O aumento do número de programas de receita, como buscamos mostrar, é uma realidade em nosso contexto, e para verificar as engrenagens desse movimento de maneira aprofundada, iremos, nesta etapa, proceder ao exame cuidadoso dos episódios coletados. Diante desse corpus, procuramos, no decorrer dos capítulos anteriores, compreender a conjuntura que circunda a gourmetização e o apelo destinado à culinária na TV fechada e no
YouTube. Neste momento da dissertação, entretanto, nosso empenho será dedicado a verificar
de que maneira os atuais programas estariam construindo discursivamente a prática culinária. Através das leituras realizadas, especialmente no segundo capítulo, procuramos notar a inter-relação existente entre esses princípios. Os gêneros discursivos, tal como propôs Bakhtin (2000), são dotados de uma estabilidade relativa, ideia que foi assimilada por diversas vertentes dos estudos discursivos, incluindo a Teoria Semiolinguística. Em outras palavras, são modelos suscetíveis a transformações ocasionadas, em grande medida, pela situação de comunicação. E, ao entendê-los como formas discursivas compostas por características estáveis e flexíveis, eles se aproximam da noção de contrato de comunicação.
Segundo Charaudeau (2013), o contrato – e especialmente o contrato relativo aos gêneros midiáticos –, envolve alguns aspectos, dentre eles: o trabalho de seleção de fatos que despertem atenção mais facilmente (visibilidade); o tratamento da encenação das informações, de modo a torná-las mais acessíveis (inteligibilidade); e, finalmente, o cuidado em tratar essas encenações de modo a garantir que sejam interessantes ou mesmo cativantes ao público (espetacularização). Em relação a esses procedimentos que contribuem para construção da encenação discursiva presente nas atrações do gênero programas de receitas, cabe observar os aspectos de ordem (propriamente) linguística, os quais atuam em sintonia com os elementos visuais dos programas.
Em vista desses pontos, ao considerarmos a recente valorização da prática culinária, junto às novidades relativas às tecnologias de comunicação, somos levados a observar diferenças nas regras que gerenciam essa categoria de programas. As formas de exploração
desse gênero e do tema da alimentação adequar-se-iam às atuais tendências e valores ligados à gastronomia, assim como às modernas referências audiovisuais.
Neste estudo, propomos investigar um produto midiático que congrega discurso verbal e icônico. Frente à tarefa de analisar imagens visuais, é interessante buscar outras fontes, sem, contudo, perder de vista as questões ligadas à AD e à linguística. Dessa maneira, para embasar a leitura dos conteúdos icônicos, recorreremos a alguns trabalhos dedicados à materialidade icônica. Jacques Aumont (2002), em seu livro A imagem, ajuda-nos a compreender a terminologia do cinema que foi incorporada nas produções televisivas e, atualmente, pelos vídeos realizados para web. Além desse, o estudo de Luciano Guimarães, As cores na mídia, publicado em 2003, mostra-se outra importante referência para a presente pesquisa.
De acordo com o jornalista e professor, o manejo das cores e luzes é essencial às produções midiáticas, razão pela qual o autor cunha o termo “cor-informação”:
Assim, considera-se a cor como informação todas as vezes em que sua aplicação desempenhar uma dessas funções responsáveis por organizar e hierarquizar informações ou lhes atribuir significado, seja sua atuação individual e autônoma, seja integrada e dependente de outros elementos do texto visual em que foi aplicada (formas, figuras, texturas, textos, ou até mesmo sons e movimentos, como em produtos multimídia) (GUIMARÃES, 2003, p. 31).
Esse cuidado no caso de um programa audiovisual fica ainda mais latente em função do apelo que a imagem em movimento congrega. Nas atrações em vídeo, a iluminação e as cores dos objetos e dos cenários, assim como o enquadramento e a velocidade dos planos na edição, são procedimentos que ajudam a criar o discurso que essas produções buscam construir, interferindo diretamente em sua recepção e sua permanência no ar. E a “força semântica da cor-informação” (GUIMARÃES, 2003, p. 138), no caso de um programa de culinária, parece-nos ser ainda maior, visto que visualizar comida mexe diretamente com o sentido da visão e do paladar, o que pode desencadear sensações de fome e de desejo, o pecado da gula. Como podemos ver, o espaço destinado a informações e produtos relativos ao tema da culinária na mídia tem crescido sensivelmente, especialmente na TV paga e na internet. De modo a garantir uma atenção da audiência, vários e diversos programas de receita podem ser vistos nas grades das emissoras televisivas e nos canais do YouTube.
Com intuito de solucionar os desafios da visibilidade, da inteligibilidade e da espetacularização, as atrações desse gênero parecem investir na presença de protagonistas com perfis variados disputando os papéis de produtor e enunciador122. Além disso, os 122
programas apresentam durações mais sucintas, são transmitidos em variados horários e/ou ficam à disposição do público para serem vistos (e revistos) quando este tiver disponibilidade.
Esses formatos contemporâneos, acreditamos, seriam um indício de que os contratos midiáticos referentes a esses gêneros teriam se alterado. Diante disso, a fim de verificar a forma como culinária é retratada nesses programas, iremos considerar os critérios que passam pela seleção dos protagonistas, dos veículos e horários de transmissão, das receitas, da música, da composição cenográfica etc. Como apontam Giane David-Silva e Antônio Augusto Braighi (2013, p. 183), a escolha do cenário desempenha uma importante função nesses produtos midiáticos, por corresponder à “porta que faz o telespectador entrar no mundo da informação”.
Além disso, em função de sua natureza audiovisual, procuraremos dar atenção também às técnicas de composição e de edição da parte icônica, isto é, a (re)organização dos enquadramentos, planos e cenas. O enquadramento, segundo Aumont (2002), diz respeito à posição do quadro123 ou moldura em relação à cena. Quanto à imagem cinematográfica (vídeo), por ela existir temporalmente, essa moldura seria uma forma de acompanhar “de modo visível, a mobilidade” (AUMONT, 2002, p. 154), ou seja, de acompanhar o movimento. Esse registro do percurso revela o “posicionamento do objeto filmado no visor da câmera” e permite mostrar e esconder “uma determinada face do cenário” (DAVID-SILVA; BRAIGHI, 2013, 184). Como veremos, no caso dos programas de receitas, esse jogo de mostração (e de ocultação) constitui um recurso muito usado, especialmente a fim de esclarecer certos processos culinários ou evocar sensações e desejos em que assiste.
Conforme mencionamos ao abordar os contratos midiáticos, os gêneros midiáticos, de acordo com Charaudeau (2015, p.210-211), destinam uma atenção às novidades tecnológicas e às “modas” relativas “à maneira de contar [...] com uma tendência marcante para o corte das sequencias de planos e para a segmentação das frases, seguindo o modelo do clip”. Essa postura de acompanhar as evoluções de recursos e estilos é visível nos programas de culinária. O empenho em articular esses elementos são formas que esses produtos dispõem para lidar com os desafios dos contratos midiáticos e sobressair à concorrência presente nessa indústria.
A fim de perceber melhor essas transformações e como elas refletem sobre os processos de construção da culinária nos atuais programas audiovisuais, consideramos pertinente mencionar as observações propostas por Galinari (2013) para o estudo das imagens no discurso. – termo aqui tomado de forma ampla. Segundo o autor:
se fecharam nos chefs de cozinha.
123 Aqui, a acepção de “quadro” se aproxima de “moldura”. No caso do vídeo, seria o conteúdo que é exibido
Nesse sentido, as imagens podem ser vistas, mencionando uma terminologia bakhtiniana, como atividades do discurso interior, entendidas aqui como uma mescla de dois enfoques semânticos não apenas complementares, mas intrincados: (i) por um lado, a imagem como ideia/ideologia, ou seja, como visão de mundo, sendo constituída em grande medida (ou também) pela linguagem verbal da atividade psíquica, comportando, assim, representa- ções, estereótipos, clichês. [...] Por outro lado, (ii) fazem parte do discurso interior, ou melhor, fazem parte de um mesmo gesto de pensamento, aflorando-se em conjunto com ideias e palavras, o que poderíamos chamar, por falta de outro termo, de imagens imaginadas enquanto ícones ou figuras (estáticas ou em movimento) criadas pelos nossos cérebros. Trata-se das imagens no sentido concreto como as vemos no mundo que nos rodeia, ou seja, como objetos físico-óticos. A diferença, aqui, é que elas são um produto da nossa imaginação, e ali fazem a sua morada (GALINARI, 2013, p. 356- 357).
Ciente dessas duas acepções e das diversas possibilidades de pesquisa que as imagens abrem-nos, passaremos, a seguir, à detida análise de nosso objeto de pesquisa. Através dos episódios dos programas de receita que selecionamos, buscaremos observar de maneira detalhada as materialidades discursivas de palavra e imagem (visual) e, a partir delas, verificar quem são esses sujeitos, o ambiente onde atuam e quais construções da prática culinária buscam realizar e promover.
Para traçar essas análises de modo mais coeso e coerente, propomos seguir uma divisão que toma como critério o veículo por onde as atrações circulam. Assim, destinaremos nossa atenção, primeiramente, às atrações veiculadas pelo GNT e, em seguida, focaremos os programas do YouTube.