• Sonuç bulunamadı

KAMUYU AYDINLATMA PLATFORMU (KAP) HİZMET BEDELİ

Belgede MERKEZİ KAYIT KURULUŞU (sayfa 22-27)

B. Proje Bazında Sağlanan Hizmet Ücreti

XIII. KAMUYU AYDINLATMA PLATFORMU (KAP) HİZMET BEDELİ

“Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo!

— só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada.

Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou (...) o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia...” João Guimarães Rosa35.

A busca-produção de agenciamentos rizomáticos, que se põem no meio da travessia, é o que me move hoje. A perspectiva de cartografar a produção do SUS, pelo duplo, cuidado e gestão, no âmbito da regionalização da saúde, se produziu em mim como desejo.

Uma produção desejante que me mobilizou a traçar uma linha de fuga para “[...] explodir os estratos, romper as raízes e operar novas conexões. Há, então, agenciamentos muito diferentes de mapas-decalques, rizomas-raízes, com coeficientes variáveis de desterritorialização”. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 33). Penso ter sido uma linha de fuga, o meu encontro com ‘Neidinha’36.

Estive hoje com Neidinha. A abertura de seu coração, diante do meu chamado, foi tamanha que me surpreendi. Ela não me dirigiu uma pergunta sequer. No território virtual do WhatsApp, trocamos ideias sobre quando e onde nos encontrarmos. Senti-

me no processo da “tenda invertida”37, onde o mestre se dirige ao campo de prática de seu educando. Neidinha veio até a mim. Um dos meus primeiros aprendizados sobre o caminhar de uma cartógrafa: ela movimenta-se pelo território dos afetos. Por isso, ela veio até a mim. A escolha de cartografar a regionalização da saúde guiou meus sentidos até ela. Buscava a compreensão do ‘método cartográfico’, como fazê-lo, praticá-lo, aprendê-lo. (ESCRITAS CARTOGRÁFICAS38, 28 fev. 2015).

35ROSA, 1986, p. 26-52. Composição feita por Vanessa T. Bueno Campos. Extraído de: Evasão de alunos nos cursos de graduação na Universidade Federal de Uberlândia – MG. (1990/1999). Disponível em: <http://www.ichs.ufop.br/conifes/anais/EDU/edu1104.htm>. Acesso em: 03 out. 2015.

36Professora Maria Rocineide Ferreira da Silva, graduada em enfermagem, especialista em Saúde da Família. Mestre em Saúde Pública pela UECE. Doutora em Saúde Coletiva pela Associação Ampla UECE-UFC- UNIFOR, Professora Adjunta do Curso de Enfermagem da UECE e da Pós-graduação nos Programas de Saúde Coletiva, Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, Saúde Coletiva e Mestrado Profissional em Saúde da Família. Curriculum Lattes: <http://lattes.cnpq.br/6463145896403157>.

37ANDRADE et al, 2004.

38As Escritas Cartográficas são anotações de impressões, aprendizagens, dúvidas, questionamentos, pensamentos, enfim, escritas de afecções do corpo, quando em fricção com outros corpos, no campo da experimentação do real. Assim, construídas no experimentar e no produzir do caminho-tese, especialmente em minha habitação no campo de pesquisa. A Escrita Cartográfica é uma ferramenta de uso, no caminhar teórico-metodológico cartográfico.

Assim, no território dos afetos, traçamos as possibilidades de cartografar a regionalização da saúde do Ceará. De lá até os dias atuais, na véspera mesmo de fechar esta Tese, ‘Neidinha’ tem me acompanhado e nutrido meu corpo de afetos, problematizações e escuta atenta. Quando me vejo cegar, na experimentação do real, nas linhas ‘tortuosas’ e não ‘acostumadas’ da cartografia, peço a ela que me ajude “a olhar o mar”, como Diego pediu ao pai, pelas palavras de Eduardo Galeano, no “O livro dos abraços”:

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, está do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: ‘Me ajuda a olhar!’.” (GALEANO, 2002, p. 12, aspas simples do autor).

O Doutorado apresentava poucas possibilidades, em termos de oferta de disciplina, que pudesse me apoiar nas escolhas que vinha fazendo. Entre 2013 e 2014, fiz a disciplina “A Hermenêutica do Sujeito”, ministrada pelo Professor Doutor Andrea Caprara39, oportunidade em que pude adentrar nesta obra de Foucault (2010). Foi uma leitura e discussões extasiantes. Um olhar que se perdurou em minha caminhada e que aqueceu os contornos das escolhas que fiz um pouco mais adiante.

Outra disciplina, que me pôs em interrogação, foi a de “Fundamentos da

Epistemologia da Saúde Coletiva”, ministrada pelo Professor Doutor Ricardo José Soares

Pontes40, a quem eu chamo carinhosa e respeitosamente de ‘Profe’. A intensidade das aulas e discussões era tamanha que, às vezes, entrávamos, os dois, em curto-circuito. Algumas conversas me faziam (des)encarnar o verbo e delirar, como Manoel de Barros, no “Livro das Ignorãnças”:

No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo. O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira. E pois. Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos - O verbo tem que pegar delírio. (BARROS, 1993, p. 441, grifos meus).

39Graduado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina Universidade de Modena, Itália, Doutor em Antropologia, pela Universidade de Montreal e Professor Adjunto no Departamento de Saúde Pública da UECE. Curriculum Lattes: <http://lattes.cnpq.br/114046735007116>.

40Médico sanitarista, epidemiologista e Professor Associado do Departamento de Saúde Comunitária, da Faculdade de Medicina da UFC. É Doutor em Medicina Preventiva, pelo Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP e Pós-doutor pelo Department of Tropical Medicine, na Harvard School of Public Health. Curriculum Lattes disponível em: <http://lattes.cnpq.br/0178262414573840>. 41Paginação segundo versão eletrônica, disponível em: < https://msamoraes.files.wordpress.com/2014/07/manoel-

Mas, ainda, precisava de mais. A necessidade de adentrar nos caminhos da cartografia me levou a habitar, em 2015, a disciplina “Pesquisa-Intervenção, Análise Institucional e Cartografia”, ofertada pela Pós-graduação da Psicologia, da Universidade Federal do Ceará, pelos Professores Doutores Luciana Lobo Miranda42 e João Paulo Pereira Barros43.

A disciplina me veio como um presente em estética rizomática, algo que se pôs em minha vida sem sequer eu me dar conta de sua vitalidade, extensão e brotamentos. Passei a ler autores e a operar conexões, até então, desconhecidos. As tardes das terças-feiras, dia de aula dessa disciplina, se fizerem em encontros alegres. Em afetos mobilizadores.

Uma experiência que me fez reafirmar escolhas e caminhos. E mais do que isso, que potencializou a produção do Projeto de Pesquisa para o ritual da minha Qualificação, onde me debrucei sobre a busca conceitual da cartografia, em diálogo com a pesquisa-intervenção, levando-me a adentrar na produção de Deleuze e Guattari (2011) sobre o rizoma, além de outros autores, do campo da saúde coletiva e da psicologia.

Minha aproximação, especialmente com a Professora Luciana Lobo, para além dessas aulas, se estendeu com a sua inserção na minha banca de Qualificação do Doutorado. Naquele momento, suas contribuições foram aberturas potentes à Tese, como boas histórias para tecê-la, transpondo-me às “neves do Norte, em Oslo, a escutar uma mulher, como “A

paixão de dizer/1”:

[...] Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai. (GALEANO, 2002, p. 13).

42Psicóloga pela UFC, Mestre em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Doutora em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É Professora Associada II do Departamento de Psicologia da UFC e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFC. Curriculum Lattes: <http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4703596U5>. 43Psicólogo pela Universidade Federal do Ceará, Mestre em Psicologia e Doutor em Educação. É professor do

Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará. Curriculum Lattes: <http://lattes.cnpq.br/0351156693555523>.

Mais à frente, depois da minha Qualificação, voltei a me encontrar com a Professora Luciana Lobo, no grupo de estudo da obra de Michel Foucault, “Do Governo dos Vivos”, agenciado pelo Professor Doutor Sylvio de Sousa Gadelha Costa44.

Professor Sylvio Gadelha me foi apresentado pela ‘amiga colorida’, minha ‘Maridas’, Juliana de Paula [um dos grandes amores que cultivo na vida]. Sylvio, como aprendi a chamá-lo, no decorrer de outros encontros que tivemos, iniciados pelo Curso “Foucault:

Arqueologia, Genealogia e Ética”, promovido pelo Centro de Referência à Infância (INCERE),

por ele ministrado, em 2016. Em suas aulas, meus olhos pestanejavam e meu corpo vibrava, dada a belezura e a grandeza de seu saber em torno do pensamento filosófico de Michel Foucault. Dado os modos como ele potencializava em nós, alunos, o uso dos conceitos- ferramentas foucaultianos.

A aula do Professor Sylvio era como uma tocha a me incendiar. E ainda me incendeia, visto que voltei a fazer o Curso novamente, em 2017, considerando a necessidade de me aprofundar e de me estender na arqueogenealogia foucaultiana, que junto à cartografia, compõem a perspectiva teórico-metodológica desta Tese. Professor Sylvio é gente com olho que ri e brilha, gente de fogo louco, que enche o ar de chispas”, ateando sonhos por onde anda. Lembrei-me, novamente, de Galeano (2002) ao falar sobre “O Mundo”.

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. — O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo. (GALEANO, 2002, p. 11, grifos meus).

Pegando fogo, meu corpo vibrava pela inquietude das interrogações que me percorriam. Uma vez, logo no início do Curso, Professor Sylvio Gadelha me recomendou45 a leitura da entrevista com Foucault, feita por R. Bono, em 1983, “Um sistema finito diante de um

questionamento infinito”, publicada nos Ditos e Escritos V. (FOUCAULT, 2014a).

44Psicólogo, Mestre em Sociologia e Doutor em Educação pela UFC, com Pós-Doutorado em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. É professor do Departamento de Fundamentos da Educação, da Faculdade de Educação, e do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, ambos da UFC, fazendo parte da Linha de Pesquisa Filosofia e Sociologia da Educação, no Eixo temático Filosofias da Diferença, Tecnocultura e Educação. Curriculum Lattes: <http://lattes.cnpq.br/4315233410228338>.

45Entre tantas outras recomendações de leituras, filmes, músicas, enfim, um repertório gigantesco que requer outras vidas para ser experimentado.

A temática era sobre seguridade social, o sistema de garantia social francês. Logo no início da entrevista, Foucault (2014a, p. 124) levanta três questões: i) os obstáculos econômicos que se chocam com o sistema de garantias sociais da França, em 1946; ii) o fato desse sistema ter sido elaborado entre duas guerras, “[...] uma época em que um dos objetivos era atenuar, ou mesmo conter um certo número de conflitos sociais [...]”, marcando, assim, um modelo conceitual em torno da Primeira Grande Guerra Mundial, mas que “[...] encontra hoje seus limites esbarrando na racionalidade política, econômica e social das sociedades modernas”; iii) para além dos efeitos positivos, Foucault aponta “efeitos perversos”, dado a “[...] crescente rigidez de certos mecanismos e situações de dependência [...] por um lado, dá-se mais segurança às pessoas e, por outro, aumenta-se sua dependência.”

Há em certas marginalizações o que eu chamaria de um outro aspecto do fenômeno de dependência. Nossos sistemas de cobertura social impõem um determinando modo de vida ao qual ele submete os indivíduos, e qualquer pessoa ou grupo que, por uma razão ou por outra, não querem ou não podem chegar a esse modo de vida se encontram marginalizados pelo próprio jogo das instituições. (FOUCAULT, 2014a, p. 128, grifos meus).

Entre outras problematizações, Foucault (2014a) destaca a importância de a proteção social produzir uma “real autonomia”, que não venha a aprisionar as pessoas, os cidadãos, em jogos administrativos para a garantia de sua ‘seguridade social’.

Essa problematização me colocou em estado de alerta. Em mim, se agigantava a ideia do SUS como uma produção maquínica. Afirmo o SUS como uma produção maquínica por tomá-lo como um desejo, algo que se faz, que se constrói, que se maquina e que se agencia para tal. Mas, também, por reconhecê-lo como um processo atravessado e constituído por multiplicidades que se conectam, em um plano de imanência, engrenando a sua organização e o seu funcionamento como uma máquina.

E, quando digo "maquínico", não me refiro a mecânico, nem necessariamente a máquinas técnicas. As máquinas técnicas existem, é claro, mas há também máquinas sociais, máquinas estéticas, máquinas teóricas e assim por diante. (GUATTARI; ROLNIK, 2007, p. 288, aspas dos autores).

Há, dessa forma, uma máquina de produção do SUS, operada por agenciamentos, que fabricam realidades, articulam e relacionam sujeitos; instituições; práticas; discursos; setores sociais, econômicos, culturais, políticos; campos e áreas de conhecimentos científicos e de saberes distintos; enfim, um feixe de multiplicidades de relações e de coisas, necessárias à sua engrenagem. Cecílio, Carapinheiro e Andreazza (2014, p. 13), em “Os mapas do cuidado:

o agir leigo na saúde”, falam sobre a “máquina da saúde”, uma máquina “[...] racionalizada e eficiente: um negócio de especialistas”.

Daí, então, tomar e conceber o SUS como uma produção maquínica, da ordem do desejo e, como tal, aportando múltiplas possiblidades de agenciamentos e de realizações. “O desejo, ao contrário, teria infinitas possibilidades de montagem”. (GUATTARI; ROLNIK, 2007, p. 289).

Assim, em mim, fluía a vontade de dar visibilidade e dizibilidade à produção maquínica do SUS, como ela estava se atualizando e se virtualizando. Uma vontade que sinalizava o como e o quê pesquisar no Doutorado. Olhar o SUS como uma produção maquínica me trouxe a potência da cartografia, em enlace com o rizoma de Deleuze e Guattari (2011). Um outro modo de formação e organização do conhecimento que não os da árvore-raiz e radícula e raiz fasciculada.

Para Deleuze e Guattari (2011, p. 21, grifo dos autores) “[...] não basta dizer Viva o múltiplo [...] é preciso fazer o múltiplo [...].” Fazer pela produção de agenciamentos maquínicos fabricados na experimentação do real. Agenciamentos em produção acentrada, não hierárquica, não linear, não homogênea, não totalizante, não atribuída. Agenciamentos que se desenham em conexões, em multiplicidades de combinações, em modos não dados, sem a priori, mas em fabricação, por isso, posto sem começo e sem fim, mas no entre das coisas. Rizomas e não árvore- raiz e radícula, formando corpos binários e biunívocos, ou raiz fasciculada a insinuar multiplicidades presas.

A estes sistemas centrados, os autores opõem sistemas acentrados, redes de autômatos finitos, nos quais a comunicação se faz de um vizinho a um vizinho qualquer, onde as hastes e os canais não preexistem, nos quais os indivíduos são todos intercambiáveis, se definem somente por um estado a tal momento, de tal maneira que as operações locais se coordenam e o resultado final global se sincroniza independentemente de uma instância central. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 37, grifos meus).

Em diálogo com a botânica, Deleuze e Guattari (2011) sequestram a ideia-conceito do rizoma, aplicando-a na filosofia, subvertendo o modelo arbóreo já apresentado nesta Tese. Rompendo com esta perspectiva, os autores referidos (p. 22) apontam que o rizoma

[...] nele mesmo tem formas muito diversas, desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubérculos. Há rizoma quando os ratos deslizam uns sobre os outros. Há o melhor e o pior no rizoma; a batata e a grama, a erva daninha.

“Não existem pontos ou posições num rizoma como se encontra numa estrutura,

numa árvore, numa raiz. Existem somente linhas”. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 24). Sem

suportar qualquer tipo de estrutura, unicidade e totalidade, mas se fazendo em dimensões e multiplicidades, o rizoma se faz em “[...] n-1 (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n - 1. Um tal sistema poderia ser chamado de rizoma”. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 21).

Segundo estes autores, são seis os princípios do rizoma: conexão; heterogeneidade; multiplicidade; ruptura assignificante; cartografia e decalcomania. (DELEUZE; GUATTARI, 2011). Tratam-se de princípios que dialogam entre si.

O de conexão e de heterogeneidade implicam na possibilidade de conexões de pontos distintos do rizoma, portanto, conexões entre múltiplas coisas, postas em diferentes regimes e dimensões, a qualquer tempo e estado. O princípio de multiplicidade pressupõe

[...] nenhuma relação com o uno como sujeito ou como objeto, como realidade natural ou espiritual, como imagem e mundo [...] Uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza [...]. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 23).

Por isso, a ideia de um sujeito que se constitui em regime provisório, mutante, em produção de uma diferença de si, em variação de natureza. “Inexistência, pois, de uma unidade que sirva de pivô no objeto ou que se divida no sujeito”. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 23). A multiplicidade desconstrói o Uno, em sua perspectiva binária, e a Unidade-Pivotante, que hierarquiza e organiza as combinações possíveis nos acontecimentos da vida.

Já o princípio da ruptura assignificante refere-se a ideia de que um rizoma compreende linhas de segmentaridade, que o estratifica, organiza, territorializa, atribui e significa. Mas estas linhas segmentares podem ser rompidas, quebradas, desconstituídas por outras linhas, que também constituem o rizoma, que são as linhas de fuga. As rupturas assignificantes constituem e perpassam os acontecimentos, as afetações, os agenciamentos que provocam rupturas e fugas, desterritorializando o posto, o estratificado, o atribuído, o significado. (DELEUZE; GUATTARI, 2011).

Entretanto, esses autores alertam para a possiblidade de cristalização da linha de fuga, onde “[...] corre-se sempre o risco de reencontrar nela organizações que reestratificam o conjunto, formações que dão novamente o poder a um significante, atribuições que reconstituem o sujeito [...].” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 26).

Trata-se, assim, de uma luta constante, entre forças e linhas de segmentaridade que percorrem o rizoma, fazendo coexistir modos de existência na produção do regime social, produção de sujeitos e das instituições. As linhas de fuga instauram deslocamentos. Potência para resistência e mudança.

Os princípios de cartografia e de decalcomania, apontam que um rizoma “[...] não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo. Ele é estranho a qualquer ideia de eixo genético ou de estrutura profunda.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 29). Tanto o eixo genético quanto o de estrutura profunda, reportam-se a ideia do modelo representativo da árvore, da raiz-pivotante e da raiz fasciculada, sinalizando a lógica do decalque e da reprodução:

[ ...] tanto a linguística quanto a psicanálise, ela tem como objeto um inconsciente ele mesmo representante, cristalizado em complexos codificados, repartido sobre o eixo genético ou distribuído numa estrutura sintagmática. Ela tem como finalidade a descrição de um estado de fato, o reequilíbrio de correlações intersubjetivas ou a exploração de um inconsciente já dado camuflado, nos recantos obscuros da memória e da linguagem. Ela consiste em decalcar algo que já se dá feito a partir de uma estrutura que sobrecodifica ou de um eixo que suporta. (DELEUZE; GUATTARI,

Belgede MERKEZİ KAYIT KURULUŞU (sayfa 22-27)

Benzer Belgeler