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Para Cohen (2006, p. 127), a medida de segurança é medida de prevenção, de terapia e de assistência social relativa ao estado perigoso dos que não são penalmente responsáveis, afirmando que “[...] ela simplesmente tenta garantir um tratamento para o doente e defende a sociedade de um indivíduo perigoso”, fazendo prevalecer, assim, um discurso científico para legitimá-lo nas suas necessidades de controle.

Assim, como o objetivo das medidas de segurança é evitar a prática provável de injusto penal por um inimputável que já o tenha praticado, ou melhor, defender a sociedade e curar o enfermo, o correto é dizer que ela tem finalidade preventiva geral e especial.

A prevenção geral é comum às penas e se configura em evitar que o criminoso volte a delinquir. Ela se funda tanto numa perspectiva negativa (intimidação) como positiva (integração), ou seja, a pena possui fim pedagógico com efeito inibitório (negativa) e, ainda, uma finalidade revalidadora do ordenamento jurídico com o restabelecimento da confiança institucional. (SHECAIRA; CORREA JUNIOR, 2002, p. 131-132).

Já a finalidade preventiva especial tem um caráter humanista, na medida em que considera as particularidades do indivíduo, podendo ser vista sob dois ângulos: do ponto de vista da proteção social, consiste na possibilidade de emenda do deliquente, ou seja, evitar que o criminoso volte a delinquir e, de outro lado, teria finalidade terapêutica-ressocializante (cura) sob o ponto de vista do inimputável. A prevenção especial privilegia, como assevera Ferrari (2001, p. 51) “[...] a emenda como fim primeiro a ser objetivado na pena imposta ao deliquente, admitindo-se, excepcionalmente, a segregação, motivada pela função de tutela social, presente nos incorrigíveis.”

No âmbito das medidas de segurança, diversamente do que ocorre com as penas, o propósito socializador deve sempre prevalecer sobre a intenção de segurança, uma vez que o alicerce que norteia a aplicação da medida constitui-se num fim de tratamento ressocializador, admitindo, de forma subsidiária e excepcional, a segregação.

Desta forma, verifica-se que há diferença conceitual básica entre os dois institutos – pena e medida de segurança – acarretando em formas distintas de tratar os atores envolvidos. O criminoso comum é levado às penitenciárias e unidades de recuperação social pelo período determinado em lei (tempo de cumprimento da pena). O portador de transtorno mental infrator da norma penal é direcionado ao internamento em hospital de custódia e tratamento ou similar e ao tratamento ambulatorial por um prazo mínimo de duração, determinado pelo juiz, que pode variar de um a três anos - embora mantenha sempre um caráter indeterminado, na medida em que a renovação da medida pode ser infinita.

O próprio Código Penal, ao estabelecer os parâmetros para o cumprimento da medida de segurança, determina que aos internados seja dado tratamento em uma instituição com características hospitalares e, na falta desta, seja a pessoa internada em estabelecimento adequado, uma vez que a função primordial da medida de segurança deve ser o cuidado com a saúde daquela pessoa. A intenção foi evitar que o inimputável seja recolhido à cadeia ou ao presídio comum, deixando de receber o tratamento psiquiátrico necessário em hospital ou em local com dependência médica adequada, evitando, enfim, que o mesmo seja submetido a condições degradantes e inconcebíveis ante os princípios de dignidade humana. E é este o ponto em que se ressalta a inadequação do sistema de aplicação da medida de segurança de internação no Estado do Acre, eis que os portadores de transtornos mentais são mantidos em presídios comuns, sem receber qualquer tratamento adequado.

Parece claro pensar, seguindo a própria determinação do Código Penal, que a medida de segurança deveria ser observada como medida terapêutica, uma vez que, com a constatação de que o indivíduo é doente, a medida aplicada tem como intenção a neutralização profilática ou a recuperação do indivíduo interno em local de característica hospitalar.

No entanto, estas unidades de tratamento não integram o Sistema Único de Saúde (SUS), mas sim o Sistema Penitenciário, sendo regidas pela Lei de Execução Penal e é com base neste aspecto que se questiona a contradição instalada. Afinal, ao que parece, observando as leis e regulamentos, os HCTPs (antigos manicômios judiciários) são estabelecimentos penais destinados a abrigar pessoas submetidas a medidas de segurança, figurando no rol das instituições penitenciárias previstas na Resolução n° 3, de 23 de setembro de 2005, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça (CNPCP), adotando uma estrutura baseada no

modelo hospitalocêntrico, desvinculado de um sistema integrado de atenção em saúde, confirmando a ideia de que a medida de segurança se identifica mais com a pena do que com um instrumento terapêutico. Neste mesmo sentido Castro afirma que:

As medidas de segurança têm como principal objetivo oferecer à sociedade uma nova forma de reingresso do infrator portador de transtornos mentais, funcionando como uma forma de proteção à sociedade e como método de tentativa de cura. Mas isso não ocorre na prática, já que o sistema carcerário para esses casos é precário. (CASTRO, 2009, p. 86).

Seria, por assim dizer, uma terapia sui generis: aplicada e dosada pelo juiz, numa instituição que apesar de ter “características hospitalares” é uma instituição do sistema carcerário. E mais, ela seria um tratamento cuja alta não se dá em razão pura e simples da recuperação do paciente, mas pela sua submissão a “perícia de cessação de periculosidade” periódica, submetida ao juiz, que passaria, sem ser médico, a ter o “poder clínico” de considerar o “paciente” curado, mesmo quando a própria ciência discute se é possível falar em “cura da loucura”. Seria, além do mais, um tratamento imposto no âmbito de um processo penal, por um juiz com competência penal, mas sob um discurso médico-sanitarista.