Şekil 1 Yaşam Boyu Öğrenme Becerileri Yamaç Birikinti Grafiğ
KAHRAMANMARAŞ SÜTÇÜ İMAM ÜNİVERSİTESİ SOSYAL BİLİMLER DERGİSİ YAZIM KURALLAR
O caráter espontaneamente idealista dos pares de categorias filosóficas abordados por Pêcheux — necessidade/contingência, objeto/sujeito — toma, finalmente, a forma da oposição entre construção lógica/observáveis no positivismo lógico. Distinguem-se assim duas espécies de línguas, conforme a terminologia de Carnap: a língua de observação (Lo) reflete entidades diretamente observáveis por um sujeito e são descritas na linguagem concreta da “situação” — utilizando o que Russell designa como “particulares egocêntricos” (eu, aqui, agora, isto); a língua da teoria (Lt), por sua vez, designa entidades ou relações que escapam à observação direta, devendo ser construída a partir de raciocínios hipotético- dedutivos que ligam as asserções entre si, estabelecendo relações lógicas entre “propriedades”. Passamos assim do subjetivo ao objetivo, do concreto ao abstrato, do particular ao universal. Esta solução de continuidade, proposta pelo positivismo lógico, é vista por Pêcheux como uma solução idealista. Nela,
o duplo funcionamento articulação de enunciado / encaixe vai se distribuir espontaneamente de modo que o encaixe seja o mecanismo de base que fornece a “descrição dos observáveis”, e que a articulação de asserções seja o mecanismo de base da abstração científica que liga entre si as “construções lógicas” (SD: 125-126).
Acompanhando mais de perto essa solução logicista, percebe-se que ela favorece o vínculo universal da determinativa, sob a forma lógica “o que é a é b”, e que tende a assumir a
forma “x, que é a, é b” quando se aplica a um particular, isto é, à forma da explicativa, mas concebida como um “feixe de propriedades”. Segundo Pêcheux, somos então conduzidos a uma ciência de todo e qualquer objeto, “para a qual somente existiriam relações pensadas, esvaziadas de todo ‘ser’” (SD: 126), conforme o ideal da língua teórica preconizada pelo positivismo lógico e já antecipada por Frege em sua Ideografia. Ora, o que chama a atenção de Pêcheux, e o que vai constituir uma espécie de falácia lógica do positivismo, é que uma linguagem bem construída, que assevera a independência do pensamento em relação ao ser, corre o risco de girar em torno de si mesma, uma vez que “toda designação sintaticamente correta constrói um objeto... de pensamento, isto é, uma ficção lógica reconhecida como tal” (SD: 126), sustentada pela “suspensão do juízo de existência” que uma linguagem rigorosa, pretensamente, autorizaria. Sendo assim, se esquece a própria exigência fregeana de que “toda expressão construída como um nome próprio, a partir de sinais previamente introduzidos, e de maneira gramaticalmente correta, designe, de fato, um objeto” (FREGE 1978, p. 76). Pode-se concluir, assim, que o caminho logicista que leva do concreto ao abstrato e da situação à propriedade nos conduz também à ficção por meio da qual o discursivo se sobrepõe ao lingüístico,
de acordo com o mito continuísta empírico-subjetivista, que pretende que, a partir do sujeito concreto individual “em situação” (ligado a seus preceitos e a suas noções), se efetue um apagamento progressivo da situação por uma via que leva diretamente ao sujeito universal, situado em toda parte e em lugar nenhum, e que pensa por meio de conceitos (SD: 127).
A hipótese de Pêcheux é de que esse apagamento é o resultado de um processo de
identificação. Nele passamos, progressivamente, de uma forma de enunciado originada na
subjetividade e na situação (“eu vejo isso”; “eu digo que”), para uma forma simétrica assentada na discrepância eu / tu (“eu vejo isso / tu vês isso” ou “eu digo que / tu me dizes que”), passando por uma forma genérica (“vê-se que” ou “disseram-me que”), até atingir a forma universal (“é verdade que”) característica do discurso da ciência33. Podemos acrescentar, de nossa parte, que tal processo remete ao assentimento com que um sujeito adere a uma dada proposição. Seja, por exemplo, a proposição “a terra gira em torno do sol”. Podemos tomá-la tanto como o resultado de uma crença ou percepção subjetiva: “eu creio que a Terra gira em torno do sol”; atribuí-la a outrem, mantendo suspensa minha adesão:
33
“Copérnico disse que a Terra gira em torno do sol”; aderir à sua autoridade: “a afirmação de Copérnico de que “a Terra gira em torno do sol” é para mim verdadeira; ou tomá-la como expressão de uma verdade que independe de toda e qualquer adesão subjetiva, isto é, como um conceito: “a afirmação de que a Terra gira em torno do sol é verdadeira”. Observemos que essa última supõe, necessariamente, a forma consensual da intersubjetividade sob a aparência da objetividade, isto é, apóia-se em um processo de identificação que constrói gradativamente essa adesão.
Chegamos assim, com Pêcheux, ao “obstáculo idealista fundamental” a uma “teoria do discurso”, representado pela “noção ideológica do sujeito como ponto de partida e ponto de aplicação de operações” (SD: 130). Podemos então distinguir, de um lado, o sujeito empírico, fonte e origem de suas representações, unificado e identificado consigo mesmo. A ele se aplica a ilusão de autonomia, como se esse sujeito se auto-constituísse na situação, mascarando-se com isso o processo de assujeitamento no qual ele se identifica às significações que recebe. O sujeito do discurso aparece aqui, paradoxalmente, como origem do sujeito do discurso. De outro lado, o Sujeito universal — que escrevemos com um S maiúsculo, conforme Althusser —, reduzido aos processos ideológicos ligados a uma ordem já dada e à qual se aplicam as proposições que simulam o conhecimento científico no desconhecimento ideológico. “O homem, que é racional, é livre”: para aceitar livremente sua submissão, pode-se dizer.
A tese que o materialismo opõe ao idealismo assevera que o sujeito ao qual se refere o empirismo-lógico é um efeito ideológico e não um dado de origem. Cabe a essa tese demonstrar que esse sujeito se constitui em um “processo não-subjetivo” e avançar em direção a uma “teoria não subjetiva da subjetividade” (SD: 131). Seus fundamentos reais são aqueles que Pêcheux reconhece a partir do artigo de Althusser, os Aparelhos Ideológicos de
Estado, publicado na França em 197034. Como reconhece Maldidier (2003, p. 33), “o artigo de Althusser marca todo o trabalho de Pêcheux na virada dos anos 70. É ele que subentende o grande momento de Semântica e discurso, assim como vai alimentar remorsos, quando chegar o tempo das desconstruções”. Para Gregolin (2004, p. 52), “o pensamento de Althusser está fincado no projeto de construção da análise do discurso, dando à obra de Michel Pêcheux sua sustentação filosófica e política”. O artigo de Althusser permite, por um lado, pensar a
34 ALTHUSSER, Louis. Ideologie et Apareils Ideologiques d’Etat. La Pensée, n. 151, 1970, p. 3 – 38. Trad.
materialidade das ideologias tomadas no próprio funcionamento das instituições e, por outro lado, o sujeito da ideologia, por meio de sua teoria da interpelação, segundo a qual “a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos” (ALTHUSSER 1980, p. 93)35. É a partir dessa teoria althusseriana que Pêcheux extrai a relação — que nos interessa prioritariamente — entre ideologia e inconsciente:
Se acrescentarmos, de um lado, que esse sujeito, com S maiúsculo — sujeito absoluto e universal —, é precisamente o que J. Lacan designa como o Outro (Autre, com A maiúsculo), e, de outro lado, que, sempre de acordo com a formulação de Lacan, “o inconsciente é o discurso do Outro”, podemos discernir de que modo o recalque inconsciente e o assujeitamento ideológico estão materialmente ligados, sem estar confundidos, no interior do que se poderia designar como o processo do Significante na interpelação e na identificação, processo pelo qual se realiza o que chamamos as condições ideológicas da reprodução/transformação das relações de produção (SD: 133- 134).
Somos incitados a listar algumas questões preliminares, suscitadas por essa aproximação, no texto de Pêcheux, de termos lacanianos e althusserianos. Em primeiro lugar, não nos parece de forma alguma evidente a aproximação entre o Outro lacaniano e o Sujeito althusseriano. É verdade que o Sujeito, escrito com a inicial maiúscula, designa em Althusser um Outro Sujeito, em nome do qual se fala, conforme atesta a análise da ideologia religiosa em Aparelhos Ideológicos de Estado (ALTHUSSER 1980, p.108-114). Ele aponta, portanto, para um lugar que o discurso designa e a partir do qual ele interpela os indivíduos em
sujeitos. Há margem, portanto, para pensarmos essa aproximação entre o Sujeito althusseriano
e o Outro lacaniano se os tomarmos como equivalentes à ordem simbólica que precede aos sujeitos aí convocados por seu chamado e sua interpelação. Nesse sentido, o Sujeito é a condição de todo e qualquer processo de identificação. Pêcheux parece, no entanto, confundir o Outro e o nome-do-pai, significante lacaniano que designa aquele que, no lugar do Outro, designa o Outro como um lugar. Teríamos que distinguir, portanto, o Outro como a estrutura da linguagem e o Outro enquanto esse mesmo lugar vem a ser preenchido pelo significante nome-do-pai, em nome de quem se fala. Incluir o nome-do-pai implica, no entanto, pensar a ordem simbólica enquanto suspensa à lei do desejo e, como tal, como uma inconsistência
35 “L’idéologie interpelle les individus en sujets”, conforme o original (apud PÊCHEUX: Lês Vérités de La
lógica. O desconhecimento dessa formulação lacaniana leva Pêcheux a reafirmar em
Semântica e discurso, conforme assinala Marlene Teixeira, “a relação de alienação total do
sujeito à estrutura”, resultando daí “um assujeitamento sem resto” (TEIXEIRA, M. 1997, p. 81).
Nossa segunda observação concerne à formulação lacaniana de que “o inconsciente é o discurso do Outro” e sua assimilação ao assujeitamento ideológico. É verdade que Pêcheux adverte que essa assimilação se refere ao “processo do Significante na interpelação e na
identificação” (SD: 133) e para que não se confunda um e outro domínio de pensamento. É
preciso, no entanto, aprofundar em que sentido Lacan se refere aqui ao termo “discurso” ao ligá-lo ao termo “inconsciente”. Esse sentido não é de forma algum unívoco na obra de Lacan e merece ser investigado a fim de distinguir formação do inconsciente e formação discursiva, aspecto que iremos desenvolver na seqüência de nossa investigação. A referência ao “processo do significante”, por sua vez, pode ser tomada como a versão lacaniana da alienação do sujeito na linguagem, na medida em que, conforme a clássica definição de Lacan, em si mesma tautológica, “o significante é o que representa o sujeito para um outro significante”.
Estão dadas as condições para que possamos avançar no texto pêchetiano em torno da articulação entre Discurso, ideologia e sujeito que nomeia o terceiro capítulo de Semântica e
discurso.