O fato de a iniciativa de OCAS se centrar em editar uma revista, ou seja, um produto jornalístico, vai além da simples justificativa de seguir os moldes de outras experiências internacionais que a inspiraram. No desenvolvimento da sociedade contemporânea, o jornalismo ainda carrega o status de credibilidade narrativa, pois se consolida – até pelas influências do desenvolvimento tecnológico para a informação e comunicação – como a atividade por excelência da construção de uma ideia sobre a própria sociedade, sobretudo no que tange as relações burguesas (SODRÉ, 2009).
Ao se observar mais demoradamente as configurações do tipo de jornalismo publicado pela revista Ocas, compreende-se que, entendendo essa centralidade da atividade jornalística, o periódico procura chamar atenção para um tema recorrentemente invisibilizado na sociedade, no sentido de não se destacar as contradições do próprio sistema capitalista. No entanto, essa busca pela introdução de um tema de pouca visibilidade não se dá, necessariamente, a partir da objetivação do assunto, abordando a complexidade do fenômeno e as relações que se estabelecem a partir dele. Como explica Sodré (2009):
Assim, pode muito bem acontecer que a midiatização de aspectos críticos de uma determinada realidade social deixe o público em geral pouco informado sobre o que realmente está ocorrendo (e isto é cada vez mais frequente em virtude das flutuações da atenção e da memória coletivas sob o influxo da mídia), mas ainda assim essa precária memória midiática é capaz de fazer emergirem novos atores sociais no espaço público, sejam eles os imigrantes ou os favelados nas periferias das megalópoles ocidentais. Ou seja, o que avulta como socialmente crítico não é o conteúdo racional e argumentativo dos textos sobre a realidade em questão, mas o “sensível” de vozes antes silenciadas. (SODRÉ, 2009, p.70)
Ora, a visibilidade dos problemas decorrentes da exclusão social, o destaque para a situação de risco social a qual enfrentam milhares de brasileiros, não deixa de ser uma atitude louvável em meio às disputas simbólicas no contexto urbano. No entanto, a forma como tal destaque se dá na revista Ocas – por meio de, quase exclusivamente, experiências assistenciais e de voluntariado, também diluídas em textos que abordam questões culturais, não supera o maniqueísmo típico no tratamento de questões sociais. É evidente que a realidade de exclusão e desigualdade sociais se caracteriza por ser uma conjuntura totalmente nefasta para milhares de pessoas nas grandes cidades, e sua reprodução está certamente ligada às estruturas institucionais do governo. No entanto, a questão não se resume a esse aspecto, já que o fenômeno passa por outras instituições e fatores centrais na sociedade, entre eles, o próprio voluntariado e assistencialismo.
Enquanto produto jornalístico, que se propõe a apreender os fatos cotidianos a partir dos conhecimentos inerentes a essa atividade, a revista Ocas ainda apresenta uma grande lacuna. Mas, do ponto de vista da circulação de perspectivas, sobretudo no ambiente urbano, é inegável a importância de seu papel alternativo, como contraponto às ideias e conceitos hegemonicamente predominantes nas discussões da sociedade.
5 Considerações finais
Num percurso do olhar que parte de um ponto de vista macro, enxergamos o grande fenômeno da urbanização e sua expressão máxima na realidade das metrópoles. No caso do estudo traçado nesta dissertação, em especial as cidades brasileiras de São Paulo e Rio de Janeiro. Nesse contexto, saltam aos olhos o mosaico de informações que advêm da urbe: avanços tecnológicos, transações financeiras, desenvolvimento infraestrutural, movimentos de reivindicação, expressões culturais e artísticas; mas também miséria, exclusão e desigualdade sociais, trabalho informal, periferias desestruturadas, pessoas sem oportunidades, e sem o mínimo para garantir a dignidade da vida.
A contradição é latente no cotidiano social, e sua percepção se dá, sobretudo, por meio do mosaico de informações que predomina na contemporaneidade – a circulação de dados e informações nunca foi tão intensa. A mediação tecnológica é responsável por sustentar a dinâmica informacional, sob a marca da velocidade (imediatista) e também da superficialidade. E as consequências dessa dinâmica extrapolam e se manifestam na própria constituição dos sujeitos sociais, bem como as relações que estabelecem na sociedade.
As experiências urbanas são as primeiras a sentir esses impactos, concentrando, ao mesmo tempo, as características nefastas do desenvolvimento – ancorado nos competitivos preceitos capitalistas; as novidades tecnológicas, renovadas em velocidade cada vez maior, e por isso mesmo estimulantes do consumo; e as experiências de resistência e reivindicação da garantia de direitos sociais e dignidade humana, que estão sob progressiva ameaça no contexto de uma estrutura social cada vez mais individualizante.
Nesse macro cenário composto nesta dissertação, de forma geral, a partir das reflexões de Muniz Sodré (2001, 2007, 2010), Milton Santos (1993, 2001), Jessé de Souza (2006), Beatriz Jaguaribe (2007), interessou ao estudo enxergar e compreender uma específica experiência, a partir da qual seria possível enxergar e compreender como se revelam, no exercício do jornalismo, tais macroconfigurações descritas. Entende-se, numa perspectiva construcionista, que é no desenvolvimento das microrrelações que se estabelecem as configurações do que se interpreta como sendo a própria estrutura societária.
É no terreno das trocas simbólicas que tais relações são balizadas, a partir dos valores e ideias dos grupos dominantes na sociedade, que buscam a reprodução e a consolidação de seus mecanismos de poder, em consonância com o sistema capitalista de produção. Ou seja, a hegemonia não se exerce apenas por meio das tradicionais instituições, mas também nas estruturas mais subjetivas que determinam as relações sociais, como gostos, crenças,
pressupostos, conceitos. Tal conjuntura se reforça pela destacada influência do binômio tecnologia/consumo no cotidiano dos indivíduos.
A comunicação, portanto, assume papel significativo na dinâmica social, ao ser a principal atividade a engendrar as relações simbólicas – e também de consumo. E justamente por ocupar esse destacado lugar, a comunicação também é terreno fértil para o desenvolvimento de iniciativas que apresentem perspectivas críticas às formas contemporâneas de desenvolvimento social.
Numa perspectiva dialética, as experiências comunicacionais que buscam fazer um contraponto aos grupos hegemônicos, além de apresentarem outras formas possíveis de vínculo da comunicação na sociedade, também configuram importantes facetas da sociedade, importantes para a própria compreensão das dinâmicas sociais contemporâneas. Justamente pela complexidade que marca tais dinâmicas, a questão é controversa no que diz respeito à conceituação do termo “alternativo”, amplamente utilizado para se referir a perspectivas comunicacionais que se contrapõem aos grupos hegemônicos. A bibliografia sobre o tema é vasta, no entanto, sofre de carências que se justificam pela própria indefinição das ações alternativas diante das consolidadas estruturas societárias.
Para entender tal processo, evoca-se neste estudo as reflexões de Paiva (2007, 2008), Sodré (2005, 2006, 2008), Moraes (2010), Martín-Barbero (2006, 2003), entre outros, que auxiliam na compreensão de que a busca por experiências alternativas se localiza no âmbito simbólico, o que, apesar de se relacionar com certa fluidez de uma constante redefinição, faz com que o alternativo assuma papel estratégico para as mudanças sociais necessárias, sobretudo a superação da desigualdade e exclusão sociais.
No entanto, os câmbios sociais só têm efetividade se abrangerem ações estruturantes na sociedade, o que passa pelo reposicionamento também em relação a instituições e práticas consagradas no contexto do desenvolvimento social. Desse modo, compreende-se que os modelos alternativos na comunicação podem oferecer contrapontos sob dois aspectos específicos: disputando simbolicamente espaço na circulação quase frenética de informações cotidianas; ou buscando desenvolver novos formatos para sua própria existência, estabelecendo novos vínculos, estruturando novas relações.
No caso do objeto de estudos desta dissertação, conclui-se que a perspectiva contra- hegemônica se encontra em medidas diferentes nos aspectos acima relacionados. Do ponto de vista simbólico, a revista assume um significativo papel de disputa no contexto urbano das cidades em que circula, por se caracterizar como um veículo de comunicação, em formato reconhecido e compartilhado pelos integrantes da sociedade, uma revista, que apresenta um
tema geralmente evitado e invisibilizado de maneira estrategicamente atrativa – a possibilidade de contribuição com um projeto social por meio da compra da revista, chamando atenção para o problema da exclusão social.
A revista Ocas parte da legitimidade construída em torno da atividade jornalística para se estruturar, buscando a persuasão dos leitores por meio do uso estratégico de suas fontes, pela apresentação “atrativa” dos temas que se relacionam com o projeto social que a sustenta, pela racionalidade do discurso impessoal, pela exaltação de experiências de superação e dos fatos que denunciam uma realidade que exclui milhares de pessoas.
Do ponto de vista estrutural, portanto, a revista utiliza os mesmos formatos reconhecidos, e os mesmos pressupostos que delineiam a própria atividade jornalística, mantendo uma estrutura textual que prioriza a denúncia e a publicização de casos de exclusão social, ou a exaltação de projetos sociais que igualmente ao projeto OCAS também procuram minimizar os problemas decorrentes da desigualdade social. Tal estratégia de dar visibilidade, no entanto, não questiona a própria existência da exclusão social. Nas páginas da revista não há uma problematização essencial do problema da exclusão social, que culmina na existência de pessoas em situação de rua e/ou risco social – justamente o grupo ao qual se dedica a ação social que sustenta a publicação.
No entanto, há que se ponderar que apresentação jornalística de discussões mais estruturantes talvez não seja mesmo a intenção da revista Ocas. Nesse sentido, a principal contribuição da revista Ocas seria mesmo representar um espaço para a visibilidade de uma faceta do cotidiano que é geralmente naturalizada no cenário urbano. Mesmo sob uma configuração utilitária do jornalismo, a publicação atenta para a necessidade de se enxergar e considerar a realidade de exclusão que atinge milhares de pessoas.
Não se trata, portanto, de julgar o mérito da atuação da revista. Mas localizar a publicação no seu contexto cultural, entendendo-a como uma manifestação que contribui, mas também é influenciada, pela complexa estruturação das relações sociais contemporâneas.
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APÊNDICE
Descrição do material – observação para análise Edição número 63 (janeiro/fevereiro 2009) Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 3 (de 9 a 11).
Título: Por mais voz e ação Autor: Luciano Rocco
Tema central: realização de seminário promovido pelo Fórum Permanente sobre População
Adulta em Situação de Rua, com vistas a pensar as diretrizes para a política pública para a população de rua.
Fontes e contextos de fala:
- Maria Margarida Pressburger, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da OAB/RJ: fala do interesse pessoal e institucional (OAB) no assunto; a matéria praticamente coloca os cumprimentos dados pela presidente como uma fala da matéria, para reforçar o seu interesse e compartilhamento da consciência da necessidade de se discutir tal tema.
- Jorge Muñoz, pesquisador da Nova Pesquisa e Assessoria em Educação: fala das intenções do fórum – que se mantiveram desde sua gênese –, ressaltando a presença/ausência de pessoas, instituições e do poder público no fórum, sobretudo deste último.
- Valéria Gonelli, diretora do Departamento de Proteção Social Especial do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS): não tem uma fala específica, mas é citada de forma a personificar as informações relacionadas às ações do governo federal no que se refere à população de rua, em especial a Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua, que estava sendo anunciada para o mês de março49, seguinte à publicação.
- pesquisa sobre a saúde da população em situação de rua: a matéria não diz exatamente o nome de quem apresentou os dados da pesquisa, mas alguns resultados são explicitados, de forma pontual.
Narrador: obedece à linguagem jornalística com terceira pessoa, mas vale destacar que a
matéria se constitui quase como um relato da reunião do fórum, trazendo até mesmo um