3. DÖNÜŞÜM VE BÖLÜMLENDİRME İŞLEMLERİ
3.1. Kanalları Farklı Şekilde Kodlama Temelli Çalışmalar
3.4.1 - Um homem moralmente belo
Quando elaborava a ideia central de O Idiota50, Dostoiévski escreve à sobrinha Sofia (a quem dedica o romance) e oferece-nos pistas importantes sobre o que tinha em mente ao criar o protagonista Míchkin51:
[...] a ideia principal do romance é retratar um homem positivamente belo. Não há coisa mais difícil no mundo, e isso é especialmente verdade nos tempos de hoje. Todos os escritores – não apenas os nossos mas também os europeus – que tentaram algum dia retratar o positivamente belo acabaram desistindo. Porque se trata de uma tarefa infinita. O belo é um ideal, quer seja o nosso quer o da Europa civilizada, ainda está longe de ter sido alcançado. Somente uma figura no mundo é positivamente bela: é Cristo, de modo que o fenômeno dessa figura ilimitadamente, infinitamente boa já é em si um milagre infinito. (Todo o Evangelho segundo São João é uma afirmação disso; ele descobre todo o milagre somente na Encarnação, na manifestação apenas do belo). (FRANK apud FAUSTINO, 2004, p.130,132).
Bakhtin (2002) mostra como essa ideia era cara para o escritor russo: “Escrevendo a Strakhóv, ele [Dostoiévski] assim se refere a O Idiota: ‘No romance muita coisa foi escrita às pressas, estendeu-se ou malogrou, mas alguma coisa foi bem-sucedida. Não defendo o meu romance, defendo a minha ideia’” (p.99).
De que beleza Dostoiévski estaria falando ao escolher representar um “homem positivamente belo”? Em duas oportunidades neste romance, há a menção explícita do termo “beleza” como a qualidade que salvará o mundo. Parece pertencer a uma convicção do príncipe Míchkin que outras personagens não deixam de notar. Uma delas aparece na fala de Hippolit: “ – [...] Príncipe, é verdade que o senhor disse uma vez que a “beleza” salvará o mundo? Senhores – gritou alto para todos –, o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo!” (DOSTOIÉVSKI, 2002, p.426).
A segunda menção é a seguinte:
50
Escrito em 1868, este romance está entre as principais obras da considerada fase da maturidade literária de Dostoiévski. A edição que utilizaremos será a da Editora 34 (2002), traduzida diretamente do russo por Paulo Bezerra.
51
Para Bakhtin (2002), em se tratando de Dostoiévski, a “ideia dominante” de cada um de seus romances aparece no plano de escrita que esboça antes de iniciá-los. Suas correspondências dão-nos férteis indícios de qual será a ideia básica a ser experimentada.
– Ouça de uma vez por todas – finalmente não se conteve Aglaia –, se você começar a falar de alguma coisa como pena de morte ou da situação econômica da Rússia, ou de que “a beleza salvará o mundo”, eu... é claro, vou ficar contente e vou rir muito, mas eu o previno de antemão: não me apareça depois diante dos meus olhos! (p.586).
Que convicção é esta que Dostoiévski empresta a seu personagem central e em virtude da qual elabora todo um romance para que através dele a força dessa convicção seja experimentada?
A frase “a beleza salvará o mundo” soa como uma afirmação sublime, mas seu significado é obscuro; ele cheira a misticismo. Uma explicação da frase pode ser procurada na natureza do próprio personagem Míchkin como o homem positivamente belo; a beleza com a qual se “salvará o mundo” pode ser a beleza moral do príncipe [Míchkin] – a beleza do exemplo do homem positivamente bom. [...] beleza, ele aparentemente está dizendo, é uma força moral de um poder tal que poderá salvar o mundo” (PEACE apud FAUSTINO, 2004, p.131, grifo do autor).
Para Faustino (2004), fica devidamente esclarecido que o “belo” de Dostoiévski tem um significado mais ético que estético.
Assim, o “homem perfeitamente/positivamente belo” pode ser interpretado como um homem de uma ética perfeita ou positiva. Ética esta, segundo se deduz da carta já mencionada, que remete à figura do próprio Cristo, ou seja, trata-se de um homem cuja conduta ética remeteria à ética cristã. (p.131).
Haveria, portanto, um vínculo entre a ideia central do romance e o evangelho de João, logo ao Cristo como se depreende da descrição joanina. Segundo Kjetsaa (apud FAUSTINO, 2004), há uma preferência sem par de Dostoiévski por esse livro das escrituras, sobretudo se levarmos em consideração as marcações que o escritor realizou em seu exemplar: 58 ao todo.
Acima de tudo Dostoiévski interpretou a mensagem de amor expressa nos escritos de São João como um mandamento para mostrar compaixão (sostradanie). “Compaixão – este é o todo do Cristianismo”, escreve ele aforisticamente em suas notas para O Idiota (IX, 395). (KJETSAA apud FAUSTINO, 2004, p.133, grifos do autor).
Essa referência aparece literalmente no romance misturada às conjecturas de Míchkin acerca de Rogójin: “A compaixão irá compreender e ensinar ao próprio Rogójin. A compaixão é a lei mais importante e talvez a única da existência de toda a humanidade” (DOSTOIÉVSKI, 2002, p.266).
Será, por conseguinte, o protagonista da história, o príncipe Míchkin, o portador da ideia a ser exercitada no romance. Esse fato é recorrente nos enredos de Dostoiévski52. Uma mistura de Cristo com Dom Quixote, essa personagem carrega um ideal elevado, um ideal de compaixão.
O príncipe Míchkin inspirado em Cristo pode ser considerado como encarnação desta lei de compaixão. Assim como o Cristo do Evangelho de São João, ele veio “lá de cima”, da montanhosa Suíça para a Rússia, o país das estepes, onde ele imediatamente torna-se um “outsider”, um mártir que “não é deste mundo”. A ele pertencem os “puros de coração”, sente compaixão sem odiar e ama sem crueldade. Como o Cristo de São João, ele é representante de um mundo com um temperamento diferente. Nele, nós encontramos a virtude que é passiva – a qual pode somente ser alcançada através da humildade e sofrimento. (KJETSAA apud FAUSTINO, 2004, p.134).
Isso posto, queremos fazer uma breve sondagem da ética da compaixão presente nas ações da personagem central Míchkin, sobretudo seguindo os rastros de sua abnegação pela “humilhada e ofendida” Nastácia Filíppovna, sentimento em torno do qual se constrói o eixo central do romance que, como acima foi esclarecido, visa a experimentar a ideia de um homem moralmente belo.
Poderíamos ter nos debruçado também sobre a compaixão de Míchkin em relação a outros personagens presentes no enredo: Burdovski, Hippolit, Keller, Ívolguin, Rogójin, Gánia, o que nos ajudaria a compor, juntamente com os desdobramentos que seguem a linha narrativa central, o retrato desse homem “positivamente belo”. Preferimos, no entanto, não fazê-lo. Primeiro, porque nossa intenção era tomar, à guisa de guia de valor, a admirável vida do príncipe para estabelecermos um diálogo com a temática e com os dados de pesquisa de que estamos nos servindo, e cremos que para isso a linha narrativa central é suficiente. E em segundo lugar, porque estender nossa verificação a outras instâncias do romance implicaria tomá-lo como objeto central desta dissertação e adotar uma outra metodologia, o que nos levaria por caminhos cuja área de interesse seria estranha às pretensões que nos propusemos para esse estudo. Como subproduto de nossa observação dirigida a O Idiota de Dostoiévski, poderemos refletir brevemente sobre a moralidade da sociedade da época retratada no romance, que demonstra, a exemplo da atual, uma necessidade premente de homens ética e moralmente belos como o protagonista.
52
“Cabe lembrar, antes de mais nada, que a imagem da ideia é inseparável da imagem do homem, seu portador. Não é a ideia por si mesma a ‘heroína das obras de Dostoiévski’, como o afirma B.M.Engelgardt, mas o homem
de ideias. É indispensável salientar mais uma vez que o herói de Dostoiévski é o homem de ideias”. (BAKHTIN
3.4.2 - O príncipe Míchkin
Tendo perdido os pais quando ainda era criança, Liev Nikoláievitch, o príncipe Míchkin (ou simplesmente “o príncipe”, título que a linhagem lhe perpetuou, a despeito da irrelevância social e financeira), viu sua educação sendo assumida por um benfeitor de nome Pavlischov, antigo amigo de seu pai. As frequentes crises de sua doença nervosa congênita, que incluíam ataques epiléticos, fizeram do pequeno Míchkin um idiota quase completo. Posteriormente Pavlischov o enviou para tratamento a um médico especialista na Suíça, o doutor Schneider. Isso se deu durante os últimos quatro anos de vida de Pavlischov, que, aos gastos que despendera com a educação do órfão, acrescentou mais este: honrou todos os custos do tratamento. Ainda não totalmente curado, Míchkin ficou sob os cuidados de Schneider por mais um período, sustentado pela benevolência do médico suíço, ao final do qual foi enviado de volta à Rússia.
A respeito de Pavlischov, Míchkin tinha um conceito altíssimo; dizia que ele tinha sido “o homem mais puro que já existiu na face da terra!” (DOSTOIÉVSKI, 2002, p.311). Fora, inclusive, grande incentivador da ciência. “Pavlischov era um homem magnífico! Um homem generosíssimo...” (p.603). Além da ajuda a Míchkin, soube-se que ajudava uma jovem viúva arruinada e seu filho órfão, dando-lhes anualmente considerável auxílio pecuniário.
A nobreza moral de Pavlischov, de quem se dizia, além do que acima foi registrado, que “teve uma inclinação particularmente terna por todos os oprimidos e ofendidos por natureza, particularmente pelas crianças” (p. 319), produziu marcas duradouras no príncipe. Inspirado pelo que acreditava ser um grande exemplo, chegou, em certa ocasião, a dispor de parte de uma herança, que recentemente recebera, para atender a uma demanda de um pretenso filho desse Pavlischov: era em memória do seu benfeitor que estava disposto a abrir mão de vultosa soma. E tudo porque o demandante inspirava compaixão pela maneira como se deixara envolver numa trama sórdida e mentirosa. A justificativa do príncipe era:
Aliás eu mesmo estou convencido de que ele não compreende nada! Eu mesmo estive em situação semelhante antes de viajar para a Suíça, também balbuciava palavras desconexas – a gente quer exprimir-se e não consegue... Eu compreendo essas coisas; eu posso me compadecer muito porque eu sou quase assim também, eu posso falar! (DOSTOIÉVSKI, 2002, p.314).
O príncipe Míchkin aprende a ser compassivo provando na própria pele e em seus afetos o bálsamo da compaixão. Foi em virtude das dificuldades que experimentou na infância
e adolescência que pôde compreender a dor do outro e se solidarizar. E o faz, certamente, porque se beneficiou do compadecimento com que o assistiram incontáveis atitudes que Pavlischov e Schneider lhe haviam dispensado. Sobre essa disposição do príncipe, uma personagem posteriormente se pronunciará da seguinte forma: “um coração como o vosso não pode deixar de compreender quem sofre” (p.542).
Nenhum aprendizado é mais eficiente do que aquele que ensina com o poder dos exemplos. Piaget (1932/1994) ensinou-nos que o conhecimento não é adquirido por absorção ou acumulação de informações provenientes do mundo exterior, mas por um processo de construção. Foi também o que nos disse Vinha (1997, v.1):
Não adianta tentarmos ensinar a moralidade, pois ela é construída a partir do sujeito com o meio em que vive. É constituída por experiências com as pessoas e situações. Em concordância com esse processo, Haim Ginott (1974) afirma que ninguém pode ensinar honestidade em palestras, lealdade em histórias, coragem por analogia ou maturidade pelo correio. Para ele, a educação do caráter demanda presença que demonstre, o contato que comunique. Assim sendo, não adianta tentarmos ensinar os valores simplesmente com lições de moral, sermões, ditados populares, censuras e outros, como comumente se acredita. Uma criança aprende o que vive e se torna o que experimenta. (p.41-42).
Ainda na Suíça, numa aldeia montanhosa, durante o tratamento, Míchkin fez muitas amizades entre as crianças. Tão logo o conheceram, preferiam-no a um certo mestre local, o que despertava a inveja deste último. Míchkin tentava lhe dizer que eles é que aprenderiam com as crianças, e não o contrário. A animosidade do mestre Tibot Míchkin não conseguia compreender: “E como ele pôde ter inveja de mim e me caluniar quando ele mesmo vivia ao lado das crianças! Por intermédio das crianças cura-se a alma...” (DOSTOIÉVSKI, 2002, p. 92). Provavelmente os exemplos de Pavlischov, mais uma vez, inspiravam o convalescente príncipe.
Mas antes de se envolver com os pequeninos aldeões, ele conheceu Marie, uma jovem de 20 anos, fraca e magrinha, outra dentre as muitas personagens da vasta galeria de humilhados e ofendidos de Dostoiévski, a quem o príncipe teve a oportunidade de reproduzir a compaixão de que vinha sendo alvo.
Não obstante tuberculosa já havia muito tempo, trabalhava pesado de casa em casa como diarista, esfregando assoalhos, lavando roupa branca, varrendo pátios e recolhendo o gado. Sua mãe, bastante idosa, comercializava alguns produtos em sua casinhola, com os quais fazia uns poucos centavos, de onde tiravam a comida. Certa feita, um amanuense francês que passava pela aldeia seduziu Marie e a levou consigo, abandonando-a na estrada
uma semana depois. Envergonhada, voltou para casa mendigando, toda suja e maltrapilha; caminhou uma semana a pé; sua saúde se arruinou nesse período. Quando chegou em casa, foi tratada sem qualquer compaixão. A mãe foi a primeira a desonrá-la. Permitiu, depois, que toda a aldeia se acercasse da casa e tratasse Marie pior do que a um réptil. A moça deitou-se no chão, aos pés da mãe, faminta e em frangalhos; cobriu-se com os cabelos desgrenhados e assim ficou de cabeça para baixo enquanto recebia muitos insultos. Não obstante cuidar da velha senhora, de quem lavava diariamente os pés doentes sem receber qualquer palavra de agradecimento ou perdão, Marie não podia dormir dentro de casa; restava-lhe o paiol de feno. Mesmo nos últimos meses da mãe, esta lhe tratava rudemente, não lhe dirigia a palavra, não lhe dava alimentos. A moça suportava tudo resignadamente, pois se sentia culpada por tudo aquilo. Quando a mãe caiu definitivamente de cama, passou a ser cuidada pelas velhas da aldeia, que deixaram totalmente de alimentar Marie.
Todos a perseguiam. Marie não conseguia trabalho em lugar algum. Os moradores passavam por Marie e cuspiam nela. Os homens diziam-lhe toda a sorte de indecências. Os beberrões lançavam-lhe migalhas ao chão, que ela, faminta, agarrava silenciosamente. Passara ultimamente a escarrar sangue; já não tinha calçado para vestir, e suas vestes não eram mais que farrapos. Sem ter o que comer, passou a cuidar espontaneamente do rebanho de um pastor com o intuito de receber deste algum pão. Depois da morte da mãe, foi infamada na igreja local por esse pastor que, diante do caixão, a acusava da ruína da velha senhora.
Duas semanas antes desse ocorrido, o príncipe decidiu se aproximar de Marie, para o que se desfez de um único pertence de valor, um alfinete de brilhante, por uma bagatela, e presenteou Marie com o dinheiro da venda. Deu-lhe um beijo e lhe disse que tinha muita pena dela e não a considerava culpada de coisa alguma. Tinha ímpetos de consolá-la e dizer-lhe que não se aviltasse daquele modo diante de todos, mas contentava-se com permanecer ao lado dela.
Até as crianças, que nesta época ainda não eram amigas do príncipe, contribuíam para tornar a vida de Marie um inferno. Perseguiam-na implacavelmente, atiravam-lhe objetos. Depois de se desentender com as crianças para defender Marie, o príncipe iniciou uma conversa com elas e não teve dificuldades em convencê-las da infelicidade da moça tuberculosa.
Logo todas as crianças passaram a gostar dela e, ao mesmo tempo, a gostar de repente também de mim. Passaram a me procurar frequentemente e sempre pediam que eu lhes contasse histórias; acho que eu narrava bem, porque elas gostavam muito de me ouvir. Posteriormente eu estudava e lia
só para contar depois a elas, e durante todos os três anos posteriores eu contei histórias a elas. (DOSTOIÉVSKI, 2002, p.95).
Com o tempo, as crianças se tornaram grandes amigas de Marie e lhe levavam comida. Proibidas por suas mães, iam às escondidas, ao campo, encontrar-se com a moça que, desde então, vivia numa felicidade indizível. As crianças encontravam uma imensa satisfação no amor do príncipe por Marie, e foi nessa única coisa que ele as enganou em toda a sua vida lá. “Eu não as dissuadi de que não amava Marie, isto é, de que não estava apaixonado por ela, de que sentia apenas muita compaixão por ela”. (p.96, grifo nosso).
As crianças não entendiam como Míchkin gostava tanto de Marie, uma vez que ela andava muito mal vestida e descalça. Logo cuidaram de arrumar-lhe novas roupas. Marie estava muito fraca e debilitada pela doença. Deixara de servir ao pastor, mas ainda saía com o seu rebanho. Ficava horas sentada numa pedra, respirando com dificuldade, aguardando o rebanho, enquanto se perdia em devaneios e contemplações. O rosto estava magro como o de um esqueleto. O príncipe a visitava constantemente e ficava pequenos momentos em silêncio com as suas mãos entre as dela.
O avanço da doença prostrou finalmente Marie. As crianças passaram a visitá-la e cuidaram dela. Dois dias mais tarde, as velhas da aldeia souberam que Marie estava à morte e assumiram os cuidados. A moça tossia que era um horror. As crianças apareciam à janela e saudavam a moribunda que, com um leve sinal de cabeça, agradecia. Referindo-se, anos mais tarde, a esse evento, Míchkin chegou a dizer:
Graças às crianças, eu lhes asseguro, ela morreu quase feliz. Graças a elas, ela esqueceu sua pobreza negra, recebeu delas uma espécie de perdão porque até o fim se considerou uma grande criminosa. Como passarinhos, elas batiam suas asinhas à janela dela e gritavam todas as manhãs: “Nous t’aimons, Marie” [Nós te amamos, Marie]. (p. 98).
Podemos ver como essa história, narrada no início do romance, prenuncia a intervenção de Míchkin na sociedade da capital russa. Estão antecipados eventos que dirão respeito ao eixo central do enredo tanto quanto a eventos que gravitam em torno dele: o príncipe leva a Marie uma absolvição da sentença de morte moral, de que seus últimos dias entre as crianças, símbolo de pureza, são um testemunho eloquente. Em Petersburgo, procurará ressuscitar moralmente a Nastácia, de quem falaremos adiante. A tísica de Marie encontra correspondência significativa em Hippolit, personagem igualmente tísico e também sentenciado à morte. As crianças, a princípio hostis ao príncipe, tornam-se suas perseverantes
seguidoras. Temos, em figura, a antecipação do acolhimento que Míchkin prestará a personagens como Burdovski, Keller, o general Ívolguin, e mesmo Hippolit, notadamente “pequeninos” quanto à condição social a que haviam sido relegados, que se convertem de adversários e aproveitadores em uma espécie de “discípulos” de Míchkin (Keller chega a oferecer seus punhos, ele que era um ex-boxeador, para defender o príncipe). A hostilidade do mestre Tibot, o professor aldeão que rivaliza com Míchkin na Suíça, e a sociedade local que lhe nega acesso às crianças quando julga seu método inadequado também têm seus correspondentes na sociedade de Petersburgo. O que não falta ao príncipe quando volta à Rússia é oposição (só para ficar num exemplo, podemos falar de Gánia) e estranheza ao seu excêntrico jeito de se comportar.53
A morte de Marie desencadeou uma perseguição contra o príncipe, que ficou temporariamente impedido de se comunicar com as crianças, o que fazia por meio de bilhetes. Posteriormente a animosidade se amainou, e a amizade entre eles se intensificou. Schneider externou um pensamento a respeito do “sistema” do príncipe com as crianças sobre o qual ele não pôde deixar de refletir:
[...] ele me disse que se havia convencido inteiramente de que eu mesmo sou uma criança perfeita, isto é, plenamente criança, que apenas pelo tamanho e pelo rosto eu me pareço com um adulto, mas que pelo desenvolvimento, a alma, o caráter e talvez até a inteligência eu não sou um adulto e assim o serei mesmo que viva até os sessenta anos. (DOSTOIÉVSKI, 2002, p.98).
Essa característica pueril, que o fazia enxergar e sentir coisas que escapavam a outros, o príncipe conservará até o final de sua estadia em Petersburgo, o que não passou despercebido ao personagem Liébediev: “Ocultou dos sábios e dos sensatos e revelou aos recém-nascidos” (p.659); tampouco ao personagem Gánia: “O senhor percebe o que os outros nunca irão perceber” (p.152).
Na observação de Schneider, Míchkin reconhece uma verdade: “eu realmente não gosto de estar com adultos, com pessoas, com grandes – isso, eu notei faz tempo -, não gosto porque não sei.” (p.99).
Ele achava que ficaria para sempre por lá, com as crianças, mas viu que Schneider já não podia mantê-lo e se apressava em mandá-lo de volta. Míchkin sente que seu destino
53
Para mais detalhes, aconselhamos uma leitura de Faustino (2004), que elaborou um belo trabalho ao integrar as partes ao todo buscando a compreensão da significação objetiva da obra.
mudará radicalmente: “Agora estou indo para a companhia das pessoas; pode ser que eu não saiba de nada, mas começou uma nova vida.” (p. 99).