Dessa forma assentes e tendo em conta o fundo documental distinguido, demos início à consulta dos testamentos pelo livro de número 78, o qual contém as cópias dos documentos
registrados no ano de 1822. Operamos, então, movimento decrescente, até chegarmos ao livro de número 35, o último em que consta registro de testamentos com data dentro do recorte cronológico desta investigação, perfazendo, portanto, um total de 43 livros de registros.
Esclarecemos que alguns documentos foram elaborados no período anterior a 1780 e escriturados posteriormente, o que explica a presença, em nosso banco de dados, de testamentos com data de feitura anterior ao nosso recorte temporal. Estes somam 27 casos, sendo 1759 o primeiro ano fora do período estudado, apresentando um documento, enquanto a maior incidência de registros posteriores se deu em relação aos testamentos elaborados no ano de 1776: nove documentos.
Nosso banco de dados conta, por conseguinte, com todos os testamentos de mulheres que foram registrados no período de 1780 a 1822. Tal condição precisa ser esclarecida, pois é mister ter em mente que, ao se trabalhar com séries de testamentos, corremos o risco de deixar de fora do cômputo geral documentos pertencentes àquela série, considerando-se que muitos podem não constar dos livros de registros correspondentes ao intervalo de tempo estudado, somente aparecendo em livros posteriores. Cremos, porém, que tais ocorrências configuram- se como exceções. Optamos por não desprezar os documentos fora de nosso recorte cronológico, presentes nos livros consultados, haja vista a maioria deles (25 dos 27 testamentos) se referir à década de 1770, aproximando-se do marco inicial de nossa pesquisa. Destarte, também esses registros integram nosso banco de dados. Evidentemente que, para que alcançássemos nossos objetivos, durante o levantamento das fontes, pautamo-nos pela data de elaboração do texto.
Na produção do gráfico a seguir, identificamos o número de testadores por ano, masculinos e femininos, residentes na Comarca. Em seguida, processamos a inventariação do número de testadores cruzando os dados com a variável cor, permitindo-nos vislumbrar de forma mais panorâmica o conjunto dos testadores, considerando uma importante variável na composição da sociedade mineira colonial, qual seja, a qualidade das pessoas. Ressaltemos que, no caso desse dado, há porcentagem significativa de testadores que nada declararam (campo não consta – n/c), levando-nos, pelo menos a princípio, a considerá-los como pertencentes ao grupo dos brancos.
Lembramos que, para a realização deste cômputo, utilizamo-nos, como explicitado no Capítulo 1, do Banco de Dados de Inventários e Testamentos. Apresentamos o Gráfico 1, no qual consta o número de testadores, categorizados por ano e sexo, residentes na região.
Gráfico 1 – Número de testamentos lavrados por sexo e período (século XVIII)
Fonte:Banco de Dados de Inventários e Testamentos.
Observamos que o número de homens testadores é sempre superior ao de mulheres. Para o século XVIII, constatamos que, após a década de 1740, há um aumento substancial de homens testadores, principalmente a partir de meados de 1760. Ligeiro refluxo se inicia por volta de 1769, retomando-se o aumento nos últimos decênios do Dezoito. Para o universo feminino, no entanto, iniciando-se na década de 1740, há certa constância no número de testadoras, com visível acréscimo no final da década de 1770, marcada por decréscimos pontuais, mas que, de maneira geral, se prolonga até o final do século XVIII.
Em nosso banco de dados, no conjunto de 557 testadoras, 498 (89,4%) não declararam a cor, ao passo que 59 (10,6%) se disseram pretas, crioulas ou pardas. Já no Banco de Dados de Inventários e Testamentos, no campo não consta (n/c), encontramos o número de 236 testadoras (57,5%) para a totalidade de documentos femininos. Seriam, realmente, todas essas brancas numa sociedade caracterizada pelo “mulatismo” e na qual as mulheres forras desempenharam atividades na mineração e na agricultura, tornando-se, inclusive,
proprietárias de lavras e comandando o trabalho da mineração?
Para análise da questão, a seguir apresentamos o gráfico que correlaciona o número de testamentos à qualidade dos sujeitos.
Gráfico 2 – Quantidade de testamentos por cor e sexo
Fonte: Banco de Dados de Inventários e Testamentos.
Em um montante de 2.352 testadores, a partir do primeiro registro até o ano de 1800, como verificado no citado Banco de Dados, somando-se os testadores das categorias brancos e não consta, apuramos 1.844 documentos para homens e 260 documentos para as mulheres. Essa evidência põe em xeque, pelo menos parcialmente, as conclusões veiculadas por parte da historiografia de que a prática de testar no Antigo Regime era predominantemente exercida pelos brancos, constatação que, como vimos, deve ser relativizada para a região mineradora, haja vista, por exemplo, o número de mulheres forras as quais poderiam ter acumulado bens e, por isso, procedido ao ato de testar.
Não obstante a limitação do universo pesquisado, em termos de representatividade empírica dos dados fornecidos pelos testamentos, como explicamos, por conterem assinaturas e informações respeitantes às práticas de leitura e escrita, as aludidas fontes têm sido privilegiadas para estudos que visam compreender as práticas de letramento nas sociedades do Antigo Regime. De todo modo, são utilizadas de forma “indireta”, posto não terem sido “documentos produzidos com o objetivo específico de se registrar as capacidades de ler e escrever” (MORAIS, 2009, p. 206). No entanto, ainda que limitadas no que tange à abrangência dos grupos sociais e indireta para o estudo das práticas de alfabetização/letramento, revelam-se essenciais para a análise das relações dos sujeitos com a escrita, ao permitirem a coleta de dados de natureza social e, sobretudo, daqueles relativos às capacidades autográficas.
Também consideramos que a representatividade dos testamentos se mostra limitada. Defendemos, porém, por não intencionarmos analisar os níveis de letramento, acreditamos ser alargada a potencialidade dessa fonte. Dito de outra maneira: advogamos a ideia de que, ao
centrarmo-nos na análise dos usos da escrita, independentemente das capacidades autográficas dos indivíduos, os testamentos mostraram-se profícuos no atendimento aos objetivos desta pesquisa. Isso ocorre por termos nos libertado da autografia, privilegiando o conteúdo discursivo do documento em detrimento da identificação das formas como se efetivou a distribuição das capacitações alfabéticas. A premissa, portanto, é a de que os textos testamentais, escritos ou não pelo testador, revelam as finalidades e os sentidos conferidos à escrita. Isso se torna possível pelo fato de terem sido ditados, possibilitando-nos, assim, perceber indícios das experiências dos não alfabetizados com a escrita, consignando-os como
coautores.
Apesar de atentos às diferenças das propostas e dos objetivos existentes entre esta tese e aquelas dedicadas ao estudo da posse e dos usos da escrita, a partir da identificação das capacitações alfabéticas, buscamos, como afirmamos, tecer diálogo constante com alguns desses autores. Em especial, dada a proximidade dos objetos, estabeleceremos, quando possível, comparação com as considerações e os dados expostos por Morais (2009), respeitantes às práticas de letramento da população residente na Vila e Termo de São João del-Rei no período de 1750-1850.
Essa pesquisadora analisou 1.011 testamentos, entre originais e transcritos e explica que, para o período de 1760 e 1800, o número de testamentos originais encontra-se muito aquém do de documentos copiados em livros, realidade modificada a partir do século XIX, quando não há diferença muito significativa entre as duas quantidades de documentos. Em sua pesquisa, demonstra a existência de importante aumento no número de testamentos elaborados no século XIX.
Consoante tal estudo, “[…] observa-se que as três primeiras décadas do século XIX evidenciam uma elevação no número de testamentos, tanto nos códices quanto nos originais, com um pico em 1818 […]” (MORAIS, 2009, p. 208), este acréscimo poderia estar associado ao “intenso comércio da região com o Rio de Janeiro”, sendo “o maior poder econômico das pessoas que se encontravam de alguma forma ligadas ao comércio interprovincial tenha gerado uma maior acumulação de bens e fortunas e, dessa maneira, o aumento do registro de testamentos […]” (MORAIS, 2009, p. 208-209). Do mesmo modo, lembra a autora que esse acréscimo possivelmente apresenta relação com o grande número de epidemias no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XIX, levando a um maior temor da morte e ao reforço da prática de testar entre os moradores da região examinada.
Cabe sublinhar, como apontado por Magalhães (1994) e por Morais (2009), que a historiografia tem promovido o entendimento da expansão da alfabetização dos centros urbanos para as localidades rurais. A esse respeito, Daniel Fabre explica-nos que, nos espaços urbanos, em muitas ocasiões, “uns leem, os outros escutam ou, ao menos, veem, mas todos se aproximam, de perto ou de longe, da escrita, todos percebem-na e exprimem sua presença” (FABRE apud CHARTIER, 1996, p. 202).
Apesar de concordarmos com essa premissa, acreditamos que, diferentemente dos registros paroquiais, fontes utilizadas por Magalhães, é preciso ter cautela quando se relaciona o local de moradia com o grau ou nível de letramento do indivíduo, particularmente tomando- se os testamentos como indicadores, a exemplo da investigação levada a efeito por Morais. O lugar de moradia – e possivelmente de feitura do documento – pode não corresponder ao local de maior tempo de vivência do testador. Em poucos documentos, há o registro de quanto tempo a pessoa vivia naquela localidade. Seria preciso, pelo menos, obter indícios dessa informação para se tecer inferências mais precisas. Seja como for, ainda que esse tempo de moradia não corresponda à maior parte da vida, certamente a dinâmica social e econômica experienciada pelos sujeitos nos espaços urbanos contribuiu, em alguma medida, para o contato mais estreito com a escrita.
No caso da Comarca do Rio das Velhas, ao correlacionarmos as variáveis ano e
número de testamentos, detectamos que, a partir de meados de 1750, os índices de lavratura
de testamentos femininos se mantêm regulares, com pequenas oscilações. Ao tomarmos como referência o Gráfico 1, elaborado com base no Banco de Dados de Inventários e Testamentos, e o Gráfico 3, a seguir apresentado, elaborado a partir do banco de dados desta investigação, notamos, igualmente, a maior concentração de documentos femininos a partir da década de 1780, atingindo o ápice no ano de 1802.
Gráfico 3 – Número de testadoras por ano9
Fonte: Banco de dados desta pesquisa.
Excetuando-se os 27 casos mencionados, isto é, os testamentos elaborados em anos anteriores ao recorte temporal da investigação, teremos para o período de 1780-1822 o montante de 530 testadoras. No total de testamentos apresentados pelo Banco de Dados de Inventários e Testamentos (cf. Gráfico 1), há, como demonstrado, para todo o século XVIII, 260 documentos de mulheres. Se diminuirmos esse total do número de testadoras compilado em nossa pesquisa, isto é, 530, obteremos 270 testamentos de mulheres correspondentes ao intervalo compreendido entre os anos de 1801 a 1822. Em números absolutos, esse resultado poderia significar um aumento de testadoras nas primeiras décadas do século XIX. No entanto, tal inferência deve ser feita sob reserva e relativizada, pois esses números precisam ser confrontados com informações a respeito da dinâmica populacional da Comarca do Rio das Velhas no início do século XIX.
Seja como for, interessa-nos salientar que, durante o período sob análise, o ato de testar entre as mulheres se fez presente ao menos para parcela da população, revelando-se, pelos números apresentados, como prática na sociedade estudada. Disso se depreende que se a experiência com a escrita poderia ser pontual nas vidas dessas mulheres, de todo modo, atravessou a sociedade mineira colonial, exprimindo crenças, valores e projeções. Em última análise, possibilitou o exercício da rememoração, a concatenação de ideias, a seleção de lembranças e a enunciação de narrativas. “Escrever” para testar, ao longo do século XVIII e adentrando-se pelo XIX, permitiu a existência de expressivos momentos de posicionamento social, da validação de identidades e do reconhecimento e compreensão dessas “escreventes” sobre as experiências que viveram.
Outro aspecto importante a ser considerado no conjunto de testamentos compilados refere-se à distribuição do número de testadores assinantes, por ano, na Comarca do Rio das Velhas. Sua análise foi realizada com base em informações aferidas no Banco de Dados de Inventários e Testamentos, tanto para o universo masculino quanto para o feminino. Esses números, presentes no gráfico abaixo, possibilitaram-nos conhecer a proporção das mulheres assinantes no período compreendido nesta tese (1780-1822) comparativamente aos testamentos produzidos em período anterior (1726-1779), bem como permitiram-nos contrastar essa quantidade com o número de testamentos masculinos que foram assinados.
Gráfico 4 – Número de testamentos assinados por ano
Alicerçados nesses dados, é importante destacar que as quantidades de testamentos assinados de homens e de mulheres na Comarca do Rio das Velhas não apresentam grande diferenciação. Observa-se que, da década de 1720 até finais do século XVIII, não se verifica variação significativa em ambos os grupos. É perceptível somente discreto aumento a partir do final da década de 1780. Mesmo assim esse acréscimo no número de testamentos assinados se dá para ambos os sexos. O que inferir com base nesse equilíbrio apresentado entre os documentos assinados por homens e por mulheres? Se não a capacidade de escrever, pelo menos a de assinar estaria disseminada entre a população da região de maneira equilibrada entre os dois grupos? Mesmo possuindo níveis de alfabetismo distintos e guardadas algumas especificidades dos textos produzidos, homens e mulheres validaram a escrita de maneira semelhante? Ao que parece, pela observação dos dados, a resposta a essas indagações é positiva. Diríamos que, pelo menos em determinada circunstância, isto é, na ocasião de testar, a forma de validar o conteúdo escrito apresenta-se harmonicamente distribuída entre os sexos. Com relação aos testadores assinantes da Vila e Termo de São João del-Rei, Christianni Morais apresenta os seguintes números:
[…] do total de 1011 testamentos transcritos em códices, 673 assinaram
(66,5%), 80 fizeram um sinal (7,9% – cada qual uma cruz) e 242 (23,0%) não fizeram qualquer registro, afirmando não saber nem escrever ou não poder assinar, geralmente por motivo de doença. Do total de 784 testamentos originais, 519 assinaram (65,9%), 54 fizeram um sinal (6,8% – também cruzes) e 214 (27%) não registraram nada, pelos mesmos motivos citados. (MORAIS, 2009, p. 210).
Os dados trazidos pela pesquisadora revelam, assim, grande porcentagem de assinantes, tanto para os testamentos originais quanto para os traslados. O número de testadores que pegaram na pena para escrever o nome (ainda que não fique claro se se trata de nome inteiro ou somente do primeiro) chegaria, em ambos os casos, a soma superior à casa dos 60%. Em segundo lugar, com percentual bastante inferior, encontram-se aqueles que marcaram o testamento com uma cruz e, em seguida, numa porcentagem significativa, na casa dos 20%, os testadores que não fizeram nenhum sinal. Morais chama a atenção para o fato de que, apesar das diferenças de marcos temporais e regionais da realidade por ela estudada e daquela abordada por Luiz Carlos Villalta,10 os números trazidos pelas duas investigações assemelham-se. Nesse sentido, afirma que, no conjunto geral de testadores de São João del-
10
Villalta realizou pesquisa com os inventários de Mariana, elaborados entre 1714 e 1822, analisando as capacidades autográficas num universo de 911 inventariantes. Cf.: VILLALTA, 2007a.
Rei (homens e mulheres), o número de assinantes aumenta a partir da década de 1760, atingindo níveis superiores a 70% (VILLALTA, 2007a).
Parece-nos questionável, no entanto, a junção, feita por Morais, das rubricas às assinaturas do nome. Mesmo que rubricar significasse alguma distinção em relação àquele a quem marcava em cruz ou à pessoa não familiarizada com os materiais de escrita, acreditamos que esse ato não é equivalente à escrita do nome. Escrever o nome requeria, independentemente de se estar somente desenhando-o, conhecimento mais elaborado relativo à escrita. Exigia, do mesmo modo, maior traquejo e desenvoltura com os materiais destinados a esse fim. Se assim não o fosse, por que, então, existiriam escalas de assinaturas?
Especificamente com relação às mulheres, revela que, nos livros de testamentos, 35% dos documentos são femininos e, nos de traslados, 39% são documentos de mulheres. Já para Mariana, no universo estudado por Villalta, dos 911 inventariantes, 42% dos documentos eram de mulheres. Morais ressalta, ainda, as semelhanças desses dois trabalhos com as “pesquisas feitas na Europa, uma vez que evidenciam sobretudo a alfabetização do sexo masculino” (MORAIS, 2009, p. 215). Demonstra que os níveis inferiores de assinaturas femininas referem-se igualmente às testamenteiras, pois, no contexto estudado, apenas 10% destas assinaram. Além disso, explica:
[…] no caso dos testamenteiros, mais do que a capacidade de assinar, a
disparidade entre os números de homens que declararam não saber assinar chama a atenção quando comparados aos de mulheres: 11 homens (1,6% de 556 testamenteiros) e 59 mulheres (8,9% do total). (MORAIS, 2009, p. 226). Comparando com a realidade portuguesa propriamente dita, relativamente aos dados sobre os assinantes, Morais - por meio dos estudos realizados por autores daquele país, dentre eles, Maria do Céu Alves - constata que, em 1820, nas freguesias lusitanas de Santo André de Mafra e de Santo Isidoro, “no universo de assinantes, 91% eram do sexo masculino e 9% eram mulheres” (ALVES, 2003 apud MORAIS, 2009, p. 226). Conclui, assim, que tais índices “corroboram uma constatação comum para o período pesquisado: […] a de que não havia processos de alfabetização uniformes […] sendo o sexo masculino o que se alfabetizava primeiramente […]” (MORAIS, 2009, p. 227). Inferência com a qual concordamos.
No entanto, como vimos no Gráfico 4, para a região por nós estudada, pelo menos no século XVIII, a capacidade de assinar não se mostrou muito discrepante para homens e mulheres, permitindo-nos afirmar que, embora os homens se alfabetizassem primeiramente, isso não significou que as mulheres não pudessem aprender a grafar seus nomes, por vezes,
depois de adultas. Por outro lado, significaria que, sabendo ler e/ou escrever, muitos homens não assinaram seus testamentos, rogando a outros, provavelmente com maior destreza ao grafar, para assinarem em seu lugar.
No conjunto de 557 testadoras da Comarca do Rio das Velhas, 192 mulheres, ou seja, 34,5% delas, afirmaram assinar. No entanto, quando nos certificamos dessa informação, seja no texto do testamento ou no termo de aprovação, verificamos que somente 49 mulheres, isto é, 8,8% efetivamente grafaram o nome. Nesse conjunto, seis mulheres declararam assinar o testamento com sua firma (como sinônimo de nome). A declaração da escrita do nome, contudo, poderia significar saber registrar apenas isso, e não necessariamente ter a habilidade de escrever textos. Foi esse o caso de Maria Pereira da Costa, quando declarou: “[…] o assinei com a minha firma e nome, que somente sei escrever, presente as testemunhas abaixo assinadas” (MO/CBG/CPO/LT 73(-), fls. 14-18).
Somando-se todos esses casos, assinantes do nome e de firma, temos o total de 49 testadoras (8,8%) que efetivamente escreveram seus nomes. Dentre essas, encontramos uma que declarou ter escrito o próprio testamento. O restante das 192, isto é, 143 testadoras, ou 25,6%, mesmo dizendo assinar o documento, na verdade, marcaram em cruz/sinal ou o rubricam. Explicitemos. Destas, nove, isto é, 1,6% da totalidade das testadoras, certificaram escrever com próprio punho ou letra, não especificando se se tratava do nome propriamente dito, sendo que essa afirmativa poderia referir-se a apenas um sinal ou rubrica. Tomemos como exemplo o caso de Maria do Nascimento Vieira: “[…] assinei com meu sinal costumado, com o meu próprio punho fazendo uma cruz” (MO/CBG/CPO/LT 51(70), fls. 110v-114).
Diferentemente do cometido para a Comarca do Rio das Mortes, optamos, então, por não incluir entre a categoria das assinantes do nome aquelas testadoras que fizeram rubricas, pois, como dito, acreditamos que escrever o nome inteiro requeria habilidade diferenciada daquela exigida para grafar, por exemplo, somente a inicial do nome. Do mesmo modo, não incluímos as não assinantes em decorrência de algum tipo de moléstia ou declarantes de por
não poder fazê-lo como podia antes, tendo-se em vista não ficar claro há quanto tempo
existiria tal “impossibilidade”, ou seja, há quanto tempo a testadora não se “utilizava” da capacidade de grafar. Estes somam 12 casos (2,1%). De maneira semelhante, não computamos como assinantes as declarantes de impedimento, mas sem especificar o motivo, num total de cinco casos, ou seja, 0,9% do conjunto. Entendemos que, excetuando-se os casos de certas enfermidades, como das mãos ou olhos, não assinar por não poder fazê-lo, como
alegado por essas cinco testadoras, poderia significar não saber fazê-lo por ser mulher, como costumeiramente declarado.
Para a Comarca do Rio das Mortes, Morais verifica entre as mulheres naturais do Brasil “um percentual bastante reduzido de assinantes dos testamentos, quando comparado ao dos homens” (MORAIS, 2009, p. 231, grifos nossos). No entanto, explica também que, ao compararmos as taxas de assinantes das nascidas no Brasil às das portuguesas, moradoras em