Fellini oito e meio (ou, simplesmente, 8½) é considerado, por críticos e estudiosos de cinema, um filme autobiográfico, com muitas cenas retiradas da vida de seu diretor. Segundo o próprio Fellini, algumas cenas foram realmente concebidas a partir de seus sonhos diurnos e noturnos. O título do filme é uma referência à carreira do diretor, que até então havia realizado seis filmes – Abismo de um sonho, Os boas-vidas, A estrada da vida, A trapaça, Noites de Cabíria e A doce vida – e dois episódios em coproduções franco-italianas – Boccaccio 70 e Histórias extraordinárias – e codirigido, com Alberto Lattuada, um longa-metragem, Mulheres e luzes, de 1952.
O filme retrata a crise amorosa e de criatividade de um cineasta chamado Guido Anselmi, que, cansado e aborrecido com sua vida, resolve internar-se em uma estação de águas em busca de refúgio, de inspiração e de sonhos.
Os sonhos são matéria-prima dessa narrativa, que, inovadora, influenciou muitas gerações de artistas (não apenas cineastas, mas também pintores, músicos e escritores). Um exemplo da inovação na linguagem dessa narrativa não linear e com foco nos sonhos é o uso criativo da fotografia em preto e branco, que serve para reforçar os elos entre a realidade e a dimensão onírica. Um detalhe é que os produtores de 8½ queriam que Fellini diferenciasse realidade e sonhos em cenas em cores e em preto e branco para facilitar a compreensão do público, mas o cineasta se recusou a fazê-lo, pois, para ele, os dois níveis da experiência humana eram equivalentes.
Fellini imaginava que havia duas vidas em uma só: o cotidiano, com a realidade dos fatos e os sonhos, em uma só perspectiva. Distingui-los era uma questão secundária. Ele abria um espaço enorme para que sua vida e a de alguns de seus personagens, como Guido, fossem também um espaço de sonhos, um espaço que não estivesse “[...] fechado apenas em estruturas lógicas e racionais” (FELLINI, 1994, p. 34).
Sempre me pergunto se algo me aconteceu de fato ou apenas sonhei. Nem sempre os meus sonhos são sonhos em sonhos de sono. O sonho surge no subconsciente; a visão é, em contrapartida, uma idealização consciente. Consigo sonhar de olhos abertos, imaginar alguma coisa e realizá-la. Então, não estou dormindo de verdade, estou vivendo de verdade. (Ibid., p. 66)
O filme tampouco obedece a uma narrativa em ordem cronológica, e apenas o personagem central, o cineasta Guido, estabelece um tempo particular, subjetivo, entre o presente, o passado e os seus sonhos. Os acontecimentos do cotidiano começam numa estação de águas, onde as questões relativas ao amor e a dificuldade do protagonista para compor seu filme servem de contexto para a concepção da história.
Em 8½, o tempo presente ocorre em um curto período, de apenas três ou quatro dias, durante um veraneio em uma estação termal. Já o passado, assim como os sonhos de Guido, atravessam a narrativa de forma atemporal e fundem-se com a realidade, até não haver distinção entre eles. Guido tenta organizar as ideias, fazer coincidir as personagens de ficção com os intérpretes disponíveis e dominar o complexo mecanismo da produção, assim como suas questões no amor. Envolvido em intensa atmosfera emocional, num grande mergulho onírico, é como se vivesse em outro tempo ou se o tempo cronológico não tivesse muita importância.
Uma outra “voz”, a dos seus sonhos, então se evidencia e se revela como uma fala mais concreta, que vai se alojando junto aos acontecimentos do dia a dia: quando acorda angustiado de um pesadelo; quando está sendo examinado por médicos; à espera da amante na pequena estação da estrada de ferro; quando almoça e dorme com ela no hotel da ferrovia; ao encontrar pessoas conhecidas; quando discute com a esposa; ou enquanto escolhe os figurantes para o filme que está em vias de fazer.
Entre a realidade dos fatos e os sonhos, entre o passado e o futuro, temos duas falas: uma, irreal, passada e vivida; outra, desejada e inventada, mas que, à medida que o filme progride, torna-se gradativamente real e presente. Tão real e presente que, a partir de determinada cena, especificamente a de seu encontro com sua amante Carla, instala-se um momento significativo, no qual sonho e realidade se misturam de vez na narrativa.
A partir desse momento, um autorretrato do personagem vai sendo composto, condicionado pela sua história individual e não por uma trajetória coletiva. O que vemos em 8½ não é o retrato de uma época, como em Noites de Cabíria, mas o tempo interior do personagem.
As cenas iniciais já anunciam o “espírito” anárquico e onírico do filme: a “queda” de Guido do céu, durante a qual ele flutua como um enorme espantalho sobre o mar,
e o grande “engarrafamento” do trânsito. Tudo isso nos adverte do que será o filme: um grande mergulho na interioridade do personagem. Guido desconfia que todo esse enredo, amores, família, religião, teve início nas descobertas “assustadoras” de sua infância, as quais agora se fundem nos sonhos e devaneios de sua vida adulta.
A esse respeito comenta um produtor de cinema, Alberto, no final da primeira metade da narrativa: “Mais um filme sem uma mensagem otimista sobre a infância e a vida”.
De fato, Fellini não resolve os dilemas profissionais e pessoais de Guido e termina 8½ com um final surpreendente: uma grande roda circense, segundo a fórmula das produções hollywoodianas. Transformar o sonho em realidade para Guido dá trabalho, e na roda circense, para Fellini (1983, p. 34), “o palhaço (Guido), assim como todos os figurantes podem imaginar, amar e sonhar na velocidade e da forma que quiserem”.
O cineasta italiano prefere manter-se fiel a seus princípios, ideias, sentimentos e ao "espírito'' do filme. Afinal, sua intenção com o filme é mostrar um personagem em crise, um homem moderno e suas angústias e dúvidas, e não simplesmente mostrar soluções para tais problemas.
Guido é, antes de tudo “um personagem complexo, um sujeito individualista, autoindulgente, obcecado com o erotismo, um palhaço, um mentiroso, um trapaceiro", na definição oportuna do escritor Alberto Moravia.
Todavia não é também um filme pessimista, mas uma ópera-circense e, como tal, mostra tristeza, alegria, surpresa e música, sem um final, uma vez que o amanhã trará mais espetáculo, isto é, o espetáculo deve continuar.
Na cena derradeira, como no final de uma apresentação circense, os personagens voltam à cena (ao picadeiro) para fazer reverência ao público espectador: há música, palhaços, luzes, conversa animada, despedida. Guido finalmente curou-se de seu bloqueio criativo? Ele finalmente chegou a alguma solução a respeito de seus problemas pessoais, amorosos? Ou o que vemos acontecer é mais um sonho do personagem? Pode ser, ainda, um pouco de tudo.
Fellini deixa a resposta ao público. A reflexão é secundária, embora também essencial, porque ele, como um cineasta formado pelo circo, quer antes de tudo, encantar e surpreender a audiência; mexer com a emoção do espectador, provocar risos e lágrimas, simultaneamente.