A palavra axiologia vem do grego axios, cujo significado é estimativa, apreciação. A Axiologia, portanto, é a parte da Filosofia que estuda o problema dos valores, pelo que também pode ser chamada de Teoria dos Valores.8
O valor, por sua vez, é um ente objetivo, com uma essência própria, que não se exprime nem pelo ser nem pelo existir, mas pelo valer, justamente.
7 HERKENHOFF, João Baptista. Como aplicar o Direito. 7. ed. rev. amp. atual., Rio de Janeiro: Forense, 2001, p. 135.
Conclui-se, pois, facilmente, que a Axiologia Jurídica é a ciência que se ocupa da análise dos valores jurídicos.
O Direito é necessariamente sensível aos valores; é sempre uma tentativa de realização de valores (utilidade, liberdade, ordem, segurança, saúde e etc.) visando à consecução de fins necessários ao homem e à sociedade em geral. Nesse sentido, afirma o eminente jurista Miguel Reale:
Partindo-se da observação básica de que toda regra de Direito visa a um valor, reconhece-se que a pluralidade dos valores é consubstancial à experiência jurídica. Utilidade, tranqüilidade, saúde, conforto, intimidade e infinitos outros valores fundam as normas jurídicas. Estas normas, por sua vez, pressupõem outros valores como o da liberdade (sem o qual não haveria possibilidade de se escolher entre valores, nem a de se atualizar uma valoração in concreto) ou os da igualdade, da ordem e da segurança, sem os quais a liberdade redundaria em arbítrio.9
Esses valores próprios do Direito são chamados valores jurídicos: fenômenos sociais que merecem consideração da ciência jurídica em razão de sua interferência nas relações intersubjetivas, de onde inferimos que não se pode conceber a ideia de valor jurídico dissociada da ideia de coexistência. Todo valor jurídico é valor de comportamento conjunto, bilateral, justamente por isso, refletindo nas relações estabelecidas entre os membros da sociedade.
Os valores, cuja finalidade é implantar uma ordem justa na vida social, são mesmo considerados fontes materiais do Direito, assim como também o é a realidade social, gerando, dessa maneira, o conteúdo ou matéria do próprio Direito.10
Sobre a justiça, magistralmente afirmava o jurista italiano Giorgio Del Vecchio: “A Justiça é a pedra angular de todo o edifício jurídico”.11 A justiça realmente é o valor primeiro do Direito, encontrando-se na base de todas as instituições jurídicas indistintamente.
(...) a Justiça não se identifica com qualquer desses valores [todos os demais valores jurídicos], nem mesmo com aqueles que mais dignificam o homem. Ela é antes a condição primeira de todos eles (...). Ela vale para que todos os valores valham.12
9 REALE, Miguel, Lições preliminares de Direito. 27. ed. ajustada ao novo Código Civil, São Paulo: Saraiva, 2002, p. 375.
10 DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução à ciência do Direito. 17. ed., São Paulo: Saraiva, 2005, p. 258- 259.
11 Apud SIQUEIRA JR., Paulo Hamilton. Lições de Introdução ao Direito. São Paulo: Oliveira Mendes, 1998, p. 68.
(...) a justiça confere ao direito um significado no sentido de razão de existir. Diz-se, assim, que o direito deve ser justo ou não tem sentido a obrigação de respeitá-lo. Ou seja: a perda ou a ausência de sentido de justiça é, por assim dizer, o máximo denominador comum de todas as formas de perturbação existencial, pois o homem ou a sociedade, cujo senso de justiça foi destruído, não resiste mais às circunstâncias e perde, de resto, o sentido do dever-ser do comportamento.13
Indiretamente, Tercio Sampaio Ferraz Jr., supracitado, acaba por esmiuçar a Teoria da Justiça, objeto de estudo da Axiologia Jurídica, afirmando a importância capital do valor justiça para o Direito.
A teoria em comento prega que a justiça seria o elemento que nos permitiria estimar o Direito como legítimo ou ilegítimo. A justiça seria o único e verdadeiro fundamento do Direito. Logo, tanto mais legítimo e eficaz seria o Direito quanto mais ele conseguisse se aproximar do sentimento de justiça cultivado no espírito dos homens. E mais: a justiça exigiria que todos os esforços legais fossem dirigidos no sentido de atingir a mais perfeita harmonia na vida social.
“A justiça, que compendia todos os valores jurídicos, é a ratio juris, ou seja, a razão de ser ou o fundamento da norma, ante a impossibilidade de se conceber uma norma jurídica desvinculada dos fins que legitimam sua vigência e eficácia”.14
Para tanto, faz-se mister que o legislador, no momento criativo do Direito, tenha sensibilidade suficiente para captar o senso geral do justo, a chamada justiça coletiva.
(...). Ao legislador especialmente importa conhecer o sentimento coletivo de justiça, para que possa elaborar leis justas, adequadas aos interesses e conveniências sociais. Frequentemente, fala-se em leis injustas, exatamente porque elaboradas ao arrepio dos interesses sociais, sem prévia consulta à opinião pública a respeito da matéria legislada.15
Com efeito, essa tarefa reservada a priori ao Poder legiferante não é nada simples, pois a justiça, elemento basilar de todo o Direito, não se explica, não se define; justiça sente-se. A dificuldade de definição da justiça encontra-se muito bem traduzida nas palavras de Alaôr Caffé Alves, para quem o conceito de justiça pode apenas ser captado como “algo abstrato e universal que somente é possível entender-
13 FERRAZ JR., Tercio Sampaio. Introdução ao estudo do Direito: técnica, decisão, dominação. 2. ed., São Paulo: Atlas, 1994, p. 351.
14 DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 401.
se como algo comum encarnado em todo e qualquer ato de justiça, por mais diferente que seja”.16
Muito embora não haja um conceito concreto e absoluto do que seja justiça, são válidas algumas proposições, que podemos encarar como ponto de partida para reflexões.
No lapidar enunciado de Ulpiano, jurisconsulto romano de destaque: Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuere [Justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que é seu]”.17 Ou seja, aqui, a justiça é a condição maior da convivência humana, exigindo uma atitude de respeito para com os outros, dando-lhes aquilo que tenham direito de ter ou de fazer. À justiça compete assegurar efetivamente o devido a cada um. É, pois, um valor ético-social de proporcionalidade, vigente em situações bilaterais normativamente reguladas.
Já Aristóteles enxerga a justiça como virtude, como uma qualidade do autor e de sua obra, do agente e de sua ação.18
Justiça também é a intenção de compor harmonicamente os demais valores. Pode ainda ser vista como a proteção aos menos aquinhoados, assegurando- lhes acesso aos objetos que, aglutinados, formam o bem comum, com vistas ao mínimo de dignidade do ser humano.
Chaïm Perelman aproxima à ideia de justiça a de igualdade, afirmando: “La notion de justice suggère à tous inévitablement l’idée d’une certaine égalité”.19 É a justiça que promove a igualdade nas relações humanas; tratar de forma igual os essencialmente iguais e os desiguais desigualmente na proporção de suas desigualdades também é expressão de justiça.
“A justiça é a aplicação correta de uma norma como coisa oposta à arbitrariedade”.20 Esse é o entendimento de Alf Ross.
John Rawls, por seu turno, acredita haver justiça:
16 ALVES, Alaôr Caffé. Lógica: pensamento formal e argumentação: elementos para o discurso jurídico. Bauru: Edipro, 2000, p. 28.
17 ASCENSÃO, José de Oliveira. O Direito: introdução e teoria geral: uma perspectiva luso-brasileira. Rio de Janeiro: Renovar, 1994, p. 156 (tradução nossa).
18 FERRAZ JR. Tercio Sampaio, op. cit., p. 352.
19 A noção de justiça sugere inevitavelmente a todos a ideia de uma certa igualdade. (tradução nossa). PERELMAN, Chaïm. Étique et Droit. Bruxelles: Edition del’Université de Bruxelles, 1990, p. 25-26.
(...) se, ao atribuírem os direitos e os deveres não se estabelece nenhuma diferença arbitrária entre os homens e se as regras produzem um equilíbrio significativo entre as pretensões concorrentes para o bem da vida social.21
Segundo Miguel Reale, a justiça implica:
(...) constante coordenação racional das relações intersubjetivas, para que cada homem possa realizar livremente seus valores potenciais visando a atingir a plenitude de seu ser pessoal, em sintonia com os da coletividade.22
Sábias palavras as de Edgar Bodenheimer acerca do tema:
Falando de justiça em termos amplos e gerais, poderíamos dizer que ela se relaciona com a aptidão da ordem estabelecida por um grupo ou de um sistema social para a consecução dos seus objetivos primaciais. O fim da justiça é coordenar as atividades e os esforços diversificados dos membros da comunidade e distribuir direitos, poderes e deveres entre eles, de modo a satisfazer as razoáveis necessidades e aspirações dos indivíduos e, ao mesmo tempo, promover o máximo de esforço produtivo e coesão social.23
Justiça é igualdade, é proporcionalidade, é equivalência. Justiça é tudo isso e muito mais. É o fim último do Direito, pois, nas palavras de François Gény: “No fundo, o direito não encontra seu conteúdo próprio e específico senão no conceito primário e fundamental de ‘justo’ (...)”.24
Apesar de sua supremacia, a justiça não é o único valor jurídico. Evidenciam- se outros valores; dentre os de maior relevância estão a segurança, a ordem, a legalidade e a paz.25
A segurança jurídica pode ser compreendida como a certeza de que o Estado dispõe de um aparato jurídico capaz de garantir o cumprimento das normas legais e a proteção dos direitos pessoais e patrimoniais de cada um dos indivíduos da sociedade. Sem segurança, a ordem não existe ou é imperfeita, o que inquina a possibilidade de realização total dos fins da sociedade e das pessoas que a compõem. A coexistência dentro das possibilidades jurídicas de cada um, as relações intersubjetivas em conformidade com os ditames do ordenamento jurídico, o processo
21 RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Trad. Vamirech Chacon. Brasília: UnB, 1981, p. 29. 22 REALE, Miguel, op. cit., p. 377.
23 BODENHEIMER, Edgar. Ciência do Direito: Filosofia e Metodologia jurídicas. Trad. Enéas Marzano. Rio de Janeiro: Forense, 1962, p. 202.
24 Apud FRANCO MONTORO, André. Introdução à ciência do Direito. 25. ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 365.
de prevenção da ocorrência de conflitos no meio social, isso é ordem. É, portanto, a coexistência em heteronomia curvada às exigências da lei.
Quanto à legalidade, esta pode ser traduzida na necessidade de existência de normas objetivas elaboradas por um órgão competente (Poder Legislativo), as quais devem ser expressão legítima e direta dos verdadeiros anseios sociais, de modo a tornar possível a regência da vida da sociedade pelo que aquelas anunciam. A lei é, pois, a face objetiva da segurança jurídica.
Finalmente, tem-se a paz como a reunião de todos os demais valores jurídicos. “Uma sociedade justa, segura, ordeira e legalista, é o que se pode pensar de uma sociedade em paz, em que a convivência de seus membros se dá em clima de solidariedade e cooperação”.26
A paz é, fundamentalmente, o domínio do Direito nas relações entre os homens, pois, de acordo com a colocação de Helmut Coing “(...). O direito e a paz aparecem juntos. O direito traz a paz e a paz é o pressuposto de desenvolvimento do direito. (...)”.27
É como diz Pontes de Miranda: “O direito quer paz dentro e fora dele”.28 A paz, no entanto, apenas será alcançada onde a justiça tiver sido realizada.