4.1. İNCELENEN AMPİRİK ÇALIŞMALAR
4.1.2. Kalitatif Çalışmalar
Tomada em sua condição material mínima, uma psicanálise se reduziria a uma troca de palavras entre dois interlocutores. “Nada acontece em um tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista” (FREUD 1916/1969, p. 29). Com esse comentário, Freud inicia sua série de Conferências Introdutórias à Psicanálise, em 1916, evocando o ponto de vista exterior de um “observador desavisado” que, aproximando-se da cena analítica, se dispusesse a descrevê-la a partir de seus dados mais simples e imediatos. O campo da palavra é, para a psicanálise, seu único meio e instrumento. Através da palavra, diz Freud, mobilizamos afetos, exortamos, convencemos e influenciamos nosso interlocutor, remontando assim ao poder mágico que estaria nas suas origens. O interesse da psicanálise liga-se, portanto, a esse ato da palavra e aos seus efeitos sobre o sujeito, excedendo sua finalidade de comunicação.
Esta ação performativa da palavra condensa os principais aspectos da descoberta freudiana e define o modo como a psicanálise recorta o real e se insere no campo da ciência. O inconsciente testemunha que a palavra pode inscrever-se sobre o corpo, ser tomada como um fato e manipulada como uma coisa, no sentido que Freud se refere aos caracteres de um rébus, como elementos a serem manejados, deslocados, transmutados e mesmo apagados, conforme exemplificado pelo esquecimento do nome Signorelli, ao qual nos referimos. A hipótese do inconsciente provém, assim, da observação dos fatos de linguagem ligados às descontinuidades do discurso corrente, às ações compulsivas ritualizadas e aos sintomas conversivos histéricos. Afastam-se, dessa forma, as hipóteses que por meio desse recorte se tornam estranhas à disciplina psicanalítica, sejam elas neurológicas ou fisiológicas.
Há um duplo aspecto a ser ressaltado: o primeiro remonta à performatividade que podemos associar ao determinismo do inconsciente que caracteriza a descoberta freudiana. Freud o designa como a realidade psíquica do inconsciente que se manifesta por seus efeitos sobre o sujeito. É a eficácia dessas manifestações que suscita a pergunta pela causa e exige, de início, a hipótese do inconsciente: “eu não sei o que age em mim”, diz, por exemplo, o obsessivo compulsivo. Esta realidade psíquica do inconsciente será apreendida por Freud como um campo de representações recalcadas, investidas libidinalmente e sujeitas, como tal,
ao processo primário de deslocamento e condensação, desfazendo assim a representação unitária da consciência de si.
O segundo aspecto aponta para o modo como o analista busca interceptar e interpretar a
realidade psíquica do inconsciente, agindo sobre ela. O caminho analítico busca seguir o
caminho inverso que foi percorrido pela formação do sintoma (FREUD 1916/1969)57: ele nos conduz do sintoma aos prolongamentos inconscientes da fantasia, esta ficção amalgamática onde a significação sexual enigmática se fixou à traços deixados pela experiência estabelecendo, desta forma, os pontos de fixação (Fixierung) aos quais a libido sexual se prende ⎯ e aos quais sempre retorna ⎯ como um modo particular de satisfazer o desejo. A fantasia não é, portanto, pura ficção (Erfindung); ela articula-se aos vestígios da realidade efetiva e material (Wirklichkeit) que constitui o discurso do Outro e que a libido irá amalgamar para responder ao enigma das primeiras investigações sexuais. É essa realidade
psíquica, que Freud designa como a Outra cena, que a sessão analítica procura emoldurar. A
sessão analítica é o recorte temporal a ser tomado como condição de possibilidade do discurso analítico; equivale como tal a um artifício: ela introduz na realidade estruturada pelo discurso corrente um lapso de tempo propício à emergência da realidade psíquica do inconsciente. Entre sessão analítica e inconsciente existe, portanto, homologia de estrutura.
Em sua versão freudiana o espaço da sessão analítica está dominado pelo dispositivo da associação livre. O analisante é situado nessa zona de penumbra que precede o sono, nesse ponto limítrofe onde emergem os pensamentos involuntários, graças à operação da regra fundamental que reduz a atenção de vigília à percepção desses pensamentos emergentes e espontâneos, cabendo ao analisante, tão somente, passar ao ato motor da fala e comunicá-los ao analista. Esta regra, contudo, torna-se impraticável por vários motivos. Ela é contestada primeiramente pela persistência da crítica consciente do analisante às suas próprias produções espontâneas. Em segundo lugar, ela é perturbada pela presença mesma do analista. Desta forma, o analista se interpõe entre sintoma e fantasia ou, mais exatamente, entre a realidade semântica do sintoma, à qual se aplica o trabalho interpretativo, e a realidade libidinal da fantasia, à qual se liga a transferência.
57
Em seu texto A dinâmica da transferência (1912/1969)58, Freud descreve o encaminhamento lógico da transposição do analista ao campo da realidade psíquica do analisante. Esta transposição é acusada pela detenção mesma do processo associativo, por um mal funcionamento da regra fundamental que impele o analisante ao silêncio, ponto onde a fala se detém porque o investimento libidinal passa das representações investidas do inconsciente ao próprio analista. Freud é enfático a esse respeito: se as associações se interrompem é porque elas incluíram o analista, que se vê assim tomado como objeto no discurso. Segundo Freud, a presença do analista atrai a libido do sintoma e daí surge um novo sentido (ein Neuer Sinn). Em outros termos, o deciframento do sentido (Sinn) do sintoma se detém diante da emergência da significação (Bedeutung) libidinal da fantasia na transferência, isto é, em ato. Essa apreensão do analista na transferência ⎯ que exige como complemento da regra fundamental da livre associação a regra da abstinência ⎯ tem implicações em seu posicionamento discursivo. Ela torna impossível a exterioridade do analista como o escriba do texto inconsciente, pois o analista está, ele mesmo, incluído na apresentação do objeto da fantasia. A manobra do discurso analítico consiste em reduzir esse objeto a uma função, sem confundi-lo com a pessoa do analista. Daí o retorno a uma exterioridade possível na forma da assimetria fundamental da posição discursiva que lhe designa essa função.
Este fato inconveniente da transferência, que perturba a exterioridade idealizada do cientista diante do objeto ⎯ a partir do qual Freud interpreta o recuo de Breuer diante de sua descoberta (FREUD 1914/1969, p. 21) ⎯ demarca assim os limites entre a rememoração e a reprodução. “No processo de procurar a libido que fugira do consciente do paciente, penetramos no reino do inconsciente”; e, tal como acontece nos sonhos, prossegue Freud, “os impulsos inconscientes, que não desejam ser recordados da maneira pela qual o tratamento quer que o sejam, esforçam-se por reproduzir-se de acordo com a atemporalidade do inconsciente e sua capacidade de alucinação” (FREUD 1912/1969, p. 143). Em outros termos, na prospecção do sentido textual do sintoma ingressamos em seu reino libidinal. Nesse ponto, o discurso analítico sofre uma inflexão. Poderíamos aqui evocar o limite wittgensteiniano entre dizer e mostrar59 para fazê-lo coincidir com o ponto onde Freud situa a fronteira entre
recordar e reproduzir. O discurso torna-se então cena, figuração. Nessa figuração, o objeto contornado pela fala do analisante se faz presente na forma de uma transferência ao analista.
58
FREUD, S. A dinâmica da transferência (1912). In: Obras completas de S. Freud. Op. cit., v. XII, p. 133 a 143.
59
Segundo Freud, trata-se aqui de um processo de redução semelhante ao que observamos na regressão do sonho, onde a representação verbal assume valor pictórico (Bilderwert), com o adendo de que na situação transferencial os impulsos inconscientes são atuados e não representados psiquicamente. Cabe ao analista trazê-los de volta à consideração intelectual, distinguindo nesta ação o seu valor psíquico, da mesma forma que, na interpretação dos sonhos, restituímos o valor pictórico de um elemento ao seu valor de signo.
Retomando à posição daquele “observador desavisado” evocado por Freud, que descreve de um ponto de vista exterior o que acontece em uma sessão analítica, algo mais se interpõe, no entanto, entre analista e analisante, além de um intercâmbio de palavras. A sessão analítica também pode ser descrita como o encontro de dois corpos que ocupam o mesmo espaço em um mesmo lapso de tempo e em relação aos quais se pode notar certa assimetria: um deles, o analista, parece tomar aí o lugar de um “motor imóvel” (MILLER 2004, p. 237) que anima o outro a vir ao seu encontro. Da mesma forma, observa-se uma não reciprocidade no uso da palavra, uma vez que ao analisante se pede que fale, enquanto o outro escuta, provoca, interpela, diz alguma coisa ou coisa alguma, encerra o encontro. O observador só poderá concluir que não se trata de uma comunicação qualquer. A disposição espacial dos corpos já havia antecipado essa dessimetria ⎯ ao menos quando se trata do uso do divã ⎯, pois eles não se colocam frente a frente ou lado a lado, como em um ambiente de comunicação, mas, estranhamente, um se posiciona atrás do outro, como se o empurrasse ou se escondesse. Esse encontro de corpos para além do intercâmbio de palavras é imprescindível para a interpretação; pois se o ato da palavra requer a ficção de um lugar virtual onde o sentido se decifra, e que Lacan designa como o lugar do “Outro”, a carga libidinal necessita como anteparo da superfície de um corpo.
Pode-se dizer que o lapso da sessão analítica induz, de início, uma desmobilização corporal. O dispositivo da sessão analítica tem, nesse sentido, parentesco com o estado que precede o sono. Esse estado exige um rebaixamento do campo da consciência pelo menos em duas direções. A primeira concerne a uma suspensão da atenção dirigida aos acontecimentos do mundo exterior, o que fazemos com o auxílio de algumas ações visando isolar os estímulos do ambiente próximo, podendo incluir formas mais ou menos ritualizadas. No estado que precede o sono, uma vez atendida essa condição preparatória, abre-se espaço para a emergência de pensamentos involuntários que, por sua vez, parecem investir certas imagens, que se organizam então em devaneios e cuja passagem para formar um sonho acompanha a
sensação do adormecer. A segunda direção em que se dá o rebaixamento da consciência que leva ao estado de sono é a que protege o próprio sono do despertar. É o que Freud designa como o trabalho da censura onírica, que se liga tanto à distorção que torna possível a realização de desejos no sonho quanto ao desejo de dormir. Assim, um estímulo provindo do mundo exterior, cuja magnitude poderia provocar o despertar, é preferencialmente transposto e resolvido no próprio sonho.
A entrada no dispositivo analítico também é uma operação sobre a atenção, e a regularidade da sessão analítica pode ser também descrita como um intervalo no qual essa atenção se desliga do mundo exterior para realizar as condições propícias à emergência de pensamentos involuntários. Contudo, a partir desse ponto, segue em direção oposta àquela que levaria ao sono. Em primeiro lugar, porque o analisante comunica os pensamentos emergentes transpondo-os ao campo verbal como mensagens dirigidas ao analista, mesmo que eles se apresentem suportados pela imagem, o que equivale a dizer que a operação que busca dirigir a atenção até esses pensamentos está condicionada pela presença e não pela neutralização do analista no campo perceptivo do analisante. Em segundo lugar, porque uma sessão analítica, diferentemente de uma sessão onírica, está orientada pela expectativa de um acontecimento imprevisto que, em lugar de provocar no corpo as sensações do adormecer, o provocam no sentido do despertar. Uma analisante, por exemplo, é tomada de susto quando seu olhar percebe uma sombra de um pequeno objeto decorativo projetada na parede do consultório do analista, uma sombra que “não estava ali da última vez”. Tal fato atesta o quanto ela se encontra em alerta quanto ao acontecimento imprevisto da sessão e o valor de signo que esse mesmo objeto adquire nas associações da analisante, tal como a roupa e o riso no fragmento clínico de Emma relatado por Freud (ver supra, p. 91). Esse signo se encontra a meio caminho entre o campo da percepção e o campo das representações inconscientes, ele trafega no espaço intermediário da realidade psíquica da Outra cena, que não poderíamos reduzir então ao espaço de uma interioridade psíquica sem anular a sua verdadeira dimensão de alteridade. Trata-se de uma alteridade duplamente sustentada pela presença do analista: ele encarna para o analisante tanto o lugar de endereçamento da mensagem quanto o objeto em causa no discurso analítico. Podemos considerar que esse objeto é o agente atrator de onde parte o circuito da fala na sessão analítica.
Nessa perspectiva, o analista faz falar. No entanto, o que se visa é a enunciação no enunciado, o desdobramento do circuito da fala no circuito pulsional, aquilo que fica
esquecido por trás do que se diz no que se ouve60, para que, tal como na célebre fórmula freudiana “Wo es war, soll Ich werden”, o sujeito possa advir. É esta mobilização da
enunciação no enunciado que faz com que a sessão analítica seja um artifício que não pode
ser estendido ao campo da realidade comum, onde se restabelece a soberania do interdiscurso.
Se aludimos acima a uma versão freudiana da sessão analítica foi para salientar o quanto essa versão está condicionada pela apreensão da realidade psíquica como uma realidade já inscrita no inconsciente. Podemos tomar essa realidade como o produto dinâmico do trabalho psíquico (psychische Verarbeitung) que busca inibir determinadas quantidades inscrevendo-as psiquicamente. Não importa salientar aqui o revés sofrido pela esperança freudiana de uma apreensão simbólica dessa realidade do inconsciente, revés que o levou a redigir o Além do princípio do prazer (1920/1969) para dar conta da presença da repetição como um resto não interpretável. A sessão analítica, em sua versão freudiana, se estrutura a partir da realidade psíquica como já inscrita, para isolá-la enquanto tal e assim reconstruí-la, preenchendo as lacunas da história do sujeito. Mas podemos opor a essa versão da sessão analítica fundada em um inconsciente como uma realidade já inscrita, uma versão que leva em conta o inconsciente como sujeito, conforme sugestão de J-A Miller (2004, p. 170). Devemos então indagar de que forma esse estatuto do inconsciente como sujeito se relaciona com aquilo que vínhamos designando, a partir de Freud, como a realidade psíquica do inconsciente.
Em que pese o arbitrário dessa distinção, ela parece legitimar-se a partir do próprio texto freudiano. De fato, Freud tem duas formas de apresentar a noção de inconsciente. A primeira delas seria mais próxima do sintoma, enfatiza as representações recalcadas que agem sobre o sujeito e se dispõe conforme a tessitura da realidade psíquica do inconsciente, cujo sentido escapa ao falante, manifestando-se no retorno dos mesmos signos. A segunda seria mais próxima do Witz, enfatiza o trabalho psíquico envolvido em sua elaboração e faz emergência no discurso corrente como um elemento novo e inesperado que atravessa um texto já escrito. Nos termos da Carta 52, esse trabalho psíquico seria comparável ao trabalho de transcrição, retranscrição e tradução contínua de um texto de base que seria dado pelos signos de
60
Segundo a expressão de Lacan, “que se diga fica esquecido por trás do que se diz no que se ouve” (“qu’on
dise reste oublié derrière ce qui se dit dans ce qui s’entend” ), aqui ligeiramente alterada para nosso uso.
percepção, isto é, pelos significantes inscritos no inconsciente. É esse trabalho que a técnica do Witz atualiza, articulando o non-sens do significante a um novo sentido.
Podemos aproximar essas duas maneiras de apresentar o inconsciente da conhecida oposição aristotélica entre autômaton e tichê, explorada por Lacan em seu Seminário, livro 11 (1964/1985, p. 55 – 65). Enquanto o autômaton refere-se à “insistência dos signos aos quais nos vemos comandados pelo princípio do prazer”, a tiquê se traduz como “encontro do real”, ligado ao que “vacila em um corte do sujeito”, àquilo que se repete “como que por acaso” (LACAN 1964/1985, p. 56), dimensão do inconsciente mais ligado à irrupção e à descontinuidade do que à continuidade da série psíquica que preencheria os capítulos censurados da história do sujeito. Essa mesma distinção pode ser aplicada à sessão analítica: ela se institui como uma regularidade (autômaton) que torna possível um acontecimento irruptivo (tiquê), como um “lugar previsto para que se produza ali o imprevisível” (MILLER 2004, p. 70). A sessão analítica tem assim a mesma estrutura de um lapso, concebido como uma pulsação na qual podemos verificar um instante de abertura, um tempo transcorrido de impasse em relação ao sentido e um fechamento. Neste ponto de claudicação em que verificamos a emergência do inconsciente como sujeito, faz-se necessário a sustentação do analista para que essa fenda, como diz Lacan, não se feche rápido demais, evitando a recomposição imediata do discurso, tal como nos previne Freud no texto Linhas de progresso
da terapia analítico61. O trabalho analítico é comparável, nesse texto, a uma análise química em que certos elementos vêm a ser separados de sua configuração original. A ação do analista consiste em evitar a tendência automática de produzir novas e apressadas sínteses, para que a relação com o real não seja perturbada prematuramente pela imposição de um saber. Ora, é justamente nesta hiância entre saber e real ⎯ que o discurso da ciência visa suturar ⎯ que Lacan irá localizar o sujeito sobre o qual opera a psicanálise (LACAN 1966/1998, p. 873).
A sessão analítica se encontra situada, portanto, primeiramente do lado da repetição. Ela é em si mesma uma repetição burocrática, uma regularidade de encontros. Aí se espera a repetição do inconsciente, o retorno insistente dos mesmos signos. Mas a sessão analítica é também o lugar “onde se cumpre a inversão do estatuto do inconsciente, a inversão da repetição em interpretação” (MILLER 2004, p. 208). Dito de outro modo, ela se nutre da expectativa de um acontecimento ao qual podemos ligar a emergência do sujeito.
61
Essa aproximação entre o sujeito e o acontecimento nos parece plena de conseqüências e merece ser colocada no centro de nossa investigação. Em primeiro lugar, ela nos distancia da concepção da interpretação convertida a um modo de explicação, e em particular de um modo de explicação causal, dominada por um encadeamento discursivo que liga um elemento a a um elemento b (como em “a porque b”)62. Os efeitos performativos do acontecimento não são efeitos que se encadeiam como proposições da linguagem. Pelo contrário, a armadura lógica das proposições na linguagem esvazia os efeitos perfomativos da interpretação quanto mais sua forma se aproxima de uma explicação. Os efeitos performativos ligados ao acontecimento nos serviriam, ademais, como uma forma de verificar a eficácia de uma psicanálise. Mas, se em uma sessão analítica nada existe além de um “intercâmbio de palavras”, isso quer dizer que não operamos sobre nenhuma substância? De certo modo não. Por isso devemos salientar a concepção freudiana de que a palavra é inseparável de seu quantum de afeto e de que ao manejar palavras manejamos também quantidades.
Em segundo lugar, aproximar a interpretação analítica da temporalidade de um acontecimento, da qual extraímos a homologia entre a hiância do inconsciente e a emergência do sujeito e entre a sessão analítica e o lapso, aproxima a interpretação da dimensão topológica de um corte. Sua dimensão textual seria, por conseguinte, reduzida a um lampejo (a um relâmpago, para dizer como Pêcheux), à emergência de uma nota dissonante cuja passagem ao primeiro plano permite ressaltá-la como um achado, no sentido do acontecimento irruptivo no qual constatamos a emergência do sujeito no discurso. São dessas emergências, escandidas e acumuladas na sucessão das sessões, que se pode extrair, enfim, um saber que concerne ao inconsciente. Trata-se de um saber ligado às determinações inconscientes, no sentido do autômaton, do retorno dos mesmos signos, e que responde à
necessidade do já escrito63.
O sujeito emerge, assim, do lado da contingência. Conforme se expressa Miller,
“quando o inconsciente é abordado desde a perspectiva da interpretação, o que se coloca em evidência não é tanto a determinação, mas a indeterminação” (MILLER 2004, p. 224), isto é,