No texto abaixo, os destaques na cor amarela representam informações novas acrescentadas pelo aluno no texto produzido. Em negrito, destacamos as palavras que o aluno usou da sequência.
A historia da menina invejosa
1Era uma vez uma menina chamada Evilyn ela morava com avó e era invejosa ai 2uma vez Evilyn estava andano no bosque e viu uma menina que estava com uma bolsa 3que estava na moda e Evilyn com inveja pegou a bolsa da menina e evilyn correu bem 4rápido mais no caminho que ela eslava fugindo e ela encontrou um helicóptero e dentro 5do helicóptero havia um lobo ai o lobo correu atraz dela e consiguiu pega ela e perguntou 6porque tava correndo e ela disse porque eu peguei a bolsa da menina e o lobo como bom 7lobo devolveu a bolsa para a menina e Evilyn teve o castigo que mereceu.
T8GS
Chapeuzinho vermelho
1Era uma vez uma menina chamada chapeuzinho vermelho
2Sempre ela ia deichar doces para o vovó dela. Mais um dia a mãe dela pediul para ela ir
3deixar uns doces para a vó dela mais o lobo sentio o faro dos doces e ficou de tocaia mais
4teve uma hora que ele apareceu na frente da bicicleta dela e perguntou pra onde você vai
5com esses doces para casa da minha vó e ai entrou na floresta e saiu correndo e tentando
6chegar na casa da vó dela mais o lobo era mais rápido e chego na casa da vo dela antes dela
7pegou a vovozinha escondeu a vovozinha no armário passou a fita na boca dela para ela ficar
8calada ai a chapeuzinho vermelho chegou mais antes ele tava se vestindo para enganar a
9chapeuzinho vermelho ai o lobo se alevanta abril a porta mais o helicóptero aparesseu
10salvou a vovozinha prendeu o lobo e salvou chapeuzinho vermelho e fim.
Esta produção textual difere dos outros textos produzidos pelos alunos, consideramos se enquadrar no 2º aspecto, ou seja, o dos textos que ousaram e escreveram algo novo, extrapolando assim, a roteirização proposta na atividade.
Achamos relevante, para este estudo, relatar que durante a aplicação dessa etapa de nossa pesquisa, o aluno a princípio parecia estar incomodado com a proposta, indeciso e demorou a iniciar. Depois, foi até a mesa da professora e perguntou: “Posso escrever com minhas palavras?” Como nessa etapa, o intuito era verificar, se aplicando a proposta, tal qual está no livro didático, sem a intervenção do professor, os alunos seguiam somente o roteiro ou extrapolariam a roteirização presente na atividade do livro didático, não podíamos interferir na compreensão da proposta pelo aluno. Portanto, respondemos: Você é a autora, decida como vai escrever seu texto. E assim, o estudante voltou para sua mesa e escreveu seu conto. Nesse texto, percebe-se que o estudante compreendeu a proposta e, mesmo seguindo alguns passos dados pelo autor do livro didático, consegue extrapolar a essa roteirização e construir uma nova versão para sua narrativa. Vejamos: 1) usou as palavras da sequência: linha 1 – menina e avó, linha 2 – bosque, linha 4 – helicóptero, linha 5 – lobo; 2) começou sua narrativa com a expressão “Era uma vez”: linha 1; 3) Usou o elemento novo “helicóptero”: linha 4 e 5, mas não seguiu a roteirização dada pelo autor do livro didático (por meio do desenho do lado direito da atividade que mostra o helicóptero salvando “Chapeuzinho Vermelho” das garras do “Lobo Mau”). Assim, o helicóptero na sua nova versão, tem como condutor o lobo que é bom, e resgata a bolsa da menina que é invejosa, linha 6 e 7.
O aluno trabalhou com seus argumentos na construção de uma nova versão. Isto é, seu texto, embora escrito estabelecendo uma relação de intertextualidade com um texto clássico que já está na sua memória, se desprende da história clássica, e reinventa o conto “Chapeuzinho Vermelho”.
Nesse conto, a menina não se chama “Chapeuzinho Vermelho”, seu nome é Evilyn - linha 2. Sua mãe não pede para ela levar doces para sua avó, pois Evilyn já mora com sua avó – linha 1. Diferentemente de “Chapeuzinho Vermelho”, símbolo de inocência, bondade e delicadeza, Evilyn tem defeitos, é invejosa e também é capaz de roubar o objeto de seu desejo pertencente à alguém, no caso a bolsa da moda da outra menina – linha 3 e 4. E o lobo, símbolo da maldade na história clássica, é bom e justiceiro – linha 5,6 e 7, pega Evilyn e devolve a bolsa para sua dona, Evilyn, então, teve o castigo que mereceu – linha 7.
a) Ter o que dizer: a sequência dos acontecimentos da narrativa articula a versão já conhecida com a visão de mundo do aluno e, possivelmente, suas experiências vividas:
1. Era uma vez uma menina chamada Evilyn 2. A menina morava com sua avó
3. A menina era invejosa
4. A menina estava no bosque e viu outra menina com uma bolsa da moda 5. Evilyn com inveja pegou a bolsa da menina
6. Evilyn fugiu e encontrou um helicóptero 7. Dentro do helicóptero havia um lobo
8. O lobo correu atrás de Evilyn e conseguiu recuperar a bolsa 9. O lobo devolveu a bolsa
10. Evilyn teve o castigo que mereceu
b) Ter uma razão para dizer o que se tem a dizer: a primeira razão é, possivelmente, o cumprimento da proposta, mas ao fazê-la, o aluno assume-se como locutor do seu texto e revela as possíveis razões para dizer, pelas pistas que seu texto oferece:
1. O aluno, possivelmente, mora com a sua avó, como sua personagem principal. Na escola, nas reuniões com os pais, é muito comum a presença da avó assumindo o papel de responsável pelos netos.
2. A inveja, provavelmente, já foi motivo de algumas brigas de que participou este estudante. Colocar a personagem principal como invejosa é trazer a vida vivida para seu texto.
Conclui-se então, que na construção de uma nova versão de um texto, o simples acréscimo de palavras contemporâneas não possibilita a representação de um novo conteúdo; nem tampouco, colocar uma lista de palavras a ser seguida vai proporcionar a produção de um novo conto. Um texto não é uma simples junção de expressões. É preciso que os alunos tenham mais leituras, estudos sobre variadas versões para entender que, no processo de construção de uma versão de um texto, há o diálogo entre o “antigo” e o “novo”. Significa dizer que para o aluno tornar-se efetivamente locutor dos seus escritos é preciso considerar o contexto histórico-social em que ele está inserido e assim, como afirma Coracini (2011), permitir que o estudante tenha a capacidade de “dizer-se, mais do que dizer”.
É a partir dessa perspectiva que Geraldi (2003) estabelece na prática escolar a diferenciação entre produção de textos e redação. Na redação produzem-se textos para a escola. Pensar em produção textual é produzir textos na escola.
Dessa forma, na tentativa de promover um espaço de interação, onde os alunos possam se assumir efetivamente como autores de seus textos e tentar responder ao questionamento feito no título desse capítulo: “Quando transformar as redações em produções textuais?”, descreveremos no próximo capítulo a nossa proposta de intervenção.