'en sert, pendant qu'il est à son usage, est responsable
du dommage que l'animal a causé, soit que l'animal fût sous sa garde, soit qu'il fût égaré ou échappé”. “O proprietário de um animal, ou aquele que dele se serve, durante seu uso, é responsável pelo dano que o animal causar, quer o animal esteja sob sua guarda, quer tenha escapado”. (Tradução livre)
sentido de que a presunção de responsabilidade só pode ser suprimida pela prova de um caso fortuito ou de força maior, ou de causa estranha que não seja imputável ao guardião da coisa.59