2. KIÇ KASARA
2.2. Kıç Kasara Yapmak
2.2.2. Kıç Kasara Elemanlarının montajını yapmak
Durante a Idade média, a noção de pecado foi amplamente difundida pela Igreja como um modo de disciplinar as condutas a serem seguidas pelos cristãos. Assim, todos os homens desejosos de alcançar o Paraíso e a salvação eterna deveriam buscar uma vida virtuosa e penitente, a fim de serem absolvidos do pecado que carregariam por natureza e por suas más ações.
É quase impossível discorrer sobre o período medieval sem falarmos em pecado, em sanções, em castigos e em punições, pois havia naquele período uma compreensão de que os homens eram seres fracos e viciosos, e suas vidas deveriam ser uma batalha contínua contra o mal. Portanto, a visão de mundo do homem medieval era traçada pela teologia e pela escatologia da Igreja cristã, que tinha grande poder para normatizar e para moralizar a vida em sociedade.
Os homens e as mulheres da Idade Média aparecem dominados pelo pecado. A concepção do tempo, a organização do espaço, a antropologia, a noção de saber, a ideia de trabalho, as ligações com Deus, a construção das relações sociais, a instituição de práticas rituais, toda a vida e visão de mundo do homem medieval gira em torno da presença do pecado (CASAGRANDE; VECCHIO, 2002, p.337).
O homem medieval possuía uma “visão hierofânica” do mundo ao seu redor, “desamparado diante de uma natureza frequentemente hostil, o homem encontrava as origens disso, e as possíveis escapatórias, num mundo do Além. Sem dúvida, aquela era uma ‘sociedade habituada a viver sob o signo do sobrenatural” (FRANCO JR., 2005, p. 139). Logo, os indivíduos descobriram na teologia cristã as possíveis explicações para acontecimentos até então inexplicáveis. A Igreja, por sua vez, tinha seus fundamentos nos mandamentos de Cristo, que ensinara o amor e o bem, e o homem precisaria seguir as doutrinas dessa Igreja para ser um bom cristão e alcançar a salvação eterna. Portanto, garantir um lugar no Paraíso celeste dependeria do bom comportamento dos indivíduos e da aceitação das normas estabelecidas pela instituição mais poderosa do medievo, aquela que “fiscalizava” e controlava os comportamentos, a única capaz de intermediar a comunicação entre os homens e o divino.
Para Humberto Eco (2010):
O homem medieval vivia, efetivamente, num mundo cheio de significados, referências, espíritos, manifestações de Deus nas coisas, e numa natureza que falava continuamente uma linguagem heráldica, em que um leão não era só um leão, uma noz não era só uma noz e um hipogrifo era tão real como um leão porque era, como ele, um sinal, existencialmente insignificante, de uma verdade superior, e o mundo inteiro parecia um livro escrito pelo dedo de Deus (ECO, 2010, p.25).
Acreditava-se que as pestes, a fome e os acontecimentos climáticos desfavoráveis eram castigos pelos pecados cometidos pelos indivíduos, isto é, a ideia de punição estava sempre presente nos imaginários dos homens e das mulheres medievais e, portanto, havia um sentimento constante de culpabilidade, o que reforçava a autoridade da Igreja e a ação de seu proselitismo.
De acordo com a reflexão de São Tomás de Aquino na Suma Teológica IV (2005):
Tudo o que se insurge contra uma ordem consequentemente será reprimido pela mesma ordem ou pelo que a preside. Ora, como o pecado é um ato desordenado, é claro que todo aquele que peca age contra uma ordem. É por isso que consequentemente é reprimido pela própria ordem. Esta repressão é a pena. Segundo as três ordens às quais está submetida a vontade humana pode-se punir o homem com tríplice pena. Com efeito, a natureza humana é primeiramente subordinada à ordem da própria razão. Segundo, esta submetida à ordem daqueles que exteriormente governam, no espiritual ou no temporal, no político ou no econômico. Terceiro, está submetido à ordem universal do governo divino. Ora, todas essas ordens são pervertidas pelo pecado. (...) Por isso, incorre em uma tríplice pena: uma lhe vem dele mesmo, o remorso de consciência; uma outra dos homens; uma terceira, de Deus (TOMÁS DE AQUINO, 2005, p.476-477).
Ou seja, a punição aos pecadores não seria exatamente uma penitência, mas a justa consequência de seus maus atos, o que equilibraria, novamente, a ordem natural: “A justiça de Deus quer que haja uma sanção do pecado, onde esta é para a vida culpada aquilo que é o mérito para a vida virtuosa” (DELUMEAU, 2003, p.367). O pecador então deveria carregar o peso de sua culpa, aceitar a repressão daquela que direcionava a sociedade, além de receber o castigo divino. Assim, da mesma forma que a Igreja elaborou uma doutrina do pecado, ela também organizou práticas de expiação, como as confissões e as penitências, e o homem do medievo era, realmente, um penitente, “condicionado pela concepção do pecado que lhe foi inculcada, procura na penitência o meio de assegurar a sua salvação” (LE GOFF, 1989, p.13).
A Igreja, portanto, determinava os atos morais socialmente aceitos, de acordo com os fundamentos cristãos, e as punições aos transgressores das regras estabelecidas.
O problema do pecado na cultura medieval não é compreensível fora do vínculo que mantém com a prática da penitência. O caráter remissível dos erros e o monopólio que a Igreja exerce sobre o poder de perdoar os pecados e de prescrever punições situam o binômio erro-castigo no interior de um sistema de trocas entre o mundo terreno e o Além (preces, penitências, indulgências), que constitui um dos elementos específicos da religião cristã (LE GOFF; SCHMITT, 1999, 347).
Nos primórdios da cristandade, os pecados eram confessados apenas aos bispos da Igreja, que administravam as penitências que deveriam ser pagas durante determinado tempo, quase sempre entre a quaresma e a quinta-feira santa e, dessa maneira, suas faltas estariam
expiadas. De acordo com Delumeau (2003), a confissão provavelmente era privada; mas a punição, pública. “Rituais solenes marcavam a admissão à penitência. Durante seu estágio de expiação, os pecadores eram relegados a um lugar inferior na Igreja. A reconciliação era proclamada diante de assembleia reunida que orava, chorava, gemia pelos penitentes”
(DELUMEAU, 2003, p.370). Mesmo depois da reconciliação, os penitentes conviveriam até o
fim de suas vidas com sansões e proibições. Por consequência, vários pecadores optavam por confessar suas faltas e pagar as sanções apenas no final de suas vidas.
Do século IV até meados do século XII, o perdão dos pecados dava-se pelos atos penitenciais, através de jejuns, prática de mortificações em profunda ascese, que dominariam os desejos da carne e do corpo, da doação de esmolas, orações, confissões, etc. Tais práticas assegurariam o perdão das dívidas com Deus. A confissão passara a ser realizada por um padre, que interrogava o confessor e dava-lhe a justa punição, baseada nos “Penitenciais”27
que continham os castigos devidos a cada ato pecaminoso.
Eles aplicam o princípio contraria contrariis e impõem o jejum ao guloso, o trabalho ao preguiçoso, a continência ao luxurioso. As sanções são teoricamente muito pesadas. Assim o Penitencial do pseudo-Teodoro (por volta de 690-740?) prevê para um ato de fornicação quatro anos de jejum, para o desejo de fornicação, 40 dias, para um homicídio numa rixa, 10 anos, e para um perjúrio, 11 anos de jejum. [...] Com toda evidência, essas tarifas eram inaplicáveis. Daí, segundo o modelo germânico do Wehrgeld, o recurso a lista de equivalências (um ano de jejum compensado por 12 vezes e 3 dias e jejum contínuo ou pela recitação de 3 livros de salmos ou por certo número de chibatadas)[...] (DELUMEAU,2003, p.371-372).
Com o passar do tempo, os homens medievais reconheceram, cada vez mais, sua condição de pecadores e, portanto, o necessário sentimento de culpa, afinal o pecado é uma afronta a Deus; e a confissão, por si só, concedia-lhes a absolvição das faltas reveladas por proporcionarem um exame de consciência. Isto é, ficara arraigada na mentalidade daqueles indivíduos a ideia de culpabilidade pelo pecado e a indispensável necessidade de um corpo místico para a intermediação divina entre os pecadores e o justo Juiz, mentalidade que aumentava o poder eclesiástico, por isso todos aqueles que se indagavam sobre essa real necessidade de intermediação, ou que se opunham às normas estabelecidas, foram perseguidos pela população e pelas instituições.
A partir do século XIII, no entanto, a Igreja adotou novas regras que aumentavam seu poder sobre a vida do homem medieval e controlaria a liberdade daquela sociedade. Dentre os novos preceitos, estipulou a confissão anual obrigatória para todos os seus fieis, além da eucaristia, sob pena de proibição de sepultamento cristão e mesmo proibição aos meios de acesso à salvação, como a Igreja, “–uma decisão capital na história das mentalidades
e da vida cotidiana [...]” (DELUMEAU, 2003, p.373). Essa resolução foi tomada durante o IV Concílio de Latrão, em 1215, um dos mais relevantes eventos da história medieval que determinara o modo de agir, pensar e viver de toda uma sociedade e daqueles que estavam à sua margem.
O Quarto Concílio de Latrão ou Concílio Lateranense teve por objetivo o fortalecimento do cristianismo, o combate à heresia e o aumento do controle da Igreja sobre a sociedade feudal, além de outras determinações. Esclarece Richards:
O concílio deu ênfase à reforma do clero, à eliminação da heresia e à cruzada contra os infiéis. Contribuiu de maneira decisiva para o programa de Inocêncio III, demonstrando como o papa enfrentava, com uma mistura sutil de sofisticação e autoritarismo, os problemas de uma sociedade cada vez mais pluralista. [...] O primeiro conjunto de regras introduzido objetivava o fortalecimento do controle da Igreja sobre a vida e crenças dos leigos (RICHARDS, 1993, p.20-21).
O Concílio de 1215 foi importante instrumento também para ratificar a segregação de grupos marginalizados, pois, desde o Terceiro Concílio, havido em 1179, ficara decidida a exclusão social de indivíduos considerados dissidentes das práticas morais cristãs, a saber: homossexuais e leprosos. Assim, o Quarto Concílio também deliberou acerca de outras minorias que desviariam, potencialmente, os cristãos do reto caminho da virtude e determinou que judeus, mulçumanos e prostitutas fossem distinguidos dos cristãos puros através de seus vestuários para que não se misturassem e não fossem confundidos. Tratava-se, portanto, de pecadores que não respeitariam as normas impostas pelos representantes de Deus na terra, o Clero medieval, capazes de influenciar negativamente os bons cristãos por suas más ações ou sua má reputação (Infâmia).
A partir daquele momento, os grupos considerados transgressores das normas cristãs foram distinguidos com sinais de infâmia: “Os Judeus adotaram uma rodela de feltro amarelo conhecido como rouelle e as prostitutas um cordão vermelho (a aiguillette). Mas havia muitas variações regionais” (RICHARDS, 1993, p.22). Além disso, tais resoluções deram margem para que concílios futuros adotassem normas equivalentes, como as deliberações de Toulousse, 1229; e de Marenac, 1330:
Os leprosos foram cada vez mais obrigados a usar vestimentas especiais, como por exemplo, pelo Concílio de Marenac de 1330. (...) Em 1229, o Concílio de Toulouse obrigou os hereges arrependidos a portar duas cruzes amarelas costuradas na parte da frente de seus trajes. A ordem foi renovada por concílios subsequentes, e o número de cruzes passou para três em 1246. A mesma prática pode ser encontrada na França setentrional e na Alemanha. Os que praticavam feitiços e encantos eram obrigados a usar duas peças de feltro amarelas parecidas com a rouelle, e o clero envolvido com feitiços, idolatria e bruxaria devia portar quatro peças de feltro amarelo (RICHARDS, 1993, p.22).
Além das roupas distintivas, foram definidas outras normas discriminatórias e excludentes que demonstravam à coletividade medieva as consequências que os transgressores deveriam sofrer. Ou seja, ações planejadas a fim de padronizar comportamentos, criar um arquétipo do verdadeiro homem cristão medieval, que se deixaria conduzir passivamente pela autoridade religiosa da Igreja, por sua psicologia, suas determinações e normas morais.
Os grupos rotulados transgressores28 e “contemplados” pelos concílios estavam quase sempre associados ao sexo que, por sua vez, tinha uma relação com o pecado da luxúria, pecado que tem por matéria o prazer sexual, a concupiscência da carne. Ora, a ética sexual cristã medieval não admitia outra finalidade para a relação sexual que não fosse procriadora, portanto os vícios carnais eram repudiados pela moral cristã e aqueles considerados pecadores, de modo geral, foram associados a tais transgressões. Martins e Pontes (2011) ressaltam que “Para a Igreja, o sexo era o denominador comum entre todos os grupos minoritários na Idade Média, considerados estes em razão do descomedimento da libido, uma ameaça iminente aos cristãos saudáveis” (MARTINS; PONTES, 2011, p.56). No entanto, embora ameaçassem a ordem estabelecida, eram mantidos a uma distância segura para o necessário controle das autoridades da época, e, ao mesmo tempo, serviam de exemplo de comportamento a ser evitado.
A cristandade medieval parece detestá-los e admirá-los ao mesmo tempo, tem medo deles num misto de atracção e de terror. Mantém-nos à distancia, mas fixa essa distância a um nível bastante próximo, de modo a tê-los ao seu alcance. Aquilo a que se chama caridade em relação a eles assemelha-se muito ao comportamento do gato que brinca com o rato. É o que sucede com as leprosarias, que devem estar situadas a um ‘tiro de pedra da cidade’ de modo que a ‘caridade fraterna’ possa exercer-se para com os leprosos. A sociedade medieval tem necessidade destes párias postos à margem porque perigosos, mas visíveis para que, graças aos cuidados que lhes dispensa, ela possa ficar-se na sua boa consciência; e, mais ainda, projecta e fixa neles, magicamente, todos os males que afasta de si (LE GOFF, 1983, p.175).
Destarte, os séculos XII e XIII foram marcados, como assinala Richards (1993), por campanhas contra homossexuais, segregação de prostitutas, sacralização do casamento, bem como uma reafirmação do monopólio clerical acerca do acesso a Deus.
Da mesma forma que os concílios assinalaram os grupos que deveriam ser alijados da coletividade também institucionalizaram os processos inquisitórios que julgavam e condenavam os pecadores mais perigosos à cristandade.
Finalmente, o quarto Concílio Lateranense institucionalizou os processos de inquisição, introduzindo a prática de iniciar procedimentos legais sem acusação e ordenando a visita, investigação e ações eclesiásticas. Isso completou o processo