A concepção da arte enquanto liberdade, de acordo com a argumentação proposta no primeiro capítulo, perfaz um longo trajeto histórico marcado por transformações no modo de conceber a beleza artística em suas configurações, e na instauração da estética como disciplina e ciência filosófica. Poderíamos afirmar que este processo está subordinado a outro processo mais amplo, pelo qual a consciência vai caminhando em direção à racionalidade, que se desvela como liberdade àquele que se sabe livre. Neste sentido, a arte participa desse processo de iluminação, sendo uma das formas pelas quais o
Absoluto se desvela para a consciência, pois, segundo Werle, a função da arte consiste no
seu ideal de exprimir os interesses do espírito, ou seja, de revelar o Absoluto, nesse sentido “a arte é livre: a ideia que lhe dá existência, e sobretudo, vitalidade e eficácia” (Werle, 2009, p. 81).
Sendo assim, pensamos a arte inserida num contexto histórico em evolução no âmbito do próprio pensamento racional, que tende a se subjetivar e desprender-se acentuadamente daquilo que se afigura por meio da expressão sensível, para se dizer de modo mais preciso através do pensamento conceitual. A arte, pensada neste contexto afirma-se como o primeiro modo pelo qual o pensamento se desprende da finitude, puramente imediata, e lança-se na dimensão conceitual da contemplação do infinito.
Esta retomada de aspectos do primeiro capítulo nos permite rever a posição de Hegel em face de todo o processo de emancipação da arte. O itinerário do pensamento em busca de sua afirmação enquanto pensamento que pensa a si mesmo e, a partir de si, pensa tudo o mais, o qual se estende à arte, que ao longo dos séculos foi construindo sua própria alteridade, ao afirmar-se como arte livre, tanto em seus fins quanto em seus meios de expressão.
Segundo essa linha de pensamento, rememoremos os conceitos primordiais através dos quais Hegel fundamenta sua concepção da filosofia da bela arte. A delimitação da estética ao âmbito da bela arte, como vimos, poderia parecer arbitrária já que dela se exclui o belo natural, mas tal restrição justifica-se devido ao fato de que o belo na arte é produção do espírito e, portanto, dotado de racionalidade. A existência natural, por sua vez,
não é considerada por si mesma, “é apenas um reflexo do belo pertencente ao espírito, sendo um modo incompleto e imperfeito” (HEGEL, 2001, p. 28). Hegel nos indica que frente à beleza natural nos sentimos “demasiadamente no elemento do indeterminado, não possuindo critério” (HEGEL, 2001, p. 29) que nos permita julgá-la como bela em termos conceituais.
A esta predileção ao belo na arte, como acompanhamos no primeiro capítulo, insurgiram algumas possíveis objeções, dentre elas gostaríamos de realçar, neste momento a primeira, a qual se baseia na opinião da impossibilidade de um tratamento científico à arte, pois a arte pareceria algo supérfluo, um luxo que serve aos fins imediatos e utilitários da existência prática. Hegel retoma a primeira objeção para indicar a possibilidade de conhecer o Absoluto, a Verdade, tendo em vista que a arte desvela esse Conteúdo à consciência. Sendo assim, o autor refuta esta objeção de forma magistral ao esclarecer que apesar do belo possuir sua vida na aparência, ele encontra seu fim em si mesmo, não se destina a interesses imediatos, é algo que em sua aparência se reporta à essência, ao puro pensamento, à liberdade do pensar de modo belo. A arte, nesta sua liberdade verdadeira é um modo de trazer à consciência os interesses do Espírito. Essa dignidade da arte é justificada por Hegel porque ela: “expõe sensivelmente o que é superior e assim o aproxima da maneira de aparecer da natureza, dos sentidos e da sensação” (HEGEL, 2001, p. 32). Neste sentido, o sensível é nela espiritualizado.
Assim, a refutação desta primeira objeção nos apresenta aquilo que é específico da estética de Hegel, a possibilidade de conhecer o Absoluto através do conceito do belo na arte. É por meio do conceito que o espírito finito pode chegar gradativamente ao conhecimento do Absoluto, pois a aparência da arte não é tomada como algo que não deva ser antes, é o meio através do qual a essência se manifesta na efetividade finita, se dando a conhecer e, se reconhecendo a si mesma neste seu reflexo. Ela precisa aparecer, desvelar- se e ser para alguém. A beleza na arte, como um farol, indica que a “autêntica efetividade apenas pode ser encontrada além da imediatez da sensação e dos objetos exteriores (HEGEL, 2001, p. 33).
Na arte é possível conhecer o verdadeiro conteúdo: o Absoluto, mediante a configuração artística, pois em seus produtos é impressa uma efetividade superior, nascida
do espírito e que se remete a ele. Sua aparência não é uma mera aparência sensível, já que em seus fenômenos está contida a presença do Absoluto na efetividade finita, desse modo, “a aparência da arte [...] significa através de si e aponta a partir de si para algo de espiritual, que por meio dela deve ser representado” (HEGEL, 2001, p. 34).
Desse modo, na arte é possível contemplar a beleza artística, como um produto da atividade humana: “produção consciente de algo exterior que pode ser objeto de saber” (HEGEL, 2001, p. 49). E, também enquanto produção do espírito, posto que, o espírito confere duração e existência exterior ao conteúdo que retira de seu próprio interior. Assim compreendida a arte é uma produção do espírito feita pelo homem. Na obra de arte, segundo Hegel:
Por exemplo, uma paisagem apresentada com sentimento e conhecimento pela pintura, como obra do espírito, assume uma posição superior à paisagem meramente natural. Pois tudo o que é espiritual é melhor do que qualquer produto natural. Aliás, nenhum ser natural expõe ideais divinos, como a arte o faz (HEGEL, 2001, p. 51).
Nesse Sentido, o homem é uma consciência pensante que “faz a partir de si mesmo para si o que ele é e o que em geral é” (HEGEL, 2001, p. 52). Reconhecendo-se nas suas produções, de modo a adquirir a consciência de si mediante o impulso de modificar as coisas exteriores imprimindo nelas o selo de seu interior. Essa atitude do homem reflete a sua identidade enquanto sujeito livre, pois:
O homem faz isso para também retirar o mundo exterior de sua rude estranheza e para gozar, na forma das coisas, somente uma realidade exterior de si mesmo [...] a necessidade universal da arte é, pois, a necessidade racional que o ser humano tem de elevar a uma consciência espiritual o mundo interior e exterior, como se fora um objeto no qual ele reconhece o seu próprio si-mesmo (HEGEL, 2001, p. 53).
A arte, assim compreendida, comunica à consciência os interesses do Espírito, estendendo o pensamento conceitual aos produtos da bela arte, pois “o conteúdo da arte é a Ideia e [...] sua Forma e a configuração sensível imagética” (HEGEL, 2001, p. 86). O conteúdo e a forma artística estão configurados reciprocamente, assim, o sensível possibilita ao conteúdo, tornar-se representável. Em Hegel, a arte visa “expor a Ideia para a
intuição imediata numa forma sensível e não na Forma do pensamento [...] esta exposição possui valor e dignidade na correspondência e na unidade dos dois lados, da Ideia e da sua forma” (HEGEL, 2001, p. 88). Desse modo, a bela arte “é apenas um modo determinado de manifestação e exposição do verdadeiro e encontra-se, por isso, completamente aberta [...] ao pensamento conceitual” (HEGEl, 2001, p. 107). Sendo um reflexo do Espírito
Absoluto, ela revela em seus traços, formas e cores, a beleza presente no Verdadeiro que
ilumina a esfera finita mediante o brilho do belo na arte.
Portanto, Hegel considera a arte como manifestação da Ideia, este é o seu conteúdo absoluto. E este conteúdo se desvela como a liberdade do pensamento conceitual, pois “a reflexão da arte bela remete para o abandono das dimensões naturais da beleza para penetrar no âmbito da elaboração espiritual” (VERCELLONE, 2000, p. 31).
Esta é uma verdade processual que se afirma no percurso histórico do desenvolvimento no modo de conceber a arte, um devir que abarca, segundo Vercellone, o “caráter processual propriamente histórico de todo o devir artístico [...] e que testemunha a laboriosa disposição da verdade espiritual no seio da forma sensível” (2000, p 31). Essa compreensão conduz à superioridade do espírito e atribui à arte a alta posição de comunicar os interesses espirituais, visto que ela “assume e exibe deste modo a sua completa autonomia expressiva” (VERCELLONE, 2000, p. 33). Assim, a retomada da primeira objeção que apresenta a possibilidade de conhecer a essência, a coisa-em-em, o
Absoluto, conduz à discussão da arte livre.
4.2 O DOMÍNIO DAS NECESSIDADES FINITAS E A PREOCUPAÇÃO COM A