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“O sonho pela humanização, cuja concretização é

sempre processo, e sempre devir, passa pela ruptura das amarras reais, concretas, de ordem econômica, política, social, ideológica, etc., que nos estão condenando a desumanização”.

Paulo Freire (1997, p. 99).

O cenário escolar em Passo Fundo ocorre como consequência da constituição histórica da sociedade brasileira, em especial, na articulação com o processo de urbanização do Rio Grande do Sul, no século XIX.

Segundo Giolo (1994,) a instrução pública no RS, até o final do regime monárquico, pautava-se quase que exclusivamente na instrução provincial, isto é, mantida pelos cofres da Província. Também o autor afirma que, “antes da Independência, apenas tímidas e esparsas experiências escolares foram levadas a efeito entre a população gaúcha” (GIOLO, 1994, p. 12). Como consequência desse processo, o autor aponta que, no recenseamento de 1890, Passo Fundo tinha cerca de 19.000 habitantes, dos quais 17.000 eram analfabetos, o que leva à conclusão de que apenas 10% da população tinham acesso à escolarização, formando uma verdadeira elite educacional.

Esse quadro era generalizado na sociedade brasileira, impondo a necessidade de expansão dos processos de escolarização em nosso país, que iniciou por meio das profundas transformações nas últimas décadas do século XIX e se estenderam até a segunda metade do século XX.

Em Passo Fundo, documentos da época25 apresentam preocupação dos legisladores com a democratização da educação. Verifica-se ainda a constante preocupação com a questão pública, através da intensa solicitação de verbas para outras instâncias de poder, na perspectiva de aumentar o número de estabelecimentos de ensino. Contudo, no aspecto prático, as escolas, principalmente as criadas na cidade no período de 1920 a 1930, apresentavam-se um tanto quanto seletivas. Eram mantidas pelo poder público municipal, em geral, escolas unidocentes e mistas, que funcionavam nas sedes das fazendas e visavam a atender, sobretudo, aos imigrantes. O índio, o negro e o caboclo continuaram à margem das instituições sociais e, principalmente, da escola.

Nesse sentido, Ghem (1976) salienta que a escolarização pública em Passo Fundo foi sendo implantada de forma muito lenta e pautada nos princípios positivistas da época. As poucas escolas que existiam nas comunidades que faziam parte do município eram destinadas aos filhos de imigrantes, e os filhos de pessoas mais favorecidas eram internados em colégios religiosos.

Porém, conforme a população foi aumentando, o número de escolas passou a ser insuficiente. Então, instalaram-se no município as primeiras congregações religiosas, com o fim de educar as crianças e os jovens. Os padres palotinos sentiram a necessidade de fundar uma escola para meninos, construindo a escola Nossa Senhora da Conceição. Posteriormente, em 1923, cinco religiosas de congregações das Irmãs Nossa Senhora vieram a Passo Fundo a convite de um padre franciscano, para abrir uma escola destinada a meninas, fundando o Colégio Notre Dame. Ambas encontram-se em funcionamento atualmente.

Essas escolas religiosas eram destinadas aos filhos de agricultores europeus, tanto em Passo Fundo, como em todo o Rio Grande do Sul. Os nativos e os caboclos frequentavam as escassas escolas municipais, ampliando, assim, o quadro de analfabetos nas camadas populacionais mais pobres.

Hoje, Passo Fundo apresenta ainda as marcas deixadas pela história. Assim, constatam Dal Moro e Longhi (1990), quando abordam a questão do analfabetismo:

25 Relatório da Intendência Municipal, ano de 1921, disponível para pesquisa no Arquivo Histórico

Para começar, pode-se dizer que o Planalto rio-grandense não foge à regra, constituindo-se, como as demais regiões do Estado, em cenário da produção do analfabetismo e da tendência secular de sua reprodução. Mesmo onde se adensa a rede escolar não foi possível, até hoje, estancar totalmente a vertente do analfabetismo, que tem na faixa etária da escolarização obrigatória a sua fonte alimentadora (DAL MORO; LONGHI, 1990, p. 32).

No decorrer do tempo, as mudanças sociais e econômicas do País foram impulsionando a mudança desse quadro, em que a educação escolar passa a ser pauta de muitas conferências mundiais, resultando na regulamentação da educação através de leis e decretos. No Brasil, surgiu a primeira lei que regulamenta a educação na década de 60 e foi reformulada na década de 70. Essas leis se pautavam no modelo político e econômico da época, no qual a educação era vista como “salvadora da pátria” e devia abrir caminhos para o desenvolvimento econômico do país. Dessa forma, fortaleceu o lema “Educação para todos”, e, com isto, muitas escolas públicas foram criadas, tanto no meio urbano como rural.

Em Passo Fundo, surgiram, nessa época, quatro das maiores escolas estaduais do município, porém ainda tendo como alvo os filhos das classes médias e altas da população, e, considerando as suas localizações geográficas, todas construídas no centro urbano da cidade.

No início do século XXI, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN nº 9394/96, visava a objetivar os compromissos firmados e contidos em documentos internacionais e nacionais na perspectiva de uma Educação Básica para Todos (Conferência Mundial de Educação para Todos – 1990 e a V CONFINTEA – 1997). Esse momento histórico amplia a discussão e, consequentemente, as ações em prol da democratização do acesso a educação, desencadeando mudanças gradativas nos sistemas educacionais, quanto a concepções e financiamento. Surgem, desta forma, não somente a necessidade de expansão das redes públicas de ensino, mas também, a ampliação da rede privada. Tal expansão cria também novas modalidades de ensino, bem como novos cursos, ultrapassando os limites da educação básica. Assim, pois, surge a necessidade de formação e ampliação do quadro docente, demandando cursos de formação de professores e pesquisas nesse campo.

Esse movimento vai compondo o cenário educacional de Passo Fundo, em que, atualmente, é constituído por 73 escolas públicas (34 estaduais e 39 municipais) e 9, da rede privada. Possui ainda oito instituições de Ensino Superior, oito da rede privada e uma da rede pública federal. Portanto, a única instituição pública federal do municipio de Passo Fundo se configura o campo empírico da presente pesquisa – o Instituto Federal de Educação, Ciencia e Tecnologia Sul Rio- Grandense – Campus Passo Fundo.

Benzer Belgeler