As políticas sociais são um tipo de política pública entendida “como resultado das históricas e contraditórias relações entre Estado e sociedade, em diferentes contextos históricos” (BOSCHETTI, 2009, p.5). Nesse sentido, destaco a existência de uma política de formação continuada em políticas sociais com a compreensão de que essas experiências nos ajudam a entender o que pode vir a ser uma perspectiva na área do lazer. Como exemplos temos a saúde e daeducação, que contemplam processos de formação continuada atendendo ao compromisso assumido nos acordos com organismos internacionais, como é o caso da OMS, da OCDE e da UNESCO.
Na Política Nacional de Educação em Saúde, a formação continuada dos profissionais está voltada para o processo de atualização de conhecimentos, dotando o servidor de saberes necessários ao enfrentamento das questões referentes à área, em especial à organização do trabalho dos profissionais. Para isso, a ideia de formação continuada possui diretrizes como:
a compreensão e tratamento da gestão da educação na saúde (formação e desenvolvimento) não como uma questão simplesmente técnica, mas de natureza tecnopolítica, uma vez que envolve mudanças nas relações, nos processos, nos atos de saúde, nas organizações e nas pessoas. Implica, portanto, na necessidade de articulação intra e interinstitucional que crie compromissos entre as diferentes redes de gestão, de serviços de saúde e educação e do controle social, possibilitando o enfrentamento criativo dos problemas e uma maior efetividade das ações de saúde e educação.
Os gestores passarão a contar com o financiamento regular e automático para educação e saúde por meio do Bloco de Financiamento da Gestão, com repasse
fundo a fundo. Assim terão condições de planejar regionalmente no curto, médio e longo prazos ações educativas do sistema que estejam de acordo com a realidade local (BRASIL, 2009a, p.13).
A experiência da saúde nos remete ao entendimento sobre uma política consolidada, pois apresenta um marco regulatório que prevê o financiamento e as estratégias operacionais para o funcionamento do sistema, de forma regular, em todo o território nacional. A concepção da política de educação, na saúde, tem como princípio a intersetorialidade, pois envolve atividades conjuntas de três ministérios: educação, saúde e trabalho e as ações compõem um pacto pela saúde que, entre outras questões, dividem as responsabilidades na qualificação dos profissionais da área.
A política nacional desse setor envolve a formação em nível médio, superior e pós- graduação, bem como de agentes de saúde da família e de estudantes da residência multiprofissional, da qual participam médicos, assistentes sociais, professores de educação física, enfermeiros, odontólogos, psicólogos, dentre outros profissionais ligados à saúde. De acordo com Brasil (2009a), essa rede de atuação é assegurada através do financiamento para essa política.
No caso da política de educação, embora as leis assegurem o sistema nacional e os recursos para a área, não existe uma fiscalização ou direcionamento sobre recursos destinados para a formação continuada, seja no âmbito nacional ou municipal. No entanto, destaco o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR) como importante mecanismo para a continuidade da formação docente. A formação está na lei, porém não tem mecanismos específicos para um direcionamento do processo em cada região do país. A existência da política educacional brasileira incide na liberação do servidor público das funções laborais para ingresso em cursos de pós-graduação latu sensu e stricto sensu.
No caso do lazer, a consolidação de uma política de formação continuada para os profissionais que atuam nessa área ainda é um desafio. A política permanece setorizada e não existe, por parte da administração pública, a compreensão de que cultura, meio ambiente e turismo integram a esfera da política pública de lazer. Existe uma dificuldade em identificar esporte, lazer, turismo e meio ambiente como áreas afins. Como ilustração dessa reflexão, está o fato do Ministério do Esporte não fazer parte do Comitê Interministerial de Facilitação Turística, composto por vinte e sete Ministérios111, uma vez que esta ação prima pelo
111 O comitê é formado por um representante dos Ministérios: do Turismo (preside o Comitê), da Defesa, do Desenvolvimento Agrário; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; da Fazenda; da Integração Nacional; da Cultura; da Justiça; do Meio Ambiente; do Planejamento, Orçamento e Gestão; das Relações
planejamento integrado para o desenvolvimento da política do turismo. Essa é uma discussão da agenda acadêmico-científica quando, por exemplo, se discutem os conteúdos do lazer baseados nas reflexões de Marcellino (2000) ou colocam-se em pauta os interesses culturais do lazer, apresentados por Melo (2003). A ausência de um trabalho mais integrado pode ser verificada na escassez de experiências de planejamento intersetorial na área do lazer, no Brasil.
No caso do Esporte e Lazer, debates e mobilizações foram iniciados a partir do ano de 2003, relacionados à demanda sobre a discussão do Sistema Nacional de Esporte e Lazer. Após 13 anos, a tomada de decisão para a criação de uma Política Nacional de Esporte com a criação do sistema da política ainda não é uma realidade no Brasil. Essa não-ação também caracteriza, em certa medida, o comportamento dos decisores de políticas na área. Dentre as dificuldades dessa não decisão está a falta de uma maior e melhor definição do que vem a ser uma política de Esporte e Lazer para o País. Além disso, destaco a dificuldade de universalização, com uma política de financiamento e estratégias de valorização dos profissionais que atuam na gestão da política.