• Sonuç bulunamadı

A ideia de Constituição é solidária historicamente à de Nação e à aparição do liberalismo econômico. Só quando surgiu e se consolidou a crença de que todos os homens nascem iguais e que não há predeterminação da posição social e política que devem ocupar até a morte é que o princípio legal ganhou força e a legitimidade que desfruta até hoje.

Essa importante revolução no pensamento da humanidade indica que a urbanização dos indivíduos como Nação e sua constituição como Estado mudaram a relação dos homens com suas próprias vidas: eles se tornaram cidadãos, vale dizer,

414BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB, 2000. p. 480.

tomaram a História em suas próprias mãos. Esse é o significado maior de toda Constituição. Não podemos nunca nos esquecer disso.415

No momento em que os homens deixaram de encarar os monarcas como únicos e exclusivos depositários do poder, que eles pretendiam lhes ser garantido por Deus, essas relações de poder tinham necessariamente de ser alteradas. Não havia mais lugar para o predomínio sem freios das relações pessoaisde dominação. Como reza a célebre fórmula de Charles de Montesquieu, ―a experiência eterna mostra que todo homem que tem poder é tentado a abusar dele‖.416 Em lugar das

relações pessoais de poder, incontroláveis na medida em que dependem apenas da vontade de uns poucos indivíduos, era preciso instituir o princípio impessoal da lei.

A Constituição, como lei básica, é princípio formal a que todo cidadão pode e deve recorrer. Por isso, a Carta Magna não pode ser apenas um espelho da sociedade e de suas relações, mas deve expressar as aspirações e os ideais dos cidadãos, deve apontar sempre para o que o conjunto dos indivíduos encara como o objetivo último da vida em comum. Todos temos o direito de nos rebelar contra qualquer espécie de coerção e abuso de poder, em qualquer instância em que se manifestem: nossa arma chama-se Constituição. Ela é a resposta à exigência também de Charles de Montesquieu, há mais de dois séculos: ―Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder‖.417

Mas não nos deixemos levar pela ilusão de que a Constituição resolva por si mesma todos os problemas. Apesar de sua importância decisiva, faz-se mister sempre lembrar que a lei básica é princípio formal, pois cabe ao cidadão zelar para que ela seja cumprida. Para que isso aconteça, urge que a sociedade esteja organizada para defender os princípios que consagrou em sua Constituição. É preciso que o princípio formal seja trazido para o dia-a-dia para que ele se torne vivo, constitutivo das relações sociais e políticas em todos os níveis. Isso, para que se possa produzir aquela reação, misto de admiração e espanto, que nos relatou Alexis de Tocqueville em seu ―A democracia na América‖: uma democracia

415BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB, 2000. p. 484.

416Ibid., p. 484. 417Ibid., p. 485.

cotidiana, ―onde o princípio da soberania do povo não é estéril nem está escondido, como sucede em outras nações; é reconhecido pelos costumes e proclamado pelas leis; espalha-se livremente e chega sem impedimento às suas consequências mais remotas‖.418

Não se pretende com isso, nem de longe, resolver e encerrar a questão. Ela está antes colocada com mais força, à medida que se examina a sucessão das Constituições brasileiras. No exame da nossa história constitucional, constata-se que a passagem do nível legal para a realidade das relações sociais tem sido extremamente penosa e na maioria das vezes fracassada.

Nas palavras de Paulo Bonavides419:

O que não quer dizer que devamos nos alinhar com grandes teóricos como Alberto Torres ou Oliveira Vianna, ensaístas que apontaram a distância entre o ―Brasil legal‖ e o ―Brasil real‖. Ao fazerem sua opção pelo que acreditavam ser a ―realidade‖, eles nos revelaram ser essa uma opção extremamente conservadora, quando não reacionária. Não descuramos das importantes e relevantes problemáticas por eles apresentadas, mas nos reservamos o direito de dar a elas uma resposta inteiramente diversa. Trata-se, então, de tentar compreender o porquê dessa experiência de instabilidade ou mesmo de inadequação que temos vivido ao longo de mais de 150 anos. Não se quer dizer com isso que a causa da instabilidade esteja no número de Constituições. O ―mito‖ da Constituição americana, da sua durabilidade e resistência, não nos ajuda a entender nossa própria realidade, mas, antes, turva nossa reflexão. Grande número de Constituições não significa necessariamente instabilidade, como podemos facilmente observar na Alemanha deste século.420

Essa é a tarefa proposta, antes de mais nada: examinar nossa experiência de instabilidade constitucional, de 1924 a 1987, dando especial ênfase ao período pós- 1964 e à luta da resistência democrática que culminou com a nova Carta. Podem ocorrer eventuais intromissões da paixão do político no trabalho imparcial do analista, um híbrido estranho à rigorosa distinção de Max Weber do político e do cientista. Mas essa paixão pelas liberdades e os direitos humanos não sacrifica o realismo da análise, embora possa deixar suas marcas naturais, sempre, porém,

418BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB, 2000. p. 486.

419Ibid., p. 487. 420Ibid., p. 487.

sem desfigurar a História. Não seria possível também prometer uma exaustividade no acompanhamento da problemática, mas tão-somente indicar algumas conexões relevantes que nos ajudem a pensar o nosso momento atual.421

O político busca motivos que lhe sirvam como imperativos para a ação, perseverando no objetivo de persuadir seus semelhantes da justeza de seus princípios e de sua atuação. Esses motivos foram encontrados em uma parte importante da História de nosso povo, a sua história constitucional. Espera-se que este ponto de vista possa ser partilhado pelos companheiros que se dispõem agora a percorrer estas páginas. Entender o passado é uma arma, a fim de que não se faça de antemão da nova Carta ―mais uma‖ constituição. Não existe fatalismo em política. Ela será o que nós fizermos dela.

Benzer Belgeler