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Billig chama a atenção para o fato da argumentação ser uma realidade comum, que pode mesmo ser encontrada em situações nas quais a sua presença é dificilmente imaginada, como em um discurso fúnebre. A presença da argumentação nas mais diversas situações advém da própria definição desse autor do contexto argumentativo: contraposição e justificativa. Em nosso trabalho, para ampliar as possibilidades de identificar situações argumentativas e seus desdobramentos, utilizamos apenas a presença de contraposição como indicador de possíveis situações argumentativas: se há a presença de duas opiniões, existe grande possibilidade de se estabelecer uma argumentação. Sob esse viés, acreditamos que no contexto de sala de aula seria interessante verificar se há um desenvolvimento ou não do que era a condição necessária para uma argumentação (i.e., a contradição).

Ainda segundo Billig, as palavras devem ser entendidas segundo sua relação com o contexto em que são usadas. Assim, a mesma palavra ou até a mesma sentença, podem ter diferentes significados quando utilizadas em contextos diferentes. Seguindo essa linha, o autor ressalta que para entendermos o significado de uma sentença ou de um discurso inteiro em um contexto argumentativo, devemos não meramente examinar somente as palavras do discurso ou as imagens na mente do locutor no momento de sua fala. Devemos, ainda, levar em conta as posições que estão sendo criticadas e verificar contra qual justificativa o contra-argumento é dirigido. Sem conhecermos essas contra-posições, o significado argumentativo pode se perder. Dessa maneira, o significado de uma parte do discurso pode se velar se o contexto argumentativo é ignorado.

A questão do contexto também esbarra em considerações a respeito da racionalidade e validade dos argumentos. O autor ressalta que em um contexto argumentativo a máxima do sofista grego Protágoras se aplica diretamente: é possível argumentar a favor de ambos os lados do debate. Porém, essa posição entra em conflito com aquela de vários filósofos ocidentais, especialmente quando eles assumem a “unicidade da verdade”, ou seja, de que proposições contrárias não podem ser ambas verdadeiras. Para Billig, essas críticas se aplicariam ao campo da lógica-matemática. Contudo, se os argumentos são tomados como posicionamentos contrários e racionais e construídos num contexto social retórico de justificativas e críticas, então esses argumentos são fundamentalmente diferentes da lógica estrita, pois em uma situação argumentativa a noção da verdade é diretamente ligada ao contexto e, por isso, relativa. Os argumentos podem, portanto, ter potencialmente uma continuidade indefinida: se uma opinião for criticada com um contra-argumento, a ela podem ser acrescentados novos argumentos, os quais se dirigem a criticar o contra-argumento e

assim sucessivamente, numa criação mútua de logos e anti-logos4. A escolha entre uma opinião ou a sua contra-opinião pode ser feita, mas dependerá essencialmente do contexto social em que os argumentos são produzidos e da epistemologia específica deste contexto. É muito provável que um argumento se mostre válido em um contexto social específico, mas que, se transposto para um novo contexto, sem que haja uma consideração do mesmo na sua construção, ele pode mostrar-se vazio de sentido, perdendo assim o seu vigor. Portanto, um critério de validade em uma aula de física, por exemplo, pode não ser bem recebido em uma aula de sociologia, pois a epistemologia e suas implicações para a validade dos argumentos mudam de um contexto para outro. Desta forma, a validade de um argumento sempre depende do contexto no qual ele é produzido. Assim, em nossa observação de campo, estivemos atentos em considerar o contexto social retórico em que os argumentos foram produzidos.

Ao caracterizar contextos de argumentação Billig traz exemplos de como esses contextos podem assumir diferentes formas. Os exemplos que utiliza são: argumentação forense, argumentação deliberativa ou argumentação epidêitica, ou um misto destes (BILLIG, 1996). A oratória forense é típica dos tribunais, nos quais a audiência, as opiniões e contra- opiniões são formalmente separadas, estando representadas a opinião e contra-opinião nas figuras do advogado de defesa e de acusação e a audiência representada pelo júri e pelo juiz. Já a oratória deliberativa refere-se diretamente ao discurso político, por meio do qual o orador tenta persuadir ou dissuadir a respeito de alguma ação em curso. Se o orador dirige o seu discurso a um governador, presidente ou rei, então a audiência e os oponentes são separados. Já nas assembléias legislativas, os locutores falam com seus oponentes diretamente, tentando converter o logos deles em seu anti-logos. Por fim, na oratória epidêitica o orador formalmente presta louvor a um indivíduo, como em uma oratória fúnebre. Nesta se faz uma caracterização póstuma atrativa do sujeito e de suas qualidades, sendo que provas e demonstrações são raramente usadas neste tipo de oratória. Nenhuma opinião alternativa é esperada e, em um contexto fúnebre, ao orador são dadas liberdade e concessão para falar da glória “incontestada” em memória da pessoa que faleceu. O anti-logos é praticamente “proibido” nesse tipo de discurso, apesar de existir e estar de certa forma implícito, o que leva a um contexto argumentativo oculto, já que é necessária sutileza e domínio do orador para, melhor que responder às críticas não ditas, contorná-las.

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Para qualquer fala pode existir um posicionamento contrário que a contradiga. O que Billig chama de logos e anti-logos, respectivamente – sendo logos traduzido como o “fazer-palavras” (“word-making”).

Com estes apontamentos sobre os diferentes contextos em que podem ser produzidos argumentos, pretendemos evidenciar que a argumentação tem potencial para se instaurar em qualquer contexto, desde o mais improvável (como numa oratória fúnebre) até aquele em que a sua instituição e prática são previstas e tem meios formais de conduta que devem ser respeitados (como na oratória forense).

Billig retoma o trabalho de Aristóteles para fazer distinções entre a lógica-matemática e a argumentação. Segundo Aristóteles, os silogismos da lógica produzem deduções que são certezas, enquanto os entimemas, por parte da argumentação, negociam com probabilidades. O mecanismo interno do silogismo é não-controverso, mas com os argumentos a situação é diferente: a seleção das suas premissas pode ser matéria de disputa, gerando deste modo um resultado que está em competição, mas que é igualmente válido, assim como as conclusões das premissas de um silogismo clássico.

Desta maneira, os argumentos devem ser tomados como tendo uma natureza entimêmica, ao invés de silogística. Basicamente, um entimema consiste em uma declaração juntamente com uma justificativa. A justificativa pode ser criticada, e por sua vez necessitará de um novo entimema como suporte, o qual por sua vez estará aberto a nova critica e assim em diante. Fica claro o caráter aberto e de continuidade da argumentação, bastante diferente dos silogismos da lógica que têm um ponto de chegada não controverso, uma vez que as premissas já carregam em si a conclusão.

Billig utiliza uma metáfora para se referir à distinção entre a argumentação e a lógica estrita: na primeira temos a “mão aberta”, enquanto que a segunda se caracteriza pela “mão fechada”. Com isso, Billig procura evidenciar uma abertura referente aos contextos retóricos argumentativos que não se verifica no contexto da lógica. Isso não significa uma inferioridade da retórica com relação à lógica, pois, para o retórico, a abertura e flexibilidade são uma parte essencial da retórica e um aspecto necessário para a argumentação.

Buscando caracterizar ainda mais o campo da argumentação, Billig vai além e sugere que a existência do “outro5” é o que torna possível a argumentação e o processo adjacente de pensamento mais sofisticado que ele chama de “witcraft6” – termo que poderia ser traduzido como “arte de raciocinar”, com um sentido de artesanato. É importante salientar que nem todo

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Seria no “outro” que encontraríamos posicionamentos distintos dos nossos. Tal diferença seria responsável em nos levar a justificar os nossos posicionamentos com vistas à sua aceitação pelo “outro”.

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A noção de witcraft é importante na obra de Billig e significa pensamento retórico em que há invenção. Para Billig, não há argumentação se não houver witcraft, pois sua presença é fundamental para se contradizer outras razões.

o pensamento envolve witcraft, mas quando há “invenção7” ou o novo, tem de haver witcraft. Em suma, witcraft seria uma forma de pensamento que deriva necessariamente da argumentação.

Por fim, Billig enfatiza que em um contexto argumentativo a busca pela última palavra é uma característica sempre presente. O autor observa que a conexão entre persuasão e argumentação não é tão simples quanto parece porque, num contexto argumentativo, não podemos assumir que os oponentes ou a audiência têm predisposição a serem afetados por bons argumentos. Ao contrário, em contextos argumentativos freqüentemente nos defrontamos com oponentes inflexíveis, ávidos por ter suas palavras aceitas e, deste modo, a persuasão não é uma possibilidade realística, por melhor que sejam os argumentos a favor desta ou daquela opinião. Mais provável é que, durante a argumentação, o uso de witcraft não deve ser visto como um mero mecanismo de se conseguir persuasão, mas, em vez disso, o seu uso deve ser conectado à busca da última palavra, a qual, por sua vez, tende a levar a uma continuidade da argumentação.

Por conseguinte, é importante salientar que, de acordo com Billig, a busca pela última palavra não deve ser vista como o motivo que leva ao processo argumentativo e sim que, uma vez este tendo sido iniciado, a busca pela ultima palavra é diretamente responsável pela sua manutenção.

Podemos dizer que a nossa pesquisa esteve em estreita relação com as idéias de Billig, uma vez que elas nos ofereceram possibilidades abrangentes de caracterização das situações argumentativas.

Benzer Belgeler