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2.1.8. Müşteri Memnuniyeti Modelleri

2.1.8.2. Kano Modeli

Cícero, o enunciador, também sujeito do programa sob análise, crê e quer

fazer crer que Catilina, o anti-sujeito, é um perigo para Roma; por isso, deve ser

julgado e, pelo menos, exilado pelo enunciatário, o Senado romano.

De início, pode-se identificar que o sujeito administra habilmente um jogo entre as lógicas implicativa e concessiva. Segundo Fontanille e Zilberberg (2001, p. 237), a forma implicativa “cria uma espera e previsão muito premente” (“se ele quer, ele pode”), por isso deixa pouca margem para surpresas; já a forma “concessiva põe em jogo confrontações e conversões modais” (embora ele não possa, quer – ou até faz). Exatamente por colocar em “xeque a coerência do percurso sintáxico”, ela surpreende e, a quebra de expectativas, favorece o trabalho com as paixões.

Em outras palavras, o orador, na primeira Catilinária, articula seus argumentos a partir da lógica concessiva, à custa da evocação de fatos5 que, ao serem

revelados, surpreendem o enunciatário (Senado), pois denunciam comportamentos reprováveis de Catilina, o anti-sujeito. No entanto, todas as quebras de expectativas articuladas trabalham em prol de uma lógica implicativa: o sujeito pretende estabelecer um contrato fiduciário com o público, no caso o Senado romano, capaz de julgar e punir o anti-sujeito. Pode-se pensar que as partes, estruturadas pela concessão, unidas articulam um todo implicativo, previsível ao considerar a função do sujeito no Senado e o contexto que leva ao julgamento6.

Segundo Fontanille e Zilberberg (2001, p. 263), o contrato fiduciário busca estabelecer uma relação de confiança entre sujeitos ou de crença entre sujeito e objeto. No caso da primeira Catilinária, tem-se que o enunciador almeja a confiança do enunciatário, ou seja, o enunciador aciona um fazer-crer ao qual responde ou não o

5 Refere-se, por exemplo, a vícios de Catilina que são denunciados em (13), na primeira

Catilinária.

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crer do enunciatário. No caso do texto sob análise, que é o primeiro de quatro, não há

acesso à reação/resposta do enunciatário; no entanto, tem-se a evocação lexicalizada da confiança do público no final do discurso, como se vê em:

Nunc, ut a me, patres conscripti, quandam prope iustam patriae querimoniam detester ac deprecer, percipite, quaeso, diligenter, quaedicam, et eapenitus animis uestris mentibusque mandate.

Agora, senadores, para afastar e desviar de mim uma certa queixa, quase justa, da pátria, observai, por favor, com atenção e confiai profundamente aos vossos espíritos e mentes o que eu vou dizer. (27)

Além disso, os estudiosos franceses (2001, p. 266) afirmam que a confiança se manifesta face a face com o temor e, por isso, instala-se na dimensão patêmica, exatamente o que se experimenta no percurso sob análise e que será apresentado nas estruturas subsequentes.

Nesse jogo de concessões, o sujeito consegue provocar, aos poucos, ódio e medo, como se atesta em:

7

Meministine me ante diem XII Kalendas Nouembris dicere in senatufore in armis certo die, qui dies futurus esset ante diem VI Kal. Nouembris, C. Manlium, audaciae satellitem atque administrum tuae?

7

Lembras-te de que, no duodécimo dia antes das Calendas de novembro, eu dizia no senado que estaria munido de armas num dia determinado, o qual seria o sexto antes das calendas de novembro, Caio Mânlio, soldado e auxiliar de tua audácia?

Num me fefellit, Catilina, non modo res tanta, tam atrox tamque incredibilis, uerum, id quod multo magis est admirandum, dies?

Por acaso me enganei, Catilina, não só em relação ao fato, tão grave, tão atroz e tão incrível, mas, o que é muito mais de se admirar, em relação ao dia?

Dixi ego idem in senatu caedem te optumatium contulisse in ante diem V Kalendas Nouembris, tum cum multi principes ciuitatis Roma non tam sui conseruandi quam tuorum consiliorum reprimendorum causa profugerunt.

Disse eu também no senado que tu marcaste para o quinto dia antes das calendas de novembro o assassinato dos nobres, quando então muitas figuras importantes da cidade fugiram de Roma não tanto para se salvar, quanto para frustrar os teus planos.

Num infitiari potes te illo ipso die méis praesidiis, mea diligentia circumclusum commouere te contra rem publicam non potuisse, cum tu discessu ceterorum nostra tamen, qui remansissemus, caede te contentum esse dicebas?

Por acaso podes negar que tu, naquele mesmo dia, cercado pelos meus guardas, pelo meu zelo, não pudeste mover-te contra a república, quando tu, com a saída dos outros, dizias, contudo, que estavas contente com o assassinato de nós, que tínhamos permanecido?

Nesse trecho, não há paixões lexicalizadas; no entanto, ao relatar fatos e planos ameaçadores, o sujeito consegue mobilizar o medo no enunciatário: aquele que é capaz de elaborar tantos ataques deve ser também temido. Além disso, deve-se observar que os fatos são revelados, ou seja, estavam se desenrolando, na surdina, dentro do próprio Senado, com o propósito de enganar os grandes homens de Roma, acusação que, por si só, já instila o ódio pelo anti-sujeito. Enquanto essas paixões minam a credibilidade do anti-sujeito, vão também favorecendo o sujeito, que se mostra consciente de todos os possíveis ataques e capacitado para combatê-los e para receber a confiança dos outros romanos.

Além disso, é importante destacar que, como se viu no Capítulo 3, p. 135, Cícero inicia a primeira Catilinária com um entimema, sobre esse recurso, Bertrand (2000, p. 35) afirma que

l’enthymème se présente comme un objet central pour la rhétorique comme pour la sémiotique discursive. Il offre d’un côté une structuration formelle (ou formalisable en termes de rhétorique tensive par exemple) à partir de la catégorisation qu’il met en jeu, et de l’autre il crée cette zone de contact entre le sujet e le discours, libérant un espace où le sujet énonciataire est invité à faire sien le sens, à se l’incorporer en associant le cognitif de l’inférence et le proprioceptif de l’assimilation sensible. C’est donc de cette manière un lieu pathémique, activant ce que ébranle, met en mouvement, émeut le destinataire, eu égard à sa disposition, à son état d’esprit ou à ses états d’âme.

Como se vê, segundo o estudioso francês, o orador, ao usar um entimema, cria discursivamente um meio de apoximação do sensível, “uma área de contato”, em outras palavras, a estrutura lógica e formal que inicia o discurso produz semioticamente condições apropriadas para que seja possível explorar as paixões, lexicalizadas ou não, como se viu anteriormente.

Benzer Belgeler