Conrado já está liberado pela juíza para retornar ao convívio social, mas nenhum familiar quer recebê-lo. “Eu entendo eles. Devem pensar: agora ele está bem, mas será que não vai dar uma crise e ele fazer alguma coisa”. A próxima fala contém uma contradição: “Eu quero mostrar que voltei à pessoa que eu era”. Ora, voltar ao que era implicaria retornar ao par significante desliga-liga.
Conrado diz que está se preparando para ser forte e retomar sua vida: sua esposa não deseja continuar com ele, mas diz que será difícil, porque ele a ama:
Eu amo ela até hoje e jamais vou deixar de amar. Quero cumprir o mandamento de Deus. Cumprir com o propósito que prometi pro padre e no civil, que é amar até que a morte nos separe. Vou conversar com ela, mas vou com advogado. Quero que vá uma pessoa da lei, e quero conversar com ela.
Diariamente, reflete sobre sua vida e lembra-se do crime. No início da internação, chegou a pensar em suicídio − concluiu depois que: “A vida continua. Não é porque aconteceu isso que tenho que abandonar. Pensei nisso quando cheguei aqui, mas graças a Deus eu penso diferente”.
Conrado reconhece e entende o medo de aproximação por parte das pessoas: “Minha mãe mesmo falava que tava com medo de mim. Tem muita pessoa que gosta de mim, mas se for para ficar perto tem medo. Não tiro a razão deles”.
Apesar de não se reconhecer como criminoso e justificar seus atos pelas crises, acha que precisa se responsabilizar:
Se pudesse voltar atrás, eu não fazia. Fui criado ouvindo da minha mãe: se fez alguma coisa errada, tem que pagar. Então, não fugi no dia, porque quando voltei a si, eu sabia que tinha feito uma coisa errada, gravíssima. Tirar a vida de pessoas inocentes, que não tinha nada a ver. E aconteceu por um problema que eu tenho.
A última pergunta feita a Conrado − se ele teria algo mais a dizer −, teve como resposta sua atual situação:
Apesar do que aconteceu, eu sou muito feliz pela pessoa que sou. Fora esse crime que fiz durante a crise, hoje sou uma pessoa feliz. É lamentável que não posso voltar atrás e
corrigir o erro que fiz. Se não tivesse faltado o remédio, uma hora dessa tava trabalhando com meu paizinho.
Mesmo após anos de sua internação, não foi possível para Conrado integrar outras percepções de si ao seu ideal de homem feliz e amoroso. A afirmação Fora esse crime que fiz durante a crise, hoje sou uma pessoa feliz é muito ilustrativa da permanência da dissociação. Nesse sentido, apesar de ele estar com alta, é questionável o risco da repetição de uma passagem ao ato. Conrado diz isso ao afirmar que só sairá do CMP se estiver garantido seu medicamento: não houve mudança discursiva.
Perguntei-lhe sobre seu conceito de felicidade.
Felicidade é as pessoas que estão ao redor da gente gostar da gente. Pessoas que falam coisas boas pra você. Compreendem a sua situação, compreendem o seu sofrimento. Felicidade é ter amigos de verdade. Conhecer os passarinhos, conhecer as flores. Tudo criado por Deus, né? Felicidade é isso. Saber que alguém gosta de você pela pessoa que você é.
Cativante sua definição, que resgatava um tema recorrente nas entrevistas: sua demanda de amor.
Ao me despedir e agradecer, Conrado diz que ainda queria falar algo.
Quando eu sair daqui, vou na igreja onde casei, comprar uma aliança e colocar na minha mão, mesmo que esposa não me queira mais. Casei porque tive um amor muito grande por ela. Único e verdadeiro.
Novamente sua fala aponta para a não integração no seu psiquismo da separação (castração). Dessa vez sua esposa não o escolheu para ficar junto dele, mesmo assim, Conrado quer manter imaginariamente, por meio de uma aliança, seu amor por ela.
Numa discussão final sobre o lugar do amor na vida de Conrado − e levando em conta que ele se referiu à religião como apoio importante no controle da agressividade −, optei por iniciar com uma clássica passagem bíblica sobre o amor: a carta de Paulo aos Coríntios. Acrescento, em seguida, definições constantes do livro O banquete, de Platão e contribuições psicanalíticas sobre o tema.
O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (Carta aos Coríntios, Sagrada Escritura).
Talvez seja este um dos maiores tratados sobre o amor na perspectiva idealizada, ausente da ambivalência no seu par de oposto, o ódio. Trata-se de um sentimento capaz de suportar qualquer adversidade e, sendo complacente, tudo aceita. No discurso final de Conrado, reconheço esse viés idealizado.
Na obra O banquete (Platão, 173 a.C.), um complexo diálogo sobre o tema ocorre entre Fedro, Sócrates, Agatão, Aristófanes e Alcebíades. Fedro ensina que o amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após a morte. Aristófanes defende que os homens não têm consciência do poder do amor. Agatão argumenta que o amor proporciona bom humor, semeia a bondade, expulsa o espírito melancólico. Quem não o tem, aspira-o; quem o tem, gostaria de tê-lo mais.
Sócrates, a seguir, com seu estilo de interrogar os interlocutores, leva Agatão a concordar que quem quer que deseje, seu desejo visa aquilo de que não dispõe e que não está presente, o que não se tem, concluindo que Eros é amor de certos objetos que lhe faltam, “aquilo que falta e não se tem, se ama”. Agatão fica de acordo e praticamente todos louvam o discurso de Sócrates. Ao final do banquete, entra Alcebíades, bêbado, e declara seu encantamento e apaixonamento por Sócrates − de forma indireta, ele confirma as palavras de Sócrates: amar aquilo que falta.
Alcebíades, ao contar do interesse de Sócrates por belos rapazes, julgava que ele, Sócrates, também estivesse atraído pela sua beleza. Pensava que, cedendo ao desejo de Sócrates, lhe ensinaria ele, em troca, tudo o que sabia. Sócrates, porém, não só não se rende às investidas de Alcebíades como o ridiculariza e o insulta. Ao colocar-se no lugar de falta, Sócrates acentua o amor de Alcebíades por ele.
Freud (1914) afirma que amor e ódio não se aplicam às relações das pulsões com os objetos, mas das relações do Eu total com os objetos. Confirmando que o amor é narcísico. Inicialmente, se estabelece uma relação de prazer do Eu com o objeto que mais tarde se fixa nos objetos sexuais e nos objetos que satisfazem as necessidades dos instintos sexuais sublimados.
O ódio ocorre também na relação do Eu com os objetos, mas quando o objeto é fonte de sensações desprazerosas ao Eu, ocorre uma repulsão do objeto e este passa a ser odiado. Freud alerta que esse ódio pode se exacerbar em propensão a agredir o objeto e/ou aniquilá-lo. Para ele, amor e ódio têm origens diversas. Enquanto a fonte do amor é sexual, e originalmente narcísica, a do ódio é uma afirmação do eu, por sua conservação e afirmação.
Nesse mesmo texto, Freud discutiu os destinos para as pulsões sexuais. Um deles − denominado reversão no contrário −, se dividiria em conversão da atividade em passividade e a inversão de conteúdo. Nessa última, exemplificou com a transformação de amor em ódio − e isso, muito frequentemente, é dirigido ao mesmo objeto, caracterizando a ambivalência afetiva.
O amar admite não apenas uma, mas três oposições. Além da oposição amor-ódio, existe a de amar-ser amado, e amor e ódio, tomados conjuntamente, opõem-se ao estado de indiferença ou insensibilidade. Dessas três, a segunda, amar-ser amado, corresponde
inteiramente à conversão de atividade em passividade e pode ser remetida a uma situação fundamental, como o instinto do olhar. Esta situação se chama: amar a si mesmo, o que para nós é a característica do narcisismo.24 (Freud, 1915, p. 72).
No seminário sobre a transferência (1960-1), Lacan apoia-se no texto de Platão, levando-o a formulação de que o “amor é dar o que não se tem” (p. 41) e qualificou duas funções, a do amante e do amado, o primeiro “como o sujeito do desejo e o amado como aquele que é o único a ter alguma coisa”. (p. 42).
A questão é de saber se aquilo que ele possui tem relação com aquilo que ao outro, o sujeito do desejo, falta. A questão das relações entre o desejo e isso diante do que ele se fixa já nos conduziu à noção do desejo enquanto desejo de outra coisa. (Lacan, 1960-1, p. 42).
Lacan realça na discussão a questão da falta, do desejo e da demanda na montagem amorosa. O amor só se concebe na perspectiva da demanda, daí a frase “toda demanda é demanda de amor”, e nessa demanda amorosa se enlaça o desejo.
É justamente porque a demanda é incondicional que não se trata de desejo disso ou daquilo, mas de desejo, simplesmente. É por isso que desde o início está implicada a metáfora do desejante [...] a metáfora do desejante no amor implica naquilo que ela substitui, isto é, o desejado. O que é desejado? É o desejante no outro. É isso que ele demanda da demanda de amor. (Lacan, 1960-1, p. 345).
Parece-me que Conrado não apreendeu que nesse jogo do amor sempre há uma cilada, na medida em que “quando no amor peço um olhar, o que há de fundamentalmente insatisfatório e sempre falhado, é que – ‘jamais me olhas lá de onde te vejo’. Inversamente, o que eu olho não é jamais o que quero ver” (Lacan, 1960-1, p. 100).
Ao contrário, o discurso de Conrado está pautado na ideia de que amar é essencialmente querer ser amado. A dificuldade está em reconhecer os desencontros, as dúvidas, as equivocidades tão próprias nas relações humanas simbólicas. Quando o sujeito ama o outro em função da falta, é como se seu amor fosse dirigido para quem atribuiu a operação de castração, amor pelo pai, que é a identificação primordial relatada por Freud.
Se no amor bíblico espera-se a completude, a psicanálise demonstrará tal impossibilidade, o impossível de suturar a falta estrutural que todo sujeito carrega. Nessa perspectiva, o amor é uma das alternativas para suplenciar a castração.
Com essas diretrizes teóricas, fui conduzida a interrogar se a saída psíquica encontrada por Conrado teria sido pela via da suplência, ou seja, pelo amor como forma de apelo ao significante nome-do-pai. O conceito de suplência, como nos lembra Dunker (2002), foi empregado por Lacan em três contextos: para designar a função estabilizante do delírio na psicose; para designar a relação entre o Outro gozo e o gozo fálico; e a função do amor na sua relação com a castração. “Assim o amor suplementa, mas não complementa a falta inaugurada pela castração” (p. 217).
Teria Conrado feito suplência? Retomemos os dados positivos e as contradições e negatividades próprias da realidade psíquica dele. A gênese de Conrado está marcada pela rejeição da mãe biológica vinculada a um significante que remete à morte (Por mim, pode morrer). Ele é adotado pela irmã de sua mãe. A palavra irmã tem um lugar importante em sua história. Por um lado, é por uma irmã que ele é salvo da morte; por outro, é por uma irmã que se aproxima da sexualidade.
Sabemos que Conrado conseguiu, apesar dessa adversidade inicial, sobreviver e encontrar um lugar no mundo representado no seu pedido de amar e ser amado, mas numa relação infantilizada, ingênua e passiva com o outro. Fazendo-se dócil, tem o reconhecimento do outro. Descobrimos que, ao não se sentir acolhido, ele reage com agressividade. A não aceitação tornou-se seu grande embaraço psíquico.
Sem dúvida, trata-se de uma posição psíquica complexa para Conrado: não ser o escolhido. Esta é uma das suas perguntas fundamentais na relação com o outro, metaforizada na frase dirigida à mãe biológica: Por que você não me quis?
Conrado não construiu uma imagem de si inscrita pela castração. Negou suas dificuldades cognitivas (não sabia o que fazia na Apae, percebendo-se como um sujeito normal); negou sua identificação com o pai alcoólatra, identificando-se ao feminino (mãe e irmã); também se colocou como o escolhido de uma mulher (esposa), no lugar de escolher, a ponto de permanecer vinculado à esposa, mesmo tendo ela se afastado dele.
Sobre a trilha psíquica que o teria encaminhado para o crime, encontramos a convicção de Conrado na ausência do remédio, mas há duas informações indiretas que remetem à rejeição: os pais terem idéias adversas sobre sua esposa e as três crises terem ocorrido pari passu à queixa de não ser amado, olhado, cuidado.
Se o amor foi a saída encontrada por Conrado para lidar com a falta da inscrição das leis e interdição do parricídio, o remédio se inscreveu como o objeto que o protegeria da sua dissociação psíquica. Mediante sua falta tornou-se o disparador para a passagem ao ato.
Quanto ao seu diagnóstico, no prontuário do CMP afirma-se uma doença mental não especificada. Os dados obtidos nas entrevistas não foram conclusivos para afirmar o distúrbio cerebral como um tipo de epilepsia, provavelmente trata-se de uma psicose paranoide. A certeza que temos é de um padrão de funcionamento psíquico, voltado para a recusa à castração, dissociação do eu e falta de consciência sobre sua ambivalência de afetos não integrando objetos totais.