4.2 RAPD DNA Polimorfizmi
4.2.7 OPB 10 Primer 5 Primeri
Ao longo de toda a história e, principalmente, após o fim da Segunda Guerra Mundial, o ideário das intervenções humanitárias ganhou bastante destaque no cenário internacional. As discussões acerca dessa temática tornaram-se ainda mais intensas após a criação da ONU, quando uma nova ordem internacional e contemporânea, fundada na cooperação entre os atores internacionais e cuja principal característica era a adoção de novos valores no sistema internacional – dentre os quais se destacava o respeito à pessoa humana –, fora estabelecida.
Em face dessas alterações, algumas normas tradicionais de direito internacional passaram a colidir com os novos paradigmas que se tentava estabelecer no cenário internacional. Esse era, pois, o caso dos embates axiológicos que vieram a surgir entre as noções de soberania, não-intervenção, proteção dos direitos humanos e normas de regulamentação do uso da força.
Tais conflitos acabaram gerando uma crise de legitimidade no direito internacional, de modo que, para solucionar esse choque axiológico e garantir uma abordagem holística do sistema internacional, tornou-se necessária a flexibilização dos conceitos tidos como tradicionais. Logo, por ter sido concebida como a garantidora da paz e da segurança internacionais, caberia à ONU – e mais especificamente ao CSNU – esse dever de resgatar a legitimidade do direito internacional.
Neste sentido, teorias como a da responsabilidade de proteger começam a surgir no intuito de dar uma resposta prática a essa crise de legitimidade, principalmente no que diz respeito à compatibilização entre as noções de soberania e intervenção humanitária, de modo a propor uma recaracterização da soberania – agora entendida como a responsabilidade do Estado de garantir a proteção de sua população – e incorporar dimensões de prevenção de conflitos e reconstrução da paz, bem como possibilitar a regulamentação da prática das intervenções humanitárias.
Não obstante, ao passo em que demonstra uma possível solução para essa crise, a responsabilidade de proteger também encontra grande dificuldade em ser posta em prática. Isso porque, muito embora o seu conceito tenha sido reconhecido pela Cúpula Mundial em 2005 – o que, ressalte-se, já demonstra um grande passo em direção à consolidação dessa teoria –, a falta de interesse por parte de certos Estados, muitas vezes, impede a sua devida
aplicação, uma vez que, para eles, a flexibilização da norma de não-intervenção se torna bem mais fácil quando não há previsão indicando o momento em que ela é devida ou necessária.
É, pois, dessa forma que a teoria da responsabilidade de proteger, mesmo encontrando-se devidamente delimitada – já que ela se relaciona apenas a situações de graves violações aos direitos humanos, tais como genocídio, limpeza étnica, crimes de guerra e crimes contra a humanidade – e eventualmente incorporada como norma do direito internacional, sempre se prestará a interpretações, uma vez que os debates que ocorrem no âmbito da ONU e, principalmente, do CSNU estão inevitavelmente impregnados de considerações políticas, econômicas e estratégicas.
No decorrer de sua existência e, principalmente, após o fim da Guerra Fria, o CSNU tem demonstrado certa seletividade quando da escolha dos conflitos que incorpora à sua agenda, deixando de incluir alguns com forte dimensão de direitos humanos, ao passo que, quando do tratamento dos casos que constam em sua agenda, tem adotado medidas que possuem efeitos marcadamente contrários ao gozo dos direitos humanos e que, muitas vezes, revelam-se ambíguas – quando considerações políticas se justapõem – e arbitrárias – quando a casos de origem semelhante são aplicadas solução completamente diferentes, a exemplo dos conflitos em Ruanda, na Somália e na Bósnia-Herzegovina.
Certamente um dos piores episódios de toda a história do século XX, o genocídio em Ruanda evidenciou os limites políticos da perspectiva de recorrer-se à força armada com objetivos humanitários, sendo, por esse motivo, um forte exemplo de como o direito internacional tende, na maioria das vezes, a ficar inerte diante de circunstâncias que necessitam de um posicionamento mais preciso por parte dos Estados e das organizações internacionais.
No caso em questão, o interesse em resolver a situação fora desenvolvido tardiamente, e as decisões acerca de uma intervenção humanitária eram sempre imprecisas. O termo genocídio fora constantemente evitado durante as discussões do CSNU, na tentativa de evitar implicações políticas e jurídicas aos seus Estados-membros perante a Convenção sobre a Prevenção e a Punição pelo crime do Genocídio, e os países que poderiam ter participado mais ativamente, ficaram de fora por não se sentirem responsabilizados pelo massacre.
Essa falta de vontade de agir demonstra os inúmeros obstáculos estruturais que a ONU possui, e que a impedem de solucionar a crise de legitimidade anteriormente mencionada. Isso porque ainda persistem inúmeros questionamentos relacionados à própria legitimidade do CSNU como entidade garantidora da paz e da segurança internacionais, o
qual, por apresentar-se mais como um órgão de natureza política, muitas vezes, age de forma arbitrária e inconsistente, nem sempre atuando conforme a vontade da sociedade internacional; mas, sobretudo, porque ainda existe, em boa parte de seus Estados-membros, um sentimento de manutenção do zelo aos preceitos mais tradicionais do direito internacional – principalmente no que diz respeito ao conceito de soberania.
Interessante notar, todavia, que a ICISS, ao elaborar a teoria da responsabilidade de proteger, não sugere a criação de outro órgão que substitua o CSNU. Na verdade, ela ressalta expressamente a necessidade de uma reforma estrutural na ONU, uma vez que, se endossada pela sociedade internacional, essa teoria ampliará as margens de atuação do CSNU, que, por sua vez, passará a ter assegurada a capacidade de intervir militarmente em situação de graves crises humanitárias. Logo, a redemocratização da composição desse órgão ajuda na construção de sua credibilidade e autoridade, tornando o processo decisório bem mais legítimo – embora isso não necessariamente signifique que as decisões se tornarão mais fáceis de serem tomadas.
Qualquer esforço consistente para reequilibrar o sistema da ONU, porém, depende da atuação de uma pluralidade de Estados com visões afins, que, em conjunto, estejam representados e atuantes nos diversos órgãos envolvidos nesta questão – incluindo aí, obviamente, o próprio CSNU – e que busquem incentivar a evolução do sistema internacional de modo a consolidar as conquistas alcançadas em termos de promoção e proteção dos direitos humanos, isentando-as de qualquer distorção ou possibilidade de manipulação.
Dessa maneira, a responsabilidade de proteger tenta reunir os avanços já alcançados na defesa dos direitos humanos para propor uma nova concepção à temática das intervenções humanitárias, dando à sociedade internacional meios para que possa buscar o equilíbrio entre o fortalecimento dos esforços pela paz e a necessidade de uma resposta condenatória às graves violações de direitos humanos quando da ocorrência de crises humanitárias.
Essa teoria, apesar de suas imperfeições, é válida e coerente com os esforços da ONU para tratar das causas profundas de conflitos internos que ameaçam a paz e a segurança internacionais, e, embora seus preceitos ainda encontrem dificuldades de implementação, representa um passo adiante na construção de uma política de proteção aos direitos humanos, principalmente quando a situação exige medidas mais duras, sendo a imposição da paz o seu objetivo maior.
Percebe-se, assim, que a temática das intervenções humanitárias não possui uma solução rápida e fácil, muito embora possa ser considerada um legítimo instrumento de proteção dos direitos humanos. Não obstante, somente com o fortalecimento da cooperação interestatal e o apoio das organizações internacionais é que se poderá imaginar um sistema que consiga garantir efetivamente a manutenção da paz e o respeito aos direitos humanos.
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