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(1) Bu Kanunun kapsadığı dönemlere ilişkin olarak, bu Kanunun yayımı tarihinden önce başlanıldığı hâlde, tamamlanamamış olan vergi

De acordo com Castro (2008), existe uma confusão conceitual envolvendo os termos pesquisa-ação, pesquisa participante e pesquisa-intervenção. Sem me aprofundar nesta discussão, apresento uma breve caracterização destes três tipos de pesquisa, com o intuito de apresentar suas características comuns e suas especificidades, dando especial destaque à proposta metodológica aqui adotada: a pesquisa-intervenção psicanalítica.

A pesquisa-ação, segundo Thiollent (2007), supõe participação e a elaboração de uma “ação planejada” para a resolução de problemas por meio do trabalho cooperativo entre o pesquisador e os participantes da pesquisa; já na pesquisa participativa a ação planejada para resolução de problemas não necessariamente ocorre, e a participação pode ser restrita à observação participante. Assim, toda pesquisa-ação envolve participação, mas nem toda pesquisa participativa implica em ação.

A pesquisa-intervenção também implica em participação e ação. Como a pesquisa-ação, também pressupõe a implicação, o comprometimento do pesquisador com a transformação da realidade. Segundo Moreira (2008), são características da pesquisa-intervenção: a realização em situações cotidianas, o desencadeamento pela demanda, a existência de interação entre pesquisador e pesquisado e a concepção de que conhecer e intervir não constituem momentos distintos.

A especificidade da pesquisa-intervenção psicanalítica é sua dimensão clínica, que vem se somar às características gerais da pesquisa-intervenção apresentadas por Moreira (2008). Para Elia (2000), toda pesquisa em psicanálise é clínica, independentemente do lugar em que seja realizada a pesquisa, pois clínica é a “forma de acesso ao sujeito do inconsciente”(p.23). Por sua vez, o inconsciente é o campo de

pesquisa da psicanálise e o determinante das mais variadas manifestações humanas, como ensinou Freud:

O inconsciente está presente como determinante nas mais variadas manifestações humanas, culturais e sociais. O sujeito do inconsciente está presente em todo enunciado, recortando qualquer discurso pela enunciação que o transcende. (...) Freud já disse isto desde o início de sua obra, quando para distanciar-se do estritamente patológico, vai do estudo do sintoma ao do sonho, e escreve uma Psicopatologia da vida cotidiana, mostrando o inconsciente presente nos acontecimentos da vida diária, nos esquecimentos e nos chistes, presente, portanto no diálogo comum. (ROSA, 2004, p.342)

Para Freud, como nos lembra Rosa (2004), a psicanálise, além de uma teoria e técnica de tratamento, é também um método de investigação do inconsciente. Na psicanálise, pesquisa e intervenção não estão situadas em campos distintos, ambas as situações demandam o mesmo método de acesso e/ou investigação do sujeito do inconsciente: a escuta e a transferência. Por esta razão, Elia (2000) afirma que toda pesquisa em psicanálise é clínica. Por sua vez, a escuta e a transferência são os postulados básicos de toda prática psicanalítica, seja ela a pesquisa ou o tratamento.

Não obstante, convém esclarecer que a denominação de psicanalítica para esta pesquisa-intervenção não significa que a pesquisa também tenha se configurado como uma psicanálise de grupo. O objetivo da intervenção, nessa pesquisa, não foi oferecer um espaço de tratamento, e sim, acolher a fala dos sujeitos sem preenchê-la de sentido, abrindo espaço para a reflexão de cada sujeito e do grupo. Afirmam Besset, Coutinho e Cohen (2008):

O trabalho com a palavra e, mais especificamente com uma fala endereçada, abre uma nova via de intervenção e de investigação, onde a contribuição da psicanálise pode ser relevante, à condição de que ela se mantenha fiel às suas bases, distanciando-se, ao mesmo tempo, de seu dispositivo individual e privado. Falar a um outro se apresenta, então, no contexto da transferência, um convite para refletir e uma ocasião de mudança subjetiva. Especialmente se quem escuta não se autoriza em saber, previamente, sobre aquele que fala.” (p.105)

Os encontros temáticos com os grupos, diferentemente também de uma situação de entrevista individual, possibilitaram múltiplas transferências e escutas: a palavra de um mobilizou a palavra dos outros, as associações de um mobilizaram as associações

dos outros, e assim foram construídos novos sentidos e associações. A partir de um tema predefinido emergiram outros e a singularidade de cada um se expressou, contribuindo para a construção da reflexão de cada sujeito e também para a reflexão coletiva.

Embora seja descoberta na relação analítica, a transferência não é um fenômeno exclusivo dessa relação e aparece em maior ou menor grau em todas as relações interpessoais (ROSA; DOMINGUES, 2010). Assim, para a Psicanálise, toda relação humana é sempre transferencial, e a relação que se estabeleceu na situação de pesquisa não foge a esta regra; logo, o lugar que a pesquisadora ocupa, o modo como foi vista e também como vê o MST e os jovens militantes participantes da pesquisa fazem parte desse campo transferencial, que, por sua vez, é o terreno onde os dados da pesquisa foram construídos. Como diz Bleger (1971), “O dado psicanalítico é uma relação interpessoal em que o psicanalista se vê incluído e que por sua vez configura em certa proporção o caráter dos „dados‟” (p.125). O pesquisador “(...) é parte do campo, quer dizer, que em certa medida condiciona os fenômenos que ele mesmo vai registrar” (BLEGER, 1980, p.18).

Assim, na pesquisa psicanalítica, ao contrário do que se pode pensar, não existe um dado a ser buscado e revelado; o dado psicanalítico se constrói na relação, a qual é sempre transferencial (ROSA; DOMINGUES, 2010). Nesta mesma direção afirmam Costa e Poli (2006)

Operar com o inconsciente implica, pois, a suposição de um saber que „não se sabe‟ mas que é suposto. As condições de produção de conhecimentos sobre este “insabido” são internas ao campo relacional que o constitui. A isso denominamos em psicanálise „transferência‟. Não é, pois, um saber prévio que já estava ali, no „entrevistado‟, como um dado a ser colhido pelo „entrevistador‟. É algo que se situa num espaço transferencial em que o „insabido‟ se expressa como formações do inconsciente. Logo, ele inclui o pesquisador na própria formação. (COSTA; POLI, 2006, p.17)

A escuta, segundo Rosa (2006), ocorre na transferência que envolve tanto o sujeito como o psicanalista; porém, nem sempre o sujeito fala e nem sempre o analista escuta. Freud chamou de resistência os obstáculos que o analisando opõe ao tratamento analítico. Lacan, por sua vez, diz que a resistência é sempre do analista, e que esta resistência se configura como uma resistência à escuta. Esta ideia de Lacan “converge com os testemunhos de pessoas que voltam de conflitos relacionadas à guerra e outras

situações dramáticas, as quais afirmaram não poderem falar, pois não há quem se disponha a escutar”(ROSA; GAGLIATO, 2010, p.171).

A partir da ideia de Lacan sobre a resistência do analista à escuta, Rosa (2004, 2006) e Rosa e Gagliato (2010) desenvolvem a ideia de uma resistência do analista à escuta do que é da ordem do traumático e da exclusão social. Essas ideias podem ser tomadas como orientadoras para pensar também os entraves que podem ocorrer na escuta do pesquisador aos relatos dos participantes da pesquisa. Sobre a resistência do analista e a escuta clínica de jovens da periferia, Rosa (2006) diz:

A escuta do discurso desses sujeitos fica insuportável, não só pela situação em si ou pelos atos que cometeram, mas porque tomar esse outro como sujeito do desejo, atravessado pelo inconsciente e confrontado com situações de extremo desamparo, dor e humilhação, situações geradas pela ordem social da qual o psicanalista usufrui – é levantar o recalque que promove a distância social e permite-nos conviver, alegres, surdos, indiferentes ou paranóicos, com o outro miserável. (p.189)

Nestes casos, geralmente, psicanalista e jovens de periferia ocupam lugares diferentes na estrutura social: o primeiro desfruta os bens da cultura e os últimos recebem “o mais” de privação, e da escuta destes últimos o primeiro não “sai ileso – um posicionamento ético e político é necessário” (ROSA, 2006). As formas pelas quais o psicanalista pode evitar este “confronto” e resistir à escuta podem ser variadas. Algumas delas são: ficar demasiadamente preso à teoria, às suas hipóteses, e não atentar para a especificidade da fala do sujeito; deter-se exclusivamente sobre o peso da situação social ou desconsiderá-la, o que implica a responsabilização do sujeito por sua condição; ver o sujeito somente como vítima, negando sua condição de sujeito desejante. (ROSA, 2006)

Em algumas situações da intervenção a pesquisadora vivenciou momentos de resistência. O primeiro deles ocorreu no primeiro encontro com o grupo em 2007. Ao entrar à noite no prédio inacabado e escuro da escola, a pesquisadora encontrou uma única sala pouco iluminada, pedaços de carteiras (destruídas pelo vandalismos de outros) doadas e os estudantes. A pesquisadora sentiu muita pena dos estudantes pela situação precária em que estudavam e os viu como vítimas, mas na ocasião nada foi dito, nem pela pesquisadora nem pelos estudantes. No entanto, no último encontro realizado em 2007 a resposta à atitude da pesquisadora veio por escrito. Em meio às respostas à pergunta sobre de que menos gostou dos encontros, um dos estudantes

respondeu: “A educadora não deveria ter tanta dó deles, pois eles estavam em um espaço que eles queriam estar, buscando mais conhecimento”. Esse estudante não aceitou o lugar de vítima que lhe foi atribuído e mostrou à pesquisadora o lugar eles ocupam: de sujeitos desejantes.

O outro momento que mais claramente se constituiu como de entrave à escuta ocorreu em um dos encontros sobre violência e luto, em que a pesquisadora não suportou escutar as situações em que eles sofreram violência, nem chegou a abordar todas as questões previstas para o encontro; ela foi até o questionamento do que é violento e desapareceram os nomes dos sujeitos nos relatos nas suas anotações pessoais. Nesta situação os estudantes não falaram porque não encontraram na pesquisadora quem os escutasse.

Os momentos de resistência são aqui incluídos como objetos de reflexão. A resistência também é uma das faces da transferência e condição da análise. Finaliza-se este capítulo com uma citação de Freud sobre a resistência do analisante ao tratamento analítico, resistência que pode ser tomada também como objeto de reflexão para resistência do analista e do pesquisador:

O conteúdo analisável é justamente aquele que está sob os efeitos da resistência. Se o analisante, ao invés de recordar e elaborar repete, ele o faz sob as condições da resistência e é sobre essas mesmas condições que incidirá a interpretação como „ferramenta‟ do dispositivo analítico, para que então haja psicanálise. É algo paradoxal, porque a resistência é condição da análise, mas também é o que deve ser superado para que o tratamento psicanalítico avance. (FREUD, 1912, citado por ROSA ; GAGLIATO, 2010, p.171)