Como principal ponto de apoio dos programas de desenvolvimento da região Cuiabá passou a receber migrantes de outros estados; o crescimento populacional atingiu, nos momentos mais críticos, a taxa de 18% ao ano. Esses fluxos migratórios, muitas vezes formados por populações carentes, encontraram a administração municipal despreparada para enfrentar a nova realidade urbana, agravando os problemas de infra-estrutura nas áreas da saúde, educação, transporte, segurança e principalmente habitação, resultando em invasões de áreas públicas e privadas. Com as invasões no final da década de 70 novos bairros surgiram nas margens do rio Cuiabá e de seus afluentes, consideradas áreas de risco pela constante ameaça de inundação no período chuvoso. Essas áreas foram sendo ocupadas rapidamente, sem que o poder público tomasse as medidas necessárias.
Na década de 1970 o Plano de Desenvolvimento Local Integrado de Cuiabá - PDLI (NEW’PLAN, [s.d.]) foi elaborado estabelecendo normas e diretrizes para orientar o desenvolvimento da cidade. Já nessa época se alertava para um melhor aproveitamento das áreas verdes nativas, como as margens dos rios, face à carência de áreas públicas de lazer. A médio prazo, dentre os objetivos do plano, estava elevar o índice de área verde por habitante para 16m2 até 1990, otimizar a utilização das margens dos rios Cuiabá e Coxipó, preservar a vegetação existente nas áreas privadas e públicas da cidade, efetivar a utilização das áreas verdes previstas nos loteamentos aprovados e preservar áreas íngremes para arborização. Na época os instrumentos eram a Lei de Zoneamento e o programa de reserva, desapropriação e aproveitamento das áreas disponíveis para recreação e paisagismo. A manutenção de uma faixa verde entre o Rio Cuiabá e a Av. Beira Rio já era prevista, porém, só recentemente esse projeto começou a ser concretizado, com a inauguração do Museu do Rio em 1999 e do Aquário Municipal em 2000, desencadeando o processo de revitalização ribeirinha.
Na gestão do prefeito Dante de Oliveira, de 1986 a 1988, surgiram reivindicações exigindo um Plano Diretor para o município por parte da Câmara Municipal, motivadas por pressões populares e por órgãos como IAB, CREA, ADEMI, devido aos problemas decorrentes do crescimento acelerado da cidade, com taxas de 7% a 10% ao ano. Essa iniciativa surgiu antes da constituição de 1988, que determinou que cidades com mais de 20.000 habitantes deveriam ter um plano diretor.
Já em 1996, com a publicação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Cuiabá, disse o então prefeito José Meirelles que “No início da década de oitenta, a Câmara Municipal de Cuiabá deflagrou importante processo de discussões em toda a sociedade cuiabana sobre o futuro de nossa capital, antepondo de maneira sábia a premência de instituir o planejamento urbano como instrumento democrático de gestão de nosso desenvolvimento urbano que já se fazia acelerado. Todo esse processo de discussões culminou com a Lei n.2.259 de 26 de abril de 1985, artigo 58, que autorizou a criação do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Urbano - IPDU. Hoje que Cuiabá ultrapassou a casa do meio milhão de habitantes, entendemos o quanto fora acertada aquela decisão, que não podia mais ser retardada.” (Cuiabá. Caderno do IPDU, [s.d.], p.11).
O Plano Diretor, planejado para ser aprovado em etapas, vem sendo elaborado pelo IPDU - Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Urbano, vinculado à Secretaria
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Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura Municipal de Cuiabá, desde o ano de 1992, na época da gestão do prefeito Frederico Carlos Soares Campos. O processo de planejamento foi desencadeado com a aprovação da primeira etapa do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e o fortalecimento institucional derivado da transformação do Instituto em Fundação de Direito Público (Cuiabá. Caderno do IPDU, [s.d.]).
O IPDU é o Órgão de Planejamento e Apoio Técnico do Sistema Municipal de Desenvolvimento Urbano de Cuiabá, e tem a responsabilidade legal definida pela Lei Orgânica Municipal de propor o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Cuiabá. O Instituto originou-se de uma autorização legislativa de 1985, mas só veio a ser implantado em 1990. O IPDU tem como finalidade a elaboração, acompanhamento e monitoramento do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e seus desdobramentos; o Instituto conta com uma equipe multidisciplinar composta por arquitetos, advogados, assistentes sociais, economistas, engenheiros civis, engenheiros eletricistas, engenheiros sanitaristas, engenheiros de transportes, cartógrafos, geógrafos, geólogos, além de técnicos auxiliares e administrativos.
A elaboração do plano Diretor foi planejada em três etapas pelo IPDU, e só se passa à etapa seguinte depois que a anterior for aprovada. De maneira geral, essas etapas foram definidas da seguinte maneira:
1 a etapa: diretrizes gerais (já aprovada pela Câmara)
2 a etapa: diretrizes setoriais (com algumas leis já aprovadas e projetos de lei em discussão no Conselho e/ou aguardando aprovação da Câmara Municipal)
3 a etapa: planos locais; segundo o superintendente do IPDU, esta é uma “etapa pretensiosa, quando se pretende levar o plano até os bairros”.3
Esta é uma inovação em relação aos planos anteriores que eram concebidos de uma só vez. A Lei do Plano Diretor criou um sistema no qual o Plano está incluído; esse sistema, formado pelo Conselho, pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, pelo Fundo e pelo IPDU, cerca o Plano e redireciona suas ações quando necessário.
Os anteprojetos de lei são analisados por um Conselho que se reúne quatro vezes por ano, e reúne 36 pessoas: 12 representantes da Prefeitura, 12 representantes de órgãos do Estado e da União (Universidade Federal de Mato Grosso, CEMAT, SANEMAT, etc.) e 12 colaboradores, dos quais 4 são representantes de associações de bairros, e os demais representam entidades como o CREA, IAB, SINDUSCON, ADEMI, etc. Os 4 representantes da comunidade são indicados pelas associações de bairros e posteriormente nomeados pelo Prefeito. Nas reuniões do Conselho são apresentados os anteprojetos de lei; ao final, cada conselheiro leva a discussão para a sua entidade. As diretrizes gerais são apresentadas ao Conselho e distribuídas às Câmaras Setoriais; depois o Conselho reúne-se em plenário para discussão e aprovação. Segundo o superintendente do IPDU, esse processo de elaboração em etapas é mais lento, porém, mais participativo, e mais seguro de ser aplicado.
Fazendo-se uma avaliação crítica do processo de elaboração e dos resultados parciais já alcançados pelo Plano, pode-se dizer que ele apresenta uma série de inovações em
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relação aos anteriores e, apesar de estar ainda em fase de elaboração, já prenuncia algumas mudanças bastante positivas em relação ao método de elaboração de planos diretores comumente desenvolvidos no Brasil.
A maior inovação está na elaboração do plano; o planejamento em etapas é um avanço em relação aos anteriores; outro ponto positivo é a criação e o bom funcionamento do Conselho. Também é positivo o fato de que boa parte do plano é voltada para auto-aplicação, com a aprovação das leis. Já a aplicação das leis cabe à Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, mas a Câmara não fixa prazos; a partir da aprovação, o cumprimento e a aplicação ficam sujeitos a cada administração, a cada prefeito. O IPDU apenas acompanha e monitora essa aplicação.
O Plano já passou por quatro prefeitos; segundo o superintendente do IPDU, as linhas gerais do plano e a equipe do IPDU vêm sendo mantidas, com pequenas alterações; as leis já aprovadas vêm sendo cumpridas, e o sistema tem funcionado porque o Conselho pressiona a agilização dos trabalhos. Como exemplo, a criação das Administrações Regionais no Município de Cuiabá e o abairramento da cidade, que era totalmente informal até então, já foram aprovados pela Câmara Municipal. Em dezembro de 1997, após meses de discussão no Conselho e na Câmara, foi aprovada a nova Lei de Uso e Ocupação do Solo. Estão em implantação a regulamentação da Aquisição Onerosa de Potencial Construtivo, a Hierarquização Viária, o Relatório de Impacto Urbano e o Cadastro de Arborização Urbana.
A Lei de Uso e Ocupação do Solo de 23 de dezembro de 1997 propôs, entre outros, o adensamento populacional como forma de reduzir os custos dos serviços na cidade. A Lei propôs alterações em função da disponibilidade de infra-estrutura urbana com o aumento do limite de adensamento 4 (máximo permitido até então) para 6, em determinados locais. O documento aprovado diz que (grifo da autora):
Art. 5º. Esta Lei tem como objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes em padrões dignos de conforto ambiental, através de intervenções que:
I – assegurem condições de convivência entre as diversas funções urbanas; II – assegurem padrões mínimos e máximos de intensidade de Ocupação do Solo.
Pela Lei em vigor, o critério básico para a diferenciação dos parâmetros de ocupação do solo é a disponibilidade de infra-estrutura urbana. Seguindo esse critério as vias e logradouros públicos ficam classificados de acordo com sua disponibilidade de infra- estrutura nos seguintes padrões: inabitável, mínimo, médio, alto e máximo. Do padrão médio em diante, além da infra-estrutura mínima o mesmo deve contar com pavimentação e arborização pública consolidada, pela qual se entende a existência de árvores ou palmeiras adaptadas ao ambiente, como no mínimo 2m de altura. A Lei aprovada considera também como aproveitamento adequado do lote a existência e manutenção de árvore ou palmeira adulta, cadastrada pelo órgão ambiental do Município, na proporção mínima de um indivíduo para cada 180m2 de área do terreno ou fração. Para cada árvore ou palmeira adulta cadastrada corresponderá o desconto de 1% do valor do IPTU devido pelo imóvel. Também foi instituída a transferência de potencial construtivo através de aquisição onerosa junto
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à Prefeitura, que pode ser feita por compra, troca ou prestação de serviços. Os recursos provenientes dessa aquisição serão destinados ao Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano.
...
Após esta retrospectiva, torna-se mais fácil compreender o atual estágio de desenvolvimento da cidade de Cuiabá e os caminhos percorridos pela evolução urbana e pela arquitetura na região. Depois de sofrer um crescimento lento - em razão do seu isolamento dos grandes centros - e instável - em função dos altos e baixos da exploração do ouro e depois, da economia de um modo geral - Cuiabá vem se modificando rapidamente, e entra em uma nova fase de sua história, planejando a ocupação das novas áreas de crescimento.
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