• Sonuç bulunamadı

A frase que inaugura o romance, como já foi dito52, anuncia também o estado civil do narrador, que é casado, mas já não vivia com a mulher. Na realidade, não se saberá se ela de fato é legalmente a sua esposa ou se viviam juntos. Esse dado não parece afetar inicialmente a análise que aqui proponho, mas serve para ilustrar que mi mujer (e nunca mi esposa) é o modo como será chamada até que seja nomeada de fato, quase na metade do romance.

51 A respeito da instabilidade de sentidos dos nomes no romance, ver San Román (1997). 52“Há uma quinzena ou um mês que minha mulher de agora escolheu viver em outro país.”

75 Para Gustavo San Román (1997), “essa demora do batismo afeta em diversos graus a quase todos os personagens”53, o que levará a um sistema de nomeação débil, tornando fluida e instável a identidade das coisas e pessoas em Cuando ya no importe. Neste aspecto se ancora a possibilidade de ambiguidades no romance, elemento tão caro à narrativa onettiana, que busca sempre se abrir às possibilidades interpretativas para o leitor, e não fechá-las. As ambivalências e indefinições de alguns episódios narrados – como no caso da prostituta adolescente não nomeada, de que falarei adiante – também revelam a cumplicidade do narrador com algumas personagens, que acaba por confessar apenas parcialmente o que relata. Para San Román, essa estratégia enunciativa está em conformidade com a condição de exilado em que se encontra Carr, e ilustra como é afetada a relação entre personagem/coisa e seu nome e, assim, o modo como o narrador se relaciona com sua ex-mulher será replicado ao longo do romance, com personagens que serão renomeados ou perderão seus nomes.

A mulher, que escolhera viver em outro país sem a objeção do narrador (por ser

dona de sua fome e de seu desejo), dissera a ele que lhe trazia má sorte. O fato é que

após sua partida, Carr de fato será renomeado, empregado e ganhará uma nova vida em outro país. As anedotas que conta, repassando os episódios de pobreza em Monte/França junto dela, revelarão que o casal frequentava um círculo de amigos intelectualizado, mesmo que não esclareça o nível de erudição de Aura

Nos consolávamos às vezes com refeições oferecidas por bons amigos, fofocas, discussões sobre Sartre, o estruturalismo e essa piada que as direitas querem universal, sabem pagar bem a seus crentes e a batizam de pós-modernismo. Participávamos, ríamos e adornávamos com nossos risos as frases engenhosas.54 (ONETTI, 2009a, p.346) O ressurgimento da esposa se dará pela caixa que envia da França e pela carta que acompanha a caixa, cheia de livros em francês, um toca discos e vários discos, além de um álbum com reproduções de pinturas. A caixa, mais do que trazer itens que lhe faziam falta na vida sanmariana, parece funcionar como um elemento perturbador da nova vida a que vinha se acostumando:

53 “Esta demora del bautismo afecta en diverso grado a casi todos los personajes”. (cf. SAN ROMÁN, 1997, tradução minha).

54 “Nos consolábamos a veces con comidas a las que buenos amigos nos invitaban, chismes, discusiones sobre Sartre, el estructuralismo y esa broma que las derechas quieren universal, saben pagar bien a sus creyentes y la bautizan postmodernismo. Participábamos, reíamos y adornábamos con nuestras risas las frases ingeniosas.”

76 A primavera se insinuava, para retroceder com vergonha, depois de duas ou três noites sem estrelas e abundantes trovões que buscavam ser temíveis antes de sua previsível renúncia. O débil sol de inverno se mantinha aquecido, suportável. O rio, sempre manso, continuava guardando temores e brisas. Na casona próxima à agua habitávamos somente Eufrasia, eu e a menininha, Elvira [...].

Como consequência da fracassada imposição do verão, nos restou uma garoa de gotas muito finas, permanente em noites e dias e que parecia

impregnada pelos olores da selva nunca invadida.

Às vezes dedicava meus dias, tórax desnudo, a recitar velhos contos a Elvirita que, sentada em meus joelhos ou meio adormecida na pequena cama, corrigia com socos amistosos toda modificação à lenda já escutada, já sabida. Depois da sesta, costume inevitável e feliz, ignorado até meus vinte e cinco anos de idade e descoberto com prazer no mormaço sanmariano, aceitava o chimarrão com mate e ervas que me cevava Eufrasia.

E, em uma de minhas idas a Santamaría, o doutor Díaz Grey me disse: «Amigo, só está lhe faltando um pingo rosilho ou tobiano ou

pangaré ou como seja que os chamem, para converter-se no gringo que se salvou da selva, mas tragou o folclore». A tudo eu sorria sem

dar resposta. A represa aguentava, assim como eu suportava a vida

imóvel a que um encontro e, em seguida, uma carta me tinham condenado.55( ONETTI, 2009a, p.375-376, grifos meus.)

Carr, a partir de então, descobriu-se alheio ao mundo externo a Santamaría, e este mundo vinha torturá-lo com seus elementos – que ele mesmo solicitara – e que se opunham ao seu novo universo, criando polaridades: Monte e a França são lugares de entendimento; “um mundo de verdade”; “um modo de estar no mundo, apesar da fome e

55 “La primavera se insinuaba, para retroceder con vergüenza luego de dos o tres noches sin estrellas y abundantes truenos que buscaban ser temibles antes de su previsible renuncia. El débil sol del invierno se mantenía entibiado, soportable. El río, siempre manso, continuaba atesorando temblores y brisas. En la casona próxima al agua habitábamos solamente Eufrasia, yo y la chiquilina, Elvira[…].

Como consecuencia de la fallida imposición del verano, nos quedó una llovizna de hilos muy delgados, permanente en noches y días y que parecía impregnada por los olores de la selva nunca invadida.

A veces dedicaba mis días, tórax desnudo, a recitar viejos cuentos a Elvirita que, sentada en mis rodillas o medio dormida en la pequeña cama, corregía con puñetazos amistosos toda modificación a la leyenda ya escuchada, ya sabida. Después de la siesta, costumbre ineludible y feliz ignorada hasta mis veinticinco años de edad y descubierta con placer en el bochorno san mariano, aceptaba los mates con hierba y yuyos que me cebaba la Eufrasia.

Y, en uno de mis viajes a Santamaría, el doctor Díaz Grey me dijo: «Amigo, ya sólo le está faltando un pingo rosillo o tubiano o pangaré o como sea que los llamen, para convertirse en el gringo que se salvó de la selva pero se tragó el folclore». A todo yo sonreía sin dar respuesta. La represa aguantaba así como yo soportaba la vida inmóvil a la-que una entrevista y luego una carta me tenían condenado.”

77 do frio”. O mundo do rio de Santamaría é o lugar das “incompreensões”; “da tristeza e da ausência”; “dos homens analfabetos”; “o lugar do nascimento da vida terrestre” (Carr sentia que “não estava verdadeiramente habitando um mundo real”)56. Os elementos metonímicos da cultura ocidental contidos na caixa – elementos tributários de certa cultura do Ocidente, na verdade –, na medida em que restabelecem a materialidade do que antes era ausente para Carr, lhe impõem uma nova consciência do universo que o rodeia em Santamaría. Com a caixa de madeira ele reordena o mundo à sua volta e permite que sua mulher seja enfim nomeada: Aura.

Ele, então, tomará Aura como referência e, a partir dela, atribuirá sentido às outras relações que constitui. Eufrasia e Elvirita, por exemplo, serão categorizadas como “duas fêmeas de idades muito distintas e semianimais”. Nesse sentido, a oposição natureza/cultura que ele estabelece a partir da caixa também ordena suas relações pessoais.

Outra relação será estabelecida com a chegada da caixa: a reprodução da pintura A cortesã com o colar de pedras preciosas, de Picasso, que será retirada do álbum enviado por Aura, será pregada na parede da casa e personificada pelo narrador: “recordei de imediato quanto me havia deleitado e feito sofrer aquela mulher durante uns meses que vaguei por Buenos Aires como marinheiro sem patrão.”57 (ONETTI, 2009a, p. 378). A luz do sol de certa forma a humanizará, alterando sua cor e realçará a presença da mulher de papel, despertando em Carr lembranças e catarses. A figura da mulher consegue colocar seu passado diante de seu presente e confrontá-lo, de modo que ao olhar para a cortesã, se lembrará do jovem que um dia foi, e o inveja: “Deitado na espreguiçadeira, olhando a cara sensual e ordinária da mulher com seu grande chapéu emplumado, imaginava estar atrás do rapaz extraviado, tolerado pelos guardas, os olhos pregados com reflexão e êxtase na pintura tão alheia.”58 (ONETTI, 2009a,p. 378).

Diferentemente de Aura, a quem chama de minha mulher, ele chama a cortesã de “meu amor”. Se o narrador mostra dificuldade em lidar com a entrega amorosa para mulheres de carne viva – tal como Aura, abandonada no meio de uma caminhada –, a

56 Todas as citações do trecho estão em ONETTI, 2009a, p. 376-378.

57 “recordé de inmediato cuanto me había deleitado y hecho sufrir aquella mujer durante unos meses que vagué por Buenos Aires como marinero sin patrón.”

58 “Echado en el camastro, mirando la cara sensual y ordinaria de la mujer con su grande sombrero emplumado, imaginaba estar a espaldas del muchacho extraviado, tolerado por los guardianes, los ojos clavados con reflexión y éxtasis en la pintura tan ajena.”

78 mulher de papel, de certa forma, representa uma possibilidade de se relacionar; ele passava as tardes da juventude em Buenos Aires contemplando o quadro no Museu e, agora, em Santamaría, em momentos de solidão absoluta, fixava-se no retrato. Ele não responde à pergunta posta por Elvirita: “ela é sua namorada?59” (ONETTI, 2009a, p.378), mas quando ela retorna já moça para visitá-lo, evoca de novo o vínculo afetivo do homem com a pintura: “Se lembra? Sua noiva, não é?60” (ONETTI, 2009a, p.429

Assim, se não podia mais ter Aura como esposa (que se tornou apenas “[s]ua no que se pode”61) (ONETTI, 2009a, p.386) “com um sentimento de posse e crueldade”, cravou a reprodução no “simulacro de tabique feito de tábuas” e esperou que seu corpo inchasse, tal qual o de uma grávida. Enviada pela ex-mulher, a figura da Cortesã se revela a Carr como um fantasma.

Ao pensar a questão do fantasma como uma condição melancólica na cultura do Ocidente, Agamben recorre ao estudo do fetiche em Freud, que abordará o problema da falta – tão caro no âmbito da psicanálise freudiana – a partir do falo inexistente na mãe e seus mecanismos de substituição pelo indivíduo, e notará que o fetichismo não está apenas associado ao trabalho do inconsciente infantil; Agamben (2012) pontua que a produção do objeto-fetiche também se relaciona com “os outros objetos da cultura humana enquanto atividade criadora de objetos”. Desse modo, pode-se pensar a apropriação da imagem da cortesã enquanto objeto físico e palpável, tal como o objeto- fetiche, “algo concreto e até tangível; mas como presença de uma ausência, [...] ao mesmo tempo, imaterial e intangível, por remeter continuamente para além de si mesmo, para algo que nunca se pode possuir realmente”. (AGAMBEN, 2012, p.62). A figura do colecionador que Agamben evoca e que se associa a Carr, na medida em que este arquiva memórias ou expõe objetos (como as reproduções do álbum de pinturas francesas enviado por Aura que ele irá pendurar na parede) será retomada no último capítulo desta tese. Por ora, me detenho na relação entre a cortesã e a ex-mulher.

A carta de Aura (a que fará referência só um tempo depois de reconstituir o episódio da chegada da caixa) permite que se estabeleça no romance a voz de uma outra instância narrativa ao ser copiada no diário. O recurso da carta lhe atribui voz própria, poder de falar e, inclusive, de se nomear. Ali se vê uma mulher ainda ferida pela ruptura

59“Es tu novia?”.

60“ ¿Te acordás? ¿Tu novia, verdad?”

79 do relacionamento (e o final da carta parece apontar que foi ele quem a deixou) e que deseja magoá-lo também, confessando-lhe ter passado uma noite com seu amigo Tom. A narrativa da esposa na carta permite também que se reporte a outro narrador, na medida em que será o americano quem contou a Aura sobre os negócios escusos de Carr, e também sobre Santamaría, o prostíbulo, Eufrasia e Elvirita.

Assim, a mulher, a partir do que ouviu, se põe a criar, revelando seu imaginário sobre a cidade e o prostíbulo (semelhante a uma caixa de Ford que vinha dos EUA, com cortina de lona, etc.), o que em certa medida dará a Aura o estatuto de autora de relatos sobre o vilarejo, tal como Brausen, Carr e Díaz Grey. Sobre o ato de imaginar, Aura dirá: “Divagar é incoerente como uma droga, uma confissão que não se dá jamais por inteiro, mas alivia”(ONETTI, 2009a, p.386)62. A mulher trata também de imaginar como é a relação de Carr com a servente e a menina:

Tom, amigo de causas perdidas, me informou que, por ordens superiores, havia te abandonado aí para que apodreça, acompanhado por uma mulata hedionda e uma menina loura, a quem deve estar vendo crescer até um momento melhor. Te conheço bem, pelo menos nesse terreno.

Assim como se engorda um peru para o natal, estará amadurecendo-a com carícias, mimos e tolerâncias. Pobrezinha. Ou talvez se case com a negra mal cheirosa e a menina se converta em filha, e que belo incesto. […] Tom me disse, por alto, que nessa excrescência de Santamaría tem um prostíbulo. Talvez isso te livre das possíveis maldades prognosticadas. Assim imagino e espero que salve sua alma imortal. (ONETTI, 2009a, p.385-6).63

Considerando-se o desenrolar do enredo após a carta, pode-se dizer que, de certa forma as previsões da ex-esposa se realizam: Carr se envolverá com Eufrasia sexualmente (e o decadente militar Autoridá até dirá que são casados) e sentirá um enorme afeto pela menina Elvirita e “desespero” pela moça Elvira (a quem o militar se

62 “Divagar es incoherente como una droga, una confesión que no se da jamás entera pero alivia”.

63 “Tom, amigo de causas perdidas, me informó que, por órdenes superiores, te había abandonado, ahí que te pudras, acompañado por una mulata hedionda y una nena rubia a la que estarás viendo crecer hasta un momento mejor. Te conozco bien por lo menos en ese terreno. Así como se alimenta un pavo para las navidades, la estarás madurando con carícias, mimos y tolerancias. Pobrecita. O tal vez te cases con la negra maloliente y la niña se convierta en hija y qué bello incesto.[…] Tom me dijo al pasar que en esa excrecencia de Santamaría hay un prostíbulo. Tal vez eso te libre de las posibles maldades pronosticadas. Lo imagino y espero que salve tu alma inmortal.”

80 referirá como filha de Carr). Aura, como um oráculo, uma vidente, parece revelar o futuro de Carr. Nesse sentido, ela instaura o elemento trágico na vida de seu ex-marido ao lhe revelar o destino inelutável a que estará prescrito, confirmando a revelação do início do romance: “eu sei que te trago má sorte.”64(ONETTI, 2009a, p. 346). Assim, mesmo que Aura não participe diretamente de nenhum evento que rege a trama de Cuando ya no importe, ela parece determinar o modo como Carr se relaciona com outras mulheres.

Aura vai se afastando de Carr, legando a ele uma triste vida; desta forma, a ex- mulher instaura, na vida do autor, um outro sentido de tragicidade, agora a partir do abandono, do amor não mais correspondido. “Fazia tantos meses que nada me chegava de Aura, nome que em outros tempos expressava nosso carinho. Nunca saberá quanto sigo amando-a.”65(ONETTI, 2009a, p. 409). A distância, a perda da intimidade e a impossibilidade de comunicação entre o antigo casal marcarão a mutação de Aura para Aurora (acrescentando-lhe ao nome mais uma sílaba, aumentando a distância gráfica entre as duas pontas do nome), de Aurora para Distante – Lejana (que de adjetivo torna- se substantivo e, em seguida, nome próprio, expresso pela maiúscula e pelo vocativo):

Na vida de todo homem normal e maduro há sempre uma mulher distante [lejana]. Pela geografia ou pelos dias. Nunca voltarei a ver minha distante [lejana]. Se vive, pisa um ponto da terra ignorado por mim. E se chegar a produzir-se o milagre, já murcho, do reencontro, tampouco te ofereceria meus escritos como leitura. Talvez, Distante [Lejana], te mostraria o montão de folhas como uma envergonhada e lastimosa prova de que eu estive vivendo em sua ausência.66(ONETTI, 2009, p.425-426).

O nome da personagem ainda dialoga com a narrativa fantástica/fanstasmática homônima de Carlos Fuentes, na medida em que a personagem Aura/Consuelo, também se revela em seu caráter fanatasmático. Em Cuando ya no importe, desde o princípio, o lugar fantasmático que Aurora ocupa é evidenciado, o que será replicado sucessivamente até o fim do romance, com a saída de todas as mulheres de sua vida, tendo todas elas se tornado distantes.

64“Yo sé que te traigo mala suerte.”

65 “Hacia tantos meses que nada me llegaba de Aura, nombre que en otros tiempos expresaba nuestro cariño. Nunca sabrá cuanto la sigo queriendo.”

66“En la vida de todo hombre normal y maduro hay siempre una mujer lejana. Por la geografía o los días. Nunca volveré a ver a mi lejana. Si vive, pisa un punto de la tierra ignorado por mí. Y si llegara a producirse el milagro, ya marchito, del reencuentro, tampoco te ofrecería mis apuntes como lectura. Tal vez, Lejana, te mostrara el montón de hojas como una avergonzada y lastimosa prueba de que yo estuve viviendo en tu ausencia.”

81