• Sonuç bulunamadı

Kapı açılış yönü değişimi

2 Çevre talimatları 9

4.7. Kapı açılış yönü değişimi

epois do estudo que deu corpo aos tópicos anteriores, neste quarto capítulo trataremos mais especificamente o que se considera o núcleo da tese, ou seja, a visão da técnica como uma prática portadora de um telos moral à luz de elementos teóricos propostos por MacIntyre. Assim, buscarei limitar-me exclusivamente àqueles aspectos que auxiliarão o leitor na compreensão do cerne da perspectiva aqui proposta, tendo em conta o pano de fundo teórico traçado pela necessidade de um outro olhar para a tecnociência e seus impactos existenciais.

A necessidade de “um olhar novo a respeito da tecnociência”, revelou-se de forma mais contundente depois do lançamento da bomba nuclear em meados do século XX, bem como pelas exigências da sociedade contemporânea que se sobressai por meio do seu desenvolvimento científico/tecnológico nas suas dimensões econômica, política, social e ética. Igualmente, é feito que o mundos científicos e tecnológico, ainda que mantendo suas idiossincrasias, arquitetadas ao longo de centenas de anos, tornaram-se inseparáveis da vida do homem contemporâneo em todas as suas esferas. Esta atua em uma conjuntura bem mais vasta do que o da ciência acadêmica de estilo estritamente disciplinar, ainda que os ares estejam a favor de uma forçosa abertura que incorpora, essencialmente, o interdisciplinar e até o transdisciplinar.443 Em obra publicada em 1994, The new production of knowledge, que se

tornou referência no mundo anglo-saxão para justificar a hibridação da pesquisa científica,

443

Cf. MORIN, 2002.

Michel Gibson, Helga Nowotny e seus colaboradores batizaram o antigo e o novo na ciência de Modo 1 e Modo 2.

O Modo 1 se distinguiria pelo primado da pesquisa acadêmica com finalidade cognitiva: conhecimentos adquiridos e validados no quadro das disciplinas tradicionais; organização hierárquica com regras claras de controle e de validação dos resultados, e, por fim, uma pesquisa isolada da sociedade a qual não intervém senão no fim do processo como alvo de vulgarização ou do uso das inovações. Ao contrário, no Modo 2, a distinção entre pesquisa fundamental e aplicada desaparece: as descobertas fundamentais podem levar a pesquisas industriais e, correlativamente, a pesquisa fundamental recorre a equipamentos técnicos e até mesmo industriais. As pesquisas não estariam mais localizadas nos ambientes universitários, mas seriam levadas adiante em parceria com especialidades múltiplas.444

O axioma da gratuidade do conhecimento repousa sobre uma visão clássica dele, como algo que não tem preço. Mas não teria justamente essa visão teórica e abstrata distanciado suas produções de conhecimento da postura ética? A união ciência e técnica é, contudo, um predicado que deveria caracterizar, com nitidez, a ciência contemporânea frente à sua capacidade de transformar o nosso cotidiano, recolocando-o, renovando-o e transformando-o em uma velocidade cuja percepção não é dada ao homem ordinário à possibilidade de perceber tal situação. Transforma igualmente a nossa visão de mundo e dos fatos que nele acontecem, confrontando-nos com o modo como nele estamos colocados e existimos. Além disso, modifica a realidade e o modo como pensamos e nos comportamos.445

Isso acontece porque há intenso relacionamento entre artefatos e sociedade, resultado da inter- relação concernente da produção versus uso. O incremento da tecnociência acontece concomitantemente com o crescimento de conflitos, cujas saídas irão depender da continuada negociação de significados entre todas as dimensões envolvidas no processo: a científica, a tecnológica, a social, a política, a econômica, a religiosa, entre tantas outras, por conseguinte, imbricando uma dimensão ética.

Daí a multiplicidade de maneiras de se compreender e interpretar filosoficamente a tecnociência. Um modo muito difundido é a compreensão instrumentalista, segundo a qual esta é uma atividade humana que opera como meio para atender os desejos e os propósitos humanos. Por outro lado, é possível estudá-la a partir de anseios epistemológicos, procurando-se identificar, por exemplo, se a tecnociência é capaz de produzir um conhecimento diferente do que é feito pelas outras ciências. Segundo o enfoque epistemológico, também é plausível explorar as formas de relação entre a tecnociência e ética.

444 Cf. GIBBONS et al, 1994, p. 63. 445 Cf. SANTOS, 1999.

Por último, a tecnociência também pode ser compreendida sob um ponto de vista realista que, por sua vez, está interessado em procurar a sua essência para analisar as influências que exerce sobre o homem e sobre a própria natureza.446

No século XXI, é corriqueiro afirmar que, dado o caráter da tecnociência contemporânea e sua assombrosa capacidade de criar através das engenharias espacial e genética, incorre-se em uma insegurança vivencial crescente.447 A questão preocupante é saber como a natureza

reagirá a essa agressão intensificada e o quanto é capaz de suportar. Nesse contexto, é difícil saber os limites de resiliência do planeta Terra, antes de ele colapsar. Mas não há dúvida de que boa parte do problema é de natureza econômica e política, o que traz ainda mais turbulências e incertezas. À vista disso, a sociedade poderia ser considerada como “campo” da ambivalência moral da tecnociência. Os bons e os maus resultados alcançados podem não ter sido nem intencionais nem prognosticados; todavia, dada a ambivalência do conhecimento tecnocientífico não nos é aceitável termos o bom sem sermos levados a confrontá-lo com o mal que pode causar.448

É esse o receio de quase todos os que refletem sobre a tecnociência: o fato de que os que nela trabalham consideram suas pesquisas acima dos julgamentos morais, pelos avanços que apresentam. Postman449 chama de tecnopólio este fato da tecnociência se sobrepor às

instituições sociais, e passar a ser onipresente, autoperpetuada e autojustificada, tornando-se, deste modo, uma esfera totalitária.450 Por sua vez, segundo o ganhador do prêmio Nobel de

Física Pierre Gilles de Gennes, o cidadão comum tem a ideia de que é a tecnociência a culpada pelas armas mortíferas e pela poluição ambiental, esquecendo-se de que as decisões de produzir tais armamentos são, por natureza, políticas e não científicas, mais especificamente, frutos da tecnocracia.451

É, por isso, que as ciências humanas foram mobilizadas para entrar no jogo tanto da

Nanolnitiative Americana quanto na convergência NBIC. A problemática dos impactos das tecnologias sobre o meio ambiente, sobre a saúde, sobre a ética e sobre a sociedade está integrada na pesquisa desde o início até o fim [...]. Do mesmo modo como necessitamos de físicos, químicos e toxicólogos para administrar os riscos associados à nanotecnologia, precisamos, também de especialistas em sociedade e em opinião pública, bem como dos eticistas. Tudo isso para gerir os riscos sociais e aplainar as dificuldades pela antecipação dos problemas [...]. As ciências humanas e

446 Cf. LÉVY-LEBLOND, 2001, p. 397. 447 Cf. ZIMAN, 2000, p. 37. 448 Cf. LATOUR, 1992. 449 Cf. POSTMAN, 1994.

450 Alerta já dado por Jonas, como vimos em capítulo anterior. 451

sociais são convidadas a ‘monitorar’ a inovação tecnológica com sondagens de opinião ou projetos de educação; em resumo, fazer o controle social acontecer.452

É recomendável, portanto, prosseguirmos com os olhos abertos se ambicionamos usar a tecnociência em vez de sermos por ela usados. Posta desta maneira a questão é, pois, qual o custo que estamos preparados a pagar por tantas transformações? Cachapuz, Praia e Jorge453

respondem que o importante é

relevar que as problemáticas respeitantes às questões éticas são aqui particularmente sentidas. Não é novidade que a evolução científico/tecnológica tem o seu preço. Também nós pensamos que não se podem eludir tais questões e que elas devem ser abordadas frontalmente ainda que sem fundamentalismos. O ponto de partida natural é de que da trajetória do homem não esteve nunca ausente o conceito de responsabilidade como sendo o de corresponsabilidade de uma racionalidade moral- prática da qual emergem os valores. Ultrapassados que foram os odores dos autos de fé, as práticas científico/tecnológicas não podem escapar às questões deste enquadramento ético. Os seus resultados têm, necessariamente, uma interação maior ou menor com a sociedade de cujas consequências se exige um juízo ético. Não se trata, portanto, de colocar o debate ético numa lógica estritamente individualista. Trata-se de ir mais longe e de valorizar o caráter coletivo e institucional do debate ético. 454

Vale mencionar que o conhecimento científico e o conhecimento tecnológico são diferentes no que diz respeito às intenções. O conhecimento científico, na sua forma tradicional, tem como objetivo primeiro compreender o Mundo. Por outro lado, o conhecimento tecnológico procura a satisfação das necessidades humanas, ou melhor, centra-se fundamentalmente no “fazer”, na ação, na modificação, na prática, nos artefatos. No tecnológico dá-se, principalmente, destaque à resolução de problemas concretos, à criação, ao design, à fabricação, com o objetivo de satisfazer às necessidades do dia a dia do ser humano, não estando dele alheio a inclusão em um raciocínio teórico.455 Por estar sempre lançando

novidades para “melhorar” a vida do homem, será que a tecnociência, com todo o seu aparato de fabricação, conseguirá asfixiar a ética? Esta pergunta feita pelo físico Jean Marc Lévy Leblond obteve a seguinte resposta do próprio Leblond:

Provavelmente sim, é uma hipótese, e não uma tese que vou lhes apresentar, e a formulo propositalmente de modo um tanto brutal para que possamos falar disso depois. E estamos no fim de algo, pelo menos no fim de um tipo de conhecimento que conhecemos por gerações aqui representadas e que dura já por três ou quatro séculos. Nós nos encontramos, portanto, numa configuração muito estranha: enquanto para alguns estamos no ponto mais alto do desenvolvimento tecnocientífico, que pode parecer estar vinculado a mais fundamental das ciências,

452

Cf. ROCO, 2003, p. 185.

453

Cf. CACHAPUZ, PRAIA e JORGE,2002.

454 Idem, p. 39. 455

em minha opinião, a situação é o inverso. Estamos aqui, provavelmente, em vias de reatar uma situação arcaica muito próxima da situação anterior ao desenvolvimento da ciência moderna quando os artesãos e os engenheiros se desincumbiam muito bem de suas funções na fabricação de moinhos d’água ou de carruagens sem conhecer a mecânica, as leis fundamentais da física, ou, sem ao menos conhecer profundamente a ciência teórica.456

É importante ressaltar o que informa o trecho acima, no tocante à reprovação. Foca-se nitidamente a nova relação entre ciência e a técnica. Isto porque a ciência e a técnica não possuem naturezas iguais e cada uma tem especificidades próprias. Apesar disso não se pode deixar de destacar os laços significativos entre as duas entidades. A ciência, por sua vez, é orientada pelo desejo de conhecer e explicar. Por seu turno, a técnica é norteada pelo desejo de controlar e de modificar. As duas são atividades humanas densamente complicadas, a despeito de cada uma delas ter desenvolvido maneiras diferentes de atuar: “ainda que ideologicamente separadas, as duas verdades pertencem-se mutuamente”.457 A ciência evoluiu

no sentido da abstração e da teoria, enquanto a técnica se desenvolveu e juntas formam a tecnociência, mormente no sentido da concretização de objetos cada vez mais potentes e desejáveis a serem usados na vida humana.

De fato não só os conhecimentos e as aptidões da ciência servem amiúde, de instrumentos intelectuais à tecnociência, como também os da tecnociência servem de instrumentos materiais à ciência.458E é isso, segundo Jonas459 que faz a mediação e a dinâmica interna que

assim a estimula, negamos à técnica aquela margem de neutralidade ética, segundo a qual só temos que cuidar com o seu rendimento. Em contrapartida, sabemos que o risco de excesso sempre está presente na circunstância de que o germe inato do mal, ou seja, o nocivo, assim, é nutrido justamente pela melhoria do “bom”, ser o benéfico levado a seu amadurecimento. Para Jonas,460 a temeridade está mais no êxito do que no fracasso e, não obstante, o êxito é

imperativo sob a influência das necessidades humanas. Assim, uma ética adequada para a técnica tem que abranger esta multivalência interna da ação técnica.461

O domínio de uma capacidade ou poder por algum grupo, sociedade ou país pode não provocar seu uso; entretanto, só pelo fato de existir e de poder ser empregado quanto se queira à disposição de algum sujeito remete sempre ao estado de perigo constante. Esta relação tão 456 Cf. LEBLOND, 2001, p. 93. 457 Cf. SANTOS, 1989, p. 39. 458 Idem, 1995. 459 Cf. JONAS, 1987, p.55. 460 Idem 1997, 59. 461 Idem, 1997.

manifesta entre poder e fazer, saber e uso, direito e exercício de um poder não é aplicável à tecnociência, principalmente em uma sociedade tão dividida quanto a nossa. Daí o motivo pelo qual a tecnociência se tornou poder humano decomposto em atividade constante, não somente se lhe recusa o amparo da neutralidade ética, como também o útil afastamento entre posse e exercício do poder. Por isso a apropriação de novas capacidades da produção tecnocientífica, todo o acréscimo ao arsenal de recursos, já coloca ante nossos olhos uma carga ética, por tratar-se de uma dinâmica conhecida que não atinge a saciedade, pois do contrário o homem só pensaria sobre os casos concretos de sua aplicação.

Ademais, a grandeza da ação e seus efeitos alcançaram uma imensurável importância moral como já afirmado várias vezes aqui, não podemos esquecer a importância da tecnociência para a própria permanência da vida humana na terra. Daí o motivo pelo qual propomos acrescentar à compreensão do conceito de técnica em Jonas o de prática à luz das considerações de MacIntyre. Antes de aprofundar esse ponto, apresentaremos algumas das críticas feitas, por teóricos contemporâneos, ao pensamento jonasiano, de modo a contextualizar esse acréscimo teórico à sua compreensão da tecnociência.

Benzer Belgeler