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Com o reconhecimento, o MPLA priorizou as relações externas com o Brasil e o bloco soviético, que ministrava apoio bélico e econômico – este último insuficiente – durante a guerra civil que seguiu a independência. O Brasil servia de interlocutor entre o MPLA e o mundo ocidental, que rejeitava o governo socialista. A independência e guerra civil provocou a fuga dos investimentos estrangeiros no país, o bloco soviético não conseguia suprir as necessidades econômicas angolanas e os outros aliados africanos encontravam-se em situação semelhante à de Angola, imersos em seus próprios problemas relativos ao subdesenvolvimento. Em 1979 a Petrobras inicia a exploração na Bacia do Baixo Congo no litoral angolano, e em 1982, a Odebrecht assina o acordo com o governo angolano para a construção do complexo hidrelétrico de Capanda. O projeto resultou num acordo de exportação entre Brasil e Angola, transitando os recursos no Banco do Brasil para garantir o pagamento da dívida (PENHA, 1998 apud RIBEIRO, 2007, p. 59). O ajuste complementar que instituiu a primeira linha de crédito entre Angola e Brasil foi firmado em 12 de abril de 1983 em Brasília. Concedia US$ 100 milhões para a importação de bens alimentares e de consumo corrente, matérias-primas e outros pelo governo angolano, a serem fornecidos principalmente pelo Grupo Pão de Açúcar. Os recursos eram financiados pela extinta Carteira de Comércio Exterior (CACEX) do Banco do Brasil. A linha ainda se destinava a garantir os pagamentos à Odebrecht para a execução do Complexo Hidrelétrico de Capanda. Os créditos eram decorrentes da compra de petróleo angolano pelo Brasil, efetuados pela Sonangol à Petrobrás, com juros de 8,5% a.a. (BRASIL et ANGOLA, 1983). Esse mecanismo de garantia do intercâmbio comercial é conhecido como sistema de countertrade, baseado no intercâmbio
de bens entre países, sem ocorrer transação monetária. Este sistema constitui a base das linhas de crédito entre Brasil e Angola, que em 1988 eram três:
a de curto prazo, para financiamento de bens de consumo (180 dias), que variava de US$ 50 milhões a US$ 90 milhões; a de médio prazo, para os bens de capital (até 5 anos) que variava de 60 a 120 milhões de dólares; e a terceira, específica para a construção da hidrelétrica Capanda pela Odebrecht S.A., iniciado em 1984, e que absorveu recursos superiores a US$1,5 bilhão (JOSÉ, 2011, p. 218).
Em troca dos produtos e serviços brasileiros, Angola oferecia petróleo em contrapartida. Em outras palavras, a linha de crédito com Angola consiste na concessão de créditos, atualmente via BNDES, principalmente para as empresas brasileiras que exportam bens e serviços para obras de infraestrutura em Angola, tendo como garantias, recebíveis de petróleo. Os recursos provêm do Programa de Financiamento às Exportações (Proex) e do BNDES, sob a coordenação das operações pelo Comitê de Financiamento e Garantia das Exportações (Cofig).
Neste processo, cabe ressaltar ainda a importância da Odebrecht nas relações entre Brasil e Angola, com a criação de linha de crédito exclusivamente para o financiamento de uma de suas obras. Desde então, o Brasil já negociou 5 linhas de crédito com Angola, oficializando em maio de 2012 nova linha de crédito no valor de US$ 2 bilhões.
Os recursos serão desembolsados pelo BNDES em período de quatro anos a partir de 2013. Como contrapartida, o governo angolano comprometeu-se a manter um saldo em conta-garantia no Banco do Brasil equivalente a 20 mil barris de petróleo/dia. Esta é a quinta linha de crédito negociada com Angola desde 2006. O total de financiamentos aprovados soma US$ 5,2 bilhões. Desse total, US$ 3,2 bilhões correspondem às quatro primeiras linhas contratadas, sendo que desse valor ainda há US$ 1,2 bilhão por desembolsar (GOES, 2012).
Apenas 11 empresas foram beneficiadas pela linha de crédito do BNDES: as construtoras Andrade Gutierrez, Camargo Correa, EMSA, Mello Júnior, Norberto Odebrecht, Prado Valladares e Queiroz Galvão; para as empresas Corib Importação e Exportação, Embraer, Nigata Comércio Internacional e a Seaport Comércio Internacional (BNDES, 2012). As duas últimas pertencem ao grupo VMD, sob investigação da Polícia Federal por lavagem de dinheiro, superfaturamento e corrupção (OTAVIO et JUPIARA, 2011).
O BNDES pretende expandir o modelo para outros países africanos, como Moçambique e Gana46, iniciando ainda negociações para assinatura do memorando de
46 A linha de crédito de Moçambique seria com base em garantias recebíveis em carvão e a de Gana em recebíveis em petróleo.
entendimento com o Banco Africano de Desenvolvimento visando a constituição de fundo de financiamento não reembolsável voltado para a elaboração de projetos de investimento na África.
A linha de crédito com o Brasil foi a primeira linha de crédito negociada e implementada por Angola. O financiamento da linha de crédito pelo BNDES se insere na atuação do banco na área de comércio exterior e incentivo à internacionalização das empresas brasileiras, na estratégia de tornar o Brasil mais competitivo no cenário mundial através de empresas que operem em escala global, e permitiria ambiente mais propício de negócios às empresas brasileiras. No entanto, conforme observa Alexandre Trabbold (2011), gerente regional da Apex em Luanda, afirma que a linha de crédito foi criada para garantir o pagamento do governo angolano à Odebrecht, não se destinava aos exportadores brasileiros em geral. Estima-se atualmente que cerca de 80% da linha de crédito se destine à Odebrecht47. Tal postura do governo brasileiro resultou no reorientação da política de negócios de algumas empresas brasileiras, que passaram a adquirir empresas europeias para beneficiar-se das linhas de crédito concedidas pelos países europeus. Os 20% restantes se destinariam às outras empresas de construção civil que operam em projetos de infraestrutura no território angolano. As demais atividades produtivas, que produziriam maior impacto positivo sobre a economia angolana, ou os exportadores brasileiros, que necessitam de maior apoio governamental para atuar no mercado internacional, não são beneficiados pela linha de crédito.
O argumento do governo brasileiro é que o destino dos recursos da linha é definido por Angola, esta define as empresas que a receber o pagamento pelos produtos e/ou serviços prestados, atuando o BNDES como executor de ordem de pagamento.