3. TÜRKİYE’DE TARIM POLİTİKASININ İŞLEYİŞİ
3.4 Türkiye’deki Tarım Politikası Yürütücüleri
3.4.1 Kamu Kurum ve Kuruluşları
Para a realização desta pesquisa, escolhemos a abordagem qualitativa, através da técnica de grupo focal, em que alunos da referida escola narram, em situação de interação entre eles, a experiência de morar em um bairro periférico e sobre como são tratados pela comunidade da cidade pesquisada. Também serão utilizadas técnicas de gravação e transcrição de falas.
3.4.1 - Grupo Focal
De acordo com Barbour (2009, p. 24-25), os grupos focais teriam surgido nos anos de 1940, utilizados por Paul Lazarsfeld, Robert Merton e colegas na Agência de Pesquisa Social aplicada da Universidade de Colúmbia, a fim de testar as reações às propagandas e transmissões de rádio durante a Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, esta técnica era denominada “entrevistas focais” (Merton e Kendall16
, 1946, apud Barbour, 2009) e era utilizada junto com técnicas quantitativas, sendo que a abordagem dos estudiosos não diferenciava muito as entrevistas individuais das grupais. No entanto, eles reconheceram que as entrevistas em grupo podem produzir um conjunto mais ampliado de respostas e extrair detalhes adicionais (MERTON17, 1987 apud BARBOUR, 2009).
Optamos pela técnica do grupo focal por acreditarmos, assim como Iervolino e Pelicioni (2001), que
[a] coleta de dados através do grupo focal tem como uma de suas maiores riquezas basear-se na tendência humana de formar opiniões e atitudes na interação com outros indivíduos. Ele contrasta, nesse sentido, com dados colhidos em questionários fechados ou entrevistas individuais, onde o indivíduo é convocado a emitir opiniões sobre assuntos que talvez nunca tenha pensado anteriormente. As pessoas, em geral, precisam ouvir as opiniões dos outros antes de formar as suas próprias, e constantemente mudam de posição (ou fundamentam melhor sua posição inicial) quando expostas à discussão em grupo (IERVOLINO & PELICIONI, 2001, p. 116).
16
MERTON, RK & KENDALL, PL. The Focused Interview. American Journal of Sociology, 1946.
51, 541-557. 17
MERTON, RK. The Focused Interview and focus group. Public Opinion Quarterly, 1987. 51: 550- 566.
44 Esse tipo de entrevista, apesar de flexível, demanda que o pesquisador elabore estratégias que o levem a conduzir a conversa de acordo com seus objetivos. Esse tipo de interação permite aos membros “maior possibilidade de diluir defesas, de expressar conflitos e afinidades, fortalecendo o caráter construcionista das etnopesquisas” (MACEDO, 2006, p. 117).
Corroborando com Macedo, Lapassade (2005) lembra que
[a]s entrevistas de grupo dão aos entrevistados a possibilidade de discutir entre eles, diante do pesquisador, suas definições da situação, suas ideias e opiniões, seus sentimentos em relação ao tema de discussão proposto, com a reserva da possibilidade de autocensura devido ao fato de se expressarem assim em público (LAPASSADE, 2005, p. 80).
Morgan18 (1998, p. 25) apud Barbour (2009, p.65) lembra que “[G]rupos focais são úteis quando se trata de investigar o que os participantes pensam, mas eles são excelentes em desvendar porque os participantes pensam como pensam”. Isso demanda um engajamento ativo por parte do pesquisador, que deve considerar todas as questões que permeiam o grupo (o social, o econômico, o político e, em especial, o contexto histórico-social em que os participantes estão inseridos).
Assim, é pertinente colocar aqui que é importante que o pesquisador leve sempre em consideração o contexto em que o grupo focal acontece, pois, segundo Barbour (2009), “[t]odos os comentários feitos durante os grupos focais são altamente dependentes do contexto e são contingentes às respostas dos membros do grupo, às contribuições dos outros e à dinâmica daquele grupo em particular” (p.56). Callaghan19
(2005) apud Barbour (2009, p. 138) endossa essa concepção, ao afirmar que os grupos focais permitem aos participantes debaterem questões dentro do contexto de seus próprios contextos culturais. Desse modo, “os participantes podem relatar histórias para confirmar suas experiências em comum e suas identidades coletivas” (MUNDAY20, 2006 apud BARBOUR, 2009, p. 138).
18
MORGAN, D. L. The focus group guidebook (Focus Group Kit, Book 1). Thousand Oaks, CA: Sage, 1998.
19
CALLAGHAN, G. Accessing Habitus: Relating Structure and Agency Through Focus Group Research.
Sociological Research Online, 2005. 10(3) <http://www.socresonline.org.uk/10/3/callaghan.html>.
20
MUNDAY, J. Identity in Focus: The Use of Focus Groups to Study the Construction of Collective Identity, In Sociology, 2006. 40 (1), pp. 89-105.
45 Interessante lembrar que, embora a interação do grupo focal tenha uma característica assimétrica - em que o mediador direciona a interação -, no grupo focal realizado com os estudantes de EJA, os participantes ficaram bastante à vontade e o mediador exerceu pouco controle dos turnos. Assim, essa “liberdade de expressão” durante os encontros foi proposital e intencional, a fim de que a interação ficasse mais próxima das características da conversa cotidiana.
Nessa perspectiva, a técnica do grupo focal pode provocar a reflexão de questões que são importantes para seus participantes e acabar desviando da programação do pesquisador. Para Barbour (idem, p. 57), “[i]sso significa que os dados resultantes podem trazer surpresas”, e o pesquisador deve estar preparado para isso. A autora lembra ainda que a forma como o pesquisador se apresenta ao grupo também é imprescindível para o sucesso de um grupo focal. O modo de se vestir e a linguagem utilizada por ele pode ser uma forma de aproximação ou repudio por parte do grupo. É importante também, “de início, explicar o propósito do grupo e reforçar que tudo será anônimo, além de assegurar a concordância dos membros do grupo de que eles [os pesquisadores] respeitarão a confidencialidade” (BARBOUR, 2009, p. 110).
Atentos a todas as especificidades da técnica do grupo focal descritas acima, a coleta de dados para a referida pesquisa foi feita através da realização de três grupos focais, com cerca de 10 alunos cada, do sexo masculino e feminino, contando com a minha participação. Os encontros, que foram gravados em áudio, aconteceram na própria escola, em um espaço disponibilizado para essas reuniões. No total, foram aproximadamente cento e vinte e dois minutos de gravação. A opção por participar dos grupos focais deve-se ao fato de que a coleta de dados seria mais relevante, considerando a confiança e afinidade que já possuo com os alunos, uma vez que fui professora de muitos deles. É importante lembrar que o foco da pesquisa são os relatos dos alunos durante a interação e não a entrevista pergunta-resposta; entretanto, a Análise da Conversa tem sido utilizada, inclusive, como instrumento de análise em entrevistas de pesquisa com participação do pesquisador, conforme Silverman (2009).
Com a finalidade de incentivar o debate, antes das conversas foram exibidos filmes ou músicas, os quais acreditamos ser do gosto desses alunos. Tais escolhas facilitaram o contato com os estudantes e ajudaram a estabelecer um clima agradável e descontraído de fala-em-interação.
46 Concluindo, a interação promovida através do grupo focal promoveu ricas discussões acerca do posicionamento social dos sujeitos participantes, as quais serão analisadas a partir das técnicas propostas pela Análise da Conversa.
3.4.2. A fala-em-interação no grupo focal
Na fala-em-interação dos grupos focais, os estudantes e a mediadora administram as tomadas de turno. Durante a interação, a mediadora faz as perguntas e os demais participantes iniciam um processo de discussão em que relatam várias situações vividas por eles e expõem opiniões, apresentam juízo de valores, narram situações cotidianas, entre outras atividades.
Os grupos focais que balizam esta pesquisa foram realizados nos dias nove de março de 2009, sete de abril de 2010 e oito de setembro de 2010.
Antes de iniciar as discussões do primeiro grupo, que durou quinze minutos, quarenta e quatro décimos e sessenta e nove centésimos de segundo, os alunos ouviram as músicas “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, do grupo O Rappa, e “Polícia”, da banda Titãs, músicas que tratam de preconceito contra negros e de ações da polícia. No segundo grupo, que durou trinta minutos e vinte e cinco décimos de segundo, os participantes assistiram ao filme “Última parada – 174”, dirigido por Bruno Barreto, o qual conta o drama baseado em fatos reais sobre a vida de Sandro do Nascimento, menino de rua que sobreviveu à chacina da Candelária e, em 2000, sequestrou um ônibus no Rio de Janeiro. Tendo Sandro uma moça como refém, na mira de seu revólver, atiradores de elite da polícia acabaram disparando e matando os dois21. Os alunos também leram o artigo “Guga poderia virar um marginal?”, de Gilberto Dimenstein, em que o autor compara a trajetória do tenista campeão Gustavo Kuerten com a de Sandro, já que ambos tinham a mesma idade na época da tragédia protagonizada por Sandro. Para o terceiro grupo, que durou cinquenta e um minutos, cinquenta e seis décimos e cinquenta e seis milésimos de segundo, apresentamos aos alunos o documentário “Pro dia nascer feliz”, de João Jardim, em que estudantes e professores de escolas públicas localizadas em periferias de Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro narram, com uma forte carga emocional e até mesmo dramática, o dia a dia escolar.
21
47 As discussões pautadas nas técnicas do Grupo Focal foram gravadas com a autorização de todos os participantes, e a transcrição seguiu as convenções propostas por Schnack, Pisoni e Ostermann (2005), adaptadas das convenções elaboradas por Gail Jefferson, que se encontram em Atkinson e Heritage (1984). Destacamos a opção por representar os participantes através de nomes fictícios, com objetivo de preservar sua identidade. A mediadora pode ser identificada por Érica. As exibições do filme, do documentário e do artigo tiveram o propósito de incentivar a discussão.
48 IV – RESULTADOS E DISCUSSÃO
Este capítulo apresenta a análise da fala-em-interação durante a realização de três grupos focais envolvendo jovens estudantes da EJA de uma escola pública localizada em um bairro de periferia, com o objetivo de identificar a construção de identidade desses estudantes através do conceito de categorização de membros.
Verificando-se como determinada identidade é ratificada no cenário em que os estudantes participam como atores sociais, a organização da análise de dados foi feita levando em consideração o tópico principal das interações, que é o relato da experiência de serem estudantes de EJA, moradores de um bairro pobre e seus subtópicos. Para a análise, selecionamos as recorrências de cada assunto nos três grupos. Assim, dentro dos relatos dos estudantes, os assuntos mais debatidos são a relação dos estudantes de EJA com: i) a escola; ii) o comércio da cidade pesquisada; iii) a família e vizinhança; iv) a polícia e, por fim, iv) as perspectivas de futuro, conforme podemos verificar na tabela a seguir:
Tema Número de ocorrências:
Relação com a escola 9 Relação com o comércio 11 Relação com família/vizinhança 7
Relação com a polícia 18 Perspectivas de futuro 8
Tabela 1: Temas mais recorrentes durante as interações.
Por fim, apresentaremos um subtópico geral, demonstrando como as atividades e atributos citados pelos estudantes durante os relatos nos grupos focais podem revelar uma identidade de outsider.