Ao chegar à rua Otávio Rocha, onde acontecem os encontros semanais, tomei um susto: um grupo de policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar estava na esquina. Não entendi o que se passava. Segui para o local da reunião, mas confesso que estava assustada.
Faltavam 20 minutos para às sete e a Rosa já estava lá, assim como o presidente do IFF. A Lojinha Dendê Sol também estava aberta. Esse horário no bairro tem forte movimentação de pessoas, especialmente as crianças, que brincam nas calçadas estreitas e tomam as ruas como extensão das calçadas.
As praças aqui têm sua geografia humanizada, as pessoas se apropriam desses espaços, as brincadeiras infantis... tudo me faz lembrar de Martín-Barbero, quando ele se referia a essa arquitetura para humanos no bairro. Senão vejamos:
Mas não um bairro restrito a uma função, tendo pelo menos quatro: residência, oficina, depósito e loja. Ou seja, “uma arquitetura para humanos”, um espaço, que em vez de separar e isolar, comunica e integra: a casa com a rua, a família com a vizinhança, a cultura com a vida. E desse modo “a cultura aqui não é oficial, não transmite informações boas nem más, não é propriedade de ninguém, é um modo de ser, viver e morrer”. E como o bairro em seu conjunto, cada elemento tem também múltiplas funções. A rua não é mero espaço de passagem, e sim de encontro, trabalho e jogo. O pátio das quadras, com tanques de lavar roupa e varais, é local de conversa e conjunto escultórico (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 275).
Já me sinto à vontade com o grupo. Fui chegando e logo perguntando pela feira do dia 07, que antecedia o Dia das Mães. A expectativa delas era grande, pois esperavam vender bastante nesse dia. Era também a data em que o grupo comemorava cinco anos de existência.
A Rosa estava animada, foi sentando e me contando que havia muita gente, que o resultado foi bom. Expliquei então que não poderia ficar naquela noite, tinha um compromisso: levar meu filho ao médico; ele estava com a virose. A menção a esse fato levou a outra conversa: Rosa disse também que sua filha estava doente e que tinha tentado marcar uma consulta, mas só tinha conseguido para o dia seguinte. Falou um pouco, então, que naquela semana tinha levado a outra filha ao dentista. Por um instante, nossa conversa foi sobre a maternidade, acerca de filhos, obrigações domésticas. Gérbera foi chegando e já foi falando também da sua rotina como dona de casa, os afazeres, a faxina que havia feito naquele dia.
Combinei então de voltar na próxima segunda-feira. Crisântemo, que é irmão da Gérbera, também chegou. Ele vende caipirinha na feira e cuida do som.
A nossa conversa, eu, Gérbera, Rosa, Begônia e Crisântemo, aconteceu sem a presença do dirigente do IFF. Ele havia saído. Quando retornou, comentou sobre o que motivara a presença de policiais no bairro: naquele dia, ampla reportagem do jornal O POVO, denunciava que havia algumas áreas do bairro em que quadrilhas rivais estavam cobrando pedágio nos locais onde os moradores estavam se deslocando de ônibus para outras regiões da Cidade.
Conversamos então um pouco sobre esse cotidiano de violência. Havia o desejo de ir no dia seguinte ao jornal propor que fosse feita uma matéria sobre a vida do bairro, deslocada das questões da violência. Comentaram que esse tipo de reportagem é importante, mas que estigmatiza o bairro, especialmente os jovens que buscam opções de inserção na sociedade.
Quando saí, senti um clima diferente na rua. As pessoas pareciam mais animadas do que de costume, talvez pela presença dos policiais no bairro. Quando passei pelos policiais, parei e perguntei a um deles o motivo da ação no bairro. Um deles disse que estavam ali
porque havia quadrilhas que estavam cobrando pedágio em algumas ruas do bairro e estavam para garantir a segurança dos moradores.
Fui embora pensativa. Apesar de saber sobre a violência do bairro e também a respeito da violência que nos cerca em qualquer parte da Cidade, nunca senti medo de ir ao Dendê, mesmo à noite. A reportagem e a ação da polícia me deixaram mais atenta e, ao mesmo tempo, com um certo medo de transitar por aquelas ruas, fiquei a imaginar como estariam se sentindo os moradores do Dendê. No dia seguinte, nova matéria sobre o assunto. Dessa vez, uma entrevista com o delegado da delegacia do bairro.
Como jornalista, sei que é papel da imprensa denunciar os fatos e estimular que as soluções sejam buscadas. De alguma maneira a denúncia fez a comunidade sentir a presença da polícia de forma mais ostensiva, mas a minha questão é que o jornalista faz a reportagem e vai embora dali, mas a comunidade permanece e a referência de lugar violento permanece com eles. Será justo? De alguma maneira, aquela comunidade já tem muitas faltas: de emprego, de água, de condições dignas de vida e chega alguém de fora, para encontrar mais uma falta, a de segurança, que paradoxalmente não é exclusividade do Dendê, mas o tom da matéria constrói a imagem do bairro como de um gueto de violência, como se ali não brotasse uma vida que teima em viver a despeito de tantas ausências. Que identidades aquela matéria estaria ajudando a revelar/construir?
Como essa visão de fora para dentro passa a ser constituidora desses sujeitos? Essa é a pergunta que faço sobre os programas de rádio e que me ocorre repetir diante da repercussão da reportagem de O POVO – na verdade, ela é emblemática do tema que me move nesta pesquisa.