Essa tese constitui-se de um estudo de caso sobre o processo de implementação do Sistema Brasileiro de TV digital mais especificamente focado na característica denominada de interatividade. A solução T-Autor, além de outras funções, constitui-se como um experimento que nos permitiu interagir com os diversos atores envolvidos nesse processo; em parte como uma estratégia que alguns autores identificam como pesquisa ação, que se dá através da inserção de um elemento novo em determinado sistema a ser estudado, de forma a observar os possíveis impactos que tal introdução é capaz de desencadear.
Assim nossa pesquisa seguiu duas frentes, a do desenvolvimento da solução T- Autor e a do trabalho de divulgação e difusão da mesma em possíveis ambientes onde possa ser utilizado, basicamente em instituições de ensino, TVs públicas e universitárias. À medida que esses processos seguiam, foi também possível fazer a observação desses ambientes e avaliar a reação dos atores que nos possibilitaram também entender melhor as dificuldades em termos de uso e apropriações.
É importante entender que nesse ambiente, visto pela pesquisa como um sistema, atuam segmentos com interesses e agendas diferentes. São eles, governo, academia, fabricantes de aparelhos de TV, fabricantes de transmissores de TV, radiodifusores e desenvolvedores de software.
Durante o percurso do doutorado, uma série de atividades paralelas, que estiveram alinhadas com as duas grandes frentes de ação acima descritas, foi realizada, num esforço de contato com os diversos atores envolvidos no processo do SBTVD-T:
Em Agosto de 2011 a solução T-Autor foi apresentada num workshop dentro do Congresso da Sociedade de Engenharia de Televisão – SET 2011 – que sempre acontece em São Paulo, no Centro de Convenções Imigrantes. Lá foi possível apresentar a solução e interagir com os ouvintes da palestra que incluíam não só representantes da academia e alunos, mas também profissionais das principais redes de TV brasileiras, bem como da direção da EBC – Empresa Brasileira de Comunicação que nos convidou a testar a ferramenta em Brasília. Antes do início do doutorado já tínhamos, no primeiro semestre de 2011, apresentado o T-Autor também num evento internacional da ITU, agência da ONU para assuntos de telecomunicações que aconteceu no Rio de Janeiro, no Hotel Sofitel.
Ainda em 2011 fizemos uma visita técnica ao Telemídia da PUC-RIO, um dos laboratórios de excelência desenvolvedores da interatividade em TV digital no Brasil.
Estreitamos uma parceria com o LAVID da UFPB inicialmente trazendo para a UFMA alguns trabalhos do projeto Estação Escola de TV digital - EETVD no que chamamos de I Mostra Interativa de TV digital da UFMA. Nesse evento esteve conosco o pesquisador do LAVID, José Ivan, com quem já tínhamos trabalhado anteriormente no EETVD.
No primeiro semestre de 2012, quando ministramos a disciplina de Mídias Digitais no curso de Comunicação Social da UFMA, inserimos a experimentação do software T-Autor como trabalho de desenvolvimento dos alunos, posteriormente aplicando neles um questionário que nos deu um retorno geral em termos de usabilidade a partir da visão dos futuros profissionais de jornalismo.
Em 2012, o pessoal do LAVID retornou a São Luís a convite do LABCOM, dessa vez para ministrar um curso de linguagem NCL para profissionais de jornalismo de TVs locais. Esse grupo também contribuiu com respostas a um questionário onde avaliamos as dificuldades enfrentadas por alguém da área de Comunicação quando se aventurava a aprender a linguagem necessária para a geração dos códigos em NCL. Esse
evento serviu como uma espécie de grupo de controle, que não teve acesso ao T-Autor e teve uma aproximação com a temática da interatividade através da forma como o próprio governo brasileiro tem tentado difundir a tecnologia, ou seja, através da formação de programadores especializados em NCL, LUA e JAVA, as linguagens usadas pelos programadores para escreverem as aplicações interativas.
Nesse período, foram publicadas em revistas acadêmicas três artigos sobre a temática da interatividade, um na Revista Cambiassu da própria UFMA (SANTOS, 2010), outro na revista Contemporânea da UERJ (SANTOS, 2011a), num dossiê específico sobre políticas públicas e outro na Revista de Tecnologia Educacional (SANTOS, 2011b) onde descrevemos o potencial para o EAD de soluções de interatividade em TV aberta.
Em 2012 realizamos, em parceria com colega do Departamento de Comunicação Social da UFMA e apoio FAPEMA, uma pesquisa sobre o impacto das tecnologias nas redações jornalísticas e assessorias da cidade de São Luís. Esse estudo, apesar de não ser diretamente ligado ao tema da TV digital, trouxe claramente um cenário de inquietações e necessidade de atualização entre os profissionais de comunicação devido às mudanças tecnológicas, como apontam Bardoel e Deuze (2000), que estão acontecendo nos ambientes de trabalho jornalísticos, alterando processos, produtos, modelos de negócio, práticas e habilidades requeridas entre esses profissionais.
O estudo sobre os impactos tecnológicos nos ambientes de trabalho do jornalismo foi apresentado na Semana de Comunicação da UFMA (2012), na edição do INTERCOM Nordeste em Mossoró-RN (2013) e também no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – INTERCOM Nacional (2013).
A solução T-Autor foi apresentada no 10º Encontro da Sociedade de Pesquisadores em Jornalismo – SBPJor em Curitiba, 2012, dentro de mesa coordenada da Rede JorTec à qual somos filiados.
Dentro das conexões interdisciplinares e interinstitucionais que estabelecemos, além dos vínculos com os laboratórios mais ligados à interatividade, no caso LAVID (UFPB) e TELEMÍDIA (PUC-Rio), também nos unimos ao grupo de pesquisa ComTec, liderado pelo professor Sebastião Squirra, que tem um perfil bastante focado no diálogo entre comunicação e tecnologia e que conta com pesquisadores de várias instituições brasileiras, entre elas UFSC, UNB, UMESP e UNESP. Através dessa parceria realizamos em São Luís, em 2012, o 5º Congresso Brasileiro de Comunicação e Mídias
Digitais, onde pesquisadores de todo o país ligados ao ComTec estiveram presentes para apresentar trabalhos e relatos de pesquisa. Nesse evento também foi apresentada a solução T-Autor para todos os participantes.
A partir da segunda etapa do projeto de desenvolvimento da ferramenta, que teve novo projeto PAPPE de financiamento para inovação tecnológica aprovado por FAPEMA e FINEP, foi possível finalizar a versão beta da solução que hoje se encontra em fase inicial de testes junto a algumas TVs universitárias. Nesse período também estabelecemos uma parceria com a ABTU – Associação Brasileira de TVs Universitárias, que tem intermediado a difusão da solução T-Autor e também representa um dos segmentos envolvidos no ecossistema de implementação do SBTVD-T.
No segundo semestre de 2013 iniciamos uma série de apresentações da ferramenta agora para instituições acadêmicas e TVs Universitárias. Estivemos na TV Univap de São José dos Campos onde foi feita uma visita técnica e também apresentado o projeto num evento realizado pela Universidade que mantém a TV. Também foi feita palestra para os alunos do programa de Pós Graduação da UNESP de Bauru e também visita à TV UNESP de lá, uma das TVs universitárias mais estruturadas e atuantes do Brasil.
Em outubro de 2013, a convite da ABTU, participamos de um evento internacional, o Congresso Latino Americano de TVs Universitárias, onde também foi feita uma palestra sobre o T-Autor numa mesa que teve a participação do diretor do Canal Futura, João Alegria e mediada pelo prof. Júlio diretor da TV PUC-SP. Nessa oportunidade fizemos uma proposta pública de parcerias para as TVs interessadas obtendo resposta imediata de interesse do próprio Canal Futura para 2014, bem como das TVs ligadas à UFBA, à UFOP e um grupo de pesquisadores independentes de Portugal.
Em novembro de 2013, foi feita uma visita técnica à TV PUC-SP e lá gravado programa explicando o projeto de doutorado em andamento no TIDD.
Das ações ligadas à solução é importante destacar também que o T-Autor foi inserido num projeto do INPE, para a criação com ele de uma aplicação interativa para TV aberta voltada ao alerta de catástrofes em situações de calamidade pública ou iminência de desastres naturais. A escolha pela opção do alerta em TV Aberta se deve ao fato de que as redes de telefonia, a princípio a primeira opção numa hora dessas, rapidamente ficam congestionadas e até caem em situações desse tipo. Já a TV aberta pode normalmente lidar com a emissão para milhões de lares sem maiores problemas.
Durante todo o período do doutorado, a partir de um contato inicial com o Fórum do SBTVD-T no Brasil, o órgão oficial ligado à implementação do sistema de transmissão digital no país, foi coletado material gerado pelo Fórum formando um conjunto de documentos que tem ajudado a entender não só as relações entre os atores envolvidos no processo como também os seus interesses e crenças a partir de releases publicados pelo Fórum no período, bem como um clipping feito por eles do que tem sido publicado sobre a temática da TV digital no Brasil. Esse corpus empírico é um dos elementos da pesquisa que junto à própria estrutura do órgão, seus comitês e formas de decisão têm permitido a análise para o estudo de caso.