[...] os conceitos, as teorias, os modelos da ciência, podem entrar como ferramentas para tratar desses temas e não como fins em si mesmos (Helder de Figueiredo e Paula – Abril/2016).
O relato do professor Helder a respeito da coleção Construindo Consciências foi registrado no dia 04 de abril de 2016 na sala que leciona para os alunos do Colégio Técnico da UFMG. Minutos depois de finalizar uma de suas aulas, contou-me a história da coleção e algumas vivências que envolveram o período de organização e escrita dos livros.
Seis amigos, essencialmente professores, atuantes em pesquisas em Educação em Ciências, foram convidados por representantes do governo do Estado, no final da década de 90, a trabalhar com formação continuada e reforma curricular. Esse grupo deveria estimular os profissionais da educação básica a produzirem seus próprios materiais didáticos. Na ocasião, os amigos, representantes do CECIMIG (UFMG), produziram algumas unidades temáticas de referência para utilizá-las nos cursos de formação, visto a insatisfação com os materiais disponíveis no mercado e a incoerência com as ideias pregadas pelo grupo.
A estruturação do ensino a partir de unidades temáticas, explica Helder, tentou superar a lógica muito comum no ensino de Ciências de um currículo centrado na apresentação de conceitos. A ideia seria trabalhar as Ciências Naturais considerando aspectos do cotidiano, aproximando o aluno dos temas que despertassem seu interesse ou pelos quais já tinham alguma afinidade ou curiosidade, contextualizando as abordagens e as relações que ele
61 poderia estabelecer com o ambiente onde vive. Complementar a essa proposta, apostou-se na integração dos conteúdos das disciplinas de biologia, física e química, rompendo com o modelo tradicional de ensino: ambiente no 6º ano, seres vivos no 7º, corpo humano no 8º e conceitos químicos e físicos no 9º ano. O autor recorreu a alguns exemplos para mostrar como seria essa integração:
[...] essa abordagem temática permitia, por exemplo, ao falar da regulação térmica dos seres vivos, destacar aspectos biológicos importantes, a considerar, aspectos geográficos, tem a ver com o conhecimento de clima, dos biomas e no caso da física você tem os conceitos de calor, temperatura, os conteúdos que normalmente trabalha-se na física térmica. Outro exemplo, a questão do funcionamento do corpo, alguns elementos de biomecânica, para entender os movimentos dos braços, das pernas, os pares antagônicos de músculos, os efeitos de alavanca, ampliação de força ou de deslocamento dependendo da alavanca. Então, esse tipo de integração entre o conhecimento de física, química e biologia. A gente estava defendendo que essa abordagem temática, dizendo que ela permitia tratar dos contextos não como exemplos da ligação de conceitos, mas como objetos de conhecimento, coisas sobre as quais vale a pena a gente debruçar. Os conceitos, as teorias, os modelos da ciência, podem entrar como ferramentas para tratar desses temas e não como fins em si mesmos (Helder de Figueiredo e Paula – Abril/2016).
Sabendo da existência do material produzido para a formação de professores, uma editora de Belo Horizonte convidou-os a estruturar uma coleção didática. Para esse desafio mais dois professores, um de química e outro de física, juntaram-se ao grupo. Todo material produzido foi sendo testado em diferentes salas, seja pela professora Selma, atuante no Centro Pedagógico, ou por licenciandos dos cursos de física e química, em escolas da rede básica de ensino. Tal postura resultou no amadurecimento dessas unidades temáticas. Esse período de testes incomodou a editora levando os autores, entre outros motivos não especificados, a romperem com a mesma. Após alguns contatos, o grupo deu continuidade à escrita depois de assinar com a editora Scipione. Considerando o período da reforma curricular até a publicação da primeira edição, Helder contabilizou cerca de cinco anos dedicados a produção dos exemplares.
O mais difícil no processo de construção dos livros, segundo o autor, foi a relação com a editora. Os exemplares participaram de várias avaliações do PNLD, sendo bem avaliados, exceto no projeto gráfico. A parte que cabia a editora não estava sendo bem executada, levando a insatisfação dos autores e ressalvas nas avaliações. Alguns chegaram a ir a São Paulo para compreender como funcionava a parte gráfica, mas “o autor, curiosamente, ele não tem muito controle sobre” (Helder de Figueiredo e Paula – Abril/2016). Para os autores, a diagramação e a qualidade das imagens influenciavam na leitura, mas pouco puderam opinar nessas questões. Quando tinham acesso aos “bonecos” faltava pouco para o lançamento da
62 coleção. Os curtos prazos e excesso de cobranças também foram apontados pelo autor como um momento difícil do processo.
Outro fator desgastante foram as falhas na divulgação da coleção, impedindo que os professores pudessem conhecer, avaliar e escolher o livro via PNLD. A editora criou a expectativa que o livro era difícil de vender, devido a experiências no mercado privado, não investindo assim na divulgação. Para Helder, eles não tiveram um tratamento digno por parte da editora. E mais, o formato do livro influenciava na sua baixa adesão, por se tratar de uma coleção que exigia muito dos envolvidos, pois transgredia a zona de conforto na qual os professores estavam acostumados. São exemplares baseados em atividades, em discussões, interação entre as partes, e a gestão do discurso precisa ser eficiente. Professores acomodados e replicadores do modelo tradicional de ensino têm dificuldades para se adequarem à proposta.
Segundo o autor, na produção de um material didático nada é fácil, mas é prazeroso e interessante. Destacou o escrever junto, o aprendizado entre as partes, o convívio social e desafiador que produziu crescimento, a experiência intensa de escrever a muitas mãos e a amizade que uniu ainda mais o grupo. Dentro deste contexto de produção, os autores criaram o Grupo APEC para apresentar como a autoria da coleção. O professor Helder o define como “um grupo de amigos, que trabalharam muito durante um período da vida e se dedicaram a essa tarefa comum” que foi escrever a coleção Construindo Consciências.
Ao tratar sobre a concepção escolhida pelos autores para fundamentar a coleção, Helder enumerou vários referenciais. Antes disso, destacou que todos os envolvidos na produção do livro didático eram consumidores ou produtores de pesquisa em Educação em Ciências, e, no momento da escrita, atuavam como professores e investiram nos cursos de mestrado ou doutorado, tendo como orientadores nomes importantes para o ensino de Ciências. Segundo o autor, os livros foram orientados basicamente por pesquisas em Educação em Ciências que questionavam o ensino transmissivo.
Na literatura em Educação em Ciências, os autores se debruçaram nos referenciais que tratavam das concepções espontâneas; modelos de mudança conceitual; os perfis conceituais e a mobilização do conhecimento em função do contexto propostos por Eduardo Fleury Mortimer; estudos da área do discurso; a epistemologia, história, filosofia e sociologia das Ciências, e como é a construção do conhecimento científico. Eram leituras que o grupo tinha em comum e que embasaram a construção dos textos e atividades. Helder revelou a afinidade do grupo por questões da história, filosofia e sociologia da ciência, do estudo do discurso e da
63 linguagem em sala de aula, das relações Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) e da ciência e arte. Concluiu seus dizeres sobre a concepção do livro com as seguintes palavras:
[...] nossa identidade em relação a esses referenciais nos levou tanto na condição de protagonistas no processo de reformulação curricular e de produção de materiais alternativos, na época a gente formava grupo de professores e orientava na produção de materiais por eles próprios, sequências didáticas e tal. Então, surgiu daí a diferença do livro em relação a outros livros. Tem a ver justamente com essas várias orientações ligadas a pesquisas em Educação em Ciências, que a gente levou em consideração (Helder de Figueiredo e Paula – Abril/2016).
Os referenciais citados refletiram em cuidados na escrita do manual do professor. Os autores tinham consciência do diferencial dos livros e que comentários rápidos ou apenas respostas dos exercícios não dariam aos docentes subsídios para explorar todas as potencialidades da coleção. Na assessoria pedagógica, justificaram suas escolhas quanto a: organização em unidades temáticas, apresentação dos conteúdos, proximidade estabelecida entre contextos e conceitos, e exposição dos resultados obtidos pelo uso das propostas em aulas no Centro Pedagógico ou em estágios da licenciatura. Tal postura visou alicerçar o trabalho do professor que optasse por sair da sua zona de conforto e a buscar novos caminhos para o ensino de Ciências. Os manuais sempre foram elogiados pelos pareceristas do PNLD, e concluiu “estamos falando de uma experiência que teve começo, meio e fim agora, o livro já não é publicado há dois anos”.
Com o rompimento entre as partes, o grupo chegou a conversar sobre a busca de uma nova editora. Helder posicionou-se contra, visto os constrangimentos que já haviam passado nos anos anteriores. Esse movimento até aconteceu, mas não teriam tempo hábil para produzir uma coleção e inscrevê-la no PNLD 2017. Na ocasião, os direitos autorais das imagens, até as produzidas pelos autores, foram comprados pela editora Scipione. Assim, seria necessário recomeçar e investir em digitalização, pesquisa de imagens e iconografias, etapas estas muito trabalhosas. A editora contactada não ofereceu o suporte técnico necessário para que os prazos fossem cumpridos. Esse movimento se perdeu.
Helder criticou as políticas públicas direcionadas a produção e distribuição de livros didáticos. Como o programa avalia as coleções de 4 em 4 anos, as editoras aproveitam a deixa para lançar novas coleções, ou até mesmo fazer pequenos ajustes, para dificultar a reutilização de livros e manter o negócio cada dia mais rentável. Afinal, o maior comprador de livros didáticos do país é o governo. O autor descreveu brevemente esse momento:
[...] a cada 4 anos é a mesma coisa, é aquele caos de prazos apertados só pra nós, aquela decepção com a parte que cabe a editora e, em alguns casos, quando estávamos satisfeitos com
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o texto, e isso aconteceu mais de uma vez, imposições cosméticas só para alterar número de páginas (Helder de Figueiredo e Paula – Abril/2016).
A integração da coleção Construindo Consciências ao Projeto Velear – Ciências foi justificada pela facilidade de se divulgar coleções com exemplares de várias áreas do conhecimento. Ajustes quanto ao projeto gráfico foram realizados a fim de padronizar todas as coleções que fariam parte do Projeto (Ciências, Matemática, Língua Portuguesa, etc.). E, mais uma vez, a expectativa de divulgação dos exemplares e da proposta pedagógica, e a melhoria na qualidade gráfica, foi frustrada. Para Helder, uma situação vergonhosa.
Em relação às chances de um livro com as características do Construindo
Consciências ser muito adotado, não há otimismo. Na sua prática, o professor Helder não
utiliza livro didático e sim materiais de sua produção, sejam eles textos, atividades ou roteiros de laboratório. Esses recursos só são incorporados a sua aula depois que os alunos já viram experimentos ou começaram a conversar sobre o tema que será tratado. Com isso, eles têm o que dizer, encontram palavras com as quais podem confrontar o texto que farão a leitura. Para o autor, uma aula não deve ser centralizada no livro, apesar da coleção guardar essa característica de conduzir o trabalho em sala de aula. E finalizou dizendo que o professor deve buscar fontes interessantes e fazer as suas escolhas.